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estudos:edith-stein:inclinacao

Inclinação (Neigung)

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  • Definição e Demarcação em Relação aos Atos Livres: A inclinação (Neigung), no sentido do impulso (Triebhafte), não é um ato livre. Ela se origina em mim sem que eu faça algo por mim mesmo; não pode ser resultado de um propósito (Vorsatz) e não pode ser querida ou executada livremente. A inclinação não é uma “ação minha” (Tat), mas algo que “me acontece”. Distingue-se, portanto, do “esforço deliberado” (ex: planejar buscar conhecimento) e se aproxima, nesse aspecto, da atitude (Stellungnahme), que também “recebemos” e não “fornecemos” a nós mesmos. Como nas atitudes, temos liberdade para aceitá-la ou recusá-la, permitir que se torne operativa em nós ou renunciar a ela. Aceitar uma inclinação significa entregar-se a ela, permitir que se apodere de mim; recusá-la significa não apenas torná-la inoperante, como ocorre com uma crença não adotada, mas pode implicar suprimi-la totalmente, fazendo-a desaparecer.
  • Estrutura Fenomênica e Fontes da Inclinação: A aparição da inclinação é condicionada fenomenalmente por vários fatores: 1) Por uma base objetiva: a objetividade à qual ela se dirige, com o caráter determinado com que aparece (ex: a viagem “sedutora”). 2) Por uma fonte (Quelle) no próprio Eu, que pode ser dupla: a) uma atitude do Eu (ex: o deleite antecipado com a atratividade da viagem); b) uma condição puramente egóica (ex: a fadiga que faz o descanso da viagem parecer tão sedutor). Quando desvio o olhar do alvo da inclinação, privo-a de seu suporte objetivo, mas não elimino sua fonte. Enquanto a fonte persiste, a inclinação retorna tão logo a base objetiva seja restaurada. A extinção total da inclinação ocorre apenas quando a fonte mesma se esgota ou é transformada—o que pode ser um processo causal no qual não intervém diretamente.
  • As Três Dimensões de Dependência da Inclinação e a Influência da Vontade: A inclinação mostra-se dependente de três modos: 1) É objetivamente fundamentada (pela objetividade que a desencadeia). 2) É causalmente dependente (de sua fonte, seja uma atitude ou uma condição vital). 3) É dependente da influência da vontade, de modo triplo: a) A base objetiva pode ser retirada dela voluntariamente, ao desviar a atenção—ato livre. b) Os influxos dos fatores causais podem ser voluntariamente contrariados (ex: reprimir ativamente o impulso). c) Os próprios fatores causais (como um estado de fadiga) podem ser submetidos à influência da vontade (ex: “vencer” o cansaço). Esta tríplice dependência a distingue da atitude, que, embora também seja condicionada objetiva e causalmente, e também admita uma contribuição da vontade (neutralização e “assunção”), apresenta diferenças essenciais.
  • Diferenças Essenciais entre Inclinação e Atitude: Três diferenças fundamentais separam a inclinação da atitude: 1) Para a atitude, a base objetiva é conditio sine qua non de sua existência; para a inclinação, não (ela pode surgir de uma fonte puramente interna sem um objeto determinado). 2) A atitude é “exigida” ou fundamentada racionalmente (vernünftig begründet) por sua base objetiva; a inclinação não o é, ou nem sempre o é. 3) Se uma atitude racionalmente exigida não surge, um sucedâneo pode ser criado através de uma “assunção” voluntária; com a inclinação, isso não é possível para qualquer inclinação não racionalmente exigida. Posso fingir uma esperança ou um desejo apenas se eles puderem se justificar perante mim como algo “justificável”—o que não é sempre o caso. Estas relações exigirão uma clarificação mais extensa nas análises seguintes.
estudos/edith-stein/inclinacao.txt · Last modified: by mccastro