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Ser-no-mundo

DREYFUS, Hubert L. Being-in-the-World: A Commentary on Heidegger’s Being and Time, Division I. Massachusetts: The MIT Press, 1991.

1. este comentário circula em versões gradualmente modificadas há mais de vinte anos, tendo começado em 1968 como um conjunto de “Notas de Aula Fybate” transcritas do curso sobre Ser e Tempo na Universidade da Califórnia, Berkeley, passando, a partir de 1975, a circular em versão atualizada entre estudantes e demais interessados, revisadas anualmente ao longo da década seguinte, incorporando e respondendo ao que se aprendia com estudantes e assistentes de ensino.

  • por volta de 1985, tantos eram os pedidos pelos “Transcritos de Heidegger” que se foi encorajado a transformá-los em livro, concluindo-se o primeiro rascunho a tempo do Instituto de Verão do NEH de 1988 na Universidade da Califórnia, Santa Cruz, tendo, com base no aprendido junto a colegas e participantes ali, e no verão seguinte, ao lecionar curso sobre Ser e Tempo na Universidade de Frankfurt, sido feita uma revisão final para esta edição da MIT Press.

2. quase tudo que permaneceu constante ao longo de vinte anos de revisão foi a decisão de limitar as notas à Divisão I da Primeira Parte de Ser e Tempo, ainda considerada a seção mais original e importante da obra, por ser nela que Heidegger elabora sua concepção de ser-no-mundo e a utiliza para fundamentar profunda crítica à ontologia e epistemologia tradicionais.

  • a Divisão II da Primeira Parte, que compõe o restante do que temos da obra em duas partes projetada por Heidegger (a Divisão III da Primeira Parte e toda a Segunda Parte jamais foram publicadas), divide-se em dois empreendimentos algo independentes: o lado “existencialista” do pensamento heideggeriano, centrado em angústia, morte, culpa e resolução — muito influente por si mesmo e em sua versão sartriana em O Ser e o Nada, mas depois abandonado, por boas razões, pelo próprio Heidegger; e a exposição da temporalidade do ser humano e do mundo, e a fundamentação de ambas numa temporalidade mais originária cujas dimensões de passado, presente e futuro não devem ser pensadas como sucessivas.

3. embora os capítulos sobre a temporalidade originária sejam parte essencial do projeto heideggeriano, seu relato o afasta tanto do fenômeno da temporalidade cotidiana que não se sentiu possível oferecer interpretação satisfatória da matéria, parecendo, além disso, toda a Divisão II bem menos cuidadosamente elaborada do que a Divisão I, contendo mesmo erros suficientemente graves para impedir leitura consistente.

  • posteriormente se soube que, quando Heidegger concorria ao equivalente à titularidade, submeteu para publicação apenas a Divisão I, tendo o Ministério da Educação considerado essa submissão “insuficiente”, concordando ele, em troca da titularidade, em publicar versão apressadamente concluída da Divisão II.

4. ao fim, graças a dois antigos alunos, o livro acabou por resultar algo diverso do originalmente planejado: Jane Rubin, que então lecionava o curso sobre Kierkegaard em Berkeley, aceitou colaborar num artigo sobre a influência de Kierkegaard no Heidegger inicial, tendo, quase ao mesmo tempo, Berkeley adotado o sistema semestral, ocasião em que se decidiu acrescentar a Divisão II ao curso sobre Ser e Tempo, envolvendo-se cada vez mais, nessas condições, na elucidação do lado existencialista de Heidegger, tendo o artigo conjunto crescido até tornar-se o apêndice deste livro.

5. quanto aos difíceis capítulos sobre o tempo, o socorro veio de William Blattner que, após trabalhar sobre Heidegger como graduando em Berkeley, escreveu sua tese de doutorado com John Haugeland em Pittsburgh sobre a temporalidade em Kant e Heidegger, identificando e corrigindo seu relato da temporalidade em Ser e Tempo as confusões heideggerianas e esclarecendo mesmo as passagens mais difíceis, constituindo, quando publicado, contribuição importante à compreensão de Heidegger sobre o tempo, podendo ser pensado como complemento a este comentário.

6. outro evento que exigiu revisão radical dos transcritos foi a publicação póstuma dos cursos de Heidegger, incluindo os dos anos imediatamente anteriores e posteriores à publicação de Ser e Tempo em 1927 — História do Conceito de Tempo (1925), Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia (1927) e Os Fundamentos Metafísicos da Lógica (1928) —, que lançaram torrentes de luz nova sobre a obra-prima heideggeriana, sendo muitas passagens ininteligíveis em Ser e Tempo explicitadas em termos claros e simples nos cursos.

  • essas novas publicações também confirmaram hipótese formulada com John Haugeland em 1978, segundo a qual Ser e Tempo poderia ser entendido como crítica sistemática à fenomenologia husserliana, ainda que Husserl e seu conceito básico, a intencionalidade, sejam pouco mencionados no livro, parecendo o aparecimento de Problemas Fundamentais, que empreende explicitamente “a tarefa de… interpretar mais radicalmente os fenômenos da intencionalidade e da transcendência”, confirmar essa abordagem.
  • isso também justificou a ênfase na abordagem não-mentalista da intencionalidade em Ser e Tempo que, graças à constante e amistosa oposição de John Searle, já figurava proeminentemente no comentário.

7. ao ser publicado em 1927, Ser e Tempo foi imediatamente reconhecido como clássico, razão pela qual talvez Heidegger jamais tenha feito alterações substantivas ao texto, ainda que tenha introduzido pequenas mudanças estilísticas nas catorze reimpressões subsequentes, mantendo também diversos exemplares do livro nos quais fazia anotações corrigindo passagens que haviam sido, ou poderiam ser, mal compreendidas, e criticando as afirmações substantivas do livro da perspectiva de seu pensamento tardio (dividindo o próprio Heidegger seus escritos em dois períodos: os anteriores a 1930, aproximadamente, e os escritos a partir de 1930).

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