2 Freud metamédico
ASKAY, Richard; FARQUHAR, Jensen. Apprehending the Inaccessible: Freudian Psychoanalysis and Existential Phenomenology. Evanston: Northwestern University Press, 2018.
Freud como “metamédico”: teoria metapsicológica freudiana e prática psicoterapêutica
1. A finalidade originalmente reconhecida por Freud consistia em compreender os enigmas do mundo e, na medida do possível, contribuir para sua solução, vinculando sua investigação a uma aspiração de conhecimento que ultrapassava os limites estritamente profissionais da medicina.
2. A imagem de Goethe retomada por Freud contrapõe a abstração acinzentada da teoria à vitalidade da árvore dourada da vida, ressaltando a diferença entre a elaboração conceitual e a riqueza da existência concreta.
3. A formação médica de Freud conduziu ao reconhecimento de que manifestações corporais efetivas, como cegueira e paralisia sem lesões orgânicas correspondentes, poderiam ter origens psicológicas, hipótese reforçada pela supressão de sintomas mediante sugestões hipnóticas, embora o aparecimento posterior de novos sintomas revelasse os limites de uma intervenção dirigida apenas às manifestações particulares da doença.
4. O aperfeiçoamento das técnicas de tratamento das neuroses articulou-se à investigação do funcionamento mental e de sua influência sobre a saúde corporal, mediante uma compreensão organicamente fundamentada da relação entre mente e corpo e uma tentativa de explicar cientificamente a interação das forças naturais constitutivas do ser humano.
5. A confiança freudiana na ciência sustentava a convicção de que a observação, a formulação de hipóteses e a melhora clínica dos pacientes validavam sua teoria e justificavam a ampliação do conhecimento científico para acolhê-la, mas a resistência da comunidade científica manteve a psicanálise em uma posição intermediária entre ciência e filosofia, rejeitada por ambas por não satisfazer integralmente suas exigências.
A teoria metapsicológica de Freud
1. A psicanálise reúne um procedimento de investigação, um método terapêutico e um conjunto de conhecimentos psicológicos em uma ciência unificada cuja fundamentação exige uma teoria abrangente da natureza humana, levando Freud a desenvolver a metapsicologia como elaboração indispensável dos pressupostos do sistema psicanalítico e como transformação científica da metafísica, destinada a esclarecer a infraestrutura orgânica na qual os sentidos e as ideias humanas estariam fundamentados.
2. O caráter “meta” da metapsicologia decorre da necessidade de ultrapassar a observação empírica imediata para explicar adequadamente os processos psíquicos, pois a própria experiência clínica exigiria investigar dimensões inacessíveis à percepção direta e justificaria esse movimento pelo acréscimo de sentido proporcionado, estabelecendo uma fundamentação não diretamente empírica, embora considerada científica por Freud.
3. A metapsicologia compreende os processos mentais segundo três coordenadas: a dinâmica, que os explica pelo conflito entre forças pulsionais de origem orgânica representadas psiquicamente por imagens ou ideias investidas de afeto; a tópica, que distingue id, ego e superego e situa a consciência na camada exterior do ego voltada à percepção; e a econômica, que considera as quantidades de energia e sua regulação, inicialmente orientada pelo princípio do prazer e posteriormente modificada pelo princípio da realidade, que impõe o adiamento da satisfação pulsional.
4. A constituição do aparelho psíquico articula o id, reservatório de energia proveniente dos processos somáticos e orientado à redução da tensão mediante ações reflexas e realizações imaginárias de desejo, ao ego, que surge da insuficiência dessas imagens e distingue a realidade subjetiva dos objetos externos para mediar a satisfação segundo as condições efetivas do ambiente, enquanto o superego se desenvolve posteriormente como instância de inibição dos impulsos, imposição de finalidades morais e exigência de perfeição.
5. A perspectiva genética atravessa implicitamente toda a metapsicologia ao explicar estruturas e sintomas por seus antecedentes no desenvolvimento contínuo da vida psíquica, articulando as experiências predisponentes da primeira infância às disposições hereditárias e filogenéticas, em conexão com as demais coordenadas da teoria.
6. A articulação entre desenvolvimento e conflito permite distinguir as neuroses de transferência pelo antagonismo entre ego e id, as neuroses narcísicas pelo conflito entre ego e superego e as psicoses pela oposição entre ego e mundo externo.
7. A finalidade fundamental da metapsicologia consiste em explicar as condições universais e necessárias que tornam possível o surgimento do sentido na experiência humana.
A abordagem terapêutica de Freud
1. A metapsicologia oferece à terapêutica uma fundamentação filosófica e científica de caráter orgânico e biológico, na qual saúde e doença diferem em grau conforme a capacidade de equilibrar energias e exigências internas e externas, enquanto o adoecimento pode constituir uma resposta economicamente defensiva ao conflito e ao trauma, assumindo a forma de uma fuga diante de ameaças percebidas.
2. O adoecimento pode representar uma economia de esforço psíquico e apresentar-se como a solução mais conveniente para um conflito, embora a ineficácia dessa fuga se revele posteriormente.
3. A permanência inconsciente dos traços da ameaça, mesmo depois de sua remoção, exige o recalque daquilo que continua sendo vivido como perigoso e estabelece uma tensão entre a impossibilidade de recordar conscientemente e a impossibilidade de esquecer inconscientemente, consumindo energias necessárias à vida cotidiana e tornando a psicoterapia um meio de liberá-las mediante a conscientização dos conteúdos recalcados e o restabelecimento do equilíbrio psíquico.
A tarefa da psicoterapia freudiana
1. A tarefa terapêutica recebe uma definição explícita em torno do conhecimento do inconsciente e do enfrentamento das forças que impedem sua apropriação pelo paciente.
2. A atuação médica deve tornar conhecidos os impulsos inconscientes e recalcados presentes no paciente e descobrir as resistências que se opõem à ampliação de seu conhecimento de si.
3. A transformação do material inconsciente em consciente possibilita reduzir as compulsões psíquicas, pois o domínio voluntário alcança apenas os processos conscientes e depende das funções mentais superiores vinculadas à consciência para exercer controle sobre os impulsos.
4. A restauração do ego exige libertá-lo de suas restrições e restituir-lhe o comando sobre o id que havia sido comprometido pelos recalques precoces.
5. O fortalecimento do ego mediante a análise permite substituir por uma solução adequada as decisões insuficientes estabelecidas nas fases iniciais da vida.
6. A finalidade da terapêutica freudiana consiste em tornar conscientes os conteúdos recalcados, sobretudo os constituídos na primeira infância, e superar as resistências que impedem sua elaboração, ampliando o autoconhecimento e o controle dos impulsos.
7. O desenvolvimento das técnicas psicanalíticas partiu de uma compreensão inicial da psicanálise como forma poderosa de sugestão e do reconhecimento de que toda relação médica envolve uma interação psíquica capaz de influenciar favorável ou desfavoravelmente o paciente, tornando necessário dominar conscientemente esse fator.
8. A prática médica exerce efeitos psicoterapêuticos mesmo sem intenção ou conhecimento explícitos, razão pela qual a psicoterapia científica procura dirigir e fortalecer deliberadamente a influência exercida sobre a disposição psíquica do paciente.
9. A hipnose evidenciou a capacidade da sugestão de suprimir sintomas antigos, mas seus resultados dependiam da possibilidade de hipnotizar o paciente e da força sugestiva do médico, enquanto a frequente reaparição da doença ou de sintomas substitutivos demonstrava a fragilidade dessas intervenções.
10. O abandono da hipnose, por volta de 1896, decorreu do reconhecimento de que a imposição de sugestões encobria elementos necessários à compreensão da doença, levando à passagem de uma terapêutica que acrescentava conteúdos, comparável à pintura, para uma investigação analítica e arqueológica que removia obstáculos, comparável à escultura que revela a forma contida na pedra.
11. A sugestão procura sobrepor uma influência suficientemente forte para conter a expressão da ideia patogênica, sem investigar a origem, a intensidade e o sentido dos sintomas, enquanto a terapia analítica busca retirar impedimentos e fazer emergir aquilo que permanece encoberto.
12. A valorização da objetividade e da neutralidade do terapeuta também contribuiu para o abandono da hipnose e para a adoção de procedimentos que ampliassem a liberdade de expressão do paciente, permitindo uma manifestação mais plena do inconsciente.
13. A interpretação terapêutica, apoiada na associação livre e na análise dos sonhos, e a elaboração dos conteúdos constituem os principais recursos empregados para alcançar a cura, atribuindo-se à regra fundamental uma importância decisiva nesse processo.
14. A regra fundamental exige comunicar não apenas aquilo que se pode dizer intencionalmente ou como alívio de uma confissão, mas tudo o que a auto-observação oferece e tudo o que ocorre ao pensamento, mesmo quando pareça desagradável, irrelevante ou sem sentido.
15. A associação livre procura suspender o controle consciente sobre o encadeamento das ideias para permitir que a interpretação descubra conteúdos inconscientes recalcados desde a infância, substituindo posteriormente as restrições automáticas do recalque pelo julgamento consciente e ampliando o domínio da vida pulsional.
Interpretação dos sonhos
1. A presença frequente de relatos de sonhos durante a associação livre levou Freud a investigar sua importância terapêutica e seu valor para a compreensão da existência humana, mas essa investigação ultrapassou os limites reconhecidos pela ciência de sua época e encontrou forte indiferença, expressa na venda de apenas 351 exemplares de A interpretação dos sonhos ao longo de seis anos e na recepção desfavorável das poucas avaliações disponíveis.
2. A reação de Freud às resenhas científicas atribui a seus críticos uma compreensão tão insuficiente da obra que sua resposta se reduz à recomendação de uma nova leitura ou, em alguns casos, de uma primeira leitura efetiva.
3. A recepção negativa não enfraqueceu a convicção freudiana de que os sonhos possuíam importância decisiva para a investigação psíquica.
4. A defesa do sentido dos sonhos e da possibilidade de interpretá-los cientificamente aproxima Freud de antigas crenças populares que, nesse caso, lhe pareciam mais próximas da verdade do que as posições científicas predominantes.
5. O acesso proporcionado pelos sonhos exige distinguir o conteúdo manifesto, constituído pelo relato recordado, do conteúdo latente, cujo sentido emerge mediante as associações do paciente em relação à própria vida e à doença, revelando desejos inconscientes que se tornam mais acessíveis durante o sono em razão do relaxamento da censura.
6. A censura assume durante o sono a função de preservá-lo, produzindo imagens que satisfazem indiretamente desejos inconscientes e disfarçam seus aspectos inaceitáveis, de modo que o sonho manifesto constitui uma realização deformada de desejo cuja transformação impede a apresentação direta de pensamentos latentes capazes de despertar o sonhador.
7. A repetida impossibilidade de obter associações para determinados elementos oníricos, compartilhada por diferentes pacientes, levou Freud a postular uma modalidade simbólica de expressão desconhecida pelo próprio sonhador, cujos significados relativamente constantes sugeriam a persistência de uma herança antiga no inconsciente e a conservação não apenas da história infantil individual, mas também de elementos da história da humanidade.
8. O trabalho do sonho reconduz simultaneamente à pré-história individual da infância e à pré-história filogenética, na medida em que cada indivíduo recapitularia de maneira abreviada o desenvolvimento da espécie humana.
9. A hipótese de uma dimensão filogenética dos sonhos não elimina a exigência de interpretar cada experiência onírica a partir das associações e do contexto de vida de quem sonha.
10. A técnica psicanalítica procura possibilitar que as próprias pessoas investigadas produzam, tanto quanto possível, a solução de seus enigmas, atribuindo ao sonhador uma participação decisiva no esclarecimento do sentido de seu sonho.
11. A interpretação psicanalítica dos sonhos exige cautela diante da tentação de reduzi-la a uma simples decodificação de símbolos.
12. A tradução de símbolos e a investigação das associações devem complementar-se, mas a primazia permanece com os comentários do sonhador e com suas associações, enquanto o conhecimento simbólico desempenha uma função auxiliar.
13. A interpretação dos símbolos oníricos possui, portanto, um estatuto exclusivamente suplementar em relação ao procedimento associativo.
14. O conhecimento dos símbolos não substitui nem concorre com a associação livre, e seus resultados apenas adquirem utilidade quando integrados a ela.
Implicações dos sonhos
1. A investigação dos sonhos ultrapassa sua aplicação terapêutica ao oferecer uma via privilegiada para compreender a atividade inconsciente tanto no sono quanto na vigília, pois os mecanismos de seleção, interpretação, deformação e recalque também atuariam na experiência desperta de pessoas neuróticas e saudáveis, fazendo com que cada indivíduo participe inconscientemente da constituição de sua realidade a partir de conteúdos e energias individuais e filogenéticos dos quais a consciência recebe apenas uma manifestação parcial e já transformada.
Elaboração e transferência
1. A interpretação dos sonhos e a associação livre permitem reconstruir o passado a partir de fragmentos presentes e identificar as decisões infantis relacionadas ao recalque e às resistências, mas a comunicação dessas descobertas ao paciente, ainda que estabeleça uma aproximação entre ideias conscientes e inconscientes, não basta para produzir a cura, que exige uma transformação interior realizada por um trabalho psíquico específico.
2. A superação das resistências requer sua elaboração, sobretudo em nível emocional, processo responsável por mudanças decisivas e distintivo da análise em relação à sugestão, enquanto a comunicação das interpretações depende do estabelecimento prévio de um vínculo suficientemente desenvolvido entre paciente e terapeuta na transferência.
3. O primeiro objetivo do tratamento consiste em vincular o paciente ao processo terapêutico e à pessoa do médico, que tende a ser associado às imagens de pessoas das quais o paciente costumava receber afeto.
4. Um ambiente que permita a livre expressão favorece a exploração de emoções recalcadas e sua progressiva direção ao terapeuta na forma de uma neurose de transferência, cuja elaboração acompanha a recordação de experiências infantis reais ou fantasiadas e possibilita reviver, compreender e dominar conflitos anteriormente não resolvidos.
5. A transferência constitui uma resistência particularmente intensa porque atualiza no terapeuta atributos de figuras importantes do passado, tornando o confronto com os conflitos mais difícil ao transformá-los em uma relação presente, mas também indica o avanço do tratamento, na medida em que essa barreira inconsciente surge para impedir o acesso a conteúdos ainda encobertos.
6. A importância do terapeuta exige a manutenção da maior objetividade e neutralidade possíveis, embora ele também esteja sujeito a conflitos e influências inconscientes, tornando indispensável reconhecer e superar a contratransferência suscitada pela relação com o paciente.
7. Os limites impostos pelos próprios complexos e resistências internas exigem que o psicanalista inicie sua atividade com uma autoanálise e continue a aprofundá-la durante o trabalho de observação clínica.
8. A impossibilidade de realizar a autoanálise requerida compromete de tal modo a capacidade terapêutica que, para Freud, deveria levar à renúncia ao tratamento de pacientes pela análise.
9. A abordagem terapêutica freudiana oferece recursos para tratar sofrimentos não aliviados pelos procedimentos médicos disponíveis e fundamenta sua eficácia na inseparabilidade entre funcionamento mental e corporal, ambos enraizados em forças e processos orgânicos que a metapsicologia procura explicar cientificamente para compreender o adoecimento e possibilitar o alívio do sofrimento.
