Filósofos e loucos
ASKAY, Richard; FARQUHAR, Jensen. Of philosophers and madmen: a disclosure of Martin Heidegger, Medard Boss, and Sigmund Freud. Amsterdam: Rodopi, 2011.
Introdução
1. Na primavera de 1946, durante os interrogatórios da comissão de desnazificação sobre sua participação no Partido Nacional-Socialista, Martin Heidegger sofreu um colapso mental e foi internado no Sanatório Haus Baden, sob os cuidados do psicanalista Viktor von Gebsattel, circunstância que inaugurou pela primeira vez em sua vida uma ocasião concreta de encontro recíproco entre a filosofia fenomenológica e a psicanálise, até então um tema sobre o qual ele pouco havia se pronunciado.
2. Os pormenores das sessões terapêuticas com Gebsattel permanecem pouco conhecidos, pois o relato do próprio Heidegger se limita a uma caminhada pela floresta nevada e à demonstração de calor humano e amizade que o teriam curado em três semanas, embora tudo indique que ali se lançaram ou se fortaleceram as bases de sua posterior colaboração com a escola psiquiátrica antropológico-existencial de Binswanger e Boss, bem como discussões sobre os fundamentos filosóficos da psicoterapia.
3. Diante dessas circunstâncias históricas, impõem-se perguntas inevitáveis e instigantes sobre como teria sido para Heidegger ocupar o lugar de paciente e analisando e, reciprocamente, como teria sido para um psicanalista experiente ter como analisando um filósofo de renome mundial.
4. A obra de Medard Boss, Psicanálise e Daseinsanálise, oferece um caminho para imaginar esse encontro por meio do relato da paciente Dra. Cobling, cuja trajetória guarda notáveis semelhanças com a de Heidegger, como a educação religiosa opressiva, os episódios depressivos desde a juventude, a inteligência excepcional, a ascensão em instituições de ensino, o colapso diante de pressões externas, o temor de vigilância e os conflitos ligados à sexualidade, que no caso de Heidegger envolveriam o romance com a jovem aluna judia Hannah Arendt, o antissemitismo de sua esposa e sua filiação nazista, fatores possivelmente determinantes para seu colapso no pós-guerra.
5. A recusa da Dra. Cobling em aceitar a aplicação científica da psiquiatria ao sentido humano, incluindo as noções de consciente e inconsciente, e sua indignação diante do desprezo de Boss por suas experiências imediatas, aproximam-na da crítica heideggeriana à psiquiatria tradicional, de modo que sua cura, alcançada graças à compreensão daseinsanalítica do ser humano, permite conjecturar uma situação terapêutica em que o professor Heidegger atua ao mesmo tempo como paciente e mestre de um Boss em transformação, hipótese reforçada pelo interesse do próprio Gebsattel em superar a psicanálise freudiana rumo a uma terapia mais humanista.
6. Busca-se oferecer um relato informativo e envolvente da filosofia inicial de Heidegger e de seu confronto com a psicanálise freudiana, sem tomar partido nem julgar qual das perspectivas fornece a explicação mais adequada da existência humana, mas apresentando ambas as visões de mundo de maneira a favorecer o diálogo entre os leitores.
7. A primeira parte consiste em uma peça ficcional na qual Boss assume o papel de terapeuta de Heidegger no Sanatório Haus Baden, servindo de catalisador para o engajamento concreto e teórico entre psicanálise e filosofia heideggeriana, evidenciando o que cada orientação tem a oferecer à outra, acompanhando a evolução de Boss de uma postura psicanalítica tradicional para uma fenomenológica e encarnando a tensão existencial de quem se encontra dividido entre dois gigantes, Heidegger e Freud, portadores de intuições poderosas, porém mutuamente conflitantes.
8. Por intermédio de Boss, antigo analisando de Freud, emergem também as opiniões freudianas, revelando um interesse ambivalente pela filosofia que jamais abarcou a perspectiva fenomenológica, como mostra sua longa amizade com Ludwig Binswanger, influenciado por Husserl e Heidegger, na qual nenhum dos dois chegou a apreciar plenamente a visão filosófica do outro, já que o interesse filosófico de Freud se restringiu a uma modesta seleção da metafísica tradicional.
9. Heidegger, ao contrário, dedicou extensas reflexões à psicanálise freudiana em sua fase tardia, pressentindo uma catástrofe decorrente da aplicação inadequada da ciência à existência humana, comparável a uma nova religião de efeitos desastrosos sobre as relações humanas, razão pela qual participou dos Seminários de Zollikon, que constituem fonte valiosa de sua atitude diante da psicanálise e representam o esforço conjunto com Boss para introduzir sua filosofia na medicina, rejeitando a metapsicologia freudiana e propondo uma nova terapia fundada em sua filosofia inicial.
10. Diante das numerosas críticas fenomenológicas dirigidas à psicanálise, sobretudo à aplicação da metodologia científica na construção da metapsicologia, concede-se a Freud a oportunidade de responder diretamente a seus adversários com base em suas próprias defesas, forjadas contra ataques filosóficos e científicos ainda em vida, e em sua perspectiva filosófica parcialmente herdada de Schopenhauer, utilizando-se sempre que possível citações reais de Heidegger, Freud e Boss, acompanhadas de notas, para que os personagens falem por si mesmos e se preserve a fidelidade histórica da peça, ainda que suas palavras apareçam fora de contexto.
11. A segunda parte examina as perspectivas filosófico-psicológicas fundamentais das figuras envolvidas no diálogo entre Heidegger e Freud, além de uma discussão geral sobre filosofia e loucura, começando por uma visão panorâmica dos princípios da psicanálise freudiana e contrapondo-lhe a abordagem fenomenológica do jovem Heidegger, apresentada por meio de um cenário fenomenológico concreto que convida o leitor a responder a questões nele surgidas e, assim, a experimentar diretamente o novo modo heideggeriano de pensar e de ver.
12. Segue-se uma crítica abrangente da psicanálise freudiana sob a perspectiva heideggeriana, acompanhada do exame de Ludwig Binswanger e Medard Boss, cujas reações contra Freud e cujas tentativas de criar uma terapia alternativa, sustentadas por vínculos pessoais e profissionais com ambos os pensadores, deram origem a uma nova psicanálise fundada na ontologia fenomenológica de Heidegger, conhecida como Daseinsanálise.
13. O capítulo final explora brevemente a questão da loucura em sua relação com os filósofos, especialmente Heidegger, e considera o que a psicanálise freudiana e a fenomenologia heideggeriana podem oferecer uma à outra em direção a uma compreensão holística do sofrimento humano.
14. A segunda parte oferece, assim, um vislumbre das teorias fundamentais surgidas nesse fragmento instigante da história humana, marcado por intensos esforços intelectuais para compreender como os seres humanos efetivamente são no mundo, como pensam, vivem, labutam e sofrem, perspectivas que, apesar de suas divergências, contribuem com intuições valiosas para um entendimento mais profundo da existência humana.
15. O título De Filósofos e Loucos remete a Ratos e Homens, de John Steinbeck, sugerindo o menor e o maior do potencial humano, e alude à tênue fronteira entre genialidade e loucura que atravessa a história das ideias, de modo que situar Heidegger no Sanatório Haus Baden permite testemunhá-lo em um momento simultâneo de fraqueza e força, no qual sua capacidade de defender-se contra a própria vulnerabilidade revela aspectos decisivos de sua filosofia e aplicações pertinentes tanto da psicanálise freudiana quanto da Daseinsanálise de Boss, sendo indubitável que esse encontro entre filósofo e louco lhe proporcionou uma experiência direta que marcou profundamente a história da psicanálise.
