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estudos:daseinsanalyse:binswanger:esquizofrenia

Esquizofrenia

BWLB

  • Introdução à esquizofrenia
    • Reúne-se neste volume um conjunto de estudos cujo propósito é alcançar uma compreensão mais profunda da estrutura e do desdobramento das formas de presença humana que a psiquiatria clínica designa como esquizofrênicas, sem partir de resultados previamente esperados, mas deixando-se instruir exclusivamente pelos próprios casos.
    • A escolha das histórias clínicas fundamenta-se na convicção de que, à época, a compreensão antropoanalítica da esquizofrenia ainda se encontrava em estado inicial, exigindo uma aproximação lenta, gradual e livre de preconceitos teóricos.
    • Estabelecem-se critérios para a seleção dos casos: a presença de material clínico e bio-histórico suficientemente rico, incluindo autodescrições amplas; a exclusão de estados finais demenciais; a possibilidade de acompanhar o desenvolvimento histórico da presença; e a diversidade tipológica dos casos estudados.
    • Reconhece-se que o delírio, especialmente o delírio de perseguição, constitui o ponto culminante do problema da esquizofrenia, razão pela qual vários dos casos analisados pertencem a essa modalidade clínica.
  • Princípio da ordem antropoanalítica
    • Coloca-se como questão fundamental o problema da ordenação do vasto e heterogêneo material biográfico, psicológico, psicopatológico e biológico reunido sob a designação clínica de “caso”.
    • Diferencia-se radicalmente a ordenação antropoanalítica daquela praticada pela psiquiatria clínica, que reduz os dados a sintomas mediante uma dialética naturalista.
    • A ordem antropoanalítica situa-se aquém das distinções entre normal e patológico, interpretando todos os dados como modos de presença, de seu desdobramento histórico e de sua realização existencial.
    • Tal ordem só é possível porque a presença possui uma constituição própria de seu ser, cujos traços a priori foram elucidados pela analítica existencial, permitindo falar de desordens estruturais do ser-da-presença.
  • Coerência e incoerência da experiência
    • Define-se a experiência natural como aquela em que a presença se move de modo não reflexivo, não problemático e discreto, numa sequência coerente com as coisas, com os outros e consigo mesma.
    • Essa coerência funda-se no deixar-ser dos entes, isto é, na capacidade de permanecer junto às coisas e às situações sem violentá-las ou subordiná-las arbitrariamente a ideais.
    • Introduz-se como conceito fundamental para a compreensão da esquizofrenia a ruptura dessa coerência, denominada incoerência da experiência.
    • A incoerência manifesta-se como impossibilidade de deixar-ser as coisas no encontro imediato, gerando fissuras na experiência e impedindo seu desenvolvimento livre.
  • Incoerência da experiência nos casos clínicos
    • Mostra-se, a partir dos casos analisados, que a incoerência frequentemente se faz presente desde a infância, assumindo formas diversas conforme a história e a situação vital de cada presença.
    • Em Ellen West, a incoerência exprime-se na imposição arbitrária de ideais corporais e existenciais, revelando a incapacidade de aceitar o próprio corpo, a própria vida e o mundo tal como são.
    • Em Jürg Zünd, a experiência fragmenta-se em mundos cindidos e hierarquizados, levando à convicção precoce de um destino de ruína.
    • Em Lola Voss e Suzanne Urban, a incoerência aparece na oscilação entre solicitude excessiva, agressividade reprimida e tentativas mágicas ou delirantes de restabelecer uma ordem perdida.
  • Busca compulsiva de restauração da ordem
    • A presença esquizofrênica não se adapta passivamente à incoerência, mas sofre intensamente e busca incessantemente restaurar a ordem perdida.
    • Essa busca assume a forma de tentativas reiteradas e fracassadas de tapar as fissuras da experiência por meio de ideais, deveres, distrações, atividades ou construções imaginárias.
    • O desejo recorrente de paz, harmonia, abrigo ou fim definitivo da tensão revela a ausência de vias de saída efetivas da situação vital.
    • Antes do colapso final, a presença consome-se na procura de soluções inadequadas, culminando na fixação a um ideal ilusório.
  • Ideal fixado e inadequação à situação vital
    • O ideal fixado caracteriza-se por ser absolutamente inadequado à totalidade da situação vital, não constituindo uma via autêntica de saída, mas erguendo um obstáculo intransponível no desdobramento da presença.
    • A presença agarra-se a esse ideal como único ponto de apoio possível, mesmo à custa de crescente empobrecimento existencial.
    • A inadequação manifesta-se tanto na inutilidade prática dos meios escolhidos quanto na incoerência interna desses meios em relação à lógica afetiva e existencial da situação.
    • O gesto extremo, longe de resolver a tensão, prepara o terreno para novas formas de ruptura, frequentemente culminando no delírio.
  • Cisão em alternativas rígidas
    • A incoerência da experiência divide-se em um aut aut rígido, estruturando-se em alternativas excludentes como poder ou impotência, vitória ou derrota, salvação ou aniquilamento.
    • Esse esquema binário confere uma aparência de ordem ao caos da experiência, mas aprisiona a presença numa luta insolúvel entre polos igualmente inviáveis.
    • A vida passa a oscilar de modo estéril entre essas alternativas, sem possibilidade real de superação ou reconciliação.
    • Quanto mais elevado e absoluto se torna o ideal fixado, mais ameaçadora e explosiva se torna a alternativa reprimida.
  • Modos carentes de existência
    • As alternativas existenciais são deslocadas para planos parciais, como o corpo ou o campo social, na tentativa distorcida de resolver conflitos fundamentais da existência.
    • Em Ellen West, a cisão existencial é transferida para a corporeidade, atribuindo ao corpo a tarefa impossível de resolver a oposição entre vida e morte.
    • Em Jürg Zünd, a cisão desloca-se para o plano social, entre o ideal aristocrático e a naturalidade proletária, como tentativa igualmente fracassada de restaurar a ordem existencial.
    • Esses deslocamentos revelam modos existenciais carentes, marcados pela queda no mundo e pela perda de autenticidade.
  • Cobertura e ocultamento
    • Introduz-se o conceito de cobertura para designar as tentativas contínuas e vãs de ocultar a alternativa reprimida, a fim de sustentar o domínio do ideal fixado.
    • O maneirismo, os rituais compulsivos, os jogos linguísticos ou a solicitude exagerada funcionam como dispositivos de ocultamento da angústia intolerável.
    • Tais estratégias mantêm temporariamente uma aparência de estabilidade, mas aprofundam a alienação da presença em relação a si mesma e ao mundo.
  • Consunção e retirada da presença
    • A luta incessante entre alternativas inconciliáveis conduz à consunção da presença, marcada pelo esgotamento progressivo de suas forças existenciais.
    • A retirada pode assumir diferentes formas: o suicídio, o afastamento da vida social, ou o refúgio no delírio.
    • Em todos os casos, trata-se de uma renúncia à problemática antinômica da existência, seja por um gesto livre extremo, seja por uma capitulação não livre.
  • Delírio como retirada não livre
    • No delírio, a presença não abandona apenas a vida biológica ou social, mas renuncia à própria autonomia decisional, entregando-se a forças estranhas.
    • A presença torna-se vítima, joguete ou prisioneira de poderes que já não reconhece como próprios.
    • O conteúdo delirante não é primário, mas resulta do preenchimento imaginário do vazio deixado pela retirada da presença de seu contexto decisional.
    • O delírio institui um novo modelo de experiência unilateral, coerente em si mesmo, não problemático e resistente a correções.
  • Significado antropoanalítico da esquizofrenia
    • A esquizofrenia é compreendida como uma modalidade específica de constituição do ser-da-presença, caracterizada pela ruptura da coerência da experiência e por suas tentativas fracassadas de restauração.
    • Os sintomas clínicos, incluindo o autismo, são reconduzidos a modos fundamentais de ser-no-mundo, e não a simples disfunções isoladas.
    • A análise antropoanalítica permite ordenar os fenômenos clínicos segundo estruturas existenciais, favorecendo a comunicação com os pacientes, a compreensão diagnóstica e a reflexão psicoterapêutica.
    • Abre-se, assim, um campo de investigação que, embora ainda incompleto, oferece um esquema estrutural para compreender diversas formas da esquizofrenia e de suas manifestações.
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