Discursos
BINSWANGER, Ludwig. Discours, parcours, et Freud. Analyse existentielle, psychiatrie clinique et psychanalyse. Paris: Gallimard, 1970.
Prefácio de Pierre Fédida
Binswanger e a possibilidade de concluir
1. A visita de Binswanger a Freud em 1913 evidencia uma relação atravessada por admiração, divergência filosófica e tensões próprias do movimento psicanalítico, pois a contestação da derivação da consciência a partir da pulsão encontra uma resposta que reduz a filosofia à sublimação da sexualidade recalcada, enquanto a ciência psicanalítica recebe como justificativa sua utilidade social; as observações sobre as rupturas com Jung e Adler, a solidão de Freud e o caráter aventureiro de alguns seguidores revelam ainda a amargura que acompanha a constituição de sua escola, sem impedir a disposição de conservar a amizade para além dos limites da concordância.
2. A relação de trinta e três anos entre Freud e Binswanger não se deixa compreender inteiramente por episódios pessoais nem por controvérsias doutrinárias, pois constitui uma amizade que se procura e se confirma entre acontecimentos familiares, exigências afetivas, feridas e desacordos intelectuais, cuja persistência aparece na resposta de Freud à conferência de seu octogésimo aniversário, quando reconhece a qualidade da contestação do amigo, mas reafirma uma distância entre sua própria posição revolucionária e a orientação conservadora atribuída à antropologia de Binswanger.
3. A explicitação das divergências não encerra a relação nem esgota seu sentido, porque a fidelidade de Binswanger à pessoa e à potência criadora de Freud sustenta uma amizade concebida como reconhecimento espiritual livre, embora a correspondência também revele expectativas de filiação, transmissão da obra e redistribuição dos investimentos afetivos após as rupturas do movimento; Freud espera que Binswanger introduza e defenda a psicanálise na clínica e coloque seus talentos a seu serviço, mas a conversa de 1927 no Semmering torna explícito o limite de um diálogo no qual a investigação das pulsões não pretende satisfazer a exigência de uma compreensão acabada do homem nem aquilo que Freud identifica como necessidades religiosas.
4. A dimensão familiar e íntima da correspondência permanece inseparável das questões científicas, porque nascimentos, mortes e perdas de filhos atravessam a preocupação com a continuidade da obra e com a sucessão das gerações, fazendo surgir o problema do desaparecimento do pai diante daqueles que deveriam prolongá-lo e, quando essa continuidade é interrompida, a exigência de trabalhar também em nome de quem já não poderá prosseguir.
5. A defesa retrospectiva da conferência sobre a concepção freudiana do homem exprime a tentativa de conciliar crítica dos fundamentos e fidelidade pessoal, afirmando uma verdade do espírito que escaparia ao naturalismo freudiano, enquanto Freud interpreta essa reserva como apego ao estabelecimento psiquiátrico; a posição de Binswanger configura, assim, uma mediação que interroga a psiquiatria mediante a psicanálise e exige desta o reconhecimento da fenomenologia clínica, ambivalência também figurada nas interpretações dos sonhos de 1907, nas quais Jung deseja substituir o pai e Binswanger deseja tornar-se seu genro, mas simultaneamente recusa essa aliança.
6. O caminho de Binswanger em direção a Freud desenvolve-se por aproximações e afastamentos sucessivos, passando da amizade à prática psicanalítica, desta ao exame de seus instrumentos e de suas relações com a psiquiatria clínica, depois à crítica antropológica de seu naturalismo sob a influência de Husserl e Heidegger e, finalmente, a uma compreensão mais aprofundada da natureza freudiana à luz de Goethe, de modo que a controvérsia com a psicanálise permanece a trama de seu desenvolvimento científico e uma tarefa que o ocupa ao longo da vida.
7. A identificação do homo natura como ideia científica orientadora da produtividade de Freud não pretende fixar uma concepção de mundo definitiva, mas relacionar seu projeto à potência criadora e à paixão pela verdade que o sustentam, enquanto a amizade entre os dois pensadores revela uma compreensão comum da fecundidade da obra e da vida através das gerações e do poder das ideias de perturbar a ordem estabelecida.
8. A ideia de homem que mobiliza a prática psiquiátrica e psicanalítica envolve necessariamente aquele que a formula e aquele a quem ela se dirige, tornando inseparáveis a compreensão do paciente e a interrogação do próprio psiquiatra, pois a existência humana não pode ser constituída como objeto segundo os mesmos critérios de positividade empregados pelas ciências naturais.
9. A impossibilidade de explicar a existência apenas do exterior impede que psicologia e psiquiatria se considerem definitivamente fundamentadas ou seguras de seus conceitos e técnicas, fazendo de seu inacabamento uma condição de conhecimento e exigindo uma autorreflexão que correlacione as estruturas dos atos clínicos às estruturas do adoecimento, sem permitir que o objeto se constitua à margem dessa relação.
10. A compreensão da obra de Binswanger exige relacionar sua intenção crítica e transcendental, sua ideia orientadora, seu destino interno e sua inscrição em uma vida, pois separar homem e obra, pensamento e expressão ou teoria e prática transforma uma investigação viva em produto encerrado e pode destruir, por determinadas leituras e traduções, sua capacidade de continuar interrogando outras existências.
11. A dificuldade fundamental da tradução ultrapassa a equivalência entre vocabulários e conceitos, porque envolve o encontro com uma língua constituída em uma tradição e historicamente mobilizada por determinações semânticas e estilísticas que participam da própria vida do pensamento.
12. Os conceitos de Binswanger e Freud recebem continuamente nova configuração na relação concreta entre experiência e compreensão, permanecendo entre momentos de uma práxis que os submete à singularidade clínica, enquanto sua aplicação abstrata e autoritária fixa arbitrariamente o sentido de uma existência; interpretar exige, por isso, uma leitura ou escuta sensível à distância que regula e articula a comunicação.
13. A interpretação e a tradução devem permitir a circulação e a recriação do sentido, preservando a abertura de uma obra que continua a transformar seu leitor e a ser interrogada pela experiência terapêutica, na qual as palavras do clínico e do paciente se entrelaçam de maneira tão estreita que a separação entre os dois discursos deixa de ser evidente.
14. O interesse de Binswanger pelas psicoses e pela esquizofrenia vincula-se à exigência de compreender a existência individual para além do naturalismo, reconhecendo nos delírios, nas alucinações e nas transformações da linguagem uma expressividade corporal e existencial imediata, cuja escuta exige acompanhar o movimento das coisas antes de subordiná-las a interpretações simbólicas que podem proteger o observador da proximidade da loucura.
15. O silêncio que acompanha a morte de Binswanger contrasta com sua confiança na fecundidade futura da obra e das gerações, sustentada pela continuidade familiar da clínica e pela convicção de que a morte torna possível a produtividade do que foi realizado, fazendo da genealogia, em vez de uma compensação teológica ou mitológica, uma maneira de enraizar a existência em suas origens, em seu nascimento e em sua finitude.
16. A presença pessoal de Binswanger reunia acolhimento, rigor e reserva em uma procura exigente da verdade do outro, enquanto sua palavra clínica se desprendia da autoridade do saber para abrir um espaço de manifestação da existência, no qual olhar, linguagem e escuta não se deixam separar e o estilo participa da constituição do mundo compartilhado.
17. A articulação entre língua, paisagem, arquitetura, espírito, solo natal, história, folclore e mito permite reconhecer uma unidade significativa na qual o estilo de Binswanger anima uma estruturação do mundo e sustenta a interrogação dos fundamentos da presença.
18. A Daseinsanalyse nasce de uma problemática científica e antropológica fundamental, e não como técnica terapêutica dissidente destinada a substituir a psicanálise, embora abra possibilidades de investigação clínica; a formação psicanalítica constitui, para Binswanger, uma das condições de acesso à reflexão fenomenológica e antropológica, impedindo que sua posição seja reduzida à troca da psique por uma entidade romântica denominada Dasein.
19. O caráter antropológico da Daseinsanalyse não consiste em estabelecer uma tese fixa sobre a essência humana, mas em interrogar criticamente os fundamentos de uma psiquiatria que constrói seus objetos segundo exigências naturalistas, mediante uma descrição fenomenológica que desloca a oposição entre sujeito e objeto, introduz o outro na dimensão do mundo e fundamenta a objetividade na intersubjetividade.
20. A limitação freudiana consiste, nessa perspectiva, em concluir antes de iniciar uma exploração fenomenológica suficientemente aberta, enquanto o retorno às coisas mesmas exige renunciar à necessidade apaixonada de julgar e explicar, reconhecer que toda compreensão se orienta por um projeto de mundo e deixar que aquilo que aparece encontre expressão sem ser imediatamente reconstruído como objeto de domínio teórico.
21. A antropologia naturalista compromete a possibilidade de uma psicologia efetiva quando privilegia a natureza e organiza explicações por oposições previamente constituídas, como psíquico e somático, inato e adquirido ou individual e social, reduzindo a historicidade humana à evolução natural e convertendo a natureza simultaneamente em hipótese, causa e conclusão, o que torna indispensável uma fundamentação filosófica da investigação antropológica.
22. O homem originário freudiano, assim como a planta originária de Goethe, constitui uma ideia e não uma realidade imediatamente encontrada, mas sua elaboração discursiva transforma-o em postulado naturalista que substitui a origem histórica por um esquema evolutivo e faz recuar os fenômenos efetivamente percebidos diante de tendências apenas supostas, anulando possibilidades de investigação fenomenológica presentes nos próprios casos clínicos.
23. A descrição do aparelho psíquico pode funcionar como uma mitologia científica quando a hipótese e a terminologia determinam antecipadamente o que será observado, neutralizando tanto a coisa quanto aquele a quem a experiência pertence; ao objetivar a ipseidade em instâncias como ego e superego, a psicologia naturalista expulsa o si-mesmo de seu domínio próprio, a existência, produzindo uma anulação antropológica que Binswanger chega a aproximar de um assassinato do si-mesmo.
24. A procura do si-mesmo em Heráclito e Agostinho permite compreender a presença por sua transcendência e historicidade, em vez de reduzi-la à consciência reflexiva, à interioridade ou ao inconsciente pulsional, enquanto o sonho configura uma existência passivamente entregue ao mundo privado; despertar e, em certo sentido, curar significam ultrapassar esse isolamento e ingressar no mundo comum do logos e da compreensão, no qual o indivíduo se constitui historicamente como si-mesmo sem poder ser inteiramente objetivado ou tematizado.
25. A dimensão não temática da presença e sua historicidade constituem eixos complementares da Daseinsanalyse, como mostra o caso de Suzan Urban, no qual a transformação do mundo em atmosfera ameaçadora coincide com a desarticulação do si-mesmo, a perda da liberdade de relacionar-se com o ambiente e a incapacidade do ser-com de sustentar a objetividade compartilhada da existência.
26. O não temático constitui uma condição positiva da transcendência e do projeto de mundo, enquanto sua conversão em tema fixo, em determinados sonhos e delírios, pode aprisionar o si-mesmo em uma representação que já não sustenta sua historicidade, fazendo do sentido condensado um efeito de superfície que limita a presença e a separa de sua abertura constitutiva.
27. A investigação dessa fonte anterior ao sentido dispensa tanto uma alma substancial quanto um conjunto de forças ou pulsões naturalizadas e encontra nas direções de significação, como elevar-se, cair, planar ou afundar, modalidades originárias da presença já atuantes na linguagem antes de conteúdos semânticos determinados, pelas quais o si-mesmo e o mundo se constituem conjuntamente no movimento de transcendência.
28. A distinção entre função vital e história interna da vida permite criticar tanto o mecanicismo quanto o vitalismo e compreender as expressões corporais no interior da comunicação humana, na qual os sintomas adquirem significação concreta e a corporeidade participa do encontro terapêutico, enquanto a história interna designa a historicidade pela qual o si-mesmo se aprofunda e torna possível o mundo comum e o nós da relação.
29. A obra Formas fundamentais e conhecimento do Dasein humano ultrapassa o âmbito da antropologia fenomenológica dos escritos anteriores, mas esse desenvolvimento não pode ser interpretado simplesmente como afastamento de Husserl e aproximação mais completa de Heidegger.
30. A diferença entre Binswanger e Heidegger é ontológica e envolve mais do que substituir o cuidado pelo amor, pois o nós amoroso não se acrescenta posteriormente a um Dasein individual já constituído, mas fundamenta suas estruturas espaço-temporais na reciprocidade, tornando possível reconhecer o outro como outro e reformulando a própria abertura da presença para além das ambiguidades de uma concepção monadológica do si-mesmo.
31. O amor assume em Binswanger uma função comparável à do logos heraclítico ao superar a dispersão dos mundos privados, unificar oposições e possibilitar a renovação e a ultrapassagem de si, enquanto a sabedoria que escuta a constituição das coisas reúne compreensão, verdade e conhecimento de si em uma antropologia do nós amoroso.
32. A fidelidade tardia de Binswanger à leitura de Husserl e à amizade com Freud não permite situar sua antropologia como simples cruzamento de influências, pois sua obra conserva uma singularidade que resiste à vulgarização e cuja produtividade exige ser compreendida em sua própria gênese.
33. A morte de Binswanger interrompe uma investigação voltada ao delírio e à lógica do destino, deixando uma obra que, apesar do reconhecimento insuficiente e da obscuridade de sua linguagem, já produz novas possibilidades de pensamento, mas permanece cercada pelo paradoxo de ser amplamente citada como referência da psiquiatria fenomenológica e existencial enquanto suscita equívocos entre seus próprios defensores.
