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Motivação como Legalidade Básica do Viver Mental

ESPPH

  • Abandono da abstração anterior para considerar um novo ciclo de fenômenos onde o ego, deixando de viver na corrente de dados meramente “tidos” sem olhar real para eles, mobiliza seu olhar mental e “aponta-se” para algo que se torna “objeto” para ele. Inerência de uma forma mínima de intencionalidade — e correlativamente, de objetividade — já no ter de dados imanentes; o apontar-se que surge com base nesses dados indica uma nova classe de vivências, unidades que se constituem na corrente: a classe de “apreensões” ou “atos”, com as quais se inicia o viver mental.
  • Diversidade de natureza no apontar do olhar egóico: pode constituir uma “reflexão” ao rever a vivência em curso (ainda viva ou recém-concluída), seja ela sensação ou ato. Alternativamente, o olhar pode atravessar o dado e iluminar algo que não pertence mais à corrente, mantendo conexão com a consciência individual apenas através desse olhar e sua posição na corrente, atingindo um “objeto externo” transcendente; o dado de sensação é deslocado por uma imagem em foco, forma colorida ou tom ressoando “fora”, independentemente da conotação de espacialidade desse exterior.
  • Confronto, no reino dos atos, com novos meios de conexão inexistentes na esfera da passividade pura tratada anteriormente. Se o olhar aponta sucessivamente para uma série de dados, ou através deles para objetividades “externas”, tem-se não apenas sucessão de apreensões destacadas, mas apreensão contínua, anexação do posterior ao anterior (“apercepção”), combinação de apreensões singulares (“Síntese”) e o colocar-em-movimento do posterior pelo anterior (motivation); conceitos que não fazem sentido fora do reino dos atos egóicos e do falar sobre tomar, agarrar e mover.
  • Designação ampla da conexão de atos como motivation, com consciência do afastamento do uso linguístico costumeiro que restringe a expressão à área de “atos livres”, especialmente do querer. Justificativa desta ampliação baseada na visão de que o que se tem em vista é uma estrutura válida em geral para toda a gama de vivências intencionais, a qual sofre várias configurações conforme a particularidade dos atos que a ela se adaptam, sendo a motivação convencional apenas uma dessas configurações particulares.
  • Definição de motivação, no sentido geral, como a conexão em que atos entram uns com os outros: não uma mera mistura de fases simultâneas ou sequenciais, nem amarração associativa, mas um emergir de um a partir do outro, um realizar-se ou ser realizado de um com base no outro e por causa do outro. Estrutura das vivências é decisiva para a essência dessas relações: atos têm origem no ego puro, emanam dele fenomenalmente e visam algo objetivo; o ego opera como “pivô”, executando um ato por ter executado outro. Execução não implica necessariamente espontaneidade genuína, podendo a motivação proceder de forma explícita (insight e inferência) ou implícita (fé num teorema matemático intuído anteriormente), sendo essencialmente possível explicitar toda motivação implícita.
  • Indução da apreensão de uma coisa como tal por um certo tipo de curso de dados sensoriais pode ser designada como forma inferior de motivação, análoga ao ter de sensações como forma inferior de intencionalidade. Destaque para relações de motivação propriamente ditas dentro da apreensão: ao captar uma coisa espacialmente estendida, percebe-se a parte traseira “também”, mesmo sem captá-la diretamente; essa co-apreensão motiva, por sua vez, a execução de um movimento livre que permita à parte traseira destacar-se em percepção própria.
  • Apreensão da maneira particular de doação de um item funciona como motivo para a atitude do ego em relação a esse item (ex: doação perceptual motivando crença na existência); trata-se de vivência intencional irradiando do ego para o item, realizada por ele sem ser performance voluntária. Crença na existência pode motivar afirmação julgadora (esfera da autêntica espontaneidade) ou crença em outro estado de coisas; captar de valor pode motivar disposição e querer. Estrutura comum permanece: o ego executa uma vivência — ou a vivência acresce ao ego — porque ele possui a outra, por causa da outra; distinção mantém-se entre vivência motivante (por causa da qual a outra ocorre) e vivência motivada, com o ego atuando como intermediário.
  • Necessidade de considerar os correlatos da vivência para compreensão da motivação; a consciência nunca toma o objeto como um X vazio, mas com conteúdo de sentido determinado, portador de substância essencial unitária, completa em si mesma ainda que dada apenas parcialmente num momento. Unidade do sentido prescreve quais suplementos um sentido parcial dado permite e, portanto, quais passos ulteriores podem ser motivados pelo primeiro, aplicando-se tanto à percepção de corpo espacial quanto ao entendimento de proposição ou estado de coisas.
  • Ego vive na execução de um ato, voltado para o objeto, progredindo de ato em ato com sentido substancial em mudança, sem estar voltado para o sentido em si e para a estrutura de motivação. Possibilidade permanente de objetivar o sentido, desdobrá-lo e dele inferir normas para o processo de motivação (ex: sentido de juízos combinando-se em silogismo; sentido do valor implicando um dever-ser). Compreensão de que toda a vida dos atos cai sob leis racionais, pelas quais o sujeito pode ensinar-se por insight e avaliar o processo factual de suas motivações.
  • Considerado deste lado, o motivador propriamente dito num processo de motivação não é a execução do ato inicial, mas o conteúdo de sentido desse ato, reservando-se a designação “motivo” para ele (o relâmpago é motivo para expectativa do trovão, não a percepção do relâmpago). Participação dos atos na motivação ocorre na medida em que motivos só o são como correlatos de atos; designação desses atos como motivants, em contradistinção aos motivos, e dos atos motivados como motivata.
  • Avaliação correta da conexão entre motivação e leis da razão exige acrescentar que “reivindicações” do conteúdo de sentido de um ato nem sempre são inequívocas de início; um estado de coisas pode entrar em diferentes conexões lógicas e autorizar muitas reivindicações, definindo um leque de possibilidades; o sujeito procede irracionalmente se sair desse leque. Possibilidade de o conteúdo requerer não um motivatum definido, mas qualquer um dentre possíveis; ou permitir certos modos de comportamento sem requerer nenhum (conexão compreensível, mas não de fundamentação racional). Distinção entre: motivação baseada em fundamentação racional (“motivos racionais”); conexão apenas compreensível (“incentivo”); e comportamento “perturbado” (irracionalidade qualificada, como buscar o repulsivo por ser repulsivo).
  • Desenvolvimento de sistemas de atos (e de motivações) dentro da corrente de vivência graças à motivação mediadora, constituindo unidades análogas a vivências duradouras, porém com diferenças: ato é sempre emergência da corrente, expandindo-se à frente dela e “agarrando” algo fora, cessando ao soltar. Inexistência de continuum de atos ou “campo de atos” estavelmente preenchido análogo aos campos sensoriais; atos são “depósitos” ou “seções” na corrente, sendo possível à consciência fluir diluída sem emergência de atos.
  • Desenvolvimento de complexos de atos como novas unidades engolidas pela corrente e ressurgindo posteriormente; correspondência de objetos unitários inseparáveis a esses complexos (unidade da coisa corresponde à unidade da percepção). Extensão do que foi dito sobre “associação por contato” à esfera das vivências intencionais (atos e correlatos), pressupondo apreensão e motivação para desenvolvimento de “unidade associativa”, não sendo redutível a elas (contra a psicologia associacionista sensualista). Percepção de uma coisa envolve apreensão das conexões causais, constituindo o ocorrer causal como objetividade unitária onde causa e efeito se distinguem e a unidade de apreensão permite que um desperte o outro; necessidade de clarificação particular para casos onde um item recorda outro sem terem sido dados juntos ou sem relação dada (associação sem contato).
  • Início do reino do “sentido” e da “razão” com atos e suas motivações, permitindo falar de acerto, falsidade, discernimento e obtusidade, termos inaplicáveis à consciência “sem atos”. Possibilidade de “ver dentro” da necessidade essencial: distinção entre o ocorrer cego influenciado pela mudança de sentimentos de vida e o fazer com insight da motivação (ou convertível em tal). Insight na primeira esfera é conhecimento da necessidade do ocorrer; na outra, é reexecução do ver originalmente executado.
  • Ampliação necessária: reconhecimento imediato do caráter da motivação no campo de atos lógicos (silogismos) e na esfera da prática (sentimento movendo decisão), onde há consequência racional óbvia. Existência de similaridade formal de estrutura vivencial na percepção simples, apesar de não ser procedimento silogístico ou ação voluntária; distinção reside no fato de que, nos níveis superiores de operação de atos, vive-se a motivação em sentido específico, “conscientemente” e acessível à reflexão, enquanto nos níveis inferiores há uma operação racional “latente” governando “no escuro”.
  • Procedimento analítico permite convocar o processo de percepção do escuro para a luz, re-realizando-o com todas as suas partes; tal re-realização é dada precisamente como re-realização da vivência original, empreendida explicitamente e com base em passos anteriores. O curso original revela-se, assim, como passível de realização com insight; contraste absoluto com a impossibilidade de “re-realizar” as mudanças causalmente determinadas da corrente de vivência, onde não há realização nem re-realização.
  • Estabelecimento de diferença radical entre causalidade e motivação, irreconciliável e sem processos de transição mediadores. Conclusão de que a causalidade possui seu análogo no reino da natureza física, mas a motivação não.
estudos/edith-stein/motivacao.txt · Last modified: by mccastro