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Capítulo VI – Intencionalidade e Intencionale: Duas Noções Distintas

Deely1971

  • Caracterização inicial do problema da identificação de Dasein com a vida intencional
    • A caracterização de Dasein como vida intencional do homem revela uma insuficiência fundamental, pois permanece dependente de categorias ligadas à consciência explícita e, assim, mantém-se no horizonte da referência temática a objetos enquanto dados da awareness.
      • Mesmo quando a análise ultrapassa a polaridade sujeito-objeto, a referência aos elementos da consciência explícita conserva-se no nível do comportamento ôntico com os entes, não alcançando a dimensão ontológica que constitui a possibilidade desse comportamento.
      • A redução de Dasein à vida intencional entendida como campo de awareness explícita destrói a possibilidade de uma retomada autêntica de Sein und Zeit, pois confunde o plano do ser da consciência com o plano do ser que torna a consciência possível.
    • A substituição terminológica de consciência por Dasein não pode ser compreendida como mera troca lexical, mas como deslocamento do problema para o ser da consciência.
      • A consciência não cria a abertura dos entes nem possibilita que o homem esteja aberto a eles, sendo essa abertura constitutiva de Dasein.
      • A questão fundamental não é psicológica nem gnosiológica, mas ontológica, pois diz respeito ao modo de ser que funda qualquer relação consciente.
  • Distinção entre consciência e a abertura ontológica de Dasein
    • A abertura de Dasein ao ser é mais originária do que o acesso do intelecto ao seu primum cognitum.
      • Tal abertura pertence ao homem inteiro em sua essência e não apenas à faculdade intelectual.
      • Essa estrutura permite que os entes sejam acessíveis como entes, inclusive em níveis pré-intelectuais de contato.
    • A caracterização de Dasein como campo de awareness é enganosa, pois sugere uma estrutura subjetiva.
      • O ser-no-mundo expressa transcendência e não subjetividade.
      • A transcendência designa a estrutura pela qual Dasein já se encontra além de si mesmo nos entes, antes de qualquer tematização consciente.
  • A compreensão do ser como fundamento da consciência
    • O homem é definido pela compreensão do ser, mas tal compreensão não pertence à ordem do entendimento no sentido clássico.
      • A compreensão do ser precede e fundamenta o exercício da razão e da consciência temática.
    • A intencionalidade da consciência não é idêntica à transcendência.
      • A intencionalidade pressupõe a transcendência, mas não a constitui nem a origina.
      • A transcendência é a estrutura ontológica pela qual Dasein é aberto ao ser dos entes.
  • Análise do esse intentionale e sua distinção em relação ao sujeito cognoscente
    • O esse intentionale enquanto constitutivo de um campo de awareness não se identifica com a atualidade do sujeito que conhece nem com a do objeto conhecido.
      • Trata-se de uma modalidade de ser distinta tanto do intelectus quanto da mens ou da anima considerados entitativamente.
    • Mesmo assim, identificar a intencionalidade com transcendência permanece inadequado.
      • A intencionalidade, mesmo entendida como esse intentionale, permanece no nível do comportamento ôntico-existencial.
      • A transcendência pertence à estrutura ontológica de Dasein e constitui a condição de possibilidade de toda intencionalidade.
  • A estrutura existencial de Dasein como fundamento da representação e da consciência
    • A natureza existencial do homem explica por que ele pode representar os entes como tais e ter consciência deles.
      • Toda consciência pressupõe a existência entendida de modo extático como a essência do homem.
    • A existência não se reduz ao ser-si-mesmo nem pode ser definida nesses termos.
      • O ser-si-mesmo é um traço do ente que existe, mas não esgota a determinação ontológica da existência.
  • Superação da intencionalidade em direção à abertura originária
    • Para alcançar a noção de Dasein em sua raiz, é necessário ultrapassar a intencionalidade da consciência.
      • Dasein deve ser pensado como abertura originária, caracterizada pelo êxtase.
    • A crítica heideggeriana às interpretações baseadas primariamente na intencionalidade é radical.
      • Toda caracterização do comportamento como intencional só é possível sobre o fundamento da transcendência.
      • A intencionalidade não é nem idêntica a esse fundamento nem sua condição inversa.
  • Distinção entre níveis ôntico-existencial e ontológico
    • A intencionalidade fenomenológica descreve uma relação entre entes.
      • Trata-se de uma relação entre um ente consciente e o ente intencionado enquanto termo imanente do ato.
      • Esse nível corresponde ao plano ôntico-existencial.
    • O comportamento ôntico-existencial só é possível porque Dasein é aberto ao ser dos entes.
      • Essa abertura pertence ao nível ontológico e funda a possibilidade da relação consciente.
    • A concepção do homem como mero sujeito de atos conscientes implica esquecimento do ser.
      • Tal concepção ignora a dimensão que confere ao homem sua primazia entre os entes.
  • Dasein como si-mesmo não subjetivo
    • Dasein possui estrutura de si-mesmo, mas não de sujeito consciente.
      • Trata-se de um si-mesmo pré-subjetivo e onto-consciente.
    • A estrutura ontológica de Dasein permite que ele se torne sujeito e consciente, sem que essa estrutura seja ela mesma consciente.
      • O caráter não consciente dessa estrutura decorre da diferença ontológica entre ser e ente.
  • Relação entre intencionalidade fenomenológica e análise da transcendência
    • A intencionalidade visada por Heidegger é a da fenomenologia, especialmente a de Husserl.
      • A análise da transcendência visa explicar o que torna possível toda intencionalidade.
    • Dasein, considerado em sua totalidade, é um si-mesmo trans-subjetivo.
      • Ele pode tornar-se consciente como ego, mas não se identifica nem com o consciente nem com o inconsciente no sentido freudiano.
  • Introdução da noção operatória de si-mesmo onto-consciente
    • A expressão onto-consciente não possui fundamento textual em Heidegger.
      • Sua função é indicar a dimensão ontológica do sujeito consciente enquanto consciente.
    • Essa dimensão não é consciente e pode ser dita inconsciente apenas no sentido ontológico.
      • A não-consciência deriva da diferença entre ser e ente.
  • Reavaliação da crítica heideggeriana à intencionalidade à luz do tomismo
    • A interpretação de Dasein como vida intencional só é incompatível com Heidegger se o esse intentionale for reduzido a suas condições secundárias.
      • Tal redução ocorre quando o esse intentionale é considerado segundo categorias entitativas.
    • Para a filosofia tomista, o conceito é o nível mais elevado da atualização intencional, mas não o único.
      • Toda função do conhecer exige a existência imaterial do esse intentionale.
    • Somente aquilo que entra no modo de esse intentionale pode contribuir para a constituição do cognoscente enquanto tal.
      • Nessa exigência reside o ponto de contato interno entre tomismo e pensamento heideggeriano do ser.
  • Prioridade ontológica da transcendência sobre a consciência
    • A consciência é ontologicamente posterior à orientação transcendental do si-mesmo.
      • O que é primário não é o si-mesmo como sujeito, mas como transcendência segundo o esse intentionale.
    • Inverter essa ordem implica distorcer todo o problema.
      • A consciência deve ser explicada a partir do ser do si-mesmo e não o inverso.
  • Paralelo final entre Tomás de Aquino e Heidegger
    • A distinção tomista entre esse materiale e esse immateriale ou intentionale expressa duas condições fundamentais do ser.
      • O esse materiale corresponde ao ser fechado em si mesmo.
      • O esse intentionale corresponde à abertura à presença de outros entes.
    • Heidegger distingue, em termos fenomenológicos, níveis análogos.
      • O nível ontológico não pode ser adequadamente compreendido em termos ônticos.
      • O ser-no-mundo constitui o estado fundamental de Dasein.
    • A análise do ser-junto-a revela que a relação originária com o mundo não é justaposição espacial.
      • A possibilidade de encontro pressupõe a estrutura de ser-no-mundo.
    • Os dois textos convergem ao tocar a mesma realidade fundamental.
      • O esse intentionale, compreendido em sua autenticidade, designa a base ontológica da possibilidade de toda consciência.
  • Conclusão provisória sobre Dasein como vida intencional
    • Dasein pode ser dito vida intencional do homem apenas se essa intencionalidade for entendida em sua integridade e em sua fonte.
      • Isso exige considerar a prioridade do inconsciente espiritual e o papel do intellectus agens.
    • A precisão do sentido de Dasein como si-mesmo onto-consciente mostra-se necessária para a continuação da investigação.
      • A possibilidade da tradução de Dasein como vida intencional condiciona o sucesso da retomada interpretativa do pensamento heideggeriano.
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