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estudos:dastur:replica-ontologia-negativa

Réplica à ontologia negativa no pensamento grego

FDFN

  • A resposta sofística à ontologia negativa: Górgias
    • A ontologia negativa parmenidiana suscita rapidamente uma réplica, formulada pelo sofista Górgias em seu Tratado do não-ser, conhecido por meio de Sexto Empírico.
      • Górgias, nascido por volta de 480 a.C. em Leontinos, colônia grega da Sicília, pertence ao mesmo mundo colonial que Parmênides, mas se move em um horizonte intelectual distinto.
      • Orador itinerante, mestre da persuasão e remunerado por seu ensino, Górgias encarna a figura paradigmática do sofista.
    • Platão atribui ao termo “sofista” um sentido pejorativo, em oposição ao filósofo.
      • O filósofo é definido como aquele que ama a sabedoria sem possuí-la, ao passo que o sofista se apresenta como detentor de um saber transmissível.
      • Essa distinção, consolidada por Platão, estrutura a tradição posterior, mas não elimina a seriedade do desafio sofístico.
    • Heidegger reconhece que a sofística desempenhou um papel decisivo na gênese da filosofia.
      • Ela desloca o foco da reflexão do mundo para a interpretação do Dasein.
      • Surge no contexto da democracia ateniense, como resposta à necessidade de formação retórica do cidadão.
    • Apesar disso, Heidegger critica a sofística por sua indiferença à coisa mesma.
      • O primado do discurso conduz à perda do sentido da realidade.
      • Essa dessubstancialização da coisa funda uma forma de inautenticidade existencial, análoga ao “falatório” [Gerede] analisado em Ser e tempo.
    • O sofista é caracterizado como um homem do discurso, não como um pensador do ser.
      • Sua prática pressupõe, porém, o horizonte ontológico dos pré-socráticos.
      • A sofística é uma derivação da sophia grega, fundada na compreensão do ser como presença e da verdade como alētheia [non-occultation].
    • A sentença de Protágoras, “o homem é a medida de todas as coisas”, não deve ser lida como subjetivismo moderno.
      • Ela se enraíza na experiência grega de um aberto prévio, de um campo de não-ocultação.
      • O homem é medida enquanto limitado pelo modo como o ente se desvela para ele.
    • Coloca-se então a questão decisiva: o Tratado do não-ser de Górgias participa dessa mesma experiência originária da ocultação?
      • Heidegger limita-se a expor suas três teses, reconhecendo nelas uma seriedade filosófica.
      • Essas teses retomam uma problemática já presente no ceticismo antigo: a possibilidade da verdade e do ente.
  • As três teses de Górgias
    • Primeira tese: nada existe.
    • Segunda tese: mesmo que algo exista, é incognoscível.
    • Terceira tese: mesmo que fosse cognoscível, não seria comunicável nem formulável.
    • Do ponto de vista lógico-proposicional, tais teses são coerentes.
      • Elas exploram os princípios de identidade e não-contradição.
      • Porém, sua coerência depende de uma concepção técnica da linguagem.
    • O discurso de Górgias traduz o poema de Parmênides em proposições lógicas.
      • Ao fazê-lo, desfigura sua intenção originária.
      • O ser parmenidiano não se diz na forma proposicional, mas na tautologia originária eon emmenai, “o ente é”.
    • Essa tautologia não é um enunciado lógico, mas uma indicação fenomenológica.
      • Ela aponta para o ser enquanto inaparante, que se retira para deixar-ser o ente.
  • Pensar e ser: o ponto decisivo do confronto
    • O fragmento III de Parmênides afirma: “o mesmo é pensar e ser”.
      • Heidegger interpreta essa identidade como o “dobra” [Zwiefalt] entre ser e ente, verbo e nome.
      • Essa dobra pertence à Moira, à dispensação que distribui o aparecer.
    • O desvelamento do ente exige que o desvelamento do ser permaneça oculto.
      • A alētheia implica sempre lethē [ocultation].
      • O que aparece como pura clareza é atravessado pela obscuridade.
    • Parmênides pressente essa estrutura, mas não a pensa explicitamente.
      • Héraclito é o único pré-socrático que exprime a co-pertença de ocultação e desocultação.
    • Górgias, ao contrário, rompe essa co-pertença.
      • Ele separa radicalmente discurso e ser.
      • Funda assim a retórica como técnica do discurso sem compromisso com a verdade.
    • Sua crítica não conduz a uma ontologia negativa, mas à autonomia total da linguagem.
      • O logos torna-se independente do ser.
      • O discurso vale por sua eficácia persuasiva, não por sua relação com o desvelamento.
  • Da sofística ao ceticismo: a figura de Pirro
    • O verdadeiro contraponto à ontologia parmenidiana não é Górgias, mas Pirro.
      • O ceticismo nasce em um contexto histórico distinto, após o colapso da pólis clássica.
      • Trata-se de uma filosofia do fim de uma época, não do nascimento da filosofia.
    • Pirro nada escreveu; sua doutrina é conhecida por testemunhos indiretos.
      • Ele afirma a indiferença, indeterminação e indecidibilidade das coisas.
      • Nem sensação nem juízo dizem o verdadeiro ou o falso.
    • A atitude fundamental é a epokhē [suspension of judgment].
      • Não afirmar nem negar.
      • Não tomar partido.
    • Dessa suspensão decorrem dois estados:
      • Aphasia [speechlessness], impossibilidade de dizer.
      • Ataraxia [imperturbability], serenidade diante do mundo.
    • Segundo Marcel Conche, o ceticismo pirrônico vai além da simples suspensão do juízo.
      • Ele implica a dissolução universal dos entes.
      • Não há mais ser, nem mesmo como problema.
    • A diferença entre aparência e ser é abolida.
      • Surge a noção de uma “aparência absoluta”.
      • O aparecer não remete mais a um fundo ontológico.
    • O preço dessa crítica radical é o silêncio.
      • O ceticismo culmina na impossibilidade do discurso filosófico.
      • Assim, a resposta extrema à ontologia negativa não é um contra-discurso, mas a aphasia.
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