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A Estruturação dos Impulsos
ESPPH
- Adiamento da investigação sobre as conexões complexas da causalidade e da eficácia da vontade para aplicar constatações preliminares à questão da motivação da inclinação. Estabelecimento da existência da inclinação imotivada, exemplificada pelo urgir para o movimento advindo de uma vivacidade exuberante ou pela ânsia de ocupar-se oriunda de um estado de hiperestimulação ou “nervosismo” (entendido como condição consciente); tais fenômenos, determinados puramente por essas condições, são designados como impulses. A direção inerente a eles não se funda em nenhum entretenimento consciente objetivo de uma meta, assemelhando-se ao mero ser-impelido de uma bola desviada por um solavanco, onde o ego “impelido”, embora consciente do impulso, não se esforça em direção a um objetivo previamente concebido. Nos impulses, têm-se vivências sem fundamentação objetiva que dependem puramente da condição de vida momentânea, sendo por ela produzidas e variando ou desaparecendo conforme sua alteração, podendo cessar totalmente sob condições onde falte força para qualquer operação de viver (entendida aqui não como fazer livre, mas como um “sair-de-si-mesmo” considerado como ser-impelido).
- Consideração da dupla face estabelecida para todo ocorrer causal: qualquer operação de viver exaure a lifepower disponível proporcionalmente à sua intensidade, e o impulso provoca uma mudança na esfera da vida que mina sua própria existência, devendo “queimar-se” tanto mais rapidamente quanto mais severo for. A suposição de uma consciência onde toda atividade consistisse em impulses alimentados puramente pela esfera da vida sugere um estado de exaustão iminente, a menos que os impulses cessem ao encontrar cumprimento, interrompendo o dispêndio de força. A dependência dos impulses em relação à esfera da vida mostra-se mais extrema do que nas demais vivências; nestas, o contingente causal específico era a “coloração”, enquanto o conteúdo material envolvia-se indiretamente; no impulso, não apenas o como é vivenciado, mas o que ele é (seu conteúdo material), é determinado e trazido à tona inteiramente pela esfera da vida, sendo o ponto onde a condição de viver sofre uma conversão e é sintetizada, e não algo fluindo para o vivenciar de fora.
- Necessidade de distinguir novamente entre o impulso como vivência consciente e a senciência que nele se manifesta, e correspondentemente, entre a dependência fenomenal dos impulses vivenciados nos sentimentos de vida e sua dependência real na lifepower. O consumo do sujeito por um impulse forte é sentido como desvanecimento do vigor, manifestando uma diminuição e utilização de lifepower dentro de uma operação ativa de vida. A estruturação desta operação difere da absorção de dados, tratando-se de vivenciar conteúdos egóicos onde a qualidade real do sujeito sentient se manifesta. O impulse real aparece como um quantum de lifepower escoando numa certa direção, conteúdo de uma vivência de impulso (e possivelmente de sua conversão em um fazer). Inexiste um “preparar” de lifepower para manutenção de impulses análogo ao cultivo de capacidades sensíveis; cada impulse é utilização direta, havendo mera espontaneidade na drenagem de lifepower e, contrabalanceada a isso, uma capacidade do sujeito de interromper essa drenagem, capacidade esta não mais inteligível apenas em termos do mecanismo causal.
- Dispêndio da lifepower direcionada ao impulse real ocorre em parte no seu escoamento e em parte no fazer que dele procede, representando este fazer o cumprimento ou satisfação do impulse. Distinção entre impulses que urgem para um fazer e aqueles que visam primariamente uma condição do sujeito, como o desejo de repouso (cessação do ataque de impressões externas), cuja fonte fenomenal é um sentimento de fadiga manifestando redução de lifepower. O desejo incorpora lifepower para iniciar um fazer (fechar-se contra impressões) que traga o estado ansiado; com o início do repouso, o desejo se dissolve, significando o repouso não apenas parada de dispêndio, mas suplementação e reabastecimento de lifepower, manifestos no desvanecimento do cansaço e na transição para novo vigor e urgência positiva de atividade.
- Completude do quadro do mecanismo sensível através da consideração dos impulses: se o reservatório de força está cheio, converte-se em impulses de atividade onde o excedente é consumido; se próximo da exaustão, com falência iminente das funções, envia “impulsos de necessidade” cujo cumprimento traz influxo de nova força, cuja origem permanece fora do quadro da presente investigação.
- Apresentação da lifepower não como quantum infinito que se devora, mas como mantendo-se através de influxos e efluxos. Listagem de possibilidades de princípio (sem decisão no momento): contrapeso entre influxo e dispêndio mantendo nível estável; influxo superior ao dispêndio gerando crescimento de força que, devido ao mecanismo de conversão de excedentes, levaria não ao acúmulo mas ao aumento da atividade de vida; ou a possibilidade de o influxo não cobrir o dispêndio, gerando esgotamento gradual. A consideração causal inserida serve apenas para iluminar a estrutura dos impulses, sendo necessário expor estudos na esfera da consciência pura mais amplamente antes de retornar à investigação das relações causais.
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