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3 Ego

ASKAY, Richard; FARQUHAR, Jensen. Apprehending the Inaccessible: Freudian Psychoanalysis and Existential Phenomenology. Evanston: Northwestern University Press, 2018.

O ego como senhor em sua própria casa: Freud e o Iluminismo

1. A expectativa iluminista de emancipação humana encontra em Condorcet a imagem de um futuro no qual todos os seres humanos serão livres e reconhecerão apenas a autoridade da própria razão.

2. A esperança freudiana no futuro da humanidade concentra-se na possibilidade de que o intelecto, o espírito científico e a razão estabeleçam progressivamente sua autoridade sobre a vida psíquica.

3. A identificação de Freud como cientista e sua convicção de que a ciência oferece acesso privilegiado à realidade sustentam a adesão da psicanálise à visão científica de mundo, cuja origem remete, entretanto, a pressupostos filosóficos historicamente constituídos e parcialmente conhecidos por ele mediante sua formação clássica e suas leituras.

4. A filosofia iluminista, representada por Descartes, Bacon, Diderot, Voltaire e Kant, fornece a infraestrutura conceitual do cientificismo freudiano, posteriormente reforçada pela tentativa de Brentano de aproximar ciência e filosofia.

Freud e Bacon

1. A importância de Francis Bacon para a formação intelectual de Freud permanece insuficientemente reconhecida, apesar de sua posição entre os grandes predecessores dos iluministas, da admiração freudiana que o colocava ao lado de Leonardo da Vinci e Copérnico, da presença de influências baconianas em Janet e Meynert e da conservação do Novum Organum em sua biblioteca final, elementos acompanhados de notáveis aproximações entre o conteúdo e o tom de suas respectivas formulações.

2. A proximidade entre Bacon e Freud manifesta-se na compreensão das forças naturais como realidades a conhecer e controlar, na delimitação entre formas legítimas e ilegítimas de filosofia, na procura de fundamentos seguros para o conhecimento científico e na investigação de dimensões ocultas da realidade.

3. A identificação baconiana entre conhecimento e poder estabelece que o domínio da natureza depende da compreensão e da obediência às suas leis, encontrando correspondência no propósito freudiano de ampliar o controle racional sobre as pulsões e na concepção de que a civilização se apoia tanto no domínio das forças naturais quanto na restrição dos impulsos humanos.

4. A distinção entre filosofia verdadeira e falsa aproxima Bacon e Freud na rejeição dos sistemas metafísicos dogmáticos, cuja submissão à autoridade e à tradição e cuja construção de mundos imaginários, caracterizadas por Bacon como ídolos do teatro, substituem a investigação da realidade e impedem o acesso à verdade.

5. A desconfiança compartilhada diante de conceitos rigidamente definidos encontra expressão na crítica baconiana aos ídolos do mercado, segundo a qual definições baseadas em palavras igualmente defeituosas podem violentar o entendimento, produzir controvérsias vazias e paralisar a investigação, problema comparável à identificação filosófica entre vida mental e consciência criticada por Freud.

6. A adoção inicial de uma opinião pode subordinar e deformar conhecimentos posteriores mais sólidos, fazendo com que um pressuposto estabelecido exerça uma influência insidiosa sobre o conjunto da investigação filosófica e científica.

7. A rejeição da filosofia especulativa aproxima os dois pensadores na crítica às verdades supostamente evidentes e às generalizações precipitadas, enquanto a imagem baconiana dos metafísicos como aranhas que tecem construções engenhosas e formalmente perfeitas denuncia sistemas desconectados da realidade e, por isso, destituídos de relevância efetiva.

8. A crítica à abstração filosófica decorre de sua tendência a substituir as coisas reais por construções conceituais sem utilidade prática, levando Bacon e Freud a exigir que o conhecimento contribua para o domínio da natureza em benefício humano; essa exigência fundamenta a aproximação entre teoria e prática, na qual a investigação conceitual orienta a observação e recebe dela sua confirmação ou correção.

9. A crítica às ideias preconcebidas identifica o apego a perspectivas particulares como obstáculo à reflexão sobre os próprios pressupostos, correspondendo aos ídolos da caverna, pelos quais a compreensão individual deforma o esclarecimento da natureza.

10. A submissão da investigação filosófica a concepções previamente adotadas corrompe o estudo das coisas e pode reduzir a filosofia natural a uma dependência estéril e controversa da lógica.

11. Os pressupostos prévios determinam tanto aquilo que se consegue perceber quanto aquilo que permanece excluído do campo de visão, consequência também reconhecida por Freud.

12. A investigação dos grandes problemas da ciência e da vida raramente se mantém imparcial, pois preconceitos internos profundamente enraizados podem dirigir inadvertidamente a própria especulação.

13. A superação desses obstáculos exige um exame crítico das teorias mais sedutoras e a disposição de conservar a imparcialidade do entendimento, orientação que encontra correspondência na insistência freudiana sobre o caráter provisório, incompleto e permanentemente revisável das formulações psicanalíticas.

14. A procura de uma fundamentação genuinamente científica aproxima Bacon e Freud na defesa de métodos capazes de produzir conhecimento e benefícios humanos, mediante a coleta organizada de dados, a comparação entre presenças, ausências e variações de propriedades e a realização de experimentos que permitam alcançar generalizações a partir da observação sistemática das regularidades naturais.

15. A atividade científica começa pela descrição dos fenômenos e por seu agrupamento, classificação e correlação, enquanto a precisão dos conceitos fundamentais depende de investigações sucessivas e de um retorno constante ao material observado, que permite modificar as formulações até torná-las adequadas ao trabalho científico.

16. A passagem gradual dos casos particulares às determinações mais gerais exige manter a observação como referência, sem ignorar suas limitações, e corrigir a análise racional pela experiência, tornando necessária a articulação entre os sentidos e a razão.

17. A união entre a faculdade empírica e a racional constitui, na imagem de Bacon, um vínculo legítimo e necessário cuja ruptura prejudicou o desenvolvimento dos assuntos humanos.

18. A posição freudiana também reconhece simultaneamente a importância e os limites da razão e exige sua complementação pelos dados empíricos, de modo que a consistência de uma visão de mundo não pode depender exclusivamente da coerência racional.

19. A ampliação da ciência para além do diretamente observável aproxima Bacon e Freud na crítica à confiança ingênua nos sentidos, cujas percepções dependem parcialmente da atividade mental e não esgotam o conhecimento da realidade, permitindo inferir processos ocultos por suas consequências observáveis e impedindo que sua invisibilidade seja tomada como motivo suficiente para excluí-los da investigação.

20. Algumas formulações baconianas aproximam-se de aspectos posteriormente associados ao inconsciente freudiano, sobretudo ao reconhecer que as emoções podem penetrar e deformar o entendimento de maneiras imperceptíveis.

21. A limitação e o caráter enganador dos sentidos levam o entendimento a privilegiar aquilo que produz impressões imediatas e a negligenciar processos invisíveis potencialmente mais importantes, deixando ocultas operações internas dos corpos materiais.

22. A necessidade de ultrapassar a observação direta para explicar a realidade encontra correspondência na justificativa freudiana do inconsciente, cuja postulação procura compreender processos não imediatamente dados à percepção.

23. A distinção baconiana entre uma metafísica considerada improdutiva e uma física dedicada à descoberta de processos não diretamente observáveis aproxima-se da argumentação de Freud, que recorre à própria física como exemplo de ciência legitimada a investigar realidades invisíveis e, nesse sentido, comparável à psicanálise.

Freud e o Iluminismo francês

1. A admiração de Freud por Voltaire e Diderot relaciona-se à herança baconiana compartilhada por esses pensadores, que valorizam o conhecimento limitado e falível obtido pela investigação empírica e desconfiam dos sistemas metafísicos abrangentes sem fundamento experimental, orientação expressa no reconhecimento de Bacon como fundador da filosofia experimental por Voltaire e na adoção de seu método e de sua classificação dos saberes por Diderot.

2. O materialismo científico e o determinismo atribuídos a Voltaire em sua maturidade, a Diderot e a Rousseau submetem os seres humanos às mesmas leis de necessidade que governam a natureza, compreendendo-os como determinados por impulsos e ideias sobre os quais não exercem controle último e tornando ilusória a liberdade humana.

3. As reservas de Voltaire e Diderot diante do progresso humano decorrem dos limites impostos por forças naturais e sociais incontroláveis à felicidade, assumindo em Voltaire a imagem de uma história dominada pela crueldade e pela desgraça e, em Diderot, a concepção de que os benefícios da civilização e da moralidade são adquiridos à custa da felicidade natural, pois o conflito entre impulsos e restrições sociais condena os seres humanos à insatisfação.

4. A passagem de O sobrinho de Rameau na qual Diderot associa as paixões adultas de uma criança hipotética ao assassinato do pai e à relação sexual com a mãe fornece a Freud uma antecipação histórica do complexo de Édipo, enquanto a compreensão diderotiana do conflito entre natureza e moralidade também se aproxima das conclusões freudianas sobre a infelicidade constitutiva da civilização.

Freud e Kant

1. A influência de Kant sobre Freud revela-se na participação em debates filosóficos, nas referências a obras célebres e pouco conhecidas e nas anotações preservadas em seu exemplar da Crítica da razão pura, além do reconhecimento explícito de contribuições epistemológicas kantianas para a formulação da metapsicologia.

2. A psicanálise prolonga a correção kantiana da percepção ao distinguir os processos mentais inconscientes de sua apreensão pela consciência, assim como Kant distingue o objeto das percepções subjetivamente condicionadas que dele se tem, impedindo que a aparência consciente seja identificada imediatamente à realidade psíquica.

3. A distinção entre a realidade dos processos inconscientes e sua apresentação consciente já se encontrava esboçada quinze anos antes em A interpretação dos sonhos.

4. O inconsciente constitui a verdadeira realidade psíquica, cuja natureza íntima permanece tão desconhecida quanto a realidade exterior e cuja apresentação pelos dados da consciência é tão incompleta quanto a apresentação do mundo pelos órgãos dos sentidos.

5. A aproximação entre Freud e Kant envolve tanto a impossibilidade de conhecer diretamente o mundo externo pelos sentidos quanto a impossibilidade de a consciência apreender imediatamente os processos inconscientes dos quais recebe manifestações parciais.

6. A existência de ideias obscuras pode ser reconhecida indiretamente mesmo quando não se tem consciência delas, formando, nos seres humanos e nos animais, um campo mental imensurável do qual apenas algumas regiões se encontram iluminadas.

7. A reflexão freudiana também se dirige às implicações das descobertas psicanalíticas para a compreensão kantiana do tempo e do espaço.

8. A atemporalidade dos processos inconscientes significa que eles não se organizam segundo uma sequência temporal nem se modificam simplesmente pela passagem do tempo, enquanto a ideia abstrata de tempo parece derivar do funcionamento do sistema percepção-consciência e da percepção desse próprio funcionamento, possivelmente relacionada à proteção contra estímulos.

9. A concepção kantiana do tempo como forma do sentido interno aproxima-se da interpretação freudiana da temporalidade como percepção vaga do funcionamento psíquico, mas Freud acrescenta a existência de uma dimensão interior comparável a um mundo numênico, o id inconsciente, do qual emerge a consciência e no qual não há ordenação temporal.

10. O id não reconhece a passagem do tempo nem apresenta alterações de seus processos mentais produzidas exclusivamente pelo decurso temporal, característica cuja importância Freud considera ainda insuficientemente examinada pela filosofia.

11. As aproximações entre Kant e Freud incluem a separação entre a consciência e uma fonte que ela não apreende diretamente, a distinção entre a realidade e sua aparência e a função ativa do ego na unificação e organização da experiência.

12. A apropriação freudiana de Kant não se limita à continuidade, pois também envolve a pretensão de reformular e ultrapassar aspectos de sua teoria.

13. A ideia de tempo pode ser vinculada ao funcionamento da superfície perceptiva situada entre o ego e o mundo externo, permitindo substituir a formulação kantiana do a priori por uma investigação introspectiva do aparelho psíquico e estender essa reformulação ao espaço e à causalidade.

14. As condições universais e necessárias do conhecimento passam, nessa perspectiva, a ser compreendidas a partir do funcionamento mental humano, enquanto espaço e tempo aparecem como projeções ou percepções vagas da atividade do próprio aparelho psíquico.

15. A autocaracterização freudiana como dualista apoia-se na convicção de que nenhum monismo consegue eliminar a diferença entre as ideias e os objetos que elas representam.

16. A observação científica permite compreender apenas uma parcela relativamente pequena do mundo exterior, enquanto aquilo que permanece desconhecido tende a ser interpretado antropomorficamente mediante a projeção de uma percepção obscura dos próprios processos psíquicos.

17. O contato de Freud com escritos kantianos menos conhecidos revela-se nas referências à proximidade entre loucura e sonho e à concepção de que os sonhos expõem possibilidades ocultas da natureza humana, mostrando aquilo que alguém poderia ter sido sob condições diferentes de formação.

18. A investigação freudiana das origens psicológicas e históricas do imperativo categórico interpreta seu funcionamento como uma exigência compulsiva que não depende de motivos conscientes.

19. As proibições morais e convencionais da vida moderna podem conservar uma relação essencial com os tabus de sociedades antigas, cujo esclarecimento oferece uma via para compreender a origem obscura do próprio imperativo categórico.

20. A interpretação psicanalítica amplia essa hipótese ao situar o complexo de Édipo na origem do imperativo categórico kantiano.

21. A aproximação kantiana entre o céu estrelado e a lei moral interior adquire um sentido psicológico quando relacionada à figura paterna ou parental que proporciona a vida, protege contra seus perigos e impõe simultaneamente restrições aos desejos pulsionais e exigências de consideração pelos pais.

22. O superego, enquanto consciência moral atuante no ego, pode tornar-se severo, cruel e inflexível, permitindo compreender o imperativo categórico como herdeiro direto do complexo de Édipo.

23. A relação de Freud com Kant ultrapassa, assim, a influência recebida e transforma-se em uma tentativa de explicar a origem de uma concepção filosófica fundamental mediante a formação edípica do superego e de sua dimensão moral.

24. A familiaridade de Freud com Kant contrasta com a ausência de referência a formulações particularmente próximas de suas próprias concepções, como a realização inconsciente de finalidades naturais no desenvolvimento histórico da humanidade e o antagonismo entre os desejos individuais e as exigências da sociedade.

25. A confiança kantiana nas possibilidades de evolução humana permanece limitada, em consonância com as reservas dos pensadores iluministas.

26. Dogmas e fórmulas podem aprisionar os seres humanos em uma condição duradoura de imaturidade, da qual apenas poucos conseguem libertar-se mediante o cultivo autônomo do pensamento.

27. Kant e Freud compartilham, nesse sentido, reservas diante da possibilidade de um progresso humano efetivo e generalizado.

28. A ideia kantiana de que o objetivo terapêutico depende da mobilização dos recursos mentais do próprio paciente antecipa um aspecto importante da aliança freudiana entre o analista e uma parte do ego do analisando, embora essa aproximação não tenha sido explicitada por Freud.

Raízes iluministas da visão científica de mundo de Freud

1. A visão científica de Freud manifesta uma forte identificação com temas iluministas, especialmente a rejeição dos sistemas metafísicos como obstáculos ao conhecimento e a defesa da metodologia científica como meio de compreender tanto o mundo quanto os próprios seres humanos que o investigam.

2. A rejeição científica do inconsciente na época de Freud contrasta com a compatibilidade de sua investigação com a tradição filosófica fundadora da ciência, pois Bacon já advertia contra a confiança exclusiva nos sentidos e Kant destacava a participação da atividade mental na formação das teorias, permitindo reconhecer a hipótese do inconsciente como um desenvolvimento coerente dessa herança.

3. A compreensão freudiana da natureza humana insere o ser humano no mesmo universo material e organicamente constituído dos demais entes naturais, tornando o intelecto e a mente objetos legítimos de investigação científica e pressupondo uma realidade organizada que pode ser compreendida racionalmente e, por isso, submetida a algum controle.

4. A psicanálise representa, para Freud, uma ampliação da pesquisa científica ao campo mental, cuja legitimidade depende da elaboração intelectual de observações cuidadosamente examinadas e continuamente corrigidas, excluindo a revelação, a intuição e a adivinhação como fontes autônomas de conhecimento do universo.

5. A confiança freudiana na razão e na observação prolonga a tradição de Bacon, Locke e Newton ao pressupor uma capacidade humana universal de conhecer a organização racional do universo e de investigar uma natureza humana comum em suas dimensões psicológicas, sociais e políticas.

6. A possibilidade de compreender racionalmente o universo fundamenta uma esperança de progresso humano que, apesar do reconhecimento dos limites do intelecto, mantém a convicção de que a razão e a experiência podem prevalecer e contribuir decisivamente para proteger a humanidade de suas próprias forças destrutivas.

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