Edith Stein: As vias da salvação
Podemos ainda dizer: “Seja feita a tua vontade”, se não conhecemos mais as verdadeiras exigências de Deus? Podemos ainda permanecer nos seus caminhos se a luz interior se apagar? Sim, porque mesmo que essa possibilidade exista em princípio, existem meios tão poderosos que é realmente improvável que nos percamos.
Deus veio para nos salvar, nos unir a Ele, nos unir uns aos outros, conformar nossa vontade à Sua. Conhecendo nossa natureza, Ele leva isso em conta e nos dá tudo o que pode nos ajudar a alcançar o objetivo. O Menino divino tornou-se o Mestre; Ele nos ensina o que devemos fazer.
Para impregnar toda a nossa vida humana com a vida divina, não basta ajoelhar-se uma vez por ano diante do presépio e deixar-se cativar pelo encanto da santa Noite. É preciso, ao longo da vida, comunicar-se com Deus, ser dócil ao ensinamento que Ele nos transmitiu, obedecer às suas leis.
Em primeiro lugar, devemos orar como o nosso Salvador nos ensinou: “Pedi, e recebereis”. » Promessa certa de que seremos atendidos. Aquele que, todos os dias, diz de todo o coração: «Senhor, que seja feita a tua vontade», pode ter confiança: não deixará de cumprir a vontade divina, mesmo que, subjetivamente, já não tenha a certeza disso.
Vamos mais longe: Cristo não nos deixou órfãos. Ele enviou o seu Espírito, que nos ensina toda a verdade. Ele estabeleceu a sua Igreja, que o seu Espírito dirige, e instituiu os seus vigários, através dos quais o Espírito nos fala numa linguagem humana. Nela, reuniu os fiéis numa comunidade e quer que cada um seja responsável pelos outros. Assim, não estamos sozinhos e, se a confiança em nosso próprio discernimento e até mesmo em nossa própria oração vier a faltar, a força da obediência e a força da intercessão a substituirão.
“E o Verbo se fez carne.” Esse mistério se tornou verdade no estábulo de Belém. Mas ele ainda se cumpriu de outra forma: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna.”
O Salvador, sabendo que somos e continuamos sendo homens que, todos os dias, temos que lutar contra nossas más inclinações, vem de maneira verdadeiramente divina em socorro da nossa humanidade. Assim como nosso corpo carnal precisa do pão de cada dia, também a vida divina em nós exige um alimento constantemente renovado. “Eis o pão vivo que desceu do céu.” Naquele que realmente o recebe como seu alimento, realiza-se todos os dias o mistério do Natal, a Encarnação do Verbo. Não há caminho mais seguro para permanecer em união com Deus e para se enraizar cada dia mais forte e profundamente no Corpo místico de Cristo.
Sei bem que, para muitos, essa opção parece demasiado radical. De facto, implica, para a maioria, uma transformação total do comportamento e da vida interior. Mas é precisamente assim que deve ser. Dar lugar à Eucaristia em nós, para que o Senhor transforme a nossa vida na sua, será pedir demasiado?
Perdemos muito tempo com leituras fúteis, a vaguear pelos cafés, a conversar nas esquinas, distrações todas elas que desperdiçam tempo e forças. Não seria realmente possível reservar uma hora pela manhã para nos recolhermos em vez de nos distrairmos, para ganharmos forças em vez de nos esgotarmos, a fim de estarmos prontos para enfrentar as tarefas diárias?
Mas, evidentemente, essa hora não será suficiente. Ela dará sentido real ao nosso dia, e não será mais possível nos deixarmos levar, nem que seja por um momento.
Não podemos escapar ao julgamento daqueles com quem convivemos todos os dias. Mesmo quando nenhuma palavra é trocada, percebemos no comportamento dos outros o que nós mesmos somos. Procuramos nos conformar com o nosso entorno e, se não conseguimos, a vida em comum se torna um tormento. Assim é nas relações diárias com o Salvador. Tornando-se cada dia mais sensível ao que Lhe agrada ou desagrada, aquele que antes se satisfazia facilmente consigo mesmo passa a ver tudo sob outra perspectiva. Ele percebe muitas feiuras e as corrige tanto quanto possível. Descobre muitas coisas que não pode julgar belas nem boas e às quais, no entanto, é difícil remediar. Assim, torna-se lentamente mais pequeno e mais humilde, mais paciente, mais indulgente com a palha que está no olho do próximo, pois está suficientemente ocupado com uma das traves que estão no seu. E então aprende a suportar-se a si mesmo na luz inexorável da presença divina e a abandonar-se à misericórdia de Deus que, finalmente, triunfa sobre o que desafia as suas forças.
O caminho é longo, desde a presunção do “bom católico” que “cumpre seus deveres”, lê um “bom jornal”, vota “bem”, etc., mas no restante faz o que lhe agrada, até o abandono nas mãos de Deus, na simplicidade da criança e na humildade do publicano. Mas quem deu um passo nessa direção não voltará atrás.
Assim, a vida filial em Deus consiste em tornar-se ao mesmo tempo pequeno e grande. Viver da Eucaristia nos obriga a sair totalmente dos limites estreitos de nossa vida pessoal para nos enraizar e crescer em todas as dimensões da vida de Cristo.
Quem visita o Senhor em sua casa não vai falar sempre sobre si mesmo ou sobre seus assuntos, mas vai se interessar primeiro pelas coisas de Deus. Participar todos os dias do Santo Sacrifício nos leva, sem que percebamos, à corrente da vida da Igreja. As orações e os ritos do altar, ao longo do ciclo litúrgico, mostram-nos a história da salvação e dão-nos uma compreensão cada vez mais profunda. A ação sacrificial impregna-nos cada vez mais do mistério central da nossa fé, eixo da história do mundo, mistério da Encarnação e da Redenção. Como assistir ao Santo Sacrifício com espírito e coração abertos sem sermos penetrados pela sua finalidade, sem sermos tomados pelo desejo de mergulhar a nossa pequena vida pessoal na grande obra do Redentor?
Os mistérios do cristianismo são um todo indivisível. Abordar um só é abordá-los todos. Assim, o caminho de Belém nos leva irresistivelmente ao Calvário, do Presépio à Cruz.
Quando a Santíssima Virgem levou o Menino ao Templo, foi-lhe predito que uma espada traspassaria sua alma, que seu filho era dado para a queda e a ressurreição de muitos, e como um sinal de contradição! Anúncio do sofrimento, da luta entre a luz e as trevas que já se manifestara no Presépio.
Em certos anos, acontece que a Candelária, festa do ciclo da Encarnação, e a Septuagésima, prelúdio da Paixão, caem quase ao mesmo tempo. Na noite do pecado brilha a estrela de Belém. Sobre o brilho da luz que emana do Presépio, cai a sombra da Cruz. A luz se apaga nas trevas da Sexta-feira Santa, mas para surgir ainda mais radiante, sol de misericórdia, na aurora do terceiro dia.
O caminho do Filho de Deus feito Homem, por Getsêmani e Gólgota, conduz ao triunfo da Páscoa.
Com o Filho do Homem, através do sofrimento e da morte, o nosso caminho, o de toda a humanidade, também conduz à glória da Ressurreição.
