Filosofia do Conceito
DUFRENNE, Mikel. Pour l’homme. Paris: Seuil, 1968.
A Filosofia do Conceito
1. A filosofia do conceito é a nova versão do positivismo na França, e o positivismo em geral é mais uma atitude do que uma doutrina, caracterizada pela desconfiança em relação a qualquer afirmação que não tenha o selo da ciência e pela confiança na ciência que se atém aos fatos positivos.
2. O positivismo contemporâneo, em sua forma lógica, é inspirado pelo desenvolvimento do formalismo, e na França está explicitamente ligado a um anti-humanismo, que não reduz o humano ao biológico, mas recusa ao homem a iniciativa da reflexão e o coloca a serviço do que é pensado.
3. O anti-humanismo contemporâneo define o homem de forma oblíqua, como o lugar da interseção de certos conceitos ou como a figura da finitude, e o homem é tomado por suas próprias obras, das quais se lhe recusa a paternidade, sendo presa do que o ultrapassa.
4. O positivismo francês é uma filosofia do conceito, e o conceito é a norma de todo saber verdadeiro, mas também é a sua própria fin e norma, não estando à mercê de uma reflexão singular, e ele é a própria reflexão, uma reflexão desumanizada, impessoal e gratuita.
5. O conceito não visa a coisa, ele a é, e o realismo do conceito é um idealismo, pois se o conceito é a própria coisa, a coisa perdeu a alteridade e a opacidade que uma percepção agora desacreditada atestava.
6. A filosofia do conceito encontra suas cartas de nobreza em Cavaillès, que se esforça para pensar o ser do lógico como uma lógica absoluta que justifica o progresso incessante da reflexão e que pode reger a atividade subjetiva.
7. Cavaillès combate Kant, que não consegue dar à lógica geral seu status próprio, e combate Husserl, que tenta conciliar logicismo e teoria da consciência, pois a vida própria do conceito não é vivida pela consciência e a lógica formal deve sua autoridade apenas a si mesma.
8. A filosofia do conceito de Cavaillès nega que haja uma consciência geradora de seus produtos, e o progresso é material ou entre essências singulares, e sua necessidade geradora não é a de uma atividade, mas de uma dialética.
9. Granger, embora retendo a lição de Cavaillès, mantém a relação da ciência com o real e os direitos da práxis, mas sua desconfiança em relação à subjetividade transcendental o leva a buscar o real e a práxis no interior mesmo da ciência.
10. O objeto para Granger é sempre o objeto da ciência, constituído no cruzamento de temas e esquemas, e a práxis é a prática científica, e o mundo concreto de que fala o filósofo é já o mundo da ciência, e a conclusão de sua obra combate a tentação idealista.
11. Muitos filósofos retêm de Cavaillès os temas maiores de uma filosofia do conceito, como a desconfiança em relação ao psicologismo e ao historicismo, e para dar conta do movimento segundo o qual a necessidade se desdobra, é preciso substituir a história empírica por uma dialética.
12. Os temas de uma filosofia do conceito podem não ter conduzido a renegar o homem se não tivessem sido associados à filosofia heideggeriana, mas a desconfiança em relação ao que pode alterar a pureza do conceito e a substituição da história empírica por uma dialética são características dessa filosofia.
