Homem e Mundo
DUFRENNE, Mikel. The notion of the A Priori. Evanston, Ill: Northwestern Univ. Press, 2009.
A Igualdade do Homem e do Mundo
1. A dualidade do a priori como objetivo e subjetivo reflete a dualidade fundamental entre homem e mundo, e a filosofia transcendental elabora a noção de a priori nessa perspectiva, concedendo-lhe o poder de mediação entre sujeito e objeto, mesmo que a filosofia transcendental reserve o a priori para o sujeito transcendental.
2. O monismo do sujeito não exclui o dualismo, e a identidade do sujeito como objeto não nega a alteridade de outros objetos, e o sujeito está no mundo sem ser do mundo, sendo uma parte em um todo, mas também um centro de referência, uma origem e um poder.
3. O dualismo entre homem e mundo, para ser confirmado pelo monismo do sujeito, não deve ser radical, pois só há dualismo se os dois termos que ele une são capazes de ser aproximados, e essa proximidade é, antes de tudo, material e também mental, sendo a comunicação uma relação de dependência do sujeito com o mundo.
4. Para estabelecer uma comunicação sem benefício exclusivo para o sujeito, deve-se conceber e reconhecer a objetividade do mundo, e a relação entre homem e mundo deve ser uma relação de adequação mútua, de afinidade, e de igualdade, onde o homem é irredutível ao mundo e autônomo.
5. O mundo, como horizonte dos horizontes, é aquilo em relação ao qual os objetos assumem significado, não apenas aquilo sobre o qual eles aparecem, mas também aquilo no qual eles estão enraizados e com o qual cooperam, sendo a unidade desses setores e também o “além” indefinido de atos e relações possíveis.
6. O a priori parece propor a noção de mundo por si mesmo, pois não é uma estrutura de um objeto, mas de um mundo, como é o caso da espacialidade ou da necessidade, e mesmo quando o a priori se condensa em uma imagem mítica, ele se dilata e se expande.
7. O a priori que designa e constitui certas categorias de objetos, como “coisa”, “ser vivo”, “pessoa”, novamente se refere ao mundo, sugerindo um mundo do objeto no qual o objeto manifesta seu significado continuamente, e o a priori é um poder de um mundo, embora apenas indiretamente.
8. A ideia de mundo, ou de totalidade, é sugerida pelo a priori, e ela pode ser apreendida pela razão ou pelo sentimento, e o sentimento de mundo é um sentimento de qualidade capaz de se irradiar, e a razão é imanente no sentimento na medida em que uma qualidade exige manifestação em um mundo.
9. A particularização do mundo não implica sua subjetivação, e não se deve opor o mundo singular ao mundo real como o subjetivo ao objetivo, mas o mundo da pessoa é revelado por sua conduta em um certo meio, e não é o produto de uma subjetividade.
10. O mundo real, o “englobante”, não é um vasto recipiente, e se diferentes mundos estão nele, eles não estão como suas partes, mas como suas particularidades ou expressões, e a ideia de um mundo total, embora inacessível, não é ilusória.
11. A ideia de um mundo total como universo é uma ideia regulativa, e a ciência visa a esse universo, mas a relação da percepção com a ciência é de distinção, não de subordinação, e o universo científico é apenas um mundo entre outros, embora com um estatuto privilegiado.
12. O sujeito singular é o correlato real do universo, e a humanidade é apenas uma ideia e uma tarefa, e o esforço de pensar o universo é um esforço ético, e a ciência é boa na medida em que é verdadeira, e o sujeito se eleva ao universal, sacrificando-se pelo amor à verdade.
13. O mundo real, a totalidade do real, é o “verdadeiro” mundo que serve de pano de fundo para os outros mundos, e ele é verdadeiro porque é objetivo, mas também porque é real, e a ideia do universo expressa o caráter fundamental da realidade: sua alteridade transbordante.
14. A relação dos vários mundos com o universo é a relação do particular com o universal, e o real é inesgotável, e os diferentes mundos são aspectos diversos do real, e o real é a possibilidade do possível, e a verdade do universo não é a verdade do mundo.
15. O real é o mais próximo e o mais distante, o já conhecido e o incognoscível, e o mundo como totalidade do real é representado e procurado como universo, mas não é dado como universo, e o mundo científico representa um esforço para traduzir o mundo no universo.
16. O a priori como possível é uma possibilidade do real, e os vários mundos particulares são possibilidades do mundo, e isso subordina o a priori em seu ser a um ser superior que seria a realidade, e o mundo é anterior ao a priori em seus dois aspectos.
17. O naturalismo, que dá primazia ao mundo, é verdadeiro, e a teoria genética do homem é legítima e desejável, mas ela encontra limites, e a gênese do sujeito finalmente se depara com o transcendental, cuja fonte é o inengendrável a priori.
18. O sujeito que está presente ao mundo não é inteiramente engendrável a partir do mundo, e a anterioridade do mundo em relação ao homem é cronológica, não transcendental, e o mundo sem o homem não é ainda o mundo, pois aguarda o homem para receber seu significado como mundo.
19. A igualdade entre sujeito e mundo é uma reciprocidade indispensável, e o mundo compreende o sujeito individualizando-o, e o sujeito compreende o mundo particularizando-o, e essa relação recíproca é inacessível a qualquer lógica, significando o fracasso de qualquer sistema explicativo.
A Afinidade entre o Homem e o Mundo
1. A dualidade do a priori sugere mais do que uma igualdade entre homem e mundo, apontando para uma adequação recíproca, uma afinidade, onde o sujeito existe para o mundo, pois atinge a consciência nele, e o mundo existe para o sujeito, pois manifesta o que o sujeito já conhece, e essa familiaridade indica que o sujeito está em casa no mundo, encontrando seu caminho nele.
2. A ideia de uma harmonia entre o mundo e o sujeito aparece na filosofia de Kant na forma de finalidade, concebida como o acordo do objeto a ser conhecido com o sujeito cognoscente, e essa filosofia permanece dualista, admitindo um dado que provoca a operação do cogito sem ser interiorizável por ele.
3. Kant responde a Hume afirmando que a afinidade empírica dos fenômenos pressupõe sua afinidade transcendental, que tem seu assento no entendimento e afirma a conexão necessária, mas essa resposta não é totalmente satisfatória, pois a passagem do objeto transcendental ao objeto empírico parece impossível sem invocar a finalidade.
4. Para que haja conhecimento objetivo, não basta que ele tenha uma relação necessária com o objeto; o objeto deve fazer sua parte, e a regra para sua unidade não deve ser tornada inoperante pela diversidade das intuições, e a finalidade deve ser reintroduzida na medida em que a atividade constitutiva não é suficiente para constituir o dado.
5. Kant, na Crítica do Juízo, elucida o acordo entre natureza e nossas faculdades cognitivas, mas com certa relutância, atribuindo à finalidade um princípio subjetivo do juízo, regulativo e não constitutivo, e o fundamento do juízo de gosto é uma finalidade formal que não procede de um fim subjetivo ou objetivo.
6. O princípio da finalidade formal da natureza é um princípio transcendental do juízo reflexionante, que deve elevar-se do particular na natureza ao geral, e este princípio não é deduzido a priori, mas postulado, e sua necessidade é apenas subjetiva, embora ele possa ser considerado como um princípio heurístico.
7. O retorno kantiano à ideia da coisa em si e a sugestão de tratá-la em termos de finalidade favorece a interpretação de que a finalidade é tanto transcendental quanto ôntica, manifestando a identidade do transcendental e do ôntico, e essa identidade reside no duplo aspecto do a priori.
8. A finalidade é um fato: o fato de uma harmonia entre o conhecer e o conhecido, um fato não presumido, mas já constatado e experimentado na percepção, e esse fato caracteriza todo a priori, que é transcendental como conhecimento virtual do objeto e ôntico como estrutura do objeto.
9. A afinidade entre homem e mundo pode sugerir uma harmonia pré-estabelecida, como em Leibniz, mas essa harmonia tem um significado metafísico, não transcendental, e ela funda a concomitância das substâncias, não a estrutura do sujeito cognoscente.
10. Leibniz subordina o transcendental ao metafísico, e a harmonia pré-estabelecida é uma consequência necessária de sua concepção lógica das noções individuais, e a substância é autodeterminada, e a interação universal é apenas um conceito misto, parcialmente imaginário.
11. A consideração da física em Leibniz implica uma referência ao sujeito, mas o sujeito é introduzido como responsável por uma deficiência, um compromisso entre o imaginário e o real, e as abstrações são indispensáveis para a explicação científica das coisas.
12. A mentalização do universo em Leibniz é correlativa à criação divina, e o sistema repousa em Deus, que pré-estabelece a harmonia, e a liberdade do sujeito é questionada, e a consciência não é um verdadeiro para-si, pois a monada não tem janelas e só pode refletir sua própria diferença.
13. A filosofia da subjetividade não deve ser buscada em uma filosofia da substância, e Leibniz nos convida a compreender que o conhecimento não pode se fundar a si mesmo, mas nos convida a entrar na sabedoria de Deus, a nos colocar no ponto de vista da monadologia e a afirmar a harmonia pré-estabelecida.
14. A harmonia pré-estabelecida universaliza o acordo entre sujeito e objeto, mas se tudo é a priori, nada realmente é, e o a priori não é a prerrogativa de um sujeito, mas a expressão de uma lei que integra o sujeito no sistema do mundo inteligível, e o sujeito perde sua autonomia.
15. O sujeito é transcendental por meio de sua finitude, pois está presente ao mundo e preso em uma história, e o acordo com o mundo é um fato ôntico, e o sujeito existe como transcendental, como recíproco com o mundo e como capaz de trazê-lo à consciência, porque ao mesmo tempo está no mundo.
