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Concepção do Homem de Freud

BWLB

  • A concepção do homem em Sigmund Freud à luz da antropologia
    • Para fixar, no instante fugitivo de uma exposição, o sentido científico de uma vida inteira de trabalho, é preciso reconduzir a obra à sua origem, isto é, à sua ideia, na qual se unem as condições psicólogo-pessoais e histórico-culturais de sua possibilidade e a missão intempestiva de servir à verdade no mundo e contra o mundo.
    • A produtividade científica não se explica por um acúmulo de resultados, mas pelo segredo interno de uma ideia que, segundo uma formulação de Johann Wolfgang von Goethe, cumpre uma espécie de missão divina ao produzir e ordenar realidade.
  • A ideia do homo natura
    • A ideia diretiva da atividade inesgotável de Freud encontra-se na sua concepção do homem como natureza, isto é, como homo natura, em contraste tanto com a tradição do homem como homo aeternus ou coelestis, quanto com a imagem do homo universalis, e ainda com a teoria antropológico-ontológica mais recente do homem como homo existentialis.
    • Uma ideia produtiva é animada por uma fé precisa, isto é, pela certeza de poder descobrir algo da realidade do ser e, a partir disso, configurar o mundo; essa fé não pertence apenas à religião, à arte ou à moral, mas também ao gesto científico.
    • Freud constitui exceção ao cientificismo que nega sua própria fé, ao afirmar, em O futuro de uma ilusão, a convicção de que a obra científica pode descobrir algo sobre a realidade do mundo e, assim, aumentar o poder humano de orientar a vida.
    • Mesmo essa fé científica carrega um mysterium tremendum, um assombro pressentido diante de um invisível imenso, que em Freud se exprime no sentimento de que, por trás dos instintos particulares, oculta-se algo profundo e poderoso, aproximável apenas com cautela, como se a teoria dos instintos fosse uma mitologia de seres indeterminados e decisivos.
    • Nesse assombro do naturalista diante da vida e da morte, Freud assume que a vida impõe sofrimento sem compensação e que o primeiro dever do vivente é suportá-la, o que exige preparar-se para a morte, conferindo primazia à veracidade, inclusive quando o verdadeiro é doloroso.
    • A irritação freudiana diante da hipocrisia individual e cultural nasce da constatação de que se vive psicologicamente “acima” da condição real, convertendo sofrimento em bem-estar e miséria em virtude, e nisso Freud encontra, em afinidade com Friedrich Nietzsche, um ápice de falsidade.
    • A técnica freudiana de desmascaramento visa elucidar o enigma da neurose por meio de uma resposta constante, segundo a qual a questão “o que é?” reencontra sempre “o homem”, de modo que o tema originário de vida e morte dá origem ao par verídico e falso, como determinação específica do problema humano do bem e do mal.
    • Freud concebe os opostos como condicionando-se mutuamente, mas estabelece uma assimetria decisiva: o mal aparece como princípio de ser do bem, o ódio como princípio do amor, a hostilidade como princípio da amizade, a tristeza como princípio da felicidade, sem admitir a reversibilidade desse nexo.
    • Ao valorizar positivamente o mal como força ativa, Freud se distingue de Agostinho e Johann Gottlieb Fichte, aproximando-se de Jakob Böhme, Franz von Baader e Friedrich Wilhelm Joseph Schelling, bem como do Mefistófeles de Goethe e de Nietzsche, ainda que com uma diferença estrutural decisiva.
    • A diferença decisiva consiste em que, ao contrário desses filósofos, Freud não reconhece o bem como força originariamente ativa e criadora, mas o compreende sobretudo como instância negativa de inibição, limitação, condenação e repressão, isto é, como coerção.
    • A transformação de impulsos egoístas em impulsos sociais, isto é, a passagem do “mau” ao “bom”, realiza-se, segundo Freud, por coerção externa na história da humanidade e por predisposição herdada e reforçada no curso da vida do indivíduo, culminando na internalização da coerção como Super-Eu.
    • A cultura, conquistada por renúncia à gratificação pulsional, exige de cada novo indivíduo a mesma renúncia, de modo que o modelo do homem como natureza comparece, aqui, em sua pureza metodológica: prazer, renúncia por vantagem, pressão social, família como protótipo, e uma “historicidade” convertida em história natural.
  • Homo natura como ideia, e não como início factual
    • O “homem originário” freudiano não é um homem real, mas uma ideia exigida pela pesquisa naturalista, assim como a planta originária de Goethe não era uma planta factual, mas uma ideia, segundo a explicação célebre de Friedrich Schiller.
    • O mesmo vale para o recém-nascido enquanto homo natura: trata-se de uma ideia produzida por uma redução biocientífica, não de um começo real, e essa ideia opera como tabula rasa quanto à historicidade autêntica do homem, isto é, quanto às possibilidades de moral, cultura, religião e arte.
    • A noção de tabula rasa não funciona como ponto de partida, mas como ponto de chegada dialético, isto é, como símbolo do limite ao qual chega uma modalidade particular de conhecimento quando reduz a totalidade da experiência humana a um tipo específico de experiência.
    • Quando a ciência natural toma esse símbolo como início real, inverte-se a ordem histórica entre mito, história e ciência: o mito é colocado como derivação tardia da natureza e de uma história natural construída, e arte, mito e religião passam a ser explicados como efeitos da tensão entre instinto e ilusão.
    • A ideia de homo natura não é desvalorização científica, pois a ciência opera por ideias; ao contrário, ela se mostra também praticamente operável, já que, no caso freudiano, pode “fazer algo”, isto é, pode curar.
  • Elaboração do homo natura numa teoria naturalista e sua importância para a psicologia médica
    • O procedimento de redução dialética empregado por Freud é integralmente o da ciência natural, articulando redução do dissimilar ao similar, redução do qualitativo ao quantitativo e uso de representações abstratas como instrumentos de ordem e clareza sobre o material bruto da observação.
    • O método naturalista exige que os fenômenos percebidos cedam lugar a forças apenas hipotetizadas, pois o espírito das ciências naturais consiste em despir os fenômenos de sua fenomenicidade o mais rapidamente possível, substituindo o “como se dá” pelo “como se tornou”.
    • A psicologia, como ciência autônoma, exige um sentido de “presença” distinto: ela pergunta como as coisas são realmente, num “ser” em que se conservam e se anulam, em simultaneidade, os polos do eu e do mundo, do passado e do futuro.
    • Freud afirma que não há fonte de conhecimento do mundo além da elaboração intelectual de observações verificadas, recusando revelação, intuição ou adivinhação, e define a ciência como não consoladora e não tendenciosa, sustentando a primazia da razão e da experiência.
    • O homo natura freudiano é uma construção naturalista análoga à ideia física de luz, na qual a realidade do fenômeno é absorvida por forças e leis hipotetizadas, o que explica a força e a difusão mundial da teoria.
    • Na compreensão material do homo natura, o fundamento interpretativo é uma série de necessidades e gratificações pulsionais, inicialmente centradas na sexualidade e depois em instintos de vida (Eros), cujo privilégio se explica por sua complexidade somatomórfica e por sua historicidade na construção da história interior.
    • A historicidade decisiva da sexualidade não é apenas desenvolvimento biopsicológico, mas seu poder de estruturar a história interior por meio do relacionamento com os outros, ao passo que fome e sede, enquanto forças niveladoras, tendem a apagar diferenças individuais e não formam, nesse sentido, história interior significativa.
    • O núcleo gerativo da teoria freudiana situa-se no plano dos cuidados vitais e da corporeidade, de modo que o homo natura poderia ser dito também homo vita, distinguindo-se de outras figuras de homo natura em Rousseau e Novalis, mas aproximando-se, quanto ao primado do corpo, de Nietzsche e Ludwig Klages.
    • A valorização do corpo é legítima e historicamente importante, mas, quando o corpo e os “necessários” recebem soberania sobre toda a condição humana, a imagem do homem se torna unilateral e antropologicamente falsificada, pois tudo o que excede o corpo tende a virar “superestrutura”, invenção, subliminação, ilusão ou adversário.
    • A contribuição singular de Freud é uma somatomorfologia da experiência, isto é, uma “somatografia” das formas do viver fundada em observação e construção naturalística, na qual aparecem motivações orais, anais, fálicas, vaginais, oculares, manuais, peitorais, ventrais, e assim por diante, como recortes decisivos do campo humano.
  • O Isso, o corpo e o aparato psíquico como construção
    • Em Freud, a corporeidade comparece sob o aspecto do Isso, entendido como reservatório caótico de necessidades, afetos e paixões sob o princípio do prazer, isto é, como aquilo por meio do qual o homem é “vivido” por forças invisíveis, semelhantes a entidades míticas chamadas instintos.
    • O Isso não conhece negação, lógica de não contradição, valores ou temporalidade, opera por coexistência de impulsos contrários e por formações de compromisso, e é dominado pelo fator econômico-quantitativo ligado ao prazer.
    • A corporeidade, enquanto instintualidade, se liga ao vegetativo; o corpo, enquanto órgão de percepção e motilidade, se liga ao Eu, que é organizado e personificado, e, nessa construção, comparece também um componente neurobiológico que participa do desenho do aparato psíquico.
    • O aparato psíquico freudiano é simultaneamente órgão e diagrama clínico, exigindo que qualquer distúrbio seja compreendido por sua posição no conjunto topográfico-dinâmico-econômico, como se vê na teoria da angústia e, sobretudo, na elaboração funcional da repressão.
    • A condensação teórica atinge, em Freud, uma forma quase matemática ao afirmar que a resistência do consciente aos derivados do recalcado varia conforme sua distância do recalcado originário, o que expressa a ambição de formular eventos psíquicos como equações funcionais.
    • O núcleo do homo natura freudiano é, assim, a extensão do mecanismo até regiões aparentemente livres do espírito, permitindo conceber a reparação terapêutica por procedimentos “mecânicos”, em especial pela técnica de desmascaramento e pelo mecanismo da transferência.
    • O desejo, como motor do trabalho do sonho e como perspectiva fundamental, só se torna inteligível dentro do aparato construído, mas essa perspectiva é paga ao preço de reduzir o homem a um ser que apenas deseja, isto é, de empobrecer as modalidades originárias de significado, nas quais se deseja sempre algo determinado.
    • O orgulho teórico freudiano não repousa sobretudo na interpretação de símbolos, mas na descoberta do mecanismo psíquico da doença e do sonho, isto é, na demonstração de que, a partir de condições dadas da organização natural do homem e de seu choque com o ambiente, derivam com necessidade mecânica tanto os processos normais quanto os patológicos e, ainda, a possibilidade de intervenção terapêutica pela transferência.
    • Essa conquista funda um setor indispensável da psicologia médica e da psicoterapia, mas a medicina permanece um setor parcial da cultura humana, e a totalidade da condição humana exige uma delimitação antropológica do alcance do mecanismo.
  • A ideia do homo natura à luz da antropologia
    • A ideia freudiana de homo natura é uma construção científica possível somente mediante uma destruição da globalidade da experiência antropológica, e a crítica antropológica deve reinseri-la no conjunto da existência humana, determinando seu lugar e seu significado.
    • Primeiro, como princípio ordenador metodológico, a teoria do homo natura opera como trabalho pioneiro que delimita territórios e setores, seleciona e agrupa provisoriamente, guiada pela necessidade naturalista de utilizabilidade, ainda que produza forças abstratas que dominam o homem sem coincidir com o significado do fenômeno.
    • Segundo, ao exibir o mecanismo com sua necessidade férrea, a teoria abre, como contraface, a questão da liberdade, pois quanto mais o homem é representado mecanicamente, mais se torna visível sua capacidade de tomar posição diante de sua própria mecânica, no limite onde natureza e espírito, necessidade e espontaneidade entram em tensão.
    • Terceiro, a compreensão dos mecanismos permite descobrir as fraturas no contexto cotidiano da vida, desmascarando bem-estares como sofrimentos camuflados e tornando o mecanismo uma sonda para examinar a posição existencial do homem, de modo que o mecanismo “nega” e cabe à existência sustentar o “sim”.
    • Quarto, a ideia de instinto como forma originária constitui um princípio morfótico unitário para a antropologia, análogo ao papel da folha na botânica, como Gestalt primária subjacente às metamorfoses e transformações antropológicas.
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