Ereignis
Daniela Vallega-Neu. DAVIS, Bret W. Martin Heidegger: key concepts. Durham: Acumen, 2010.
1. Ereignis torna-se conceito fundamental na filosofia de Heidegger na década de 1930, elaborado entre 1936 e 1938 em Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis) (GA65), obra que passa a nomear como o ser acontece em sua verdade, sendo tais escritos não destinados ao ouvido público, redigidos numa tentativa de linguagem originária (poietisch), publicados apenas em 1989.
2. Ereignis (evento) admite um campo semântico mais amplo ao ser decomposto em seus componentes er- e -eignis, sendo er- o prefixo de movimento inicial ou realização e -eignis relacionado a eigen (próprio) e a eigentlich (próprio/autêntico), o que leva a traduções como enowning ou apropriação, o evento de apropriação.
3. A palavra Ereignis já aparece como conceito principal num curso de 1919, anterior a Ser e Tempo, no qual se elabora a diferença entre uma abordagem científico-teórica das coisas, que perde o envolvimento peculiar de quem questiona ao pôr sujeito e objeto e descrever sua relação como Vorgang (ocorrência objetiva), e uma abordagem pré-teórica mais genuína, na qual não há sujeito nem objeto mas envolvimento com aquilo que se encontra, sendo esse envolvimento peculiar chamado Ereignis em contraste a Vorgang.
4. Esse curso de 1919 antecipa temas que serão elaborados em Ser e Tempo, obra na qual, contudo, Heidegger evita tanto a palavra Vorgang quanto Ereignis, bem como Leben e Erleben, devido à crítica a uma filosofia da vida de base subjetiva, sendo que ao retomar Ereignis em 1932, ao planejar Contribuições, o termo já não se refere apenas ao modo de experimentar o mundo circundante, tendo o pensamento heideggeriano sofrido diversas mudanças na tentativa de pensar o acontecimento do ser além do subjetivismo e do objetivismo científico-teórico.
Ereignis e a virada em Ereignis
1. Compreender o conceito fundamental de Ereignis exige compreender a virada (Kehre) do pensamento heideggeriano do início dos anos 1930, a saber, o abandono da abordagem transcendental-horizontal da questão do ser em favor de uma fala mais inceptual, mais originária, a partir de dentro de uma experiência autêntica do ser.
2. No projeto de Ser e Tempo o ser como tal é questionado por meio da transcendência do ser do questionador, o Dasein, que sempre já transcende seu próprio ser particular de modo que o ser de outros entes e o ser como tal também se desvela; Heidegger percebe, porém, que essa abordagem ainda convida a um pensar representacional, pelo que a tarefa passa a ser não pensar e falar em direção ao horizonte aberto do ser, mas a partir de dentro dele, saltando sobre a diferença entre entes e ser em vez de transcender para além dela.
3. Essa possibilidade só se dá se o pensamento permanece sintonizado a um modo autêntico de ser no qual o pensador se encontra deslocado, num salto, dos modos cotidiano e teórico de ser e lançado na abertura abissal do ser como tal, abertura que Heidegger chama verdade do ser (Seyn), a qual precisa ser sustentada para acontecer como verdade, sendo então que o pensamento se encontra ereignet, apropriado, pelo ser, e o ser em sua verdade pode ser experimentado e pensado como Ereignis.
4. A partir da experiência de ser lançado na abertura abissal do ser experimenta-se um evento desvelador no qual também se encontra o próprio ser, experimentado como er-eignet (en-próprio) ou apropriado nesse evento, apropriação que não ocorre passivamente mas requer uma resposta de quem primeiro, por meio dessa resposta, encontra a si mesmo nesse evento, sendo essa responsividade o que constitui o -sein do Da- e assim o Da-sein, o ser-aí na abertura da verdade.
Ereignis, Ent-eignis e a historicidade do ser
1. Parte da dificuldade do pensamento de Ereignis está em que não se pode submeter-se voluntariamente à experiência do ser como evento apropriante, havendo contudo uma disposição fundamental latente em nossa época que torna possível a alguns poucos expor-se à abertura abissal do ser, disposição que em Contribuições é múltipla e histórica (geschichtlich), disposição de uma época e não de um indivíduo.
2. As disposições fundamentais que em sua unidade deslocam para a abertura abissal do ser são nomeadas terror (Erschrecken), reserva (Verhaltenheit) e pudor (Scheu); o terror implica a experiência do abandono dos entes pelo ser sob o domínio da maquinação (Machenschaft) e da vivência-aventura (Erlebnis), tais que os entes se reduzem a variáveis de cálculo e a meios de aventura, de modo que nessa época o ser não acontece como evento apropriante mas como recusa (Verweigerung ou Versagung), sendo o ser experimentado, a princípio, como retraimento, isto é, não como apropriação mas como ex-propriação, Ent-eignis.
3. Ent-eignis possui uma conotação negativa, indicando que em nossa época o Er-eignis ainda não acontece e a verdade do ser permanece velada, o que remete à queda (Verfallenheit) do Dasein de Ser e Tempo e ao errar (Irre) de “Da essência da verdade”; mas Heidegger fala de Ent-eignis também em sentido positivo, o do ocultamento originário que pertence à verdade do ser mesmo quando esta impera como Er-eignis, termo que retoma em “Tempo e ser” (1962) ao afirmar que a expropriação pertence à apropriação como tal e por meio dela a apropriação não se abandona, mas preserva o que lhe é próprio.
4. Contribuições é obra de transição que busca preparar o sítio, o Da-sein, que permitiria à verdade do ser imperar como Ereignis, momento (Augenblick) que marcaria a fundação de um outro começo da história, no qual os entes não mais seriam expropriados pelo ser mas abrigariam sua verdade; nesse sentido histórico Ereignis permanece um evento do qual só se pode ter um pressentimento (Ahnung), pressentimento que surge ao ser deslocado pelo terror para o desvelamento do ser como retraimento e ao meditar sobre o primeiro começo do pensamento ocidental, no qual a verdade do ser é experimentada, desvelada na admiração, como vinda-à-presença (Anwesenheit), até que essa vinda-à-presença deixa de ser experimentada e o ser é pensado apenas em referência às coisas apresentadas, tornando-se conceito vazio e mais geral, esquecido e abandonado.
5. O pressentimento da verdade do ser como evento não coloca simplesmente Ereignis num futuro distante, pois Heidegger entende que essa disposição básica surge a partir do próprio Ereignis, havendo alguns poetas e pensadores extemporâneos que já se encontram apropriados, ainda que o Ereignis ainda não impere de modo a determinar epocalmente o desvelamento do ser, sendo esses poucos chamados por Heidegger die Zukünftigen, os vindouros.
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Ereignis nomeia um acontecimento histórico, o Augenblick, o momento que marcaria o outro começo da história, no qual os entes não são mais abandonados pelo ser e a verdade do ser impera como evento apropriante, pertencendo a esse sentido também a Enteignis como retraimento e ocultamento originário do qual toda apropriação provém.
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Ereignis nesse primeiro sentido é uma possibilidade que já convoca alguns poucos poetas e pensadores, sendo a tentativa do próprio Heidegger de articular Ereignis, ao escutar as palavras do poeta Hölderlin, uma tentativa de falar a partir desse pressentimento preliminar e transicional.
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Ereignis impera como Ent-eignis, isto é, como o retraimento do ser e o abandono dos entes pelo ser na era presente da maquinação e da aventura, sendo a Ent-eignis uma forma negativa de Ereignis, análoga à inautenticidade (Uneigentlichkeit) de fugir da possibilidade da própria morte, sendo crucial perceber que a expropriação é uma forma de apropriação para compreender como a era da maquinação porta em si a possibilidade de uma virada para o evento de apropriação em sentido mais originário.
A extensão total do Ereignis: o Da-sein, os deuses e os humanos, o mundo e a Terra, os seres
1. Ereignis possui outras dimensões essenciais além da relação entre a verdade do ser, o ser-aí (Da-sein) e os humanos, a saber, as dimensões dos deuses, do mundo, da terra e dos entes, sendo o ser-aí o entre (das In-zwischen) entre os humanos, como os que fundam a história, e os deuses, em sua história, apropriando-se nosso ser em relação aos deuses de tal modo que somos designados (Zueignung) aos deuses e os deuses nos são consignados (Übereignung).
2. Os deuses são pensados como aqueles que necessitam do ser, necessidade que ressoa na necessidade experimentada pelos humanos quando, atravessados pelo terror e pela reserva, percebem o abandono dos entes pelo ser, abandono e esquecimento que acompanham o que o poeta Hölderlin chama de fuga dos deuses, sendo requerida, para que Ereignis ocorra historicamente, a passagem do último deus (Vorbeigang des letzten Gottes), guardando-se os deuses, tal como o próprio Ereignis, numa dimensão oculta à qual, ao sermos apropriados no evento, nos encontramos designados (zugeeignet).
3. É nesse encontro decisório entre deuses e humanos, aberto no entre do ser-aí, que se situam a disputa de mundo e terra e a relação com os entes, disputa relacionada ao que Heidegger chama abrigamento (Bergung) da verdade do ser nos entes, sobretudo nas palavras, sendo que a verdade do ser só acontece como Ereignis quando abrigada nos entes, o que faz com que a passagem do último deus ocorra ao mesmo tempo que esse abrigamento, transformando-se ser e entes em sua simultaneidade.
4. Essa simultaneidade não abole toda diferença entre ser e entes, funcionando a disputa de terra e mundo como uma espécie de meio entre a verdade do ser e os entes, já que a verdade do ser não pode ser abrigada diretamente nos entes, precisando antes ser transformada na disputa de mundo e terra.
O “Ereignis” no pensamento tardio de Heidegger
1. Nota-se brevemente como e onde a noção de Ereignis aparece e sofre mudanças no pensamento tardio de Heidegger.
Ereignis as the mirror-play of the fourfold (enteignende Vereignung)
1. A relação entre deuses e humanos e entre mundo e terra em Contribuições antecipa o pensamento posterior da quadratura (Geviert) de divindades e humanos, céu e terra, exposta nos ensaios “A coisa” (1950) e “Construir, habitar, pensar” (1951), nos quais dois dos quatro termos se alteram ligeiramente: a relação entre céu e terra e entre mortais e divindades passa a constituir o mundear (Welten) do mundo.
2. No ensaio “A coisa” Heidegger afirma que Ereignis acontece pelo jogo-espelho apropriante da quadratura, no qual cada um dos quatro espelha à sua maneira a presença dos outros, usando o termo Vereignung (apropriação realizadora) e um sentido diferente, mais positivo, de enteignen (expropriar), enfatizando agora o sentido de deixar-livre em vez da privação enfatizada em Contribuições, resumindo que esse apropriar expropriante (enteignendes Ereignen) é o jogo-espelho da quadratura.
Ge-stell as a preliminary form of Ereignis
1. Num seminário sobre a conferência “Tempo e ser” (1962), Heidegger menciona vários textos que constituem diferentes vias de acesso a Ereignis, entre os quais o ensaio “A coisa” e as meditações sobre o Ge-stell (armação ou enquadramento), termo que nomeia a relação entre humanos e ser em nossa época técnica, aprofundando o que em Contribuições se falava em termos de maquinação, cálculo e aventura.
2. É voltando-se para a maquinação, e não afastando-se dela, que se pode experimentar e pensar a verdade do ser como Ereignis, passando Heidegger, após Contribuições, a entender o modo como o ser acontece na época da técnica como forma preliminar de Ereignis, afirmando em Identidade e diferença (1957) que é preciso atentar à interpelação que fala na essência da técnica, sendo o pertencimento mútuo entre homem e ser por meio dessa interpelação recíproca aquilo que revela que e como o homem é apropriado (vereignet) ao ser e o ser é apropriado (zugeeignet) ao ser humano.
Ereignis as Er-äugnis
1. Heidegger aponta uma etimologia de Ereignis que o remete a Er-äugnis (Auge, olho), relacionado a er-äugen, isto é, avistar algo, chamar algo pelo olhar, apropriar (an-eignen), podendo-se relacionar Er-äugnis a Augenblick, o “instante” (literalmente, o piscar do olho) no qual a verdade do ser impera como evento apropriante.
Evento e Geschick (a transmissão da história)
1. Permanece ambíguo em Contribuições se Ereignis nomeia apenas como o ser acontece inicialmente, no momento decisório do outro começo, ou se Heidegger pensa na possibilidade de toda uma época em que a apropriação ocorreria mais plenamente que na metafísica, sendo apenas mais tarde, em “Tempo e ser” (1962), que se diferencia mais claramente Ereignis e a história do ser em suas formas epocais, pensando-se Ereignis em termos do envio (Schicken) das épocas, chamado Geschick (destino).
2. No envio do destino do ser manifesta-se uma dedicação (Zueignen), uma entrega (Übereignen) ao que lhes é próprio (Eigenes), a saber, do ser como presença e do tempo como âmbito do aberto, sendo aquilo que determina ambos em seu pertencimento mútuo chamado Ereignis, o evento de apropriação, que não é algo por trás do ser e do tempo, mas nomeia sua apropriação, o evento de seu vir a ser próprios e de sua relação recíproca.
3. O apropriar (Ereignen) se oculta enquanto “dá” tempo e “dá” ser, retraindo-se o dar por trás ou sob aquilo que é dado, não havendo coisa alguma que dê tempo ou ser, ocorrendo a apropriação como esse dar que, ao dar, se oculta, não sendo o evento de apropriação, como envio de tempo e ser, ele mesmo uma forma de ser, mas aquilo que determina a história ou histórias do ser, sendo esse próprio enviar como apropriação, ele mesmo, não histórico (ungeschichtlich), ou mais precisamente, sem destino.
4. Para um pensamento que se volta ao evento de apropriação como um envio que se retrai ou se oculta, a história do ser enquanto aquilo que há a pensar chega a seu fim, retomando Heidegger essas reflexões num seminário em Le Thor em 1969, no qual reafirma a diferenciação entre Ereignis e a história do ser, não havendo época destinal do apropriar, pois o enviar provém do apropriar, aparecendo a história do ser, no apropriar, não tanto como tendo chegado a seu fim, mas como se mostrando agora enquanto história do ser.
5. No pensamento tardio, Ereignis é compreendido como o evento de apropriação a partir do qual acontecem as épocas do ser, modos fundamentais pelos quais o ser acontece e os humanos se relacionam a esse acontecer, permanecendo o próprio evento de apropriação oculto no modo como o ser se desvela em cada período, de modo que, quando o pensamento adentra o evento de apropriação, essas épocas aparecem como tais e podem ser pensadas como tais, encontrando-se o pensamento, ao mesmo tempo, apropriado por esse evento extemporâneo chamado Ereignis.
