2.5 Boss
ASKAY, Richard; FARQUHAR, Jensen. Of philosophers and madmen: a disclosure of Martin Heidegger, Medard Boss, and Sigmund Freud. Amsterdam: Rodopi, 2011.
Em Busca de um Fundamento Humanista para a Psicanálise: Medard Boss
1. Sob a autoridade vigilante de Martin Heidegger, Medard Boss empenhou-se em promover a transformação do pensamento psicanalítico tão ardentemente desejada pelo filósofo, numa amizade e colaboração que duraram até o fim de suas vidas, embora a data e o modo do primeiro contato permaneçam incertos, oscilando os relatos entre a mediação de Binswanger, um anúncio de Ser e Tempo num jornal e uma primeira carta calorosamente respondida em 1946 ou 1947, e Boss, formado classicamente em psicanálise por Binswanger e por Freud, reconheceu em Heidegger a maior influência sobre sua obra, a ponto de declarar que Fundamentos Existenciais da Medicina e da Psicologia se desenvolveu sob o olhar atento do filósofo, sem nenhuma seção de alcance filosófico privada de sua crítica generosa, ao passo que Boss, em contrapartida, ajudou Heidegger a ultrapassar os limites da filosofia e alcançar os círculos médicos, iniciando, conduzindo e publicando os Seminários de Zollikon, ministrados em sua casa para que outros profissionais de saúde aprendessem a ver de outro modo e a pensar de novo, numa crítica comum à nova religião chamada ciência e num esforço para salvar os resquícios de humanidade por meio de uma nova psicanálise, depois conhecida como Daseinsanálise.
2. Sigmund Freud figura entre os principais responsáveis pela aplicação indevida da metodologia científica ao âmbito humano, e sua metapsicologia foi combatida com veemência por Heidegger e Boss, que denunciava no dualismo cartesiano freudiano um abismo intransponível que impede qualquer compreensão profunda da existência humana, exigindo o abandono da imagem irrealista do ser humano como dotado de componentes interno e externo e das caixas pretas psicológicas no interior da psique, assim como de noções como aparelho psíquico, energia dinâmica, inconsciente, recalque, resistência e realização de desejos oníricos, em favor de um recurso à experiência imediata, a qual revela que o ser humano sempre e desde o início realiza sua existência em e como algum modo de comportamento em relação a algo ou a alguém.
3. Apesar da rejeição absoluta da metapsicologia, Boss manteve no início da carreira simpatia por grande parte da abordagem terapêutica freudiana, sustentando que a obra de Freud estava cindida entre a metodologia teórica e a prática terapêutica, incoerentes entre si tanto no plano racional quanto em sua própria experiência como analisando de Freud e psicanalista freudiano, o que o levou a confiar na eficácia das técnicas e na compreensão freudiana do processo terapêutico e a ver no Freud terapeuta uma pessoa bondosa, calorosa e atenta ao bem dos pacientes, empenhada em criar um ambiente não intrusivo aberto ao desdobramento natural da terapia, de tal modo que, compreendidas plenamente as implicações de seus conselhos práticos, se revelaria nele um heideggeriano enrustido.
4. Em Psicanálise e Daseinsanálise, Boss expõe a harmonia intrínseca entre a analítica do Dasein e os conselhos terapêuticos freudianos, desvelando pressupostos que o próprio Freud não percebeu e ocultou involuntariamente por lealdade acrítica à ciência, como na regra fundamental da psicanálise, cuja exigência de absoluta honestidade e veracidade visa permitir ao paciente desvelar-se e desdobrar-se em sua máxima abertura, objetivo coerente apenas se o Dasein for pressuposto como abertura, e na atenção ao conteúdo de sentido dos sonhos e de todos os fenômenos humanos, que implica uma concepção não causal do ser humano, já que a dimensão de sentido da existência é incompatível com a causalidade científica, pressupondo um âmbito iluminado em cuja lucidez a significação dos fenômenos do mundo pode desvelar-se e brilhar, abertura de mundo esclarecedora que é a própria existência humana.
5. O Freud terapeuta concebia o ser humano não apenas como abertura, mas também como capaz de exercer sua liberdade de escolher como viver e de decidir entre uma existência autêntica ou inautêntica, em consonância com o poder-ser heideggeriano, ainda que Boss tenha interpretado mal as concepções de liberdade de ambos, como mostram as instruções explícitas sobre quem pode ou não se beneficiar da psicanálise, excluindo pessoas com graves falhas de caráter ou falta de inteligência e privilegiando as capazes de escolher, e a frequente consideração da resistência, que reconhece a possibilidade de fugir de si mesmo, sendo o propósito primordial da terapia oferecer ao paciente a escolha entre fugir ou abraçar sua possibilidade mais própria de existência autêntica.
6. Para explorar os horizontes das possibilidades dos pacientes, Freud os abordava como historiador, examinando suas histórias de vida para compreender a situação presente e enfatizando as experiências infantis para desvelar traumas passados, o que revela uma consciência da importância da historicidade e da temporalidade semelhante à heideggeriana, assim como sua ênfase na permissividade do ambiente terapêutico, na ausência de julgamento por parte do terapeuta e na recusa de impor compreensões teóricas aos pacientes indica uma compreensão da distinção entre solicitude que intervém e solicitude antecipadora, reconhecida e defendida, em favor da segunda, por ambos os pensadores.
7. Com a fundamentação adequada da terapia freudiana na ontologia heideggeriana, os aspectos mais valiosos da psicanálise poderiam ser preservados, mais bem apreciados e até ampliados numa abordagem terapêutica unificada e holística, que Boss, tomando o termo de Binswanger, denominou Daseinsanálise, dedicando-se a reexaminar os rumos da medicina.
8. A investigação da patologia exige primeiro esclarecer o que se entende por saúde, base de um quadro terapêutico verdadeiramente eficaz, e, enquanto a visão dinâmica freudiana reduzia saúde e patologia a um jogo de forças e energias conflitantes, inadequado à experiência vivida e ao sofrimento, a nova descrição apresenta o ser humano como abertura, iluminador de mundo, temporal, livre para escolher seu modo de existência e autêntico ou inautêntico em seu comportamento consigo, com o mundo e com os outros, redefinindo-se a doença como restrição no relacionar-se e orientando-se a avaliação do ser-no-mundo do paciente por três perguntas centrais, a saber, como está prejudicada em dado momento sua liberdade de realizar suas potencialidades, quais são essas potencialidades e em relação a quais entes de seu mundo esse prejuízo ocorre.
9. Com um novo foco terapêutico e a compreensão da doença como constrição do mundo, Boss reexaminou a abordagem freudiana e encontrou resquícios contaminados por seu fundamento científico, como a concepção da terapia como transferência em que o paciente regride a repetições infantis e atua sobre o terapeuta como objeto de amor visado, o que levava a recomendar a atitude objetiva e fria do cirurgião, a tela em branco para a projeção do passado, a prevenção da contratransferência e o desestímulo ao envolvimento emocional, ao passo que a relação terapêutica deve ser considerada genuína e não mero ato de transferência, pois somente por meio de relações autênticas, respeitosas e amorosas o paciente pode confiar no analista e sentir-se seguro para atuar como precisa, enquanto a postura objetiva freudiana pode frustrar essa atuação, desencorajá-lo de revelar-se infantil e impor-lhe uma restrição que impede gravemente o progresso terapêutico.
10. A atuação do paciente não é repetição dirigida a um objeto de amor visado, mas um desdobramento original impossível antes da relação de confiança entre analista e analisando, e somente na segurança da terapia o paciente pode superar suas relações restritas com o mundo e experimentar novas possibilidades de relação, de modo que, se para Freud a transferência é uma regressão necessária à primeira infância, não há retorno possível, pois tais pacientes nunca ultrapassaram seus modos infantis de relação, apenas aprenderam a disfarçá-los em máscaras que revelam relações de mundo muito restritas, cabendo à Daseinsanálise oferecer-lhes pela primeira vez uma genuína relação entre pais e filho para curar feridas passadas e amadurecer até a condição de adultos responsáveis, sem a ênfase excessiva no passado que impõe a lembrança dos traumas infantis e com atenção à primazia do futuro, já que o Dasein é suas possibilidades.
11. A herança científica de Freud obscureceu também sua visão terapêutica diante de fenômenos como alucinações e sonhos, ao enfatizar excessivamente a oposição entre real e fantasia, quando, em vez de questionar a realidade das experiências do paciente ou confiná-las às manifestações da doença, convém reconhecer que não se têm sonhos, mas se é o próprio estado de sonhar, e abordar alucinações e sonhos como modos igualmente autônomos e reais, embora diferentes, de comportar-se e relacionar-se com o que brilha à luz do Dasein, importando sobretudo o que revelam sobre as relações de mundo do paciente e as restrições de suas possibilidades, de modo que, ao aceitar tais acontecimentos humanos como significativos, o analista obtém acesso a percepções importantes sobre o estado de vigília do paciente.
12. Embora Freud também valorizasse o conteúdo de sentido dos sonhos e ambos os considerassem poderosos instrumentos terapêuticos para desvelar mistérios da existência e promover a tomada de consciência, a teoria freudiana dos sonhos merece forte desaprovação, sobretudo pela divisão entre conteúdo manifesto e latente, como se o verdadeiro sentido do sonho estivesse oculto sob uma fachada distorcida, bifurcação que deforma seu profundo significado e reduz a análise a reconstruções de pensamentos oníricos latentes, meras interpolações arbitrárias do analista que abrem as portas à arbitrariedade e à violência contra os fatos, numa interpretação dogmática e reducionista que faz do sonho a realização de desejos instintivos infantis inconscientes, devendo-se antes abordar os sonhos, como toda experiência humana significativa, em sua imediatez, deixando os fenômenos aparecer e desenvolver-se segundo sua própria natureza.
13. A mudança fundamental na compreensão e na abordagem da terapia abriu caminho para uma psicoterapia mais holística e unificada, concretizada com a fundação, por Boss e Gion Condrau, com a bênção e o incentivo de Heidegger, da Sociedade Suíça de Daseinsanálise em Zurique em 1970, do Instituto de Psicoterapia Daseinsanalítica e Psicossomática de Zurique em 1971, mais tarde Fundação Medard Boss, e da Federação Profissional Suíça de Daseinsanálise em 1984, que deram continuidade à tradição inspirada por Boss e realizaram o antigo desejo confiado por Heidegger ao amigo de que seu pensamento escapasse dos limites do gabinete do filósofo e beneficiasse círculos mais amplos, em especial um grande número de seres humanos em sofrimento.
