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11 Heidegger x Freud

ASKAY, Richard; FARQUHAR, Jensen. Apprehending the Inaccessible: Freudian Psychoanalysis and Existential Phenomenology. Evanston: Northwestern University Press, 2018.

Ser versus id: a crítica de Heidegger à visão de mundo de Freud nos Seminários de Zollikon

1. A simplicidade dos fenômenos deixa de interpelar o pensamento quando a maneira científica tradicional de compreender a realidade enfraquece a capacidade de espanto diante daquilo que parece evidente, conforme a advertência heideggeriana.

2. A atividade filosófica não amplia necessariamente o conhecimento da realidade, podendo assemelhar-se, na imagem crítica de Freud, ao canto de um viajante que procura afastar o medo da escuridão sem conseguir enxergar além de seus limites imediatos.

3. A ausência de interlocução efetiva entre Freud e Heidegger contrasta com a proximidade linguística e geográfica, a influência comum de Brentano, as relações compartilhadas com Binswanger e Boss e o interesse de ambos pelo surgimento do sentido e pela psicologia, pois Freud não menciona Heidegger em suas principais obras posteriores a Ser e tempo, enquanto Heidegger apenas tardiamente se pronuncia de maneira mais extensa sobre a psicanálise.

A história da relação de Heidegger com Freud

1. O contato direto de Heidegger com a metapsicologia freudiana ocorreu por intermédio de Medard Boss, que havia realizado numerosas sessões de análise com Freud em 1925 e iniciou sua relação com Heidegger em 1947, introduzindo-o posteriormente aos escritos teóricos da psicanálise.

2. A leitura desses escritos intensificou a aversão de Heidegger à psicologia científica moderna, levando-o, segundo o testemunho de Boss, a reagir com profundo desconforto diante de construções que considerava artificiais, desumanas e fictícias, apesar de reconhecer a inteligência e o talento de Freud.

3. A rejeição heideggeriana decorre da interpretação de Freud como um grande cientista aprisionado em compromissos ontológicos herdados e não examinados, especialmente a transformação do ser humano em objeto de pesquisa e a defesa da supremacia do pensamento científico sobre a vida mental, posições vinculadas à constituição moderna do sujeito como instância soberana diante da qual tudo se converte em objeto.

4. A preocupação com a psicanálise integra uma crítica mais ampla à expansão do cientificismo, cuja reivindicação de exclusividade sobre a verdade objetiva tende a substituir a filosofia e até a religião, ao mesmo tempo que desqualifica como arbitrário ou místico o pensamento do ser e exclui progressivamente aquilo que não se ajusta aos seus limites.

5. A crítica à ciência não implica seu abandono, mas exige uma relação reflexiva com seus fundamentos e restrições, sobretudo porque a expansão de sua utilidade e de sua autoridade favorece o esquecimento de seus próprios pressupostos e enfraquece a disposição de interrogá-los.

6. A aplicação indiscriminada dos métodos das ciências naturais à existência humana constitui, para Heidegger, uma consequência dessa ausência de reflexão, fazendo da metapsicologia freudiana um exemplo de abordagem que, em vez de permitir aos entes aparecerem como são, os encobre e deforma mediante representações previamente estabelecidas.

7. A redução do ser humano a objeto simplesmente dado encobre sua maneira específica de ser, pois uma ciência projetada sem considerar a singularidade da existência humana não pode determinar adequadamente aquilo que pretende compreender, ainda que acumule informações sobre suas propriedades e relações.

8. A percepção de que a psicanálise e o cientificismo assumiam crescente influência na Europa levou Heidegger a aceitar o convite de Boss para dialogar com profissionais formados nas ciências naturais, encontrando nos Seminários de Zollikon uma oportunidade de confrontar seus pressupostos com a investigação filosófica.

9. A edição alemã dos Seminários de Zollikon, publicada em 1987, reúne registros de seminários, conversações e correspondência entre Heidegger e Boss, oferecendo uma exposição particularmente acessível de questões filosóficas complexas em razão do diálogo com psiquiatras, psicoterapeutas e médicos e constituindo um testemunho de sua discussão direta e extensa da psicanálise.

10. A finalidade desses encontros ultrapassa a crítica a Freud e procura suscitar uma transformação do olhar, capaz de suspender a exigência de comprovação empírica e de enquadramento lógico como critérios exclusivos, permitindo que os fenômenos se mostrem segundo sua própria maneira de aparecer.

11. Os registros de Zollikon constituem a fonte principal para esclarecer a crítica heideggeriana à visão científica de mundo de Freud, cuja compreensão exige articular os argumentos dirigidos à metapsicologia com elementos fundamentais da própria filosofia de Heidegger.

A crítica de Heidegger à visão de mundo de Freud

1. A crítica metodológica de Heidegger apresenta duas direções complementares: a metapsicologia não permaneceria fiel às exigências da investigação científica que reivindica e, de maneira mais fundamental, a existência humana não poderia ser adequadamente investigada pelos métodos das ciências naturais, tornando necessária uma alternativa ontológica capaz de romper o domínio de representações que a deformam, encobrem e restringem.

Freud como neokantiano

1. A ontologia implícita da psicanálise é vinculada por Heidegger à busca cartesiana de uma filosofia científica unificada e à física de Galileu e Newton, posteriormente reelaboradas por Kant, pelo neokantismo e pela escola de Helmholtz, permitindo caracterizar a metapsicologia como aplicação ao ser humano de uma combinação entre ciências naturais e teoria kantiana da objetividade.

2. A referência ao neokantismo pode ser compreendida particularmente a partir de Helmholtz e Friedrich Lange, cuja interpretação fisiológica de Kant explica o mundo sensível pela interação entre organismo e realidade desconhecida, considera as qualidades sensoriais sinais de objetos não diretamente conhecidos e recorre a inferências inconscientes sustentadas pela causalidade para postular as causas das sensações, estabelecendo um substrato fisiológico dos acontecimentos mentais.

3. A formulação kantiana da natureza como domínio submetido a leis fornece, nessa leitura, um fundamento assimilado por Freud, pois a regra expressa uma condição universal de ordenação do diverso e adquire o caráter de lei quando essa ordenação se apresenta como necessária.

4. A teoria kantiana da objetividade prolonga a constituição cartesiana do sujeito e reconhece que toda investigação de objetos pressupõe uma ontologia, mas permanece, segundo Heidegger, insuficiente por identificar o transcendental ao ontológico e conservar uma orientação que toma seu fundamento como algo semelhante a um objeto a investigar.

5. A causalidade científica ultrapassa a simples sucessão temporal de acontecimentos ao afirmar uma conexão necessária entre causa e efeito, de modo que o aquecimento de uma pedra pela luz solar não significa apenas que dois fenômenos se sucedem, mas que essa sucessão obedece a uma regra determinante.

6. A natureza kantiana constitui-se como existência de coisas determinadas por leis universais, entre elas a causalidade, enquanto os objetos da experiência resultam da articulação entre aquilo que se apresenta e sua organização pelo ego transcendental segundo categorias universais e necessárias, permanecendo o conhecimento no domínio dos fenômenos.

7. A aproximação heideggeriana entre Kant e Freud identifica no inconsciente uma reformulação daquilo que ultrapassa a percepção consciente e sugere que id, ego e superego podem corresponder, sob outra nomenclatura, à sensibilidade, ao entendimento e à razão, incluindo nesta última a dimensão da lei moral e do imperativo categórico.

8. A produção freudiana de percepções e ideias depende dos investimentos de energia provenientes das pulsões, mediante os quais estímulos internos e externos são continuamente transformados, estabelecendo uma mediação psíquica entre os processos subjacentes e aquilo que aparece à consciência.

9. A advertência kantiana de que a percepção é subjetivamente condicionada e não coincide com aquilo que é percebido encontra um prolongamento na distinção freudiana entre percepção consciente e processo mental inconsciente, pois a realidade psíquica, assim como a física, não precisa corresponder à maneira pela qual se apresenta.

10. A analogia com o domínio numênico permite compreender tanto o id inconsciente, enraizado nos processos somáticos, quanto a realidade exterior como dimensões que permanecem desconhecidas em sua constituição última, às quais Freud por vezes se refere mediante a imagem de substratos misteriosos.

11. A objeção decisiva de Heidegger a esses pressupostos consiste em que a existência humana não é um objeto simplesmente dado nem uma psique encapsulada, tornando necessário abandonar representações objetificantes de sujeito, pessoa, ego e consciência que encobrem sua dimensão ontológica.

A dimensão ontológica dos seres humanos

1. A adesão freudiana ao cientificismo naturalista restringiria o ser humano à condição de algo simplesmente dado na natureza, impedindo a apreensão do Dasein como ser-no-mundo e obscurecendo a clareira, o mistério, o ser da existência humana e a diferença ontológica entre ser e entes.

Investigação ôntica e investigação ontológica

1. A diferença ontológica distingue os entes, compreendidos como coisas, processos, relações e acontecimentos dotados de características determinadas, do ser desses entes, enquanto as ciências realizam investigações ônticas sobre aquilo que existe e suas relações, podendo sua concentração exclusiva nesse domínio conduzir ao esquecimento do ser.

2. A investigação ontológica interroga o sentido do ser e aquilo que significa os entes serem, incluindo a questão da existência humana, sem transformar o ser em uma entidade, propriedade ou categoria dos entes.

3. A profundidade pretendida pela metapsicologia não basta para torná-la ontológica, pois sua investigação permanece, na avaliação heideggeriana, no plano da determinação do ser humano como entidade e pressupõe uma ontologia de coisas, deixando de perguntar pelas condições que tornam possíveis as maneiras concretas de existir, de ser si mesmo e de realizar a própria investigação psicanalítica.

4. A redução do indivíduo a substâncias, relações e acontecimentos quantificáveis deforma a existência humana porque não esclarece a possibilidade de alguém interrogar o próprio ser, reconhecer sua finitude e relacionar-se com possibilidades ainda não realizadas, tornando a metapsicologia ontologicamente inadequada e antropologicamente insuficiente para compreender os entes que nós mesmos somos.

O exemplo da morte: a abordagem ôntica de Freud e a abordagem ontológica de Heidegger

1. A análise freudiana da morte inscreve-se na metapsicologia e na definição da pulsão como tendência da vida orgânica a restaurar um estado anterior, articulando pulsões de vida e de morte ao princípio de constância e à hipótese de que os processos vivos tendem a retornar à estabilidade do estado inorgânico.

2. A morte por razões internas e o retorno da matéria viva ao inorgânico sustentam a formulação freudiana de que a finalidade de toda vida é a morte.

3. A pulsão de morte exprime, nessa perspectiva, o esforço mais universal da substância viva para regressar à quietude do mundo inorgânico.

4. A compreensão dos seres humanos como organismos submetidos à decomposição de seus processos físico-químicos conduz à hipótese de uma tendência inconsciente individual à própria morte, concebida como retorno a uma condição de repouso.

5. A hipótese de um desejo inconsciente de aniquilação não investiga ontologicamente o sentido da existência, mas procura demonstrar a conformidade do organismo humano a uma lei física geral, permanecendo integrada às implicações mecanicistas e deterministas da metapsicologia.

6. A reflexão freudiana sobre a morte também alcança o plano concreto da vida cotidiana ao examinar as atitudes predominantes entre os adultos antes da Primeira Guerra Mundial.

7. O reconhecimento abstrato da inevitabilidade da morte convive com uma conduta que procura excluí-la da vida e convertê-la em acontecimento fortuito, produzindo um empobrecimento da experiência que perde intensidade, interesse e profundidade.

8. A guerra impõe o reconhecimento incontornável de que as pessoas efetivamente morrem e rompe a complacência que ocultava essa realidade, levando Freud a vincular a capacidade de suportar a vida à preparação para a morte.

9. As análises de Freud e Heidegger convergem no reconhecimento da inevitabilidade da morte e na identificação das estratégias cotidianas de autoengano pelas quais se evita confrontá-la, sobretudo quando ela é reduzida a um acidente recorrente que parece atingir apenas circunstancialmente a existência.

10. A procura da verdade exige abandonar a atitude que recusa à morte seu lugar na realidade e no pensamento, reconhecendo a insuficiência de uma postura civilizada que pretende viver psicologicamente além de suas possibilidades efetivas.

11. A evasão cotidiana diante da morte corresponde, na terminologia heideggeriana, a um ser-para-a-morte inautêntico, enquanto seu enfrentamento permite uma abertura mais verdadeira à própria existência.

12. A consciência efetiva da morte intensifica a experiência da vida e confere urgência aos projetos, aproximando Freud e Heidegger na compreensão de que a finitude revela o alcance das possibilidades humanas e impede que a existência seja vivida como um jogo sem consequências.

13. A convergência não elimina uma diferença decisiva, pois Freud confere menor centralidade à apropriação explícita da própria morte singular e tende a considerar suficiente o reconhecimento de que as pessoas morrem, permanecendo, sob o critério heideggeriano, em uma compreensão cotidiana ainda anterior à autenticidade.

14. A publicidade da convivência cotidiana apresenta a morte como um acontecimento intramundano conhecido, continuamente observado na morte de vizinhos, desconhecidos e pessoas distantes, sem necessariamente confrontar cada indivíduo com sua própria possibilidade de morrer.

15. A redução da morte a um acontecimento que atinge genericamente as pessoas submete sua compreensão ao impessoal (das Man), enquanto a apropriação da morte como possibilidade insubstituível singulariza a existência e permite confrontar o próprio si-mesmo, pois ninguém pode morrer em lugar de outro nesse sentido existencial.

16. A morte não constitui para Heidegger apenas um evento diante do qual se assumem atitudes psicológicas, mas uma maneira de ser que atravessa a existência desde seu início, permeia os projetos e revela sua transitoriedade como estrutura imanente e a priori do ser-no-mundo.

17. A diferença mais profunda entre as abordagens reside na finalidade da investigação, pois Freud descreve atitudes concretas e valoriza a verdade diante do autoengano, enquanto Heidegger encontra na morte uma via de passagem do exame ôntico das condutas à compreensão ontológica da existência, desvelando a temporalidade como seu fundamento e a finitude própria como condição da autenticidade.

18. A limitação freudiana consiste, nessa avaliação, em tratar a morte como retorno biológico ao inorgânico ou como objeto de atitudes cotidianas, sem explorar sua potência para revelar o si-mesmo como existência concreta que antecipa seu fim e para interrogar o sentido do ser humano.

A investigação ontológica como investigação mais originária

1. A investigação do sentido do ser possui prioridade porque qualquer forma de conhecimento já pressupõe alguma compreensão do que significa ser, cabendo à ontologia fundamental esclarecer as condições a priori e as estruturas necessárias que tornam possíveis e significativas as diferentes experiências humanas.

2. A psicanálise, enquanto investigação prática da maneira singular pela qual alguém se relaciona com o mundo, com os outros e consigo mesmo, pressupõe uma compreensão geral da existência humana e de sua relação com possibilidades, tornando a investigação ontológica anterior e fundamental em relação ao esclarecimento das situações individuais.

3. A atividade psicanalítica constitui uma possibilidade específica da existência humana e, por isso, depende de capacidades e estruturas anteriores ao seu exercício, cuja investigação permite compreender como alguém pode relacionar-se consigo mesmo e com outro dessa maneira.

4. A análise ontológica também esclarece a própria prática terapêutica ao permitir que o analista examine como seu quadro conceitual e sua personalidade influenciam a compreensão do paciente, reconhecendo as possibilidades estruturais de sua existência e os obstáculos particulares que podem deformar a interpretação, inclusive aqueles envolvidos na contratransferência.

5. A compreensão do sentido de uma situação concreta para determinado indivíduo exige que a compreensão cotidiana já utilizada pelo analista receba fundamentação ontológica, condição que sustenta a tarefa psicanalítica de tornar explícitos os significados da experiência no plano ôntico.

6. A investigação ontológico-transcendental pergunta pela constituição da existência que torna possíveis suas diferentes maneiras de ser e oferece o esclarecimento conceitual necessário à compreensão das situações concretas, abrangendo as possibilidades do si-mesmo e fundamentando, por isso, a própria investigação psicanalítica.

7. A procura terapêutica da verdade sobre as relações individuais pressupõe igualmente alguma compreensão de verdade, sentido, compreensão e interpretação, cujo esclarecimento ontológico deve orientar tanto o conhecimento do paciente quanto o entendimento da atividade psicanalítica.

O Dasein como ponto de partida adequado para a investigação ontológica

1. O Dasein constitui o ponto de partida necessário da investigação porque já se encontra na clareira, possui uma compreensão implícita de seu ser e pode interrogá-lo, tornando indispensável esclarecer a maneira de ser daquele que investiga para compreender o sentido dos resultados de qualquer investigação.

2. O Dasein existe sempre situado, aberto a possibilidades e a entes, e caracteriza-se pelo caráter de ser cada vez meu, enquanto sua experiência de sentido se realiza como ser-no-mundo, um campo concreto e unificado no qual se relaciona com coisas, com outros e consigo mesmo e participa constitutivamente da abertura da clareira.

A clareira

1. A compreensão da dimensão ontológica humana exige esclarecer a clareira, cuja importância, para Heidegger, permanece despercebida tanto por Freud quanto por grande parte da tradição filosófica, apesar de constituir uma condição fundamental de suas próprias atividades de pensamento.

1. A clareira como presentificação. A clareira constitui a região aberta que torna possíveis a presença e a ausência dos entes, o pensamento e o sentido, sem poder ser separada daquilo que nela aparece, pois ser e entes permanecem reciprocamente implicados; sua relação com a experiência cotidiana revela a unidade do ser-no-mundo e impede compreendê-la como uma coisa ou lugar concreto, o que reduziria sua significação ao plano ôntico.

2. A clareira não pode ser percebida como um objeto cotidiano, mas apenas apreendida pelo pensamento reflexivo que ela própria possibilita, de modo que até uma teoria que a ignora, como a metapsicologia na interpretação heideggeriana, já depende de sua abertura para constituir-se.

3. A abertura silenciosa constitui a condição originária da copertença entre ser e pensar, tornando possíveis tanto a presença quanto sua apreensão.

2. A clareira como o mais originário. A abertura livre da clareira constitui um fenômeno primordial para além do qual não se deve postular uma realidade oculta semelhante ao mundo numênico kantiano, pois toda especulação, dialética ou intuição já depende de algo poder mostrar-se, e o Dasein encontra-se sempre referido a essa manifestação anterior.

4. Os fenômenos ontológicos antecedem necessariamente os fenômenos perceptíveis, pois reconhecer uma mesa determinada pressupõe receber previamente a presença de algo, embora essa prioridade na ordem do ser costume ser reconhecida apenas posteriormente na ordem da reflexão.

5. A dimensão ontológica permanece, assim, como aquilo que não foi expressamente recebido ou percebido, podendo ser compreendida como encoberta sem deixar de participar do desencobrimento.

3. A clareira como concessão do ser. A clareira concede a possibilidade da presença, da espacialidade, do dar e do receber e da relação entre ser e pensamento, fazendo da existência humana uma receptora do dom do ser, cuja origem no mistério de encobrimento e desencobrimento convida a reconhecer os entes em sua maneira própria de ser, em vez de considerá-los apenas segundo sua utilidade e disponibilidade para exploração.

4. A clareira e o caráter clareado do Dasein. A clareira e a abertura constitutiva do Dasein mantêm uma relação recíproca e inseparável, na qual existir significa sustentar um domínio de recepção e percepção das significações que se apresentam; o perceber-receber (vernehmen) reúne uma dimensão ativa de apreensão e uma dimensão receptiva de escuta da presença, tornando o ser humano simultaneamente abertura aos entes e destinatário da interpelação do ser.

6. A abertura humana realiza-se como envolvimento com os entes, mas exige também um recuo que lhes permita mostrar o que são e como são, de modo que deixar-ser significa acolher sua significação, sua copertença e sua singularidade, reconhecendo que a extensão e a maneira dessa abertura delimitam as possibilidades da experiência.

7. A existência humana pode tornar-se mais receptiva à dimensão ontológica quando deixa de se concentrar exclusivamente nos entes e permanece aberta à presença, possibilidade esclarecida por Heidegger mediante a noção de demorar-se junto àquilo que se encontra.

8. O demorar-se humano na clareira envolve permanecer junto aos entes e aos outros em uma relação que participa de sua manifestação, assumindo o cuidado por aquilo que se encontra e favorecendo, tanto quanto possível, o desenvolvimento de sua essência própria.

5. A clareira do encobrimento e do desencobrimento. Toda clareira é também clareira do encobrimento, pois aquilo que se revela pressupõe uma dimensão anteriormente oculta e conserva aspectos inacessíveis, sem que encobrimento e desencobrimento sejam simples opostos, uma vez que se implicam reciprocamente e pertencem à própria manifestação da presença.

9. O encobrimento manifesta-se como inacessibilidade em diferentes graus, desde aquilo que apenas não está em foco até o que se retira de tal maneira que sua própria inacessibilidade deixa de ser percebida, configurando o mistério como manifestação do inacessível ou como encobrimento do próprio encobrimento, cuja influência atravessa a existência humana independentemente de seu reconhecimento consciente.

10. No plano ôntico, os entes podem permanecer ocultos por não se mostrarem, por serem negligenciados em favor de outro interesse ou por serem encobertos por algo diferente, como ocorre na dificuldade de encontrar um objeto que se está usando, na distração que impede perceber alguém próximo ou na interpretação que admite sinais isolados e evita reconhecer sua significação mais ampla.

11. No plano ontológico, o encobrimento atinge a própria clareira quando uma interpretação revela algo e simultaneamente restringe suas possibilidades de compreensão, como na classificação imediata de uma experiência segundo categorias religiosas previamente estabelecidas, ou quando os entes aparecem segundo uma aparência que os deforma, situação na qual a teoria freudiana exemplificaria, para Heidegger, o encobrimento do próprio encobrimento.

12. A desatenção de Freud à dimensão ontológica levaria a tomar os entes como medida exclusiva da investigação e a afastar-se do mistério, convertendo o esquecimento do encobrimento em errância e fazendo com que a teoria contribuísse tanto para ocultar a existência humana quanto para perpetuar interpretações inadequadas.

13. A absolutização de uma interpretação do mundo produz um encobrimento particularmente profundo, pois transforma seus pressupostos em verdades aparentemente imunes à discussão, como ocorreria na adesão freudiana à ciência enquanto único acesso legítimo ao conhecimento e à realidade, embora o reconhecimento desse próprio encobrimento pudesse abrir uma aproximação à verdade do ser.

14. A distinção entre investigação ôntica e ontológica e o esclarecimento da clareira procuram mostrar que a ciência não detém uma verdade última e exclusiva sobre a existência humana, cuja unidade concreta deve orientar a investigação desde o início, evitando que procedimentos de divisão, redução e mensuração sejam tomados como revelação integral daquilo que, ao mesmo tempo, podem deformar.

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