estudos:daseinsanalyse:boss:pensar-diferente
Pensar diferente
MBPD
* Uma paciente que ensinou o autor a ver e pensar diferentemente
- O quadro clínico
- A paciente, a quem se dará o nome de Dra. Cobling, formou-se existencialmente no ambiente rigorosamente ascético de uma comunidade sectária, cuja ética se orientava por um zelo desmedido pela mortificação da carne e por uma suspeita sistemática de tudo o que pertence ao âmbito corporal.
- Uma autoimagem inexorável, inculcada desde a infância como dever incondicionado, exigia autonegação permanente e sacrifício contínuo à obrigação, de tal modo que o valor de si se confundia com a capacidade de renunciar a si.
- Sob a pressão desses imperativos e graças a uma inteligência excepcional, a uma vontade positivamente indomável e a uma autodisciplina resoluta, ela ascendeu até a direção médica de um importante sanatório psiquiátrico, apesar de dificuldades externas consideráveis.
- Durante anos, ela se devotou sem reservas ao serviço da instituição, cujo benefício era amplamente usufruído por outros, ao mesmo tempo em que ela própria se consumia, por exaustão, na forma de uma doação sem retorno.
- Nesse processo de desgaste, ela chegou, aos trinta e seis anos, pouco antes do início da análise, à beira de um colapso total, como se o modo anterior de existir não pudesse mais sustentar-se sem se romper.
- Desde a juventude, ela sofrera episódios depressivos repetidos, por meses, interpretados medicamente como distúrbios endógenos, ainda que, até então, tivesse conseguido atravessá-los sem ajuda externa, como se a própria rigidez fosse o seu único recurso.
- Um ano antes do início da análise, a morte do pai idoso marcou um ponto de inflexão, a partir do qual sua vida interior declinou de modo evidente, expondo a fragilidade do voluntarismo que a sustentava.
- Ela se retraiu ainda mais para dentro, tornou-se incapaz de sentir, experimentou uma petrificação espiritual, deixou de pensar e perdeu a capacidade de reter ou apreender o que lia, como se o sentido se esvaziasse antes de alcançar a consciência.
- A iniciativa e a concentração se extinguiram, de modo que ela permanecia por horas olhando o vazio, sem pensamentos e sem senso de tempo, vivendo uma suspensão da temporalidade cotidiana.
- Ela passou a sofrer de insônia e tensão, e apenas mediante esforço prodigioso de vontade, apoiado por sedativos potentes, conseguia manter-se parcialmente em suas tarefas rotineiras, como se a vida se reduzisse a uma manutenção mecânica.
- Um tremor fino, rápido e marcado nas mãos, assim como a dilatação máxima das pupilas, testemunhavam um nível muito elevado de ansiedade, ainda que a própria paciente relutasse em admiti-lo.
- Um estranho constrangimento ao suicídio a dominava, quase irresistível em sua insistência, configurando um estado pré-psicótico altamente perigoso.
- Quando a análise se iniciou, o esforço de conter os impulsos autodestrutivos havia exaurido tanto sua força física que ela mal conseguia arrastar um pé diante do outro, como se o corpo já não respondesse à intenção.
- A irrupção dos fenômenos psicóticos após a suspensão do trabalho
- De início, o terapeuta a instou a não levar a extremos a própria soberba e a violência contra si, a reconhecer a incapacidade de trabalhar e a permitir-se, pela primeira vez, o “luxo” da inatividade, isto é, a interrupção do regime de dever como único fundamento de si.
- Tão logo ela abandonou as atividades profissionais, renunciando ao último resíduo do modo de vida anterior, os primeiros sintomas psicóticos manifestos apareceram, como se o mundo até então sustentado pela disciplina perdesse sua coesão.
- À luz do dia, rostos e uma profusão de “máscaras elétricas” começaram a girar diante de seus olhos, inicialmente com as feições de senhoras assistencialistas amargas que a cercaram na juventude e às quais a mãe pertencia.
- Em seguida, aparições sinistras de pregadores sectários bem conhecidos por ela se formaram para atormentá-la, intensificando a dança caótica das máscaras até um frenesi que parecia abolir a ordem do visível.
- Não apenas algo estranho irrompera em seu ver, mas também seu ouvir já não era o mesmo, de modo que todo som adquiria um sentido inquietante e fatal, como se o mundo inteiro se tornasse presságio.
- O zumbido distante de um avião, o ruído de uma motocicleta nas ruas, as gotas de chuva no telhado e o ranger da cadeira do psiquiatra tornaram-se portadores de significações ominosas, anunciando desastre e catástrofe iminente.
- Ela sentia o mundo entrar em dissolução, e descrevia sua condição como uma fixação compulsiva em cada som até seu desaparecimento, como se os sons a consumissem e sua totalidade se concentrasse nos ouvidos.
- A compressão do ser na audição tornava os ouvidos doloridos, com músculos temporais, mastigatórios e do pescoço tensionados “como pedra”, numa corporificação direta do terror sem objeto.
- Vozes acusatórias e delírios persecutórios organizados
- Semanas depois, ela passou a queixar-se de um sussurro de mulheres de igreja no ar, que a acusavam de ser “má”, “prostituta” e “puta”, instaurando uma culpa persecutória que se impunha como certeza.
- Ela tentou defender-se dessas acusações severas a ponto de colocar cera nos ouvidos, mas as vozes mantinham a primazia, como se a defesa apenas confirmasse a intrusão.
- Logo ela também se sentiu perseguida por homens, e a perseguição tornou-se um sistema, no qual a própria comunicação era suspeita e interceptada.
- Em certa noite, telefonou ao analista e só ousou sussurrar, alegando que as mulheres da igreja haviam grampeado a linha e poderiam escutar, preferindo escrever o que aconteceria à meia-noite e depositar no correio do analista.
- O documento entregue, intitulado “Documentos Importantes Altamente Secretos”, expunha um cenário de invasão à meia-noite, com tropas disfarçadas em motocicletas usando grandes óculos laranja-avermelhados como máscaras.
- Ela supunha que esses invasores pertenciam aos “vermelhos”, mas vindos do espaço, capazes de tornar-se minúsculos “como piolhos” para entrar por frestas, de modo que ela permanecia vigilante, especialmente em cantos e sob a mesa.
- Sinais secretos se manifestariam em batidas e ruídos, e, como preparação, ela se olhava no espelho, julgando bom que seu rosto estivesse “morto”, para enganar os invasores, enquanto penteava e escovava o cabelo como proteção do cérebro.
- Ao escovar-se, pressentia outras faces por trás de sua “máscara morta”, sugerindo uma pluralização do eu sob a unidade rígida do dever.
- Ela acusava os psiquiatras de tentarem impedir que ela “vivesse” a invasão, reduzindo-a a forças inconscientes reprimidas ou a imaginação descontrolada, e os chamava de tolos por carecerem de sensibilidade interior para perceber sistemas “Geiger” e “Radar”.
- Ela descrevia a necessidade de um “olhar interior” ou “visão” para ver formas disfarçadas, comparando-o ao treinamento para notar escorpiões ao entrar num quarto, isto é, como uma fenomenologia do perigo que se faz imediatamente presente.
- Ela cogitava juntar-se aos invasores para expandir-se no mundo e reivindicar um poder inimaginável, “um bilhão de vezes mais forte que a energia atômica”, prometendo penetrar os segredos mais ocultos do universo.
- Essa potência seria maior que a de Deus e colocaria teólogos em aporia, pois “Deus teria iniciado algo que já não controla”, enquanto sistemas teológicos tentariam “salvar sua face” por meio da ideia de livre-arbítrio e da guerra contra Satanás.
- Para ela, após a invasão, alguém seria “ainda maior que Deus” por estar além do bem e do mal, sustentado por uma reação em cadeia que aboliria a necessidade de sono e alimento.
- Ela reconhecia o caráter destrutivo dos invasores, mas os julgava não inteligentes, de modo que a estratégia seria fazer-se amigo deles e aprender seus segredos, retirando-lhes o poder.
- Ela afirma que o autor, Boss, seria informado, pois, embora seu discernimento fosse limitado, haveria nele compreensão e disposição para aprender, e haveria algo em comum entre ambos.
- Ela mantinha prudência diante de “teólogos anêmicos” e mulheres de igreja que tentariam investigar, evitando falar ao telefone por acreditar em interceptação, e declarando-os “já condenados a morrer”.
- O desafio da paciente
- O psiquiatra inicialmente esperava poder dialogar “razoavelmente” com uma paciente inteligente e colega mesmo em psicose, adotando o método de “persuasão” de Dubois, com o propósito de fazê-la distanciar-se dos fenômenos visuais e auditivos.
- Ele tentou reduzir as vivências a meras alucinações sem realidade, e, intensificando o esforço racional, rotulou-as como expressões e resultados de um metabolismo cerebral perturbado.
- Para “provar” a explicação, ele evocou as curvas agitadas de um eletroencefalograma, como se o registro fisiológico fosse fundamento suficiente do sentido.
- A paciente reagiu com riso e desprezo às explicações naturalistas, sustentando que nenhuma percepção ou pensamento, comum ou incomum, poderia ser derivado de modo inteligível de processos metabólicos, funções nervosas ou “atividades nervosas superiores”.
- Ela exigiu que se esclarecesse como processos físicos se transformariam em fenômenos mentais imateriais, ironizando a hipótese como uma espécie de “evaporação mágica”.
- O médico recuou para uma conciliação: fisiologia e fenômenos mentais seriam dois aspectos de uma mesma coisa, a primeira descrevendo em termos espaço-temporais, a segunda em termos de fenômenos subjetivos como “reflexos” de processos fisiológicos.
- Para reforçar a posição, ele comparou o reflexo subjetivo à luz refletida de um objeto que cria imagem numa placa fotográfica, julgando essa explicação “moderna” e aprendida em um manual de medicina psicossomática.
- A paciente desmontou a analogia perguntando qual teria de ser a natureza do córtex para entrar numa relação compreensiva e reveladora de sentido com o mundo, isto é, como um tecido orgânico poderia participar de significação.
- Ela perguntou em que os processos fisiológicos “se refletiriam” subjetivamente, se numa consciência de um sujeito, e, então, qual seria a natureza desse sujeito para possuir consciência.
- Ela exigiu que se explicasse o que é consciência e onde ela estaria, se “dentro da cabeça” ou em outro lugar, e se seria ela própria a “placa fotográfica”, enfatizando que uma placa não percebe o que nela se imprime como o que é.
- Diante do fracasso fisiológico, o psiquiatra recuou para uma psicologia pura, concedendo que as alucinações não eram “nada”, mas insistindo que não correspondiam a realidade externa e representavam apenas uma realidade psíquica interna de emoções e tendências ocultas.
- Ele sustentou que tais realidades internas seriam projetadas de camadas inconscientes profundas sobre objetos externos, assumindo um “recipiente intrapsíquico” de conteúdos.
- A paciente tratou essa psicologia ainda pior, atacando a pretensão de subdividir “realidade” em subjetiva e objetiva, psíquica e externa, como se uma fosse real e a outra fictícia, e exigiu que se definisse o que seria “alucinação” sem compreender antes a realidade dita não alucinatória.
- O ataque, apesar do diagnóstico esquizofrênico, apresentava objeções incontestáveis, obrigando o psiquiatra a uma reavaliação integral do próprio pensamento.
- A necessidade de abandonar psicologias tradicionais e olhar a existência
- O psiquiatra buscou apoio em psicologias europeias centradas em “sujeito” ou “pessoa”, mas não encontrou descrição da natureza dessas noções que explicasse como alguém pode perceber algo como significativo.
- Persistia a ignorância acerca da possibilidade de um encontro revelador de sentido entre sujeito e objeto, pessoa e coisa, ou pessoa e outro ser humano.
- Tornou-se necessário deixar para trás psicologismos, subjetivismos e personalismos e voltar-se à própria paciente, gesto simples e tido como “não científico”, que se tornou possível pela descoberta oportuna dos ensinamentos da análise do Dasein.
- As produções gráficas passaram ao centro: máscaras surgiam no papel “como sem agência”, aparecendo “do nada”, emergindo por trás da folha, e “olhando” para ela, instaurando um aparecer que excede a vontade.
- A paciente descrevia que os desenhos sempre começavam do ponto médio entre as sobrancelhas, primeiro com os olhos, às vezes sem contorno de cabeça, como se as feições flutuassem entre universo e nada.
- O terapeuta também retomou a gênese das alucinações auditivas: uma escuta intensificada como se o ar contivesse mensagem prenhe de horror, até que a paciente “se tornasse apenas ouvido”.
- O sofrimento não se vinculava a “algo” determinado, mas a uma ghastliness indizível e a um iminente desaparecer de tudo no nada, que então liberava o sussurro acusatório das gotas de chuva.
- Nesses dados imediatos, não se encontra evidência para postular representações instintuais primárias projetadas de um “inconsciente” como recipiente intrapsíquico, hipótese assumida a priori sem observação.
- Uma vez suspensa a suposição de entidades psíquicas desconhecidas, a realidade da paciente mostra algo diverso: algo se aproxima, interpela e se comunica “de nenhum lugar e de todos os lugares”, não do interior de uma psique individual.
- Esse algo vem “de além” do papel, da distância do avião noturno, dos ruídos de rua e da cadeira do analista, buscando ingresso na consciência e aparecendo como algo do futuro que vem ao encontro do presente.
- Para essa paciente, o que se aproxima é sobretudo o campo fenomenal das formas corporais-eróticas de relação com o mundo, reprimido e interditado por mulheres de igreja e pregadores ascéticos.
- Justamente por proibirem, essas figuras remetem ao que proíbem: a esfera corporal-erótica, que ela não pôde apropriar-se como possibilidade de amar, assumindo-a como pertencente a si de modo responsável.
- Por isso, a relação livre com fenômenos do mundo, sobretudo com um homem como parceiro sexual amado, permaneceu inacessível, enquanto ela foi treinada desde cedo a alienar-se dessas possibilidades como indignas e perigosas.
- Exigiu-se dela ser “sensata”, “distanciada”, “objetiva”, desapaixonada, inteiramente engajada na competência de metas racionais, o que inevitavelmente sobrecarregou de modo exorbitante suas faculdades intelectuais.
- Mesmo que o encontro livre com certos domínios seja obstruído por egotismo ou por pressões ambientais, nenhum ser humano silencia completamente o apelo do que está destinado a aparecer na luz de uma existência.
- Assim, os domínios sensuais não admitidos passaram a assediar audição e visão de forma ainda mais insistente, porém constrangida: o que ela evitara olhar agora a olhava em máscaras “alucinatórias” e a espionava “paranoicamente” nos recessos da vida.
- A nova abordagem do terapeuta: deixar os fenômenos serem
- Animado pelos próprios achados, o terapeuta arriscou uma abordagem direta e confessou que não há sentido em dar prioridade a uma realidade sobre outra, como se um objeto comum fosse mais real que os “espiões” apenas por ser compartilhado.
- Propôs deixar ambos como fenômenos que se mostram, concentrando-se então no conteúdo de sentido daquilo que se desvela.
- Sustentou que reduzir os espiões a ficções, imaginação ou projeções do inconsciente produz termos vazios, pois não se determina com clareza o que seria “psíquico” ou “imaginação”, nem onde tais imagens estariam.
- Indicou que a realidade dos espiões se revela no que fazem: espionar, o que implica preparação para guerra, antagonismo, barreira mútua e desejo de aniquilar ou dominar.
- Convidou a paciente a permitir que tudo tenha direito de ser, a manter-se aberta ao que quer vir, ainda que a estrutura anterior de sua existência se mostre pequena e tenha de morrer.
- Sugeriu abandonar a luta e dar aos espiões pleno poder para agir, “e ver o que acontece”, deslocando a terapia do combate para a disponibilidade.
- A descoberta do terapeuta e a abertura infantil
- A paciente sentiu-se compreendida até o fundo e depositou confiança inabalável no terapeuta, o que a levou a suportar as vozes e os espiões com uma aceitação quase religiosa.
- Ela suportou torturas alucinatórias, choques elétricos e mutilações, sustentada pela fé no terapeuta, mostrando que o vínculo de confiança se tornara o eixo do tratamento.
- O terapeuta foi “recompensado” por um novo achado: um sonho em que ela assumia uma divisão neurológica e encontrava uma menina com meningite, acreditando que a única esperança seria drenagem prolongada do líquido cerebrospinal.
- Ao despertar, a paciente associou espontaneamente a drenagem do sonho ao “tap” analítico que vivia, e o analista notou que a doente era uma menina e que a doença estava na cabeça.
- Pouco depois, rostos de meninas começaram a misturar-se às percepções ópticas da vigília, seguidos por rostos de crianças ainda menores e saudáveis, irradiando confiança.
- O terapeuta destacou a diferença entre máscaras deformadas de adultos e rostos saudáveis de crianças, e perguntou se essas crianças não pertenciam à parte de seu mundo que permanecera saudável e feliz.
- Ele sugeriu que, se ela podia perceber crianças normais, então poderia viver também como uma criança feliz, talvez a forma mais autêntica e não distorcida de si.
- Propôs que, na análise, ela se permitisse ser “a criança” completamente, sem restrições, obedecendo à regra analítica de dizer tudo, para que a drenagem necessária começasse e a “inflamação” do cérebro, ligada à sobrecarga intelectual, pudesse ceder.
- Essa permissão de ser criança funcionou como “abre-te sésamo”, rompendo as comportas que retinham suas potencialidades, como se ela tivesse esperado a vida inteira por tal autorização.
- A fachada do modo anterior de vida, hiperconsciencioso, viciado em trabalho e metas, rompeu-se, e irromperam impulsos infantis de chupar o dedo, chutar e gritar.
- Em casa, ela passou a brincar com excrementos, pintando grandes folhas cujo odor denunciava à distância, e também a cobrir o corpo com fezes no banho.
- Ela levou espontaneamente uma mamadeira com leite morno adoçado e pediu que o analista a alimentasse enquanto ela se encolhia como um bebê no divã.
- Para o curso da terapia, tornou-se vital permitir atuação infantil irrestrita e aceitá-la plenamente como ela se mostrava, pois qualquer traço de nojo, condescendência ou sorriso indulgente reencenaria o papel dos pais ascéticos e destruiria a possibilidade de reencontro consigo.
- Ela sentia que o ato de se cobrir de fezes beneficiava magicamente o universo e desejava que a menstruação viesse para cobrir-se de sangue, imaginando nisso uma “libertação” de fissão atômica.
- Essa permissão trouxe benefício concreto: cessaram dores de cabeça quase insuportáveis, a cabeça tornou-se leve, e ela experimentou pela primeira vez a sensação de unidade consigo, completa e inteira.
- O êxtase infantil, porém, durou poucos dias, e a atitude permissiva do terapeuta começou a evocar sentimentos de amor e gratidão, que a implicavam diretamente e não se encaixavam em sua postura científica nem no altruísmo dutiful imposto pela educação.
- Por isso, tais sentimentos foram vividos como estranhos, perigosos e pecaminosos, desencadeando experiências dolorosas e perturbadoras.
- O retorno da perseguição ao tocar o campo erótico-adulto
- Ao esperar um bonde para um concerto, ela encontrou uma mulher sofisticada vestida de preto, cujo olhar desdenhoso produziu sensação inquietante; ela tentou mantê-la à vista e a perdeu na multidão.
- Ao descer do bonde, sentiu alguém puxar seu braço e, ao virar-se, não viu ninguém, interpretando isso como ação da “mulher diabólica” de preto.
- Na sala de concerto, a mesma mulher sentou-se ao seu lado, e a paciente, tomada de horror, ficou rígida e quase não ouviu a música, certa de que um sinal de aniquilação do mundo seria dado por ela ou pelo maestro.
- Ela fugiu do concerto, e no dia seguinte recusou visitar uma amiga por crer que ela estava implicada num complô para destruí-la.
- No restaurante habitual, pôs óculos escuros por acreditar que malfeitores fizeram algo a seus olhos; ao comer, sentiu cólica e interpretou como envenenamento, e então as máscaras retornaram após o “paraíso infantil”.
- O analista voltou a pedir que ela desenhasse os rostos, e, entre feições austeras e faces demoníacas, surgiu o primeiro traço de uma mulher sensual, sedutora, com máscara preta nos olhos.
- A paciente não notou o elemento novo, e o analista precisou chamá-la à atenção; ela explicou que os desenhos não emanavam dela, mas vinham “através das mãos”, como se as faces viessem do espaço além do papel e a olhassem de volta.
- Ambos nomearam essa figura de “Dama do Carnaval”, e o terapeuta sugeriu que nela um domínio do eu, bloqueado, tentava desvelar-se: as potencialidades femininas e eróticas de uma mulher adulta.
- Em seguida, apareceram rostos de meninas com expressão disponível e, por fim, personagens explicitamente libertinas, como se a abertura ao feminino maduro se impusesse por via imagética.
- Tal abertura trouxe alívio inicial: energia nova, expedições, cursos, retomada da leitura, ausência de medo de estranhos e sono prolongado sem medicação pela primeira vez em vinte anos.
- Contudo, a tirania da mentalidade parental ascética resistiu e, após poucos dias, retornaram as mulheres de igreja, sussurrando que ela era “vadia” e que em breve se masturbariam em público, reativando vergonha e vigilância.
- A passagem do “substituto” não pessoal ao assumir responsável do impulso
- Apesar da resistência, o analista, orientado por um sonho, avançou: ela sonhou que uma colega fazia tratamento de choque insulínico, teve convulsão e depois se sentiu bem.
- O terapeuta lembrou que, acordada, ela pedira choque insulínico para obter uma convulsão medicamente induzida, uma “explosão” farmacológica que permitiria abandono apaixonado sem pessoalidade e sem responsabilidade.
- Ele perguntou por que ela não podia, nem em sonho, deixar-se ir por conta própria num acesso genuíno, e por que se contentava com o substituto artificial, ainda delegando a convulsão a uma “colega” em vez de assumi-la.
- Como reação, irrompeu o primeiro impulso: ela quis gritar e insultou o analista; ao ser desafiada a fazê-lo, disse que as pessoas pensariam que alguém estava sendo morto.
- O analista questionou a necessidade de acomodar-se tanto às opiniões alheias, e ela admitiu que sempre fizera apenas o que outros esperavam, nunca agindo espontaneamente conforme sentia.
- Ao ouvir a observação “tão terrivelmente boa, sempre”, ela conseguiu emitir um grito abafado, e, incentivada a ser “quase tão alto quanto uma criança de verdade”, gritou novamente com mais raiva.
- Após breve silêncio, ela reconheceu sentir-se “quase” sexualmente excitada, e, provocada pelo “quase”, agitou-se no divã, sendo interrompida pelo fim da sessão.
- Ao sair, disse não se reconhecer mais e perguntou quem era, e o analista respondeu que era isso que ela viera descobrir.
- Uma melhora breve e um retorno abrupto do horror corporal
- Dois dias depois, ela começou dizendo que beber da mamadeira naquele dia significaria fugir das sensações sexuais na pelve, e tentou desculpar-se por ter mandado o analista calar-se.
- O analista confrontou a nova propriedade, lembrando que ele próprio exigia abertura absoluta e honestidade, e ela então se alongou relaxadamente e disse sentir-se forte e una consigo como não se sentia havia décadas.
- Por dois dias, não houve traço de influências ou vozes, e ela pôde encontrar pessoas na rua, em restaurantes e no teatro com naturalidade, chegando a rir do que chamou de “lixo bobo”.
- Contudo, no meio da sessão, seu bem-estar foi interrompido por silêncio tenso e apreensivo, e ela confessou um impulso súbito de despir-se e correr nua para a rua, que a aterrorizou.
- Ela disse sentir um horror “de baixo”, preferindo sentar-se para “forçar para baixo”, apesar de reconhecer-se anatomicamente normal, e ainda assim sentir “um buraco enorme e nojento” onde deveria haver um corpo próprio assumido.
- Ela saiu deprimida e tensa e, à noite, telefonou dizendo não suportar tamanha tensão; depois, numa segunda ligação, gritou desejar rasgar o ventre com uma faca grande, cortar artérias e sugar o próprio sangue, salivando só de pensar.
- O terapeuta foi imediatamente, encontrou-a distraída, escutando sons como esquizofrênicos alucinatórios, sobressaltando-se a cada ruído, e ela voltou a afirmar que cada som tinha significado inquietante.
- Intervenção: a destruição do mundo neurótico como passagem e não fim
- Diante do terror intolerável de desastre sem forma, o terapeuta perguntou como alguém poderia melhorar sem que o velho mundo neurótico colapsasse, pois ele é estreito e rígido demais para sobreviver.
- Ele sugeriu que a destruição da prisão neurótica não é fim, mas mudança do modo de aparecer do ser essencial, e que a ansiedade extrema nasce do erro de crer que o mundo egocêntrico neurótico é a única possibilidade de existência.
- A paciente sorriu com incredulidade e confiança nascente, mas voltou a chocar-se ao ver desenhos sanguinários espalhados no chão, retraindo-se outra vez.
- O terapeuta disse casualmente que ela temia impulsos sanguinários e que isso era um segundo erro: o suicídio seria sempre um engano por escolher o meio errado.
- Ele interpretou o desejo de cortar o corpo e ver sangue como tentativa corporal de abrir o que ela ainda não ousava abrir no coração, isto é, deixar fluir sentimentos, inclusive admitir que gosta do terapeuta porque ele tenta ampará-la.
- Essa interpretação reduziu drasticamente a tensão, e ela perguntou se poderia realmente gostar dele, temendo pedir demais e tornar-se um fardo se ficasse dependente.
- O terapeuta respondeu com a imagem do recém-nascido que tem direito legítimo ao cuidado parental, e que nela haveria “direito duplo” por ter sido privada do necessário quando pequena.
- Ele evocou material biográfico: a mãe, extremamente eficiente, administrava um tipo de hotel doméstico para dezenas de estranhos necessitados, mas não tinha tempo para os próprios filhos.
- A paciente foi alcançada por esse convite e voltou no dia seguinte com a mamadeira, entregando-se novamente ao ser-criança, dizendo que assim era “realmente ela mesma” e que as vozes e ruídos desapareciam, embora fosse exaustivo ouvir um “dínamo de sons” vindo de fora.
- Por duas semanas, quase nada ocorreu além de ela ficar em posição fetal e ser alimentada, e então dormiu maravilhosamente, oito a nove horas seguidas, sentindo essa permissão como base firme onde se estabelecer.
- Ela disse que, sem isso, teria enlouquecido para sempre, e que precisava dessa base antes de envolver-se em “sentimentos maiores”, perguntando com horror se teria de crescer logo e abrir mão dessa segurança.
- O terapeuta a tranquilizou: não se preocupar com crescer, mas permitir-se ser exatamente o que é, tão plenamente quanto quiser e pelo tempo que quiser, pois o crescimento virá a seu tempo.
- O medo então desapareceu e ela afirmou nunca ter estado tão aberta e pacífica na vida; ao fim dessa fase, notou com mistura de surpresa e apreensão que os sentimentos pelo terapeuta voltavam a aparecer.
- Um sonho incestuoso e a recaída ao assumir o papel adulto
- Na noite seguinte, ela teve um sonho grosseiramente incestuoso com o pai e o narrou com casualidade suspeita, mudando abruptamente para tema médico, como se tentasse neutralizar afetos pelo registro técnico.
- Horas depois, telefonou desesperada: ao sair da sessão já sentira algo inquietante, e ao falar de medicina “não era ela” que estava ali, mas uma mulher enorme e estranha ao lado, perdendo-se no papel adulto da médica.
- O pior foi que ela já não conseguia “ver” o terapeuta, apesar do gesto de mão, sentindo como se tivesse perdido de repente pai e mãe, e reconhecendo que tentava “trapacear” ao fazer-se adulta.
- Ela foi à cidade comprar roupas bonitas para ser atraente, mas diante da loja viu um homem anotando num caderno, convencida de que ele registrava seus planos para reportar à polícia, o que a aterrorizou.
- De volta, retornaram tensões nos ouvidos e base do crânio, dores de cabeça excruciantes e o “dínamo” de ruídos, obrigando-a a escutar cada carro para captar o significado terrível, ficando “amarrada” nos ouvidos.
- O analista disse que os sentimentos por ele, ligados ao sonho com o pai e ao desejo de ser atraente, eram grandes demais e ainda ingovernáveis para a criança que ela é, e sugeriu que ela não fizesse nem quisesse fazer nada sem antes consultar a “menina” dentro dela.
- Assim que ela se entregou novamente a ser criança, a segurança retornou e as manifestações psicóticas desapareceram.
- Da pintura bidimensional ao modelar tridimensional: cruz e dançarina
- Nesse período, o desenho e a pintura foram substituídos por modelagem tridimensional, como se o conflito precisasse de corpo e volume para se expressar.
- Ela se via compelida a modelar uma figura feminina rígida como um crucifixo, que, ao finalizar, se transformava aparentemente espontaneamente, nas mãos, em uma menina dançante graciosa.
- Cruz e dançarina disputavam continuamente um lugar em seu mundo, expressando o antagonismo entre ascese e erotismo, sacrifício e vitalidade.
- A solução só veio mais tarde, num exercício meditativo criado por ela, quando percebeu que Deus permeia tudo, inclusive uma dançarina prostituta, isto é, quando o sagrado deixa de servir à exclusão.
- Alternância de fases e previsão do agravamento ao tocar o feminino adulto
- Repetidas vezes, fases opostas alternavam: a criança feliz sem sintomas e a psicótica atormentada, e a fase patológica era previsível sempre que ela se confrontava com o âmbito sensual e emocional da feminilidade adulta.
- A exacerbação esquizofrênica mais veemente durante a análise foi precedida por três sonhos que anunciavam essa confrontação, mostrando a função antecipatória do sonhar.
- No primeiro sonho, uma grande cobra circulava ao redor, aproximando-se como um gato em torno de leite quente, e ela precisava saltar incessantemente para escapar, até acordar exausta e apavorada.
- O terapeuta perguntou se não era compreensível que ela estivesse sempre sem força para trabalhar se gastava toda energia nesses saltos contínuos para evitar a serpente, mensageira do âmbito sensual e terreno.
- Ela temia que cobras saíssem dela ou que ela se tornasse cobra, pedindo instruções de comportamento, e o analista observou o traço característico de buscar “conduta correta” mesmo ao imaginar-se serpente.
- No segundo sonho, o ditador Hitler entrou no quarto; ela o achou particularmente repulsivo por sua testa baixa e aspecto brutal, e tentou conversar falando de estatísticas sobre doença mental na Alemanha, encerrando o sonho nessa relação técnica.
- O analista indagou por que apenas um ditador inferior era permitido no mundo do sonho e por que a relação com ele se fazia somente por discurso científico, isto é, por dessexualização e objetificação.
- A paciente admitiu que homens lhe eram incompreensíveis e que teria pavor mortal de aulas de dança e de ser convidada a dançar, sentindo-se à vontade com colegas apenas ao falar de medicina.
- No terceiro sonho, um incêndio começou numa loja de departamentos onde ela mandara roupas para “atualizar a moda”; horas depois, surgiu urticária severa por todo o corpo, especialmente nas faces internas das coxas.
- O analista registrou silenciosamente a comunicação corporal e recapitularizou: algo ligado ao desejo feminino de ser atraente “pegou fogo”, mas o sonho não a mostra queimando, apenas a loja, e o fogo da vitalidade aparece como conflagração destrutiva e perigosa.
- A fase de bem-estar era restaurada ao reconduzi-la ao horizonte pré-sexual da criança, não como jogo científico, mas como medida indispensável para tornar acessível um amadurecimento real e integrar potencialidades numa autonomia madura.
- O tratamento exigia ampliar gradualmente o que se pedia dela para sustentar exposições ao assalto de domínios da vida nativos ao amor adulto.
- Direção final: reconstrução criativa e abertura ao mundo erótico comum
- No início da fase final, um sonho indicou nova direção: ela entrou numa casa grande e espaçosa, vazia e dilapidada, sentiu-se desanimada, mas viu dois operários renovando, que reconheceu como Michelangelo e Picasso, e então sentiu que tudo ficaria bem.
- Após o sonho, ela reconheceu o próprio talento de desenho, tomou-o a sério como seu melhor, e iniciou formação como escultora, assumindo a criação como possibilidade existencial própria.
- Ela passou também a apropriar-se progressivamente das potencialidades sensuais-eróticas antes temidas e repelidas, num processo análogo ao que se observa em terapias bem-sucedidas de neuroses.
- Um sonho esclareceu o progresso: ela era docente universitária e daria aula a estudantes de medicina sobre Amphioxus lanceolatus; ao entrar, percebeu que já dera a aula a todas e não havia sentido em repetir; começou a rir e todas riram, e esqueceram a aula, conversando cordialmente sobre vida sexual.
- Mesmo que a relação inicial com a sexualidade apareça ainda como remota e intelectual, tematizada como conferência científica sobre um vertebrado primitivo, ela abandona o velho gesto objetificante e se abre a uma atmosfera quente e afável de fala direta sobre sexualidade.
- Um ano antes, a aproximação desse domínio teria precipitado recaída psicótica severa, como testemunha o sonho com Hitler seguido de ruptura; agora, o sonho indicava esperança de relacionar-se livremente com o erótico também na vigília.
- Com isso, o campo sensual-erótico poderia aparecer sob a luz da existência como fenômenos do mundo cotidiano compartilhado, e não mais como “coisas alucinadas”.
- Sete anos de observação transcorreram desde esse sonho e, até então, nenhum vestígio de sintomatologia esquizofrênica reapareceu.
- Testemunho final da paciente e justificativa teórica
- Ao fim da última sessão, a paciente perguntou espontaneamente o que, no tratamento, a curou, e respondeu que primeiro foi o fato simples de o terapeuta estar sempre disponível, de dia e de noite, por telefone e presença, sempre que necessário.
- Por longo tempo, ela não acreditou que alguém estaria realmente disponível, e só lentamente aprendeu a confiar, porque dezenas de experiências mostraram que não era abandonada, e então ousou “viver através” dele até sentir a própria força crescer.
- Da confiança na confiabilidade do terapeuta nasceu uma fé crescente no mundo como nunca tivera, pois antes vivia apenas de força de vontade, suspendendo-se no ar por si mesma, e a fé nele lhe deu coragem de assentar-se no chão de sua existência.
- O segundo fator, igualmente decisivo, foi a compreensão do terapeuta acerca dos delírios paranoides e das alucinações, levados a sério, de modo que o reconhecimento de seu valor e sentido permitiu perceber a totalidade do próprio eu e a unidade entre si e o mundo.
- Pode-se objetar que muitos bons psicoterapeutas e psicanalistas poderiam agir assim intuitivamente sem conhecer a Daseinsanalyse, e isso não é negado, embora o autor afirme que teria ficado perdido sem a compreensão daseinsanalítica do humano.
- Sustenta-se que, até aqui, apenas os insights daseinsanalíticos podem explicar explicitamente por que tais técnicas intuitivas atendem melhor às necessidades genuínas do paciente do que as tradicionais, tornando o tratamento menos dependente de lampejos e mais confiável.
- Por isso, solicita-se que se acompanhe a exposição mais sistemática das características principais do pensamento daseinsanalítico nos capítulos seguintes, ainda que a aplicabilidade concreta só se torne clara progressivamente, recomendando-se aos menos inclinados à reflexão que avancem diretamente às partes posteriores e aos estudos de caso.
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