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Sobre a Fenomenologia
Método
- O processo fenomenológico distingue-se da dedução no sentido tradicional, consistindo antes num “desvelamento” (Aufweis) reflexivo que opera inicialmente através de uma análise regressiva, partindo do mundo tal como é dado na disposição natural (in der natürlichen Einstellung); descrevem-se seguidamente os atos e complexos de atos nos quais o mundo das coisas se constitui para a consciência, alcançando finalmente o fluxo temporal (Zeitfluss) onde os próprios atos se constituem como unidades de duração.
- Iniciada a descrição da constituição, segue-se o processo inverso a partir do último elemento detectável — a vida atual do Eu transcendental — representando progressivamente como, através desta vida atual, constituem-se os atos e seus correlatos objetivos de diversas ordens, estendendo-se até o mundo material das coisas e eventualmente a realidades de grau superior.
História
- Originalmente, a intenção husserliana não visava uma metafísica, mas uma teoria da ciência (Wissenschaftslehre), iniciando-se pelos fundamentos da Matemática (Philosophie der Arithmetik) e, ao colidir com as relações íntimas entre matemática e lógica, sendo conduzida ao exame do princípio e papel da Lógica formal.
- O primeiro volume das Logische Untersuchungen marcou época ao romper com formas de relativismo cético e orientar-se para a verdade objetiva, conduzindo à convicção de que a Lógica, longe de ser ciência acabada, apresenta múltiplos problemas a serem resolvidos por estudos detalhados, os quais compõem o segundo volume e utilizam um método de pesquisa próprio: a análise objetiva das essências.
- Tal orientação para entidades objetivas, interpretada por contemporâneos como renovação escolástica e adotada pelos primeiros discípulos, revelou-se fecunda para a solução de problemas lógicos, para a explicação (clareamento, Klärung) de conceitos fundamentais das ciências e para o fundamento eidético da psicologia, ciências naturais e do espírito, traduzindo-se numa revolução (wesentliche Umbildung) nos processos das ciências positivas.
- Durante a elaboração das Logische Untersuchungen, firmou-se a convicção de haver encontrado o método universal para a constituição da filosofia como ciência rigorosa, cujo objetivo seria expor tal método e fundar sua abrangência universal nas Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie.
- A busca por um ponto de partida absolutamente seguro (sicher) para o filosofar (des Philosophierens) conduz à dúvida cartesiana modificada, à redução transcendental e à descoberta da consciência transcendental como campo de vasta investigação.
- Nas Ideen surge pela primeira vez o “tournant” idealista, surpreendendo os alunos e provocando discussões duradouras, sendo possível que tal resistência discipular tenha impelido a concentração de esforços na fundamentação cogente de um idealismo, tornando central uma questão que não o era na origem.
Ponto de partida
- Estabelece-se uma distinção onde a fenomenologia de Husserl configura-se como filosofia essencial e a de Heidegger como existencial; o eu filosofante que serve de ponto de partida para descobrir o sentido do ser (den Sinn des Seins) é, no primeiro, o “eu puro” (das reine Ich) e, no segundo, a pessoa humana concreta, podendo-se interpretar a busca existencial como reação à tendência husserliana de abstrair a existência e os aspectos concretos e pessoais.
- A busca por um ponto de partida absolutamente certo (gewiss) para o pensamento filosófico (das Philosophieren) encontra motivação psicológica e fundação objetiva no fato do erro e da ilusão.
- O reconhecimento de uma maior imediatidade na esfera imanente em comparação com o mundo exterior afigura-se possível mesmo sob a ótica de São Tomás (De Ver., Q. X).
- Embora a atitude natural (natürliche Einstellung) esteja originalmente orientada para o mundo exterior tanto em Husserl quanto em São Tomás, sendo apenas a reflexão o caminho para o conhecimento dos atos, neste conhecimento reflexivo o conhecer e o objeto formam, de certo modo, uma unidade, aproximando-se mais do conhecimento divino do que o conhecimento de objetos externos.
Comparação Husserl e Tomás de Aquino
- A comunhão mais forte entre Fenomenologia e Tomismo parece situar-se no terreno da análise objetiva da essência, parecendo o processo da redução eidética — que abstrai do ser de fato e do acidental para tornar visível a essência — justificado, de um ponto de vista tomista, pela distinção entre essência e existência em todo ser criado.
- A identidade do processo de análise essencial em ambos exigiria prévia análise da abstração e intuição; a intuição fenomenológica não é simples contemplação da essência uno intuitu, mas comporta um trabalho de deslindamento das quididades (Wesenheiten) pela operação cognitiva do intellectus agens: abstração como omissão do fortuito e valorização positiva do essencial.
- O objetivo deste trabalho é a visão pacificadora (ruhendes Schauen), leitura interior conhecida também por São Tomás, que afirma confinar o intelecto humano, no ápice de sua performance, ao modo de conhecimento dos espíritos puros, embora pareça restringir tal performance ao olhar sobre os princípios; o problema reside, portanto, no entendimento do termo “princípios” e na medida da diferença entre Husserl e São Tomás quanto à extensão do acessível ao conhecimento intuitivo.
PS: Entrée en Métaphysique. Bruxelas: Casterman, 1962 On trouvera particulièrement éclairantes — et émouvantes à relire aujourd’hui, — ces interventions d’une disciple de Husserl, morte depuis martyre du nazisme (Journées d’études de la Société Thomiste, à Juvisy, sous la présidence de J. Maritain, le 12 septembre 1932) — publiées dans le volume intitulé « Phénoménologie », Le Saulchoir, Kain, Belgique, (éd. du Cerf). (Je reprends d’autant plus volontiers la traduction qu’elle y laisse beaucoup à désirer).
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