User Tools

Site Tools


estudos:daseinsanalyse:askay:2018:9

9 Fenomenologia

ASKAY, Richard; FARQUHAR, Jensen. Apprehending the Inaccessible: Freudian Psychoanalysis and Existential Phenomenology. Evanston: Northwestern University Press, 2018.

Uma propedêutica a Freud e aos fenomenólogos existenciais

1. A atividade filosófica constitui-se pela apropriação de ideias transmitidas pela história, pelo contato com obras disponíveis no ambiente intelectual contemporâneo e pela possibilidade de intercâmbio pessoal com outros pensadores vivos, conforme a compreensão husserliana da formação do pensamento.

2. A compreensão do confronto entre Freud e os fenomenólogos existenciais exige considerar o papel de Husserl, cujos impulsos filosóficos e instrumentos metodológicos fundamentaram parte das críticas posteriores à psicanálise, tornando necessário investigar se as finalidades das duas tradições são compatíveis, complementares, parcialmente coincidentes ou mutuamente excludentes e em que medida sua aproximação permite reconhecer contribuições recíprocas.

3. A relação histórica entre Freud e Husserl apresenta pontos concretos de convergência, particularmente por intermédio das obras de Johann Herbart e Franz Brentano.

4. Em contraste com a orientação romântica que culmina em Schopenhauer e Nietzsche, Herbart e Brentano procuram aproximar a psicologia das ciências naturais, sob a influência do empirismo britânico e em reação a Kant, desenvolvendo projetos bastante distintos que influenciam decisivamente a formação de Freud e Husserl.

Herbart e Freud

1. A psicologia herbartiana predominava na Áustria durante a juventude de Freud e alcançou sua formação por diferentes vias educacionais e intelectuais.

2. O contato escolar com o Manual de psicologia empírica pelo método genético, de Gustaf Lindner, apresentado como um compêndio da psicologia herbartiana, introduziu Freud a essa tradição em seu último ano de estudos secundários.

3. Theodor Meynert, mentor de Freud em psiquiatria e conhecedor de Schopenhauer, admirava Herbart e recebeu uma influência significativa de sua psicologia.

4. Fechner elaborou sua psicologia a partir de uma reformulação das ideias de Herbart, afastando seus princípios metafísicos e estendendo à investigação psíquica a linguagem das ciências naturais, exercendo posteriormente forte influência sobre Brücke, Breuer, Meynert e o próprio Freud.

5. As observações de Brentano também proporcionaram a Freud conhecimento da obra de Herbart.

6. A concepção herbartiana da psicologia como uma mecânica da mente compreende as ideias como agentes ativos cujas interações podem ser avaliadas em termos de quantidade e força, estabelecendo uma psicologia matemática que, embora dependente da fisiologia, ultrapassa o reducionismo fisiológico e reconhece a necessidade de investigar processos ocultos.

7. O conhecimento científico ultrapassa aquilo que se apresenta efetivamente à consciência porque a experiência não pode ser compreendida sem o exame do que permanece encoberto, exigindo reconhecer, nos fenômenos acessíveis, os indícios de processos que atuam nos bastidores.

8. A competição entre ideias de diferentes intensidades determina quais ultrapassam o limiar da consciência, enquanto as ideias mais fracas ou inibidas permanecem inconscientes e continuam pressionando os conteúdos conscientes, em um conflito que promove a adaptação individual às situações pessoais e interpessoais e antecipa aspectos da compreensão freudiana do recalque e das exigências sociais.

9. A psicologia dinâmica de Herbart antecipa elementos fundamentais da psicanálise ao reconhecer processos inconscientes atuantes, a conservação das ideias incorporadas à vida mental, o entrecruzamento de cadeias associativas, a emergência espontânea de associações, o aparecimento da consciência do ego diante de impedimentos à atividade das ideias e a orientação geral dos processos mentais para o equilíbrio.

10. A formulação herbartiana do recalque e de diferentes relações entre consciência e inconsciente antecipa aspectos da concepção tópica freudiana e da terminologia posteriormente empregada pela psicanálise.

11. O emprego de Verdrängung por Herbart no início do século XIX pode ter chegado a Freud por intermédio de Meynert, cuja admiração pela psicologia herbartiana é destacada por Strachey.

12. O recalque designa em Herbart tanto o impedimento de uma ideia alcançar a consciência devido à concorrência de outras quanto sua expulsão por um conteúdo conflitante, mas a familiaridade de Freud com esse uso já poderia remontar ao contato escolar com o manual de Lindner.

13. As ideias anteriormente conscientes que foram recalcadas não desaparecem da vida psíquica e podem retornar à consciência em determinadas circunstâncias.

14. A exposição de Freud ao conceito de recalque ocorreu por influências sucessivas e convergentes, envolvendo Schopenhauer, Herbart, Meynert e sua formação escolar, o que torna particularmente significativa, do ponto de vista psicanalítico, sua insistência em que a teoria lhe teria ocorrido de maneira inteiramente independente de qualquer fonte.

15. A concepção tópica de Herbart distingue um limiar estático, relacionado à liberação do acesso de ideias à consciência e aproximável do pré-consciente e da supressão freudianos, e um limiar mecânico, no qual ideias plenamente recalcadas permanecem em antagonismo com conteúdos conscientes e exercem efeitos indiretos sobre eles, oferecendo um ponto de partida para examinar também sua relação com Husserl.

Herbart e Husserl

1. A influência de Herbart sobre as análises husserlianas dos processos mentais revela-se na compreensão das ideias como forças que disputam acesso à consciência, persistem como tendências inconscientes quando inibidas e ultrapassam com diferentes graus de facilidade um limiar de manifestação, conforme sua compatibilidade com os conteúdos já conscientes, além de envolver cadeias associativas inconscientes, pontos de entrecruzamento e ideias que emergem livremente.

2. A concepção herbartiana do limiar da consciência remonta a Leibniz, de quem Herbart e posteriormente Husserl recebem o modelo de ideias inconscientes abaixo desse limiar e conscientes acima dele, enquanto a caracterização husserliana das consciências individuais como unidades monádicas também prolonga essa herança.

3. A mônada constitui uma unidade viva que contém o ego como polo de ação e afecção e integra vida desperta e vida encoberta, capacidades e disposições, incluindo dimensões ocultas ou inconscientes.

4. A concepção herbartiana do universo como composto por realidades independentes, algumas desprovidas de consciência, oferece outra expressão dessa proximidade com a tradição monadológica.

5. Apesar de rejeitar o modelo mecanicista e sua causalidade, Husserl compartilha com Herbart a compreensão de conteúdos que disputam ativamente o acesso à consciência, exercem atração ou repulsão entre si e continuam influenciando a vida consciente quando suprimidos, configurando um inconsciente dinâmico.

6. A aparente descontinuidade, irregularidade e falta de consequência do pensamento consciente indicam a atuação de acontecimentos exteriores ao seu próprio campo manifesto.

7. A distinção herbartiana entre estudos estáticos e dinâmicos da mente e entre o ato de conceber e aquilo que é concebido antecipa diferenciações posteriormente centrais à fenomenologia transcendental husserliana, particularmente a relação entre noese e noema.

Brentano

1. Franz Brentano constitui um importante ponto de interseção da filosofia moderna por sua influência sobre Freud e Husserl, pelo impulso proporcionado à investigação ontológica de Heidegger mediante seu estudo dos sentidos do ser em Aristóteles e por suas repercussões sobre pensadores ligados à filosofia analítica, como Frege, Meinong e Russell.

2. A influência de Brentano sobre Freud e Husserl, seus alunos em períodos sucessivos na Universidade de Viena, foi decisiva para aproximá-los da filosofia e orientar escolhas de formação, mas ambos posteriormente rejeitaram sua negação do inconsciente e assumiram, por caminhos distintos, o desafio de formular uma concepção defensável dessa dimensão psíquica.

Brentano e Freud

1. A admiração de Freud por Brentano, reconhecido como erudito e pensador de inteligência excepcional, manifesta-se na matrícula voluntária em cinco de seus cursos, os únicos não médicos frequentados durante seus oito semestres na Universidade de Viena, tornando necessário esclarecer os fundamentos dessa atração intelectual.

2. A identificação de Freud com Brentano envolvia a valorização de uma atitude investigativa contrária às frases fáceis, ao sentimentalismo e à intolerância diante de opiniões diferentes.

3. A adesão brentaniana ao empirismo e à aplicação dos métodos científicos à filosofia, particularmente à psicologia, constitui o principal motivo de sua atração sobre Freud, pois a crítica às insuficiências da matematização herbartiana procurava estabelecer procedimentos capazes de explicar os fenômenos mentais efetivamente experimentados e inspirava a busca de leis regulares da vida psíquica, levando Freud inclusive a questionar suas inclinações materialistas.

4. A proposta de evitar, tanto quanto possível, teorias metafísicas, explicitada em Psicologia de um ponto de vista empírico, também encontrou forte receptividade em Freud.

5. A influência mais decisiva de Brentano pode ter assumido a forma de um desafio, pois sua rejeição do inconsciente e sua exigência de fundamentação empírica estimularam Freud a procurar meios científicos de legitimar a investigação dos fenômenos inconscientes e evitar as dificuldades que haviam comprometido formulações anteriores.

6. A recusa brentaniana do inconsciente baseia-se na alegada ausência de fundamentos científicos para afirmá-lo e na identificação entre consciência, fenômeno mental e ato mental, entendendo por inconsciente um ato psíquico do qual não se teria consciência.

7. A argumentação de Brentano distingue a consciência de um objeto e a consciência concomitante do próprio ato pelo qual esse objeto é apresentado, concluindo que todo ato mental envolve uma consciência de si e que, portanto, não existem atos psíquicos inteiramente inconscientes.

8. A aparência de processos inconscientes decorreria da baixa intensidade de certas apresentações e dos atos mentais correspondentes, cuja presença consciente pode passar despercebida sem que deixe de existir.

9. A crítica brentaniana ao inconsciente inclui um exame detalhado de Henry Maudsley, representante de uma escola britânica que influenciou os professores vienenses de Freud e desenvolveu uma doutrina dos processos mentais inconscientes no interior de uma compreensão unitária de mente e corpo.

10. As posições de Maudsley, tal como apresentadas por Brentano, antecipam pressupostos centrais da metapsicologia freudiana e permitem considerar se seu aparente fracasso científico, associado ao desafio brentaniano, contribuiu para a tentativa de Freud de fundamentar fisiologicamente a psicologia.

11. O reconhecimento de Maudsley de que a ciência fisiológica disponível não permitia determinar experimentalmente os processos orgânicos subjacentes aos fenômenos mentais, impedindo naquele momento uma ciência positiva da mente, aproxima-se das reservas posteriormente formuladas por Freud.

12. A tese de Maudsley de que as condições materiais constituem a base da consciência antecipa uma orientação fundamental da metapsicologia freudiana.

13. O cérebro, cuja atividade sustenta a consciência, também possui uma vida vegetativa e um metabolismo orgânico habitualmente inconscientes, mas capazes de produzir manifestações anormais quando seus efeitos irrompem na consciência, incluindo emoções involuntárias e encadeamentos desordenados de ideias.

14. A distinção de Maudsley entre vida mental, atividade mental e consciência permite afirmar que a atividade psíquica não exige necessariamente consciência, embora Brentano considere insuficientes as provas oferecidas para demonstrar a existência de ideias inconscientes.

15. Freud retoma explicitamente a tese de Maudsley de que a consciência não coincide com a totalidade da mente e compartilha com ele a hipótese lamarckiana de uma história filogenética transmitida entre gerações, cuja apresentação também estava disponível na crítica brentaniana.

16. Os resíduos da vida mental conservar-se-iam tanto no indivíduo quanto na espécie, de modo que atividades conscientes anteriores poderiam preparar criações inconscientes posteriores e exercer influências hereditárias exteriores ao campo da consciência.

17. As concepções de Maudsley também se aproximam das de Herbart e antecipam a noção husserliana de efeito aperceptivo posterior.

18. Tudo aquilo que esteve suficientemente presente à consciência deixa, depois de desaparecer de seu campo, um traço que subsiste como ideia potencial ou latente.

Brentano e Husserl

1. A distinção brentaniana entre psicologia descritiva, destinada a identificar os elementos básicos dos fenômenos mentais, e psicologia genética, voltada às leis de seu surgimento, duração e desaparecimento e considerada predominantemente fisiológica, antecipa a diferenciação husserliana entre fenomenologia estática e genética e contribui paradoxalmente para conduzir Husserl à investigação do inconsciente rejeitado por Brentano.

2. A rejeição compartilhada por Freud e Husserl da tese brentaniana de que todo fenômeno mental deve ser apresentado à consciência leva ambos a investigar, por vias próprias, domínios semelhantes da vida psíquica, abrindo a possibilidade de reconhecer convergências entre suas descobertas arqueológicas e de estabelecer um terreno de interlocução que historicamente não chegaram a explorar.

estudos/daseinsanalyse/askay/2018/9.txt · Last modified: by 127.0.0.1