estudos:deely:dasein-vida-intencional
Dasein como a Vida Intencional do Homem
Deely1971
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Verificação inicial da prioridade ontico-ontológica de Dasein
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A correspondência entre a distinção tomista entitativum–intentionale e a distinção heideggeriana ontisch–ontologisch confirma a legitimidade da reivindicação de originalidade problemática de Heidegger.
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A prioridade ontico-ontológica de Dasein foi reconhecida na tradição, mas sem que sua estrutura ontológica própria fosse tematizada como problema.
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O pensamento tomista reconhece a não identidade entre inteligir e ser, mas orienta sua análise principalmente ao esse enquanto existentia exercita.
A insuficiência dessa orientação manifesta-se na incapacidade de integrar plenamente fenômenos históricos, culturais, sociais e psicológicos.-
Tais fenômenos encontram seu fundamento primário não no esse entitativo, mas no esse do ens intentionale.
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A análise adequada desses domínios exige uma Daseinsanalyse, isto é, uma investigação da estrutura intencional da existência humana.
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Deslocamento da análise da vida intencional para sua fonte originária
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A vida intencional não deve ser considerada apenas como meio suprassubjetivo de união, mas em seu processo dinâmico de origem.
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Esse processo tem sua raiz única na fonte comum das potências da alma.
Os textos de Kant und das Problem der Metaphysik são privilegiados para essa análise.-
Neles, Dasein é articulado como imaginação transcendental, entendida como fonte comum do sensível e do inteligível.
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Essa articulação permite situar Dasein como origem transcendental da experiência.
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Introdução da distinção entre inconsciente espiritual e inconsciente automático
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O inconsciente não designa necessariamente uma atividade totalmente inconsciente.
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Designa antes uma atividade cuja origem é inconsciente, mas cujo ápice emerge na consciência.
Deve-se distinguir rigorosamente dois domínios.-
O inconsciente espiritual ou pré-consciente, próprio das dinâmicas do espírito.
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O inconsciente automático, ligado às dinâmicas instintivas e psíquicas de base orgânica.
Ambos pertencem ao domínio do esse intentionale, embora por modos distintos.-
O primeiro por imaterialidade espiritual.
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O segundo por uma imaterialidade intermediária própria de certas organizações materiais.
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Unidade existencial dos dois domínios do inconsciente
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Apesar de sua distinção essencial, ambos operam simultaneamente na existência concreta.
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Seus efeitos interferem e se entrelaçam na vida consciente ordinária.
O inconsciente espiritual raramente opera de modo absolutamente isolado.-
Mesmo nas formas mais elevadas de atividade espiritual, subsiste alguma mediação com o inconsciente automático.
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Fundamentação pré-consciente da atividade intelectual e volitiva
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A atividade ordinária da inteligência revela a precedência de uma vida pré-consciente.
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Ideias, descobertas e decisões livres emergem de um fundo não tematizado.
A razão não se reduz a suas operações lógicas conscientes.-
Sob a superfície conceitual, opera uma vida intelectual profunda, translúcida e fecunda.
Essa vida pré-consciente constitui a fonte da criatividade, do conhecimento e da liberdade.-
Emergência do conceito de si-mesmo onto-consciente
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O si-mesmo consciente emerge de um fundo ontológico não consciente.
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Esse fundo constitui a dimensão ontológica do si-mesmo enquanto consciente.
A investigação desse si-mesmo exige a superação do subjetivismo moderno.-
O subjetivismo cartesiano reduz o ser à oposição sujeito–objeto.
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Essa redução implica o esquecimento do mistério da presença do ser.
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Superação do subjetivismo e reabilitação do inconsciente ontológico
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A redescoberta do inconsciente por Freud obriga a filosofia a reconhecer sua existência.
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Heidegger obriga a ir além desse reconhecimento, tematizando seu modo próprio de ser.
Antes de Descartes, a alma era concebida como substância distinta de suas operações.-
Embora não tematizassem o inconsciente, os escolásticos pressupunham sua realidade.
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Intelecto agente como raiz ontológica da transcendência
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A doutrina do intellectus agens explica a passagem do sensível ao inteligível.
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O intelecto agente atualiza a inteligibilidade potencial dos fantasmas.
Em Tomás de Aquino, o intelecto agente é intrínseco à alma individual.-
Ele constitui uma fonte espiritual sempre em ato.
Essa fonte é identificada como raiz do processo de transcendência.-
Dasein é compreendido como esse processo enquanto modo de ser humano.
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Relação entre imaginação, intelecto e transcendência
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As potências da alma emanam da essência da alma segundo uma ordem natural.
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As potências mais perfeitas são princípio e razão de ser das menos perfeitas.
A imaginação procede da essência da alma mediante o intelecto.-
Por isso, a imaginação pode ser dita transcendental em sentido próprio.
Todas as potências convergem numa raiz comum pré-consciente.-
Essa convergência constitui a unidade da vida intencional.
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Dasein como totalidade estrutural da vida intencional
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A vida intencional constitui um único universo articulado internamente.
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Sensação, imaginação, inteligência e afeto interpenetram-se.
Esse universo existe segundo o modo próprio do esse intentionale.-
É por isso que pode ser designado como a vida intencional do homem.
O centro dessa totalidade é a transcendência.-
Identificada com a imaginação transcendental em Kant.
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Identificada com Dasein em Sein und Zeit.
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Relação entre si-mesmo, ego e consciência
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O ego acompanha toda representação, mas não a funda.
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A consciência do ego é explicada pelo ser do si-mesmo.
O si-mesmo onto-consciente precede ontologicamente a consciência reflexiva.-
A consciência é derivada, não originária.
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Liberdade, verdade e tempo como dimensões cooriginárias
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A liberdade originária identifica-se com a transcendência.
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Não se trata de liberdade ontica, mas ontológico-existencial.
Verdade, tempo e história emergem do mesmo processo.-
O processo de transcendência de Dasein para o ser.
Ser e verdade são cooriginários.-
A verdade judicativa pressupõe a abertura originária dos entes.
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Sentido como existenciale de Dasein
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O sentido não é propriedade dos entes.
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É um existenciale de Dasein.
Somente Dasein pode ser significativo ou insignificativo.-
Os entes não dotados de Dasein são, nesse sentido, desprovidos de significado.
A questão do sentido do ser refere-se ao horizonte de inteligibilidade de Dasein.-
O ser entra na compreensão apenas enquanto referido à estrutura de Dasein.
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Historicidade de Dasein e constituição do mundo histórico
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Dasein é essencialmente temporal.
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Sua unidade é a unidade do futuro, do passado e do presente.
Por isso, Dasein é histórico por essência.-
A historicidade funda a possibilidade da história.
A vida intencional de Dasein constitui o mundo histórico.-
O sentido e o valor emergem apenas na história humana.
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Conclusão provisória sobre Dasein como vida intencional
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A tradução de Dasein como vida intencional é legítima sob condições estritas.
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Exige a consideração integral do esse intentionale.
Esse domínio constitui uma ordem metafísica irredutível.-
O esquecimento dessa ordem torna impossível o diálogo entre Heidegger e Tomás.
A precisão conceitual de Dasein revela-se decisiva.-
Ela permite integrar fenomenologia e metafísica sem redução.
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