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estudos:daseinsanalyse:askay:2011:2.2

2.2 Heidegger

ASKAY, Richard; FARQUHAR, Jensen. Of philosophers and madmen: a disclosure of Martin Heidegger, Medard Boss, and Sigmund Freud. Amsterdam: Rodopi, 2011.

Encontrar-se na Filosofia Inicial de Heidegger

1. O primeiro contato com a filosofia inicial de Heidegger enfrenta desafios consideráveis, sobretudo uma linguagem notoriamente impenetrável e um novo modo de pensar que não se presta a uma articulação clara e simples, razão pela qual convém reduzir ao mínimo o jargão, privilegiar a linguagem cotidiana e adotar uma via inovadora, uma perspectiva fenomenológica em terceira pessoa que convida o leitor a participar ativamente, pensando concretamente em como responderia a uma situação em que poderia se encontrar, de modo a facilitar ao máximo a compreensão dos fundamentos dessa filosofia.

Descobrindo o “Mundo”

1. Um cenário de pensamento permite imaginar-se como René Descartes deitado na cama no fim da manhã, indagando se há algo conhecido com certeza, como quem acabou de surgir na existência e apenas sabe estar aqui de algum modo e possuir alguma consciência de algum sentido sobre alguma realidade, situação a partir da qual a dúvida metódica elimina todo candidato duvidoso até alcançar uma única verdade fundamental e certa, o Cogito, penso, logo existo, passando-se então a se ocupar dos diversos entes tidos como reais com perguntas sobre quais tipos fundamentais de entes existem, quantos são, qual sua natureza, quais suas propriedades mais básicas e como se inter-relacionam, no que se caracteriza como ontologia da coisa.

2. Essa abordagem leva a conceber a si mesmo como uma espécie de substância, coisa ou objeto, a perceber outras substâncias, como as materiais ou extensas, e a encarar o mundo como composto exclusivamente de coisas ou objetos a serem investigados, um ponto de partida aparentemente viável, mas que conduz inevitavelmente a uma perspectiva específica sobre o eu, o mundo e os outros, modo de pensar que dominou de forma flagrante quase toda a tradição filosófica ocidental desde Platão e Aristóteles e diante do qual cabe perguntar se não haveria outra maneira de olhar o mundo.

3. Voltar-se sobre si mesmo para questionar o tipo de pergunta formulada e o modo como foi estruturada pode conduzir a outra direção, já que tudo depende das perguntas escolhidas e da maneira de fazê-las, sendo possível que se estejam fazendo as perguntas erradas ou estruturando-as de forma enganosa desde o início, com pressupostos incorporados sem reflexão crítica em sua estrutura e conteúdo, o que pode ter consequências desastrosas tanto para as orientações teóricas contemporâneas quanto para a prática cotidiana concreta, motivo pelo qual se impõe, desde o início da investigação, elaborar cuidadosamente as perguntas certas e formulá-las do modo mais adequado a seu objeto.

4. Formular as perguntas de modo alternativo ao de Descartes permite desvelar o que aquelas não alcançavam, bastando, no momento em que se julga ter acabado de surgir na existência, concentrar-se na pura consciência de que algo é, e notar que sempre já se possui alguma compreensão do que significa ser, utilizada na existência cotidiana num nível não explicitamente pensado, o que suscita as perguntas sobre como é possível que haja ser e o que significa, afinal, ser, pois desde o início se tem consciência apenas de um campo de sentido, sendo esse campo e a consciência dele uma única e mesma coisa.

5. A pergunta sobre o que significa ser para si mesmo revela que o próprio ser está em questão, que importa o fato de ser, e o passo seguinte consiste em indagar o que deve ser pressuposto para que seja possível pensar e experimentar algum sentido, perguntas iniciais e básicas daquilo que Heidegger denomina ontologia fundamental, que envolvem um modo de pensar inteiramente diverso do primeiro e que foram esquecidas por uma tradição exclusivamente ocupada com coisas a serem estudadas, como a abordagem cartesiana.

6. Esses dois modos de investigação são separados pela diferença ontológica, pois investigar exclusivamente os entes reduz tudo a algum tipo de ente, coisa ou objeto, e, aplicado aos seres humanos, produz teorias da natureza humana ou antropologia filosófica, ao passo que concentrar-se no que significa ser como consciência do ser constitui uma genuína investigação ontológica, sendo que o primeiro modo perde, ainda que involuntariamente, a própria humanidade ao distorcê-la desde o início, convertendo-a em objeto, enquanto apenas o segundo permite compreender a existência em seu nível mais profundo e originário.

7. O método mais adequado para descrever o que significa ser como consciência do ser consiste em deixar ser aquilo que se mostra tal como se mostra, sem lhe impor pressupostos acriticamente sustentados, começando por si mesmo, já que é quem pergunta pelo ser, para quem o próprio ser está em questão e quem possui alguma compreensão, ainda que implícita, do que significa ser, de modo a passar de uma compreensão cotidiana implícita para uma compreensão explícita, desvelando o que deve ser pressuposto para tornar possível esse deixar-se mostrar, método que Heidegger chama de fenomenologia.

8. A investigação do que significa ser revela que sempre já se está em determinado conjunto de circunstâncias, o que obriga a abandonar a premissa original do cenário, pois ninguém simplesmente surge na existência, mas sempre já se encontra imerso em seu mundo por meio de preocupações pessoais e práticas, num fluxo histórico individual e mundial de processos significativos, razão pela qual a ocupação com a investigação de coisas não é tão originária quanto essa nova forma de investigação, uma vez que corta o contexto da relação com os entes e pressupõe uma existência cotidiana já em curso, um campo de sentido imerso em preocupações pessoais, práticas, públicas e teóricas, sem o qual sequer seria possível olhar para uma coisa sem já compreender o que se entende por coisa, assim como a filosofia de Descartes não surgiu no vácuo, mas num rico contexto histórico.

9. A vida cotidiana de Descartes ilustra esse contexto, marcada pela morte da mãe quando ainda bebê e pela criação pela avó, pela formação clássica, científica e filosófica em colégio jesuíta e pelo diploma em Direito, pela rejeição da ciência natural aristotélica sob forte influência de Galileu, pelo serviço militar e gosto pelo jogo, por viagens pela Baviera, Países Baixos e Itália, por dissecações anatômicas aos 31 anos em linha com a tradição médica familiar, pela filha ilegítima com uma criada aos 39 anos, morta no ano da publicação das Meditações, assim como o pai e uma irmã, pela preferência pela solidão sempre acompanhada de criados e pela aceitação estoica dos acontecimentos, evidenciando que também ele estava sempre já imerso num campo de sentido cujo contexto histórico serve de pano de fundo necessário.

10. Um aspecto fundamental dessas circunstâncias é que sempre já se está interpretando aquilo que se toma como mundo, sendo a interpretação um modo de ser-no-mundo, de modo que a preocupação recai sobre a interpretação do ente que sempre já interpreta o mundo, e, para compreender as condições básicas que tornam possível a própria interpretação, é preciso já estar interpretando entes nos quais essas condições operam, o que situa a existência humana em pleno círculo sempre já em andamento, o círculo hermenêutico, que estabelece uma relação ontológica recíproca e intrínseca entre o intérprete, dotado de alguma compreensão do que significa ser, e o texto, o próprio ser-no-mundo cotidiano.

11. A questão passa a ser como entrar corretamente nesse círculo, considerando que se existe e se interpreta num fluxo histórico mais amplo que a história individual e que outros aparentemente seguem o mesmo processo de interpretar o mundo, de modo que a existência humana cotidiana concreta constitui o texto a ser interpretado, individual e globalmente, modo de investigação que Heidegger denomina hermenêutica.

12. A filosofia inicial de Heidegger pode, assim, ser descrita como ontologia fenomenológica hermenêutica, que busca descrever como é possível, e o que deve ser pressuposto, para que os indivíduos interpretem o que significa ser como um modo de ser inserido num fluxo e contexto histórico global, deixando os entes ser como são tal como desvelados por nós, projeto extremamente ambicioso de mostrar como é possível qualquer experiência de reflexão, sentido ou significância, empreendido em Ser e Tempo.

O que Deve Ser Pressuposto para que Seja Possível que Eu Seja?

1. O campo de sentido, caracterizado da maneira mais geral possível, foi representado alegoricamente por Heidegger numa figura em que cada círculo ou seta representa um Dasein individual, um ente que está aí como uma situacionalidade de algum tipo, isto é, um campo de sentido.

2. O Dasein é, antes de tudo, o lugar de abertura ou clareira em que o mundo aparece como um todo contextual unificado de sentido, o ser-no-mundo, abertura na qual os entes são encontrados como significativos e que é mantida aberta pelo próprio modo de ser como consciência, de sorte que sempre já se está situado nesse campo unificado de sentido e relação e se é a consciência transitiva de estar sempre situado num conjunto de circunstâncias em processo.

3. O ser-no-mundo pode também ser pensado como clareira em que se encontram efetividades e possibilidades, sendo o Dasein o ente que mostra tudo o que nele se apresenta e desvela traços dados intrínsecos ao campo de sentido, com os quais se relaciona de um modo ou de outro e que se inter-relacionam como parte de um todo contextual unificado, de modo que o ser-no-mundo é o ser-si-mesmo, e essa clareira é condição necessária para que algo apareça ou se ausente, sem a qual não haveria relação, sentido nem significância.

4. O lugar de abertura que é o Dasein pode ainda ser pensado como o Livre, não no sentido estreito de liberdade de escolha entre opções, cotidiana, existencial ou psicológica, que equivaleria a entregar-se à arbitrariedade do capricho humano, mas num sentido mais originário e primordial, segundo o qual, entrando livremente em sua abertura, se está livre para abrir-se a tudo o que se encontra, sendo justamente por ser livre que se podem encontrar outros entes, as efetividades, e modos possíveis de ser, as possibilidades, nessa região aberta que é o mundo, abertura que admite graus, desvelando mais liberdade quanto maior a abertura e ocultando-a quanto menor, de modo que se pode ser libertado de possibilidades constritivas e libertado para ampliar possibilidades e pensar e ser de novas maneiras.

5. Entre liberdade e deixar ser existe uma relação íntima, pois a liberdade para o que se abre numa região aberta deixa os entes ser os entes que são, capacidade ontológica que possibilita ao Dasein deixar os entes mostrar-se como são em si mesmos num duplo aspecto, o do receber e o do perceber simultâneos, expresso pelo alemão Vernehmen, no qual o Dasein ora se envolve ativamente e com preocupação na situação, interrogando-a como a uma testemunha em juízo para descobrir alguma verdade, ora recua para a região aberta e se torna presença que permite a todas as presenças mostrar-se, testemunha que acolhe e escuta o que se presentifica, sendo essa capacidade de receber e perceber a significância do que se encontra o que constitui todo o modo de ser do Dasein, sem a qual o mundo não seria experimentado como significativo.

6. Como clareira, o Dasein está simultaneamente envolvido num campo de sentido desvelado e velado, existindo ao mesmo tempo na verdade e na não verdade, pois a verdade do ser pode mostrar-se ao deixar os entes ser o que são e também se esconder, já que aquilo que se presentifica possui dimensões ocultas, algumas das quais permanecem ocultas enquanto se desvela seu sentido, de modo que a clareira, como campo de desvelamento, é também campo de ocultamento, e o fato de o oculto se manifestar constitui o mistério.

7. A figura de Heidegger ilustra ainda a incompletude intrínseca do Dasein, que nunca se completa até a morte e permanece sempre em processo, com uma abertura de possibilidades que parece admitir direções ilimitadas, e a finitude intrínseca à situacionalidade, manifesta no fato de que escolher e agir exclui necessariamente outras escolhas e ações e na limitação da existência à duração entre nascimento e morte.

8. A presença de vários círculos na figura representa a ideia de que não se é o único ente no mundo a existir como clareira, havendo outros Daseins, fato que constitui aspecto intrínseco do caráter dado da situação.

9. Cada círculo representa também o caráter de ser-meu da existência de cada Dasein, sua existência própria, única e insubstituível, vivida em sua individualidade.

10. Simplesmente se encontra lançado como essa clareira, aqui, em meio a efetividades dadas que não foram escolhidas, mas constituem aspectos da realidade tal como com ela se relaciona, estando a própria abertura aí independentemente de qualquer escolha humana, de modo que a liberdade não flutua livremente, mas se engaja numa facticidade, conjunto dos aspectos simplesmente dados e não escolhidos da condição humana, chamado por Heidegger de estar-lançado, como o próprio fato de ser um lugar de abertura, que não pode ser evitado, apenas ocultado, e que integra intrinsecamente a condição humana.

11. Outro elemento da facticidade é que a própria capacidade existencial de escolher é dada, de modo que o sentido primordial de liberdade como abertura possibilita todos os demais níveis de liberdade, como a existencial e a psicológica, pois só se é livre na liberdade de escolha por já se estar primordialmente exposto à dimensão livre e aberta da clareira do ser, sendo a própria existência um modo livre de ser que, como desvelamento das próprias possibilidades, liberta para diversos modos de ser si mesmo.

12. Há ao menos uma característica essencial da existência que a figura não consegue captar, o modo como se é esse lugar de abertura, compreendendo-se como processo dinâmico que está sempre acontecendo enquanto se lida com a existência, de modo que se é as próprias possibilidades e não uma coisa ou objeto fixo de propriedades estáticas, ponto crucial para a tese de que o Dasein não é um ente a ser investigado, mas um ente a ser compreendido tal como se compreende a si mesmo.

O que Torna Possível Relacionar-se com os Tipos Mais Básicos de Entes?

1. Sendo-se uma abertura e um campo de sentido ou relação, impõe-se a pergunta sobre aquilo com que ou com quem se relaciona nesse campo, a saber, de modo mais geral, o ambiente físico, outros entes semelhantes e a si mesmo, sendo relacionar-se o mesmo que desvelar o que ou quem se encontra, e a pergunta sobre como essas relações são possíveis equivale a indagar quais estruturas fundamentais da existência humana são pressupostas para que qualquer sentido possa ser experimentado, tal como desvelado a nós e por nós em nosso próprio processo de existir, mapeamento que Ser e Tempo denomina analítica existencial.

2. O modo mais próximo e originário de existir no mundo cotidiano revela que é impossível imaginar-se sem um mundo com o qual já se está em relação e que sempre já se habita um mundo familiar, envolvendo-se com preocupação numa multiplicidade de projetos e atividades inter-relacionados, como lidar, desvelar, investigar, compreender e produzir, em função dos quais as coisas adquirem seu sentido ou significância, de modo que o mundo é o campo de sentido em que se está envolvido, o próprio contexto, o ser-no-mundo, que fornece o fundamento a priori da própria possibilidade de sentir-se em casa.

3. A relação mais típica com o ambiente natural e artificial na existência cotidiana consiste em utilizá-lo sem refletir sobre ele, como no uso de ferramentas, que não são apreendidas tematicamente como objetos particulares, mas empregadas imersivamente na realização de projetos dentro de uma complexa rede de significados, no modo de ser chamado de estar-à-mão, sendo possível, embora não originário, assumir uma postura teórica, como na investigação científica, e ver a natureza ou os artefatos como objetos a investigar, ou refletir sobre a ferramenta como objeto quando ela quebra ou falta e deixa de ser utilizável.

4. Sempre já se exerce de algum modo a capacidade de relacionar-se com outras pessoas, seja cooperando em projetos de preocupações compartilhadas, seja evitando-as ao refugiar-se numa cabana na floresta, de modo que os outros formam dimensão intrínseca da existência cotidiana e o próprio modo de ser inclui a relação com outras pessoas, o ser-com, estrutura ontológica pressuposta que torna possível relacionar-se de qualquer forma com outros Daseins num campo de sentido compartilhado, num mundo que se sobrepõe na abertura comum ao que se encontra, no qual os outros são encontrados como entes com suas próprias preocupações e projetos práticos e pessoais e como rede complexa de relações, razão pela qual o indivíduo jamais pode ser verdadeiramente compreendido isoladamente.

5. A estrutura comum do ser-com possibilita também desvelar o outro como parte da preocupação pessoal, permitindo um modo compreensivo ou empático de ser junto, pois a transparência mútua entre Daseins só é possível porque o Dasein, como ser-no-mundo, sempre já está com os outros, não sendo alguma capacidade psíquica entre sujeitos psicológicos, mas o ser-com que torna possível a relação empática entre indivíduos.

6. A escuta assume importância decisiva, pois escutar é o modo de o Dasein ser aberto como ser-com e constitui sua abertura primária, já que o Dasein ouve porque compreende, de modo que é por existir sempre já imerso numa vida cotidiana de preocupações que um som pode adquirir qualquer sentido, pois só quem já compreende pode escutar, sendo a compreensão, como estrutura ontológica, o pressuposto que torna possível escutar outro Dasein e atribuir-lhe sentido e significância.

7. Uma vez esclarecido o que deve ser pressuposto para tornar possível a relação com a natureza, com os objetos cotidianos e com os outros, abre-se caminho para considerar como se dá, de modo mais originário, a relação consigo mesmo na vida cotidiana.

Qual É o Modo Mais Básico de Me Relacionar Comigo Mesmo na Vida Cotidiana?

1. A pergunta “quem sou eu?”, que todos fazem em algum momento, costuma ser respondida com a suposição de ter refletido sobre a vida, tomado decisões e vivido de modo sensato, mas pode muito bem acontecer que não se seja quem se pensa ser.

2. O aqui em que se foi lançado pode possuir um sentido dado, já construído para ser simplesmente adotado e utilizado na interpretação do mundo e de si mesmo como construção pré-fabricada, o que suscita as perguntas sobre quem a construiu e com que propósito.

3. Na vida cotidiana toma-se a si mesmo como ente que pensa por conta própria, decide por si e age no mundo como julga correto, mas, para a maioria das pessoas na maior parte do tempo, isso não é verdade, pois pensamentos e interpretações já vêm pré-embalados e simplesmente se assume o modo como uma mentalidade pública já interpretou o mundo, no modo do si-mesmo impessoal, a-gente, em que o quem que se julgava ser não passa do quem dessa maneira pública e anônima de interpretar o mundo, perdendo o Dasein a consciência de suas próprias possibilidades e absorvendo-se no mundo dos objetos e nas preocupações práticas cotidianas, modo de existir chamado decadência e inautenticidade, no qual se deixam adormecidas as capacidades de escolha e se adota a consciência pública acreditando levar a vida mais plena e genuína.

4. Nesse modo adotam-se diversas táticas evasivas, como a ocupação com conversas superficiais ou fofocas sobre aspectos triviais da existência, o falatório, a curiosidade pela curiosidade que evita preocupações genuínas e a absorção numa esfera da vida tão nebulosa que expõe a uma avalanche de interpretações potencialmente infinitas sem jamais fixar-se substancialmente em nenhuma, de modo que, por não precisar escolher nem assumir a responsabilidade correspondente, o Dasein existe tranquilizado e, ao mesmo tempo, alienado, desviado de suas possibilidades autoescolhidas, isto é, de ser um si mesmo genuíno.

5. O modo do si-mesmo impessoal é o mais originário, pois ao nascer se é lançado num mundo de sentidos e interpretações já atribuídos de forma global e pública, e nos primeiros anos de vida a perspectiva da a-gente forma inevitavelmente o pano de fundo essencial pelo qual se compreende o mundo na prática cotidiana, sem o qual não seria possível lidar com ele, como no significado do sinal vermelho, na mão de direção ou na inconveniência de brincar numa rodovia, interpretações que permeiam todo o espectro das preocupações pessoais, públicas, práticas e teóricas.

6. Alguns indivíduos podem passar a vida inteira nesse modo, contentes em seguir a correnteza da interpretação já pré-interpretada do mundo, importando-se com o que importa à a-gente, compreendendo o mundo como essa interpretação pública o compreende e absorvendo-se nas trivialidades e superficialidades de que ela se ocupa, a ponto de a perda desse modo constituir para eles uma possibilidade aterrorizante.

7. Uma manifestação importante do modo impessoal é estar simultaneamente na verdade e na não verdade, pois sua interpretação pode envolver dados que simplesmente são, como o fato de que agir sobre uma possibilidade exclui outras, mas pode também invadir a existência de modos confinantes e inaceitáveis, estendendo-se a áreas onde não deveria ter lugar e ditando qual seria a esfera moral adequada, a fonte apropriada do conhecimento, o espectro aceitável das crenças religiosas, o modo de pensar e falar sobre a morte e as categorias de filiação política obrigatórias.

8. Diante dessas interpretações dadas, chega para cada um o momento de escolher entre seguir a correnteza e deixar que essa interpretação anônima e pública dê sentido ao mundo e oriente a ação ou apropriar-se das próprias possibilidades, refletir sobre as opções, agir conforme as escolhas, sem o que nada significam, e assumir a responsabilidade pelo que acontece, isto é, tornar-se ou não autenticamente si mesmo.

9. Embora pareça simples que se é o ente que abre livremente o sentido dos entes encontrados, uma das maiores ironias da existência reside em que aquilo que é mais próximo, simples e familiar, a própria abertura do campo de sentido, é o menos acessível e, no entanto, o mais importante, pois se está tão próximo desse campo no nível cotidiano vivido que se permanece alheio ao próprio estado de ser-aberto, isto é, a uma compreensão mais profunda do que significa ser.

10. Esse alheamento decorre da tendência humana a sucumbir ao modo de pensar descrito no início, uma variante do modo impessoal, cujo exemplo atual primordial é a adoção irrefletida do pensamento científico, ou calculador, como perspectiva exclusiva de acesso à verdade genuína, visão de mundo que cega para esse aspecto fundamental da existência e leva a impor aos entes complexos modelos interpretativos, incluindo a presunção de que apenas os entes merecem investigação, exigindo que se conformem a eles e desconsiderando continuamente o ser-aberto em favor de teorias psicológicas artificiosas, de modo que o deixar ser do ser humano à luz do Dasein se torna extremamente difícil e estranho, desastre que equivale a esquecer o assombro de que simplesmente se é.

O que Deve Ser Pressuposto para que as Efetividades e Possibilidades de Minha Existência Sejam Possíveis?

1. Na abertura como campo de sentido desvelado há efetividades, aspectos dados e não escolhidos da situação, e possibilidades, opções entre as quais se pode escolher, o que leva a indagar quais estruturas fundamentais devem ser pressupostas para que seja possível encontrar e desvelar as efetividades e ser e desvelar as possibilidades como campo de sentido.

2. Em toda situação ou clareira sempre já se está afinado, numa certa tonalidade, com a relação consigo, com os outros e com o ambiente, em modos de disposição como curiosidade, raiva, choque ou surpresa, que constituem as maneiras fundamentais de encontrar-se, o como da pergunta “como você se encontra hoje?”, designado pelo termo alemão Befindlichkeit, de modo que a disposição dominante condiciona a abertura para perceber e lidar com o que se encontra, iluminando todo o ser-no-mundo, como a alegria, e constitui também o modo de estar aí uns com os outros, meio através do qual as coisas acontecem e pelo qual as efetividades dadas do mundo importam, desvelando a facticidade e o estar-lançado, disposições que não são escolhidas, mas sobrevêm, sem que por isso se deva apenas suportá-las, já que se pode e se deve, pelo conhecimento e pela vontade, tornar-se senhor delas, oferecendo ocasião privilegiada para desvelar quem se é como Dasein individual e o ser-no-mundo compartilhado.

3. Nem todas as disposições têm igual capacidade de desvelar o mundo, pois ressentimento, ciúme, medo, raiva e ódio são sentimentos relativamente passageiros voltados a aspectos particulares, enquanto há disposições mais fundamentais, nas quais se está sempre afinado com o conjunto inteiro das circunstâncias e nas quais se pode deslizar sem perceber, por estarem adormecidas, manifestando então tipicamente uma fuga de algum ente ou reconhecimento, mas que, ao chamar a atenção para a totalidade da existência, podem reconduzir a aspectos originários e ocultos da condição humana, razão pela qual é preciso deixá-las despertar e dedicar-lhes atenção, por serem maximamente desveladoras da existência.

4. As disposições fundamentais que iluminam toda a situação são a angústia existencial (Angst), o tédio profundo e a alegria, tendo Heidegger reconhecido a necessidade de uma análise exaustiva das duas primeiras, sem desenvolver extensamente a última, e cabendo à angústia um papel central no modo de afinação com o contexto em que se está.

5. A disposição está sempre relacionada à compreensão, segunda estrutura ontológica fundamental que desvela o ser-no-mundo e torna possível tomar consciência das possibilidades, poder-ser, agir no mundo e orientar-se nele, sendo intrínseca ao modo de ser que avança para o futuro e se lança nas possibilidades encontradas, e, como estrutura existencial, chama-se projeto, pois é pelo projetar de possibilidades que se compreendem as coisas e os outros, lançando-se nas próprias possibilidades e desvelando os outros nas deles.

6. Sempre já se está no mundo como possibilidade lançada, sendo parte do modo de ser dado ser e ter possibilidades definidas, passadas, renunciadas ou apropriadas, e desvelando-se os outros entes ao deixá-los envolver-se numa possibilidade do próprio ser, o que lhes confere significância e compreensibilidade, de modo que disposição e compreensão são indissoluvelmente ligadas e nunca se dá uma sem a outra, fundando a compreensão de si e do mundo como jogo entre o mundo em sua facticidade, mundo dado e estrutura da existência humana, e o próprio ser como possibilidades e liberdade.

7. Existe-se concretamente na vida cotidiana como campo de sentido em processo num nível pré-cognitivo de consciência, imerso no mundo de modo mais básico que qualquer cognição ou conhecimento, nível em que a simples apreensão de algo como algo, por exemplo como casa, sempre já envolve a estrutura da interpretação, pois tudo o que se encontra é referido à compreensão holística já possuída e recebe um lugar na rede relacional de sentido que é o mundo, sendo a interpretação a elaboração das possibilidades projetadas pela compreensão, que torna explícito o que é apenas implicitamente percebido e sempre implica desdobrar os pressupostos subjacentes à apreensão de um ente.

8. O sentido é o contexto de inter-relação, originado da capacidade de projetar possibilidades, no qual um ente, como uma pessoa, está inserido, sendo o Dasein o próprio desvelamento desse contexto, graças ao qual algo é compreendido em função de seu propósito ou uso e se torna inteligível.

9. As estruturas fundamentais descritas, pelas quais se existe como jogo de efetividades e possibilidades desveladas, pressupõem uma estrutura unificadora comum que fundamenta sua inter-relação, o cuidado, pois o Dasein é cuidado e toda ação manifesta um modo de cuidar, já que o próprio modo de ser faz com que os entes importem e preocupem, cuidando-se das efetividades, das possibilidades e dos envolvimentos cotidianos absorvidos no mundo, de sorte que existir é, em algum nível, cuidar de quem se é e do próprio lugar no mundo, cuidado que, por sua vez, exige algo mais originário que o fundamente e possibilite como unidade.

10. O que torna possível ser como lugar unificado e cuidadoso de abertura e campo de sentido é o fato de ser temporal, pois as experiências são significativas porque o próprio modo de ser é um processo de temporalização, como mostra a capacidade de refletir, isto é, de destacar-se, ek-sistir, e pensar sobre o que acontece, que pressupõe a consciência de uma situação que envolve efetividades que já foram, passado, que são, presente, e possibilidades, futuro, de modo que ser possibilidades pressupõe lançar-se adiante no futuro e é por ser temporalidade que se podem antecipar possibilidades futuras, lembrar e reinterpretar ações passadas e unificá-las nas circunstâncias presentes, sendo ser o mesmo que ser como tempo e constituindo a temporalidade a origem do sentido do ser-no-mundo como unidade.

A Busca da Existência Autêntica

1. Encontrando-se sempre já lançado em dados, numa clareira aberta, como possibilidades fundadas na temporalidade, impõe-se a pergunta sobre o que fazer.

2. O modo de ser intrínseco ao Dasein impede evitar alguma decisão básica sobre o ente que se é, ainda que apenas implicitamente na vida cotidiana, pois desde cedo se está envolvido com a questão da existência, indagando por que ela ocorre e qual o sentido da própria existência, e ao refletir e decidir sobre essas grandes questões descobre-se ter sido lançado nas possibilidades ou tê-las escolhido, ou ambos, sem escapar à necessidade de tomar posição, seja apropriando-se resolutamente das possibilidades e participando ativa e honestamente da criação do próprio mundo de sentido, o que define o si mesmo autêntico, seja fugindo delas ou deixando-se levar passivamente pela correnteza cotidiana, o que caracteriza a existência inautêntica, restando saber como alcançar a primeira.

3. Chega um momento em que alguns indivíduos recuam e questionam toda a interpretação impessoal de sua existência porque certas disposições fundamentais sobrevêm e desvelam traços cruciais da condição humana como um todo, até então ocultos, entre as quais a angústia, que põe em questão todo o contexto do próprio ser.

4. Numa vida que parece transcorrer tranquila e confortável, pode-se despertar certo dia perguntando por quê, se o mundo tem algum sentido ou propósito cósmico, por que continuar a viver nele, qual o sentido de viver e por que ser, perguntas inquietantes que indicam o estar em angústia existencial.

5. Na angústia, a existência é estilhaçada por uma profunda crise existencial de sentido, em que a significância do mundo dada por certa parece esvair-se completamente, o mundo inteiro assume o caráter de não-importância, todas as coisas e o próprio eu afundam na indiferença, todo ente e todo sentido parecem irrelevantes, experimenta-se uma estranheza nua diante do mundo que atordoa e deixa de sentir-se em casa na relação com o todo da existência, angústia diante do ser jamais tão grande quanto hoje e que pode surgir a qualquer momento, nas situações mais inócuas, sem exigir evento desencadeante, simplesmente acontecendo, o que a torna esquiva e misteriosa do ponto de vista científico cotidiano.

6. Na angústia, a interpretação impessoal do mundo, sobre a qual tanto se apoiava a compreensão, perde o chão e a familiaridade cotidiana desmorona, deixando de cumprir sua função de fornecer e exigir conformidade à sua interpretação arrogada, o que faz sentir-se perturbado, só, à deriva e sem direção, arrancado do fluxo confortável da existência cotidiana e caído num abismo sem saída, tornando-se o próprio ser, como questão, objeto de consciência direta quando já não se adota acriticamente o edifício de sentido construído pela a-gente e a existência parece não ter mais propósito.

7. Na angústia genuína, o Dasein descobre que nem a a-gente nem coisa alguma fornece fundamento à existência, não havendo significância cósmica que a sustente, desvelando-se o nada que constitui o núcleo da existência humana, o fato de que, no fundo, não se é mais que nada e de que a existência é infundada, um abismo, de modo que o Dasein reconhece que nem ele mesmo pode fundar o próprio ser e, ainda assim, deve continuar lidando com esse dado enquanto existir, peso da existência que constitui aspecto primordial do ser-culpado, estrutura ontológica e não ético-moral que funda a possibilidade dos conceitos morais, pela qual todos são culpados na medida em que viveram como se houvesse um propósito quando a existência carece de sentido profundo que a fundamente.

8. Esse é o momento decisivo da existência, em que se apresentam essencialmente quatro opções, render-se à falta de fundamento e cometer suicídio, fugir de volta ao conforto da interpretação impessoal e perder-se novamente no fluxo cotidiano, adotar a atitude de que todas as ações são igualmente válidas por inexistir sentido objetivo e fazer qualquer coisa sem restrições, ou enfrentar autenticamente o abismo, apropriar-se verdadeiramente das próprias possibilidades e agir como arquiteto do próprio campo de sentido.

9. A segunda e a terceira opções conduzem à existência inautêntica, uma pela decadência na absorção no modo impessoal, outra pela redução de toda escolha e atividade a esforço igualmente sem sentido, que equivale a abraçar uma perspectiva niilista e a confirmar a a-gente em sua rejeição última, alternativa veementemente recusada, já que um dos principais fatores do niilismo é a atitude e o comportamento exclusivamente voltados aos entes, problema presente desde o início do cenário de pensamento, que leva ao reconhecimento de um universo objetivamente sem propósito, e o niilismo maior consiste justamente em recusar admitir essa ausência de metas, acreditando ter novamente objetivos, ser feliz e distribuir a todos valores culturais como cinema e férias na praia, encobrindo a falta de sentido profundo da existência com novas metas impessoais artificiais.

10. Somente na quarta opção, apropriando-se das possibilidades mais próprias, se torna verdadeiramente quem se é como Dasein autêntico, em que, diante do peso da existência, o si mesmo existe em função de si mesmo, tomando consciência de que deve ser a origem do sentido e criar a própria significância sem cair na ilusão de que essa resolução forneça um fundamento seguro para a existência, existência autêntica que consiste em refletir cuidadosamente, escolher com base nessas reflexões, agir conforme as escolhas, sem o que nada significam, e assumir a responsabilidade pelas consequências.

11. A passagem da existência inautêntica à autêntica exige, antes de tudo, aquietar-se e silenciar para ouvir o chamado da consciência, apelo do si mesmo genuíno para deixar o modo impessoal de interpretar o mundo, em cuja compreensão o Dasein se escolhe como si mesmo autêntico, querendo-ter-consciência, sendo a intenção desse chamado levar a apropriar-se das possibilidades e interpretar o mundo segundo a livre escolha no próprio campo de sentido, com honestidade diante dos dados e responsabilidade pelas escolhas e ações.

12. Nesse ponto, a a-gente reage para proteger-se com um movimento astucioso, ainda que inconsciente, confundindo a angústia genuína com o medo, embora a angústia seja sempre global e o medo sempre referido a algum ente ou evento particular percebido como ameaça, confusão promovida, por exemplo, pela comunidade psicológica como representante institucional da a-gente, que não reconhece ou não quer reconhecer a angústia como disposição fundamental e reduz toda ansiedade a modos de medo, disposição cotidiana, ocultando a angústia genuína e tudo o que ela desvela e fechando assim uma das vias primordiais de acesso à existência autêntica, o que é desastroso.

13. Após a experiência da angústia e do desvelamento do peso da existência, outra disposição fundamental, a alegria, pode atenuá-lo, sem eliminá-lo, apenas tornando-o mais suportável, quando o Dasein reconhece que cabe ao si mesmo criar o sentido significativo da vida e experimenta uma alegria inabalável nessa possibilidade, aspecto positivo da angústia em que se vivem o assombro e a exaltação de reconhecer-se essencialmente arquiteto criador da própria vida, capaz de conferir-lhe sentido ao apropriar-se antecipada e resolutamente das próprias possibilidades, deleitando-se com a alegria da existência e alcançando a existência autêntica.

14. A serenidade alegre, segundo a elaboração heideggeriana de Medard Boss em Fundamentos Existenciais da Medicina e da Psicologia, confere à existência humana uma receptividade que permite ver sob a luz mais clara o sentido e as conexões de todo fenômeno que se revela, clareza e abertura em que se está emocionalmente ligado a tudo o que se encontra, sem querer submeter as coisas ao próprio poder, contentando-se em deixá-las ser e desenvolver-se por si, e, por abrir o ser humano à mais ampla responsividade, constitui também felicidade, já que toda existência humana se afina com a felicidade sempre que todos os seus modos potenciais inatos de ser lhe estão abertos, de modo que quem a experimenta vê lucidamente a interconexão indissolúvel de tudo no campo aberto de sentido e, como os taoístas com seu agir pelo não agir, sente-se à vontade em deixar as coisas ser e desenvolver-se na existência cotidiana sem interferência desnecessária.

Como Pode um Dasein Relacionar-se Autenticamente com Outro?

1. A possibilidade de ser autenticamente com os outros remete à estrutura do ser-com, pela qual se existe num campo de sentido envolvendo a capacidade de relacionar-se como co-Daseins num campo compartilhado, em que pessoas dedicadas em comum à mesma causa se ligam autenticamente e alcançam a objetividade correta que liberta o outro em sua liberdade para si mesmo, desdobrando-se assim um espectro de modos fundamentais de relação que vai da indiferença, em que os outros não importam, à participação ativa no campo compartilhado de sentido, a qual pode ocorrer de dois modos opostos, a solicitude que intervém e substitui, forma inautêntica em que um Dasein salta para dentro da existência do outro e decide por ele, impondo intencional ou irrefletidamente seu próprio quadro interpretativo, e a solicitude antecipadora, forma autêntica em que um Dasein salta à frente da existência do outro, explora mutuamente as possibilidades para elucidá-las sem jamais escolher por ele, ajudando-o a lidar com seus problemas sem nada impor, em conformidade com a injunção fenomenológica de deixar os entes ser, o que exige deixar o outro ser segundo sua própria compreensão.

“Nada Importa”

1. A expressão cotidiana “nada importa” ilustra e unifica muitos dos temas da filosofia inicial de Heidegger, pois ao mesmo tempo encobre e desvela um dos aspectos mais profundamente significativos da existência humana.

2. Um dos modos mais fundamentais de a a-gente ocultar a experiência da angústia consiste em reduzir as preocupações com o nada a um mero chavão, “nada importa”, expressão que, no nível da interpretação pública, permite curiosamente permanecer absorto no mundo dos entes justamente para não enfrentar a decepção última da falta de fundamento do próprio ser, como quando se diz que nada importa por ter sido reprovado num exame de filosofia, abandonado pelo amante ou derrotado num torneio esportivo, mantendo a preocupação com o mundo cotidiano e protegendo contra a consciência de um sentido muito mais profundo da expressão.

3. Ironicamente, a expressão “nada importa” desvela exatamente o que pretende ocultar, exemplo de estar ao mesmo tempo na verdade e na não verdade, pois é na angústia que se reconhece autenticamente que nada importa de fato, quando o desvelamento do nada mostra que não há sentido ou fundamento profundo para a existência, o que importa profundamente, de modo que, se a existência há de ter algum sentido, será preciso criá-lo e ser o genuíno arquiteto da própria existência, reconhecendo honestamente os dados do mundo e, ao mesmo tempo, a ausência de fundamento, ponto em que surge a possibilidade do niilismo, lidando com o peso da existência e avançando, ainda assim, para uma vida autêntica.

4. Compreendido e aceito esse aspecto dado da condição humana, torna-se visível por que o nada importa num nível ontológico ainda mais profundo, pois o Dasein emerge como existência a partir do nada, que torna possível a liberdade, abismo do fundamento no Dasein, a relação com o ser e a própria ipseidade, e que possibilita desde o início todo sentido e significância, fundamento do assombro que permite perguntar por quê ao lidar com o peso da existência e indagar a maravilha das maravilhas, por que há entes, inclusive humanos, por que há algo em vez de nada, de modo que o nada importa num sentido muito mais profundo do que jamais se poderia imaginar.

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