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O Esquecimento do Ser

Deely1971

A investigação filosófica se depara com um paradoxo fundamental: por toda parte encontra o ente, mas nunca o Ser. A pesquisa, em sua intenção explicativa, persiste no ente, tratando-o como objeto. O Ser, no entanto, não é uma propriedade do ente, não pode ser objetificado ou produzido como tal. É o absolutamente Outro em relação a todo ente, o Não-ente. Este Nada, contudo, vigora como o Ser.

  • A origem da questão metafísica e sua natureza dupla
    • A filosofia surge da atenção ao mistério da totalidade enquanto tal, como evidenciado no projeto heideggeriano.
    • As questões metafísicas interrogam o ente enquanto tal, ultrapassando regiões particulares do real.
    • Toda colocação da questão metafísica exibe uma dupla natureza.
      • Ela aponta para a existência dos entes (rochas, árvores, estrelas).
      • Simultaneamente, ela aponta de volta para o fenômeno que torna tal questão possível: a situação essencial da existência que a põe.
  • O fenômeno fundamental do Dasein e a totalidade
    • A consciência de que a mente humana é, de algum modo, todas as coisas constitui o fenômeno de base do Dasein.
    • É impossível compreender absolutamente a totalidade dos entes, mas é certo que nos encontramos no meio deles e que eles se revelam de algum modo em totalidade.
      • Compreender a totalidade dos entes é absolutamente impossível.
      • Encontrar-se no meio dos entes-em-totalidade é um acontecimento constante na existência.
    • Meditar essa diferença essencial leva à primeira compreensão do que significa o esquecimento do Ser.
  • O mundo e a revelação do ente em totalidade
    • Na experiência vivida, encontramo-nos no meio do que-é-em-totalidade, por ele inteiramente perpassados.
    • O Mundo não é a soma de todos os entes, pois tal soma é inconcebível e não acrescenta nada aos seus fatores.
      • É necessário atribuir ao Mundo uma significação particular, que a noção de soma não sugere.
    • A atenção ao fenômeno do Mundo revela que nossa consciência dele é permeada por uma ocultação ou negatividade peculiar.
      • Os entes se destacam sempre de um fundo de totalidade, embora nunca compreendamos essa totalidade de modo atual.
      • O Ser, ao revelar os entes, não pode ser apreendido positivamente por si mesmo, ocultando-se justamente naquilo a que dá origem.
  • A ocultação do Ser e a tradição filosófica
    • Essa dimensão de ocultação na revelação dos entes, embora implicada na questão do Ser, foi ignorada pela tradição filosófica pré-heideggeriana.
    • A primeira experiência da questão do Ser foi seguida pela experiência do esquecimento do Ser.
    • A reticência do Ser não passou totalmente despercebida na tradição.
      • São Tomás de Aquino descreveu-a como a contração do Ser nos modos do discurso, ou categorias da linguagem.
      • Esta fórmula é equivalente ao que Heidegger caracteriza como a permeação do Dasein por modos de comportamento aniquiladores, que sozinhos colocam o Dasein frente a frente com os entes como tais.
  • O Ser como tema real e a diferença ontológica
    • No desvelamento e explicação do Ser, os entes são o tema preliminar e concomitante, mas o tema real é o Ser.
    • Embora o Ser não possa ser exceto nos entes, ele pode manifestar-se suficientemente como si mesmo para permitir discerni-lo em sua diferença para com os entes.
    • A noção de Ser, manifestada em qualquer ente particular, tem uma inteligibilidade confusa que mistura indistintamente tudo o que se encontra na entidade.
      • Os entes particulares só podem ser experimentados factualmente se o Ser mesmo for previamente apreendido de um modo muito diferente das conceituações deste ou daquele tipo de ente.
    • Só porque o Ser está na consciência, ou seja, é compreensível no Dasein, este pode compreender e conceituar características do Ser como independência, o em-si e a Realidade em geral.
    • Tudo o que conhecemos é compreensível em termos de seu estado de Ser, mas o Ser mesmo transcende qualquer ente ou classe possível de entes.
  • A finitude do Ser e seu mistério
    • O Ser transcendente é essencialmente finito, pois aparece apenas numa pluralidade de entes que não pode abolir.
      • A Presença e o presente nesta Presença nunca coincidem.
    • O Ser, em suas manifestações, é necessariamente finito.
      • Ele se retrai atrás dos entes aos quais confere presença, ocultando-se em suas próprias revelações.
    • Este desvelamento auto-ocultante é precisamente o que Heidegger entende pelo mistério do Ser.
    • Olhar através da revelação do que-é para o mistério da Presença mesma é questionar no sentido da única questão que existe: o que é aquilo que é enquanto tal em totalidade.
    • O Ser desvia toda atenção de si e dirige o olhar do Dasein para os entes.
      • Os entes empiricamente presentes se revelam como presentes em razão do fulgor do Ser, que é o Não-ente.
  • O Nada, a diferença ontológica e a articulação do Ser
    • A reticência misteriosa, mútua ao Não-ente e aos entes, cada um revelado em razão do que não é, aponta para o não que os separa.
    • Este não que separa entes e Não-ente é a diferença, a saber, a diferença ontológica.
    • O Ser, considerado entitativamente, do ponto de vista dos entes, é o Não-ente.
      • Este horizonte de objetividade designado como Não-ente admite uma descrição positiva em termos do Ser mesmo, o Ser do ente.
    • Toda a problemática do desvelamento-ocultação no Ser nada mais é que o problema do não que constitui a diferença ontológica enquanto tal.
    • O que deve ser tornado temático é o Ser dos entes em sua diferença (Não-ente) para com os entes, e mesmo em sua diferença para com o que pode ser dito sobre os entes precisamente como tais.
      • O Ser sempre deve ser contraído aos entes, comportando o risco de ser considerado apenas como um ente e, assim, ser completamente esquecido.
    • O problema central da filosofia, para Heidegger, é discernir o Ser para si, ainda que não por si mesmo.
  • A formulação do Ser como a diferença fundamental
    • Para Heidegger, aquilo que nunca e em lugar algum é se desvela como o que difere de tudo que é, e isso chamamos Ser.
    • O Ser não é uma qualidade existente dos entes, nem pode ser concebido objetivamente. Este puramente Outro é aquilo-que-não-é. Este Nada funciona como Ser.
    • Esta maneira incomum de articular o Ser dá o conceito mais amplo possível do ente como tal: ele é algo e não nada.
      • Um delírio, o sentido de um poema, Deus, o amor, a esperança são algo e não nada, ainda que não sejam coisas no sentido metafisicamente primário.
    • A partir da ideia de algo, coisa real e coisa ideal não são mais opostas uma à outra, mas ambas se distinguem do Nada como o totalmente outro, entendidas em seu caráter fundamental como não nada.
    • A ideia heideggeriana de Ser formula a exigência de que o pensamento do Ser comece da mais ampla e profunda de todas as distinções: a diferença entre algo e nada.
      • Com isso, o problema do nada é trazido para o centro do projeto filosófico, e este nada é o véu do Ser mesmo.
  • A questão fundamental: por que há entes e não antes o nada?
    • A questão mais abrangente, profunda e fundamental é: por que há entes, por que há algo e não antes nada?
      • Através dela, o que-é-em-totalidade se abre pela primeira vez com vista ao seu possível fundamento, mantendo-se aberto no ato de questionar.
    • A questão significa: como é possível que os entes possam ser como entes, independentemente de causas metafísicas.
      • É uma questão sobre o acontecimento do processo de clareira da alétheia, entendido como emergência da diferença ontológica, permeado pela negatividade.
    • Heidegger a expande: como acontece que os entes tenham a primazia em toda parte, enquanto aquilo que não é um ente, pensado como Não-ente no sentido do Ser mesmo, permanece esquecido?
  • O Ser como Não-ente e a crítica à metafísica
    • O Ser, para Heidegger, é precisamente aquilo que, do ponto de vista ôntico dos entes, é o Não-ente.
      • Inversamente, o Não-ente é o Ser mesmo formulado em outros termos que não os ônticos.
    • A metafísica opera com uma concepção prévia do Ser em suas respostas sobre o ente enquanto tal.
      • Alheia à natureza peculiar desta concepção pré-ontológica, que não se radica na razão pura, a metafísica é apartada da verdade do Ser.
      • Para a metafísica, a natureza da verdade aparece apenas na forma derivada da verdade do conhecimento.
    • Sendo metafísica, está por natureza excluída da experiência do Ser, pois representa os entes tendo em vista apenas o que do Ser já se manifestou como ente.
      • Ela nunca atenta para o que se ocultou neste ente justamente enquanto se tornou desoculto.
  • A questão-guia e a identificação do Ser com o Nada
    • A questão-guia é: o que se chama Ser?
      • Se não concerne aos entes, deve começar daquilo que não é um ente. A questão nomeia e grafa com maiúscula: o Nada.
    • Se o Ser não é um ente, o processo de desocultação tem um caráter não inerente, que o contrai e esconde nos entes que deixa ser.
      • Descrevendo o Ser apenas em termos dos entes que ele não é, o máximo a dizer é que ele não é um ente. Sendo todo ente uma coisa, o Ser não é uma coisa, é Nenhuma-coisa, é Nada.
    • Ser e Nada são um. Esta identificação serve para recuperar a experiência-problema inicial que impediu Heidegger de aceitar a formulação aristotélica da questão do Ser.
  • A mudança do homem em seu Dasein como exigência
    • Manter-se no problema do Nada como problema do Ser mesmo exige mudar o homem em seu Dasein.
    • Fator decisivo para recuperar o Ser de seu esquecimento é a experiência essencial de que só no e a partir do Dasein pode evoluir para o homem histórico qualquer aproximação da verdade do Ser.
    • O Ser dos entes só é compreensível se o Dasein, por sua própria natureza, se constringe dentro do Nada.
      • Constranger-se ao Nada é um acontecimento subjacente a todo encontrar-se no meio dos entes já disponíveis.
      • A possibilidade intrínseca deste acontecimento deve ser clarificada numa analítica fundamental-ontológica do Dasein.
    • É preciso clarificar em princípio como o homem é mudado em seu Dasein para estabelecer os limites da questão em Ser e Tempo.
  • A transformação essencial do homem e a noção de Dasein
    • O método para efetuar esta transformação essencial do homem e precisar a noção de Dasein como foco para formalizar a questão do Ser está em jogo no caráter problemático heideggeriano.
    • A compreensão desta questão é decisiva por dois motivos:
      • A noção preliminar de Dasein só pode ser apreciada corretamente através de uma clara visão da compreensão heideggeriana da natureza da pesquisa fenomenológica.
      • As dificuldades do Heidegger tardio em explicar o envolvimento do Ser na natureza humana são consequência da falha em clarificar a relação entre o homem em seu Dasein e o homem como ente, a articulação estrutural ôntico-ontológica que dá origem à possibilidade de uma compreensão categorial e existencialista da realidade humana.
  • A superação e a transformação da metafísica
    • A perspectiva metafísica considera a luz do Ser suficientemente iluminada quando reconhecemos que olhamos através dela para os entes.
      • A verdade do Ser seria o solo onde a metafísica, como raiz da árvore da filosofia, é mantida.
      • Vista em seus próprios termos, essa base é algo ainda não dito, que transforma a essência da metafísica.
    • A insuficiência desta perspectiva terá de ser mostrada.
    • O primeiro passo para recuperar o Ser de seu esquecimento envolve a conjectura crucial de que, em vista da desocultação do Ser, o envolvimento do Ser na natureza humana é uma característica essencial do Ser.
      • Se a Presença e o presente nunca coincidem, a Presença também não pode sê-lo exceto na natureza essencial de um ente que tem abertura para o encontro com os entes como seu Ser.
    • Uma vez compreendido isso, não se pode mais aceitar a pretensão da metafísica de cuidar do envolvimento fundamental no Ser e de determinar decisivamente todas as relações com os entes como tais.
      • A visão dos entes como tais só é possível graças à luz do Ser, que, no entanto, não cai no âmbito do questionamento metafísico sobre o que os entes são.
  • A superação da metafísica e a nova concepção da natureza humana
    • Esta superação da metafísica não a abole.
      • Enquanto o homem permanecer animal rationale, será também animal metaphysicum.
      • A metafísica pertence à natureza do homem que se entende como animal racional.
    • Se o pensamento conseguir retroceder ao solo da metafísica, poderá ajudar a efetuar uma mudança na concepção da natureza humana, acompanhada de uma transformação da tarefa da metafísica.
    • A transformação da ideia de natureza humana marca o primeiro passo para longe do esquecimento do Ser em direção à determinação do sentido do Ser.
      • O passo é possível quando se realiza claramente que o mais básico no homem não é um traço específico da ordem ôntica, mas algo que não reside no homem à maneira de um acidente ou propriedade inerente.
      • Este algo pertence a uma ordem fundamentalmente distinta da ordem ôntica, sendo a possibilidade prévia para todo campo sujeito-objeto: a compreensão do Ser pelo homem.
  • O homem como Compreendedor do Ser e a noção de Dasein
    • O homem é, antes e durante tudo, o Compreendedor do Ser, o ente dotado desde sua origem de uma compreensão do Ser.
      • Esta compreensão não está presente nele como um conhecimento totalmente realizado ou conceitualmente explícito, mas está sempre em jogo em tudo o que o homem faz.
      • A autoconsciência é uma expressão ôntica e inadequada da verdade ontológica de que o homem é o ente para quem, em seu Ser, há preocupação com o Ser.
    • A compreensão em questão é a realidade ontológica por trás da distintividade ôntica do homem, radicalmente outra que quaisquer traços ônticos específicos.
      • É desta dimensão ontológica, pertencente essencialmente à ordem do intencional, que Heidegger tem em mente ao usar o termo Dasein para designar o Ser do homem.
  • A compreensão pré-ontológica e a radicalização da questão do Ser
    • Na transformação da concepção da natureza humana exigida pela recolocação do Ser, esta apreensão pré-conceitual do Ser será chamada pré-ontológica.
    • A transformação da tarefa metafísica nesta perspectiva recuperada será um afastamento da preocupação com sujeitos transobjetivos do esse para se engajar imediatamente na explicitação desta compreensão pré-ontológica, elevando-a ao nível dos conceitos.
    • A questão do Ser nada mais é que a radicalização de uma tendência-essencial-de-Ser que pertence ao próprio Dasein: a compreensão pré-ontológica do Ser.
    • Mais originário que o homem é a finitude do Dasein nele, como estrutura que deixa os entes serem manifestos ao homem, tornando possível todo encontro.
      • Esta finitude é o Aí do Ser entre os entes, fonte da unidade entre a questão do Ser e a finitude do homem que a põe.
  • A exigência metodológica e a prioridade do Dasein
    • Até aqui, descreveu-se uma experiência inicial e esboçaram-se os requisitos para tratá-la filosoficamente. A questão de satisfazer esses requisitos metodologicamente permanece em aberto.
    • Ainda se deve clarificar em princípio o que está em jogo em qualquer noção de natureza humana que prescinda da dimensão ôntica do homem, e quão fundamental tal distinção seria.
    • A transformação da natureza humana exigida por Heidegger não é autoevidente.
    • A discussão não demonstrou ainda a prioridade do Dasein, nem se ele pode ou deve servir como o ente primário a ser interrogado.
      • No entanto, algo como uma prioridade do Dasein já se anunciou.
    • Considerar cuidadosamente esta mudança do homem em Dasein é necessário para torná-la transparente em princípio.
      • Surgirá então a questão sobre se o método heideggeriano é, em última instância, inadequado para assegurar na modalidade do ser humano a concepção que ele mesmo primeiro cria.
    • Entender o Dasein é entender o poder e os limites da filosofia fenomenológica em sua maturidade, bem como sua relação orgânica com a filosofia tradicional.
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