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estudos:edith-stein:realidade-senciente

Realidade Senciente e Causalidade

ESPPH

§ 1. Consciência e Senciência

  • Distinção necessária entre sentimentos de vida e estados de vida, dado que as duas expressões não significam a mesma coisa; estados de vida de um ser consciente costumam afirmar-se de maneira peculiar à consciência, constituindo tal consciência do status da vida um sentimento de vida. Possibilidade, contudo, de estados vitais emergirem sem se manifestarem em sentimentos de vida, como um cansaço presente mas desconhecido pelo próprio sujeito, ou a ausência de consciência do estado durante atividade intensa, notando-se apenas na exaustão subsequente que o estado já existia anteriormente e que o esforço teve custo desproporcional.
  • Status não sentido e que não “vem à consciência” não deve ser julgado como status de consciência ou vivência, mas como algo transcendente face à vivência que nela se manifesta. Mesmo se tal status vem à consciência num sentimento de vida, esse tornar-se consciente não se confunde com o vivenciar de um conteúdo imanente ou com a consciência desse vivenciar que nele habita como momento constitutivo; a certeza de sentir-se revigorado advém da consciência disso, mas a possibilidade de engano sobre a presença real do estado de vigor permanece, passível de correção pelo futuro.
  • Determinações de uma realidade, seus status e propriedades, manifestam-se como conteúdos imanentes nos sentimentos de vida, analogamente à manifestação da cor de uma coisa em sensações de cor; determinação momentânea do ego (status de vida) manifesta-se no sentimento de vida, e tais determinações manifestam, por sua vez, uma propriedade real duradoura: lifepower. Ego possuidor desta propriedade real não deve ser confundido com o ego puro vivenciado originalmente como ponto de irradiação de vivências puras, sendo o primeiro apreendido apenas como portador de propriedades, realidade transcendente que se dá por manifestação em dados imanentes, designada aqui como o sentient; distinção essencial estabelece-se entre consciência como reino do vivenciar puro e senciência como setor de realidade transcendente, cuja investigação causal considera agora não os sentimentos de vida, mas os modos de lifepower neles manifestos e sujeitos a enganos.
  • Investigação deve determinar se não existem também efeitos verdadeiros — efeitos sensível-reais — correspondentes às causas “verdadeiras” por trás dos sentimentos de vida, de modo que o vivenciar apareça não como efeito, mas como ponto onde a causalidade irrompe. Substrato real do efetuar não pode incluir nenhuma vivência pura como segmento no ocorrer causal, pois a realidade não exerce efeitos sobre o vivenciar puro; todavia, vivências e conteúdos são manifestações de condicionalidades reais, onde a receptividade do sujeito se manifesta em sensações e, através da variação de receptividade conforme o conteúdo, diferentes condicionalidades aparecem como modos de uma propriedade duradoura designada como receptividade.
  • Causalidade real do sensível manifesta-se na causalidade fenomenal da esfera vivencial, onde propriedades duradouras do ego real (indivíduo sentient) aparecem como substrato de ocorrências causais sensíveis persistindo numa mudança regulada de modos. Propriedade determinada — lifepower — destaca-se por determinar o modo das outras através de seus modos momentâneos e ser por elas determinada; o fato de potências serem fornecidas ou retiradas da lifepower é “causa” da ocorrência sensível, consistindo o “efeito” na alteração de outras propriedades sensíveis, inexistindo dependência causal direta entre outras propriedades (como receptividade para cores ou sons) sem a mediação da lifepower.
  • Causalidade sensível difere aparentemente da física, pois nesta a unidade do ocorrer causal permeia toda a rede da natureza material com coisas singulares emergindo como centros, enquanto naquela confina-se aos estados sensíveis de um indivíduo que corresponde à totalidade da matéria, com suas propriedades emergindo como centros análogos a coisas. Questões sobre a inclusão desse indivíduo na rede da natureza material ou a sobreposição da rede causal sensível a outros indivíduos permanecem fora do círculo de considerações atuais, mantendo-se a psique individual como um mundo em si mesma para fins de investigação isolada.

§ 2. O Mecanismo Sensível

  • Suplementação da análise da causalidade requer o reconhecimento de que, embora a esfera da vida determine a cadência e cor das vivências, existe um reverso onde as vivências consomem a esfera da vida e nela provocam mudanças. Cada vivência singular custa um dispêndio de força vital, diminuindo a lifepower e provocando manifestação alterada de seu modo (como a transição de vigor para cansaço), configurando uma “reação” ou virada de energia própria a todo ocorrer causal; ocorrência causal sensível total pode ser construída como conversão de lifepower em vivenciar ativo e utilização de lifepower por este, ocupando a lifepower lugar único na estrutura da psique.
  • Sentimentos de vida não devem ser lançados na corrente de vivências nem classificados entre estados sensíveis, indicado pelo fato de que estados sensíveis consomem e exaurem a força da esfera da vida, o que não ocorre com sentimentos de vida (vivenciar de um status de viver) que não custam dispêndio de força. Esfera da vida forma substrato da corrente de vivência, sendo a força nela apreendida por seus próprios modos vivenciados; apreensão tanto maior quanto menos as vivências das camadas superiores ocupam o ego vivo, permitindo imaginar uma consciência restrita inteiramente a esse substrato.
  • Questão sobre se a lifepower é uma quantidade finita e se se reabastece exige ampliar a consideração para a constituição das vivências, além da pura passividade; preliminarmente, modifica-se a analogia entre causalidade sensível e física para investigar se existe lei causal geral na esfera da vivência, estipulando que tudo que surge na corrente de experiência está sujeito a condições causais (excluindo-se conhecimento sobre imbricação na rede natural).
  • Concebibilidade de uma consciência fluindo sem sentimentos de vida implicaria ausência de causalidade, desaparecendo a variação de “coloração” e intensidade do vivenciar; contudo, havendo um “campo” de sentimentos de vida, este é continuamente preenchido e operativo, determinando necessariamente cada dado na corrente. Caráter da corrente como devir constante estabelece distinção da natureza física (onde quietude causal é concebível), pois na corrente de vivência não há momento de paralisia, havendo um ocorrer e efetuar ininterruptos independentemente da mesmice ou mudança qualitativa do sentimento de vida.
  • Alcance da eficácia define-se pelo fato de que tudo é efetivo que persiste vivo no presente, independentemente da distância de seu ponto de partida na corrente; compreensão de que uma pluralidade de forças geradoras pode ser necessária para um efeito conjunto é reservada para momento posterior.
  • Aplicação das relações causais fenomenais ao efetuar real na esfera sensível implica que tudo que entra na existência em estados sensíveis o faz graças a forças extraídas da lifepower, dependendo insolúvelmente dela enquanto existir. Em contraste com a esfera fenomenal, onde a qualidade de uma série determina a outra, a vida sensível aparece como conversão de lifepower, sendo inconcebível sem ela; numa consciência sem lifepower, cessariam todos os fenômenos de efeito e a possibilidade de apreender vivências puras como manifestações de estados sensíveis reais, impedindo a constituição de um indivíduo sentient.
  • Relação das propriedades sensíveis com a lifepower revela-se como diferentes descargas desta; demanda forte de uma propriedade sobre a lifepower deixa menos para outras, indicando efeito mediado. Compreensão da causalidade sensível exige considerar a relação entre estados atuais e propriedades duradouras como um processo único onde a lifepower se exaure nos estados sensíveis.
  • Existência de uma faixa de dados capaz de ser abarcada “sem esforço” (sem dreno perceptível de lifepower) contrasta com o estreitamento da faixa ante maior intensidade, onde mudança na esfera da vida (esforço, cansaço) manifesta diminuição de lifepower. Lifepower converte-se em receptividade aprimorada manifesta na ampliação da faixa vivencial; sem variação notável na esfera da vida, a receptividade não se daria como status sensível, mas apenas como vivência pura onde se distingue conteúdo de seu ser-recebido.
  • Receptividade manifesta-se na rede causal como status real e simultaneamente como manifestação de propriedade aumentável; se a ampliação da faixa vivencial é mantida até que o esforço desapareça, a discrepância entre vivenciar similar e influência diferente na esfera da vida manifesta a receptividade como propriedade duradoura e variável. No não-esforço do vivenciar, receptividade revela-se cindida da lifepower como propriedade autônoma, cisão produzida pelo viver sensível ativo.
  • Exemplo de diferentes capacidades receptivas (como para sons) esclarece que a “prática” ou “hábito” facilita a recepção até o não-esforço, dedicando parcela de lifepower para atividade específica; diversão simultânea para direções diferentes (cor e som) impede tal desenvolvimento. Desenvolvimento da “faculdade” dura enquanto a diversão de lifepower é sentida como esforço e conclui-se com o desengajamento; todavia, sem influxo novo, a faculdade atrofia (“embota-se”), exigindo novo esforço para manter a mesma amplitude, e o aumento de uma faculdade limita a lifepower disponível para outra.
  • Psique aparece como mecanismo que se regula automaticamente na esfera da passividade, equipada para funções diversas mas com quantidade limitada de força operativa; uso em uma função desativa as demais. Mecanismo depende de força de impulso: não há realidade sensível sem causalidade; suprimindo-se eficácia fenomenal e esfera da vida, resta impossibilidade de constituição de psique com propriedades e estados reais.

§ 3. Leis Causais e Determinação do Sensível

  • Posicionamento da lei causal geral “Toda ocorrência sensível é causalmente condicionada” não decide a questão da determinação do sensível (calculabilidade a partir de estados precedentes) nem dedutibilidade do conteúdo. Capacidade e intensidade de recepção dependem do nível de lifepower, mas a apresentação específica de dados (sons ou cores) independe dela; impossibilidade lógica e observacional de alocar inequivocamente uma receptividade determinada para cada diferença mínima de dado, além da possibilidade intuitiva de consciência participando de dados sem viver de uma lifepower oscilante, afasta a necessidade de produção do dado pela lifepower.
  • Investigação deve focar se momentos do ocorrer sensível indubitavelmente determinados causalmente (intensidade do vivenciar onde lifepower é convertida) permitem “determinação”; correlação inequívoca existiria entre estado de vida e modo de curso do vivenciar. Questão da determinabilidade depende da verificação inequívoca de cada fator em si mesmo.
  • Indagação sobre a lifepower: impossibilidade de determiná-la como quantum expressável numericamente; sentimentos de vida que a manifestam são multiplicidade qualitativa irredutível a denominador comum ou unidades iguais. O mesmo aplica-se aos “produtos” da lifepower, os níveis de intensidade do vivenciar, impedindo medição da lifepower com auxílio destes.
  • Tentativa de determinação qualitativa por nomeação de nuances (como na literatura ou pintura) exigiria selecionar cada qualidade singular de sentimento e cobri-la com nome próprio para cada nível de intensidade imaginável para fins de leis causais exatas. Impossibilidade de elaborar tais “ideias individuais” de sentimentos de vida impede postulação de leis causais correspondentes.
  • Sentimentos de vida e níveis de intensidade formam um continuum de qualidades onde entre duas qualidades selecionadas jaz sempre uma porção englobando infinitas localizações. Nomes designam apenas partes maiores ou menores do continuum; viver através do continuum é possível, mas selecionar por si mesma cada uma da infinita multidão de qualidades atravessadas é essencialmente excluído.
  • Concordância com Bergson de que diferenças de intensidade de estados sensíveis são diferenças de qualidade, não determináveis quantitativa ou inequivocamente; discordância, porém, quanto à injustificação da discussão sobre intensidade. Possibilidade de reconhecer partes do continuum como inequivocamente diferentes (vermelho e azul, vigor e cansaço) e alocar localizações a elas justifica discussão de gradações de qualidade e reconhecimento certo de classes (classe “sentimento de vida”, classe “intensidade de vivenciar”).
  • Possibilidade de postular leis causais para o ocorrer sensível repousa na discernibilidade de qualidades estáveis que englobam multiplicidade infinita, análogas aos princípios de causalidade física da experiência pré-científica. Leis causais sensíveis, embora vagas e permitindo apenas inferências de probabilidade, podem expressar conexões essenciais (como a incompatibilidade entre exaustão e atividade mental intensa) que superam a mera validade factual das leis exatas da física teórica.
  • Existência de leis causais sensíveis determinadas por conteúdo permite conclusões sobre fatos não dados a partir de fatos percebidos, mas resta saber se determinação antecipada é possível. Predição sobre condicionalidade causal futura exigiria obter informação sobre suprimento futuro de lifepower a partir do presente; dado que vivências consomem lifepower de modos diferentes, prever suprimento futuro exigiria perscrutar toda a corrente de viver sensível que preenche a duração, sendo o conhecimento da lifepower presente insuficiente para predições sobre suprimento e produto futuros.
  • Adição suplementar: certas predições são possíveis de maneira geral e indeterminada baseadas em circunstâncias causais, observando que a lifepower de indivíduos difere e máximos de um não atingem os de outro. Conhecimento da propriedade duradoura de um indivíduo permite estimativa grosseira de realizações possíveis ou negadas, com validade empírica e sujeita a correção; tais declarações pressupõem que realizações impossíveis pela lifepower natural não sejam viabilizadas por outro poder, possibilidade deixada em aberto para investigação subsequente no campo da atividade egóica.
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