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2.1 Freud

ASKAY, Richard; FARQUHAR, Jensen. Of philosophers and madmen: a disclosure of Martin Heidegger, Medard Boss, and Sigmund Freud. Amsterdam: Rodopi, 2011.

Sobre a Natureza dos Humanos: Sigmund Freud

1. O impacto inegável de Sigmund Freud sobre a civilização ocidental, capaz de alterar permanentemente o modo de conceber o ser humano, resulta de muitas gerações de ideias poderosas, de Empédocles aos grandes pensadores de sua época, inclusive de uma visão de mundo científica enraizada no Iluminismo, de modo que, embora se considerasse firmemente ancorado no método científico, Freud se revela um pensador profundo e sintetizador criativo que buscou fundir a filosofia, tida como especulativa, e a ciência, tida como via de conhecimento genuíno e de transformação, em uma teoria e prática psicanalíticas.

2. A exposição relativamente ampla à filosofia e o compromisso com a psiquiatria conferiram a Freud apreço por ambas as disciplinas, vendo na filosofia, em seu melhor, a expressão da grandeza humana no embate entre o eu e o mundo externo, mas também um exemplo bem-sucedido de sublimação, isto é, de redirecionamento de energias instintivas para canais socialmente aceitáveis, razão pela qual a psicanálise, por meio de sua psicografia, seria capaz de desvelar os motivos psíquicos subjacentes às teorias dos filósofos, motivos idênticos aos que regem todo funcionamento mental humano, a ponto de as visões de mundo filosóficas, quando usadas como defesa, poderem ser entendidas como formações reativas destinadas a negar ou ocultar impulsos básicos, permanecendo, apesar de sua pretensão lógica e imparcial, enraizadas na história instintiva humana.

3. O objetivo acadêmico original de Freud de obter graus avançados em filosofia e zoologia reflete-se em sua teoria e prática, que, em consonância com o evolucionismo darwiniano e lamarckiano, concebem o ser humano como uma espécie animal e se concentram nas subestruturas orgânicas do organismo e nos colapsos do funcionamento mental, encontrando na psiquiatria o campo ideal para investigar casos de cegueira em olhos perfeitos e paralisia em membros saudáveis, nos quais, contra a opinião médica da época, não havia simulação, mas outra causa a ser descoberta, o que orientou sua atenção para a mente como força decisiva na saúde e na doença, com a esperança de curar o sofrimento mental individual, expor as forças que afligem a sociedade e elucidar as tensões dinâmicas entre ambos.

Psicanálise e Teoria Metapsicológica

1. A psicanálise compõe-se de elementos diversos e inter-relacionados, sendo ao mesmo tempo procedimento de pesquisa, método terapêutico e conjunto de conhecimentos psicológicos unificados em um empreendimento científico, cuja teoria fundante, denominada metapsicologia, pretende fornecer a base de todo sentido possível, inclusive da filosofia, e que, embora comprometida com a observação empírica, por vezes ultrapassa os limites da ciência pura em nome de um ganho de sentido, como na justificação do conceito de inconsciente, sendo meta precisamente por exigir um fundamento não empírico, ainda que científico.

2. A teoria metapsicológica define-se explicitamente como um modo de abordagem segundo o qual todo processo mental é considerado em relação a três coordenadas, a dinâmica, a topográfica e a econômica, todas inter-relacionadas, mas oferecendo pontos de vista próprios para examinar o funcionamento mental.

3. Do ponto de vista dinâmico, os processos mentais, exceto os recebidos diretamente de estímulos externos, constituem um jogo de forças de origem instintiva e base orgânica que se combinam, se dividem, se auxiliam e se inibem, gerando imagens e ideias dotadas de força afetiva, forças essas agrupadas em instintos do eu, voltados à autoconservação, e instintos de objeto, dirigidos ao mundo externo, por trás dos quais atuam Eros, força unificadora que busca combinar e restaurar o perdido, e Tânatos, pulsão de morte destrutiva que busca dissolver, cuja oposição constante e conservação de energia se manifestam na compulsão à repetição, observável no retorno dos peixes aos locais de desova, na migração das aves e na repetição humana de padrões destrutivos contrários aos próprios interesses, de modo que toda vida aspira, em última instância, à redução da tensão e ao retorno ao estado inorgânico do qual emergiu.

4. Do ponto de vista econômico, as representações mentais dos instintos, como imagens, ideias e pensamentos, possuem uma carga afetiva, ou catexia, de quantidades definidas de energia que a mente procura regular e manter em nível baixo segundo o princípio de prazer-desprazer, descarregando as tensões acumuladas para restabelecer o equilíbrio, como no bebê que chora de fome e se acalma ao ser alimentado, princípio que, no curso do desenvolvimento e na interação com o mundo externo, se modifica em princípio de realidade, capaz de adiar o prazer imediato e tolerar desprazeres temporários.

5. Do ponto de vista topográfico, que não designa um lugar físico, mas o modo de operar da mente e o foco de suas energias, o aparelho psíquico compõe-se de id, ego e superego, sendo o id o reservatório desorganizado das energias libidinais e dos impulsos instintivos, um caldeirão de excitações fervilhantes regido pelo princípio do prazer e primeira instância a se desenvolver, a partir da qual o ego se forma nas camadas externas como mediador que busca satisfazer as exigências instintivas evitando as retaliações do mundo externo, funcionando como defesa e meio de sobrevivência, e o superego surge, por obra do ego em conflito com o mundo, como internalização dos valores familiares e das regras socioculturais, restando ao ego, impelido pelo id, confinado pelo superego e repelido pela realidade, a tarefa econômica de harmonizar todas essas forças.

6. A dimensão topográfica abrange ainda o inconsciente e o consciente, pois ego e superego operam em ambos os níveis enquanto o id é estritamente inconsciente, de sorte que a maior parte da atividade mental se dá no inconsciente, com certas imagens e pensamentos alcançando o pré-consciente, onde o ego pode acessá-los e trazê-los à consciência, na qual permanecem brevemente antes de cair em latência, podendo retornar facilmente se forem pré-conscientes ou afundar além de todo acesso quando censurados e rejeitados defensivamente, sofrendo então recalque no id, ao passo que também as informações vindas do mundo externo são elaboradas pelo ego, que as retém no pré-consciente ou as deixa deslizar para o inconsciente.

7. Ninguém verdadeiramente esquece, já que todo pensamento ou experiência, das vivências cotidianas às memórias infantis e até aos traços mnêmicos arcaicos herdados filogeneticamente, permanece armazenado para sempre no inconsciente, atemporal e inalterado mesmo ao longo dos mais extensos períodos, preservando cada impressão tanto em sua forma original quanto em todas as formas adquiridas em seus desdobramentos posteriores, concepção decisiva para a teoria segundo a qual os sintomas neuróticos se enraízam em memórias infantis inconscientes recalcadas nos anos formativos, mantendo o funcionamento mental perturbado preso à patologia enquanto essas memórias não alcançam o pré-consciente e a possibilidade da consciência.

8. No desenvolvimento infantil, o recém-nascido, puro id, não distingue o seio materno do próprio corpo, vivendo todas as sensações como internas, e somente por um processo gradual de desenvolvimento fisiológico, corporal e mental, reconhece o seio como objeto externo e objeto de amor e, depois, a mãe como pessoa inteira, separação originária que constitui o primeiro conflito que todo ser humano precisa suportar, no qual Eros, o instinto unificador, se choca com um mundo que escapa ao próprio controle.

9. A separação da mãe como objeto externo conduz à identificação, pois a criança busca possuí-la para retornar à unidade natural, desejo que se torna sexual à medida que os instintos de autoconservação e unificação passam a ser vividos nas regiões corporais, inclusive genitais, enquanto o pai, reconhecido como objeto externo, autoridade familiar e possuidor da mãe, aparece como ameaça à satisfação instintiva e à sobrevivência, exigindo a identificação como principal defesa contra os perigos atribuídos às figuras parentais, de modo que o processo de conflito e resolução envolvendo ódio ou ambivalência em relação ao pai e emoções conflitantes em relação à mãe constitui o complexo de Édipo.

10. O complexo de Édipo, nomeado a partir da lenda grega do rei que sem saber matou o pai e desposou a mãe, representa um tema repetitivo e uma inevitabilidade universal que atravessa toda a humanidade, cuja rejeição e repulsa provocadas confirmam seu caráter inconsciente e recalcado, e de cuja resolução nascem tanto o superego, instância moral que domina o ego, quanto as mais preciosas e socialmente relevantes realizações da mente humana, na vida dos indivíduos e provavelmente na história da espécie.

11. Na resolução do complexo de Édipo, geralmente nos primeiros cinco anos de vida, a criança constrói diversos meios de defesa, já que o ego, encarregado de mediar entre as exigências do id e do mundo externo segundo o princípio do prazer e de proteger o id de perigos percebidos, precisa censurar informações internas e externas e, sendo o aparelho psíquico intolerante ao desprazer, sacrificar a percepção da realidade, isto é, a verdade, quando esta o acarreta, construindo ativamente uma realidade que sustente sua necessidade de sobrevivência.

12. A projeção constitui um dos modos pelos quais o ego cria a realidade, não se limitando a mecanismo de defesa, pois atua mesmo na ausência de conflito, como mecanismo primitivo ao qual se submetem as percepções sensoriais e pelo qual percepções internas de processos emocionais e de pensamento são lançadas para fora e empregadas na construção do mundo externo, o que talvez explique os conflitos diante da diversidade humana, quando se supõe que os outros são essencialmente iguais a si mesmo e se resiste às diferenças, tentando impor ao mundo as próprias opiniões, compreensões e valores.

13. As pessoas tendem a operar com poucos mecanismos de defesa, que se fixam no ego como modos regulares de reação do caráter e, em razão da natureza dinâmica e econômica do sistema mental, são aplicados repetidamente ao longo da vida, persistindo mesmo após o desaparecimento das ameaças originais, a ponto de o ego adulto buscar situações que substituam aproximadamente o perigo primitivo para justificar suas reações habituais, de modo que os seres humanos procuram experiências familiares que reforçam padrões repetitivos, e as defesas acabam por se tornar perigos em si mesmas, restringindo a relação consigo, com o mundo e com os outros, enfraquecendo o ego e podendo desencadear a eclosão da neurose.

“Liberdade” na Terapia

1. A teoria metapsicológica, incluindo seus fatores de desenvolvimento, concebe os seres humanos como biologicamente determinados, sendo o próprio livre-arbítrio um fato biológico, uma convicção real fundada em processos mentais ancorados em impulsos instintivos físicos, que não cede diante do determinismo psíquico sem lacunas e corresponde, na verdade, a uma compulsão psíquica, cabendo ao terapeuta não contestá-la, mas compreender sua força motivadora, originada na necessidade instintiva de se ver capaz de escolher, sem a qual se perderia a esperança de controlar as forças internas e externas para proteger e preservar a existência.

2. A objeção de que o determinismo psicológico inviabilizaria o processo terapêutico, por não haver escolha capaz de levar à terapia e à cura, encontra resposta na ideia de que a crença na escolha e na mudança motiva o êxito psicoterapêutico, tratando-se os pacientes como se fossem livres para inspirar confiança na cura e sem impor-lhes a teoria antes que estejam prontos, e, sobretudo, no fato de que a psicopatologia não é um estado natural, pois a energia consumida para recalcar o material inconsciente funciona como um dique contra a pressão das águas e, sendo limitada pelos princípios de conservação, impede o livre movimento do sistema dinâmico, de modo que a liberdade proporcionada pela terapia consiste em desbloquear essas energias para restaurar o ego e devolver-lhe o comando sobre o id perdido pelos recalques precoces.

3. A doença mental constitui uma reação econômica ao conflito e ao trauma, uma fuga para a doença que representa a solução mais conveniente e de menor esforço psíquico diante da ameaça, ainda que sua ineficácia se revele mais tarde, pois o traço mnêmico da ameaça permanece mesmo depois de removida a ameaça original e precisa continuar recalcado, levando a censura do ego a excluir da consciência tudo o que se relaciona a essas memórias inaceitáveis e gerando uma tensão entre a incapacidade de lembrar e a impossibilidade de esquecer, que, quanto mais cresce, mais energia exige para o recalque e mais tende a extravasar por canais alternativos sob a forma de sintomas neuróticos.

4. O material mais inaceitável e barrado da consciência envolve frequentemente o instinto sexual, em parte devido às restrições culturais impostas à criança, de modo que muitos sintomas neuróticos são substitutos da sexualidade recalcada e indícios de um complexo de Édipo não resolvido, cujas questões parentais são transferidas para o terapeuta sob a forma de vínculos afetivos positivos ou hostis negativos, transferência que, bem conduzida segundo os conhecimentos psicanalíticos, permite superar o recalque e cumprir a tarefa médica de levar ao conhecimento do paciente os impulsos inconscientes recalcados, desvelando as resistências que se opõem a essa ampliação do autoconhecimento.

5. Embora busquem a cura, os pacientes resistem ao processo terapêutico porque o ego percebe a recuperação e a emergência do material inconsciente como um novo perigo e mobiliza defesas que se manifestam como resistências, as quais servem de indicador de que o terapeuta se aproxima do material inaceitável, mas podem, se excessivas, tornar a terapia ineficaz, fazendo do tratamento um exercício de equilíbrio entre conduzir gradualmente o recalcado à consciência e não fazê-lo parecer ameaça grande demais à sobrevivência, com um êxito medido em graus, conforme a quantidade de material inconsciente admitido na consciência e a permanência do desaparecimento dos sintomas, já que toda compulsão mental se enraíza no inconsciente e somente as funções mentais superiores, ligadas à consciência, permitem controlar os impulsos.

Técnica Psicoterapêutica

1. Na terapia, o analista deve imperativamente manter-se objetivo e neutro, oferecendo uma tela em branco para a qual se transferem inevitavelmente as questões infantis não resolvidas do paciente, que, na transferência positiva bem-sucedida, passa a conceber o terapeuta como objeto de amor, talvez uma figura paterna de seu passado conturbado, projetando nele os sentimentos dirigidos ao objeto original, em virtude da condensação dos instintos e da compulsão à repetição, pelas quais fortes impulsos emocionais reunidos em múltiplas experiências infantis desprazerosas se condensam e se projetam sobre um objeto, repetindo-se em encontros semelhantes, de modo que os traumas vividos nas primeiras relações determinam as interações posteriores e, se o dano veio do pai, todos os homens passam a representar o objeto pai ao longo da vida.

2. O terapeuta deve reconhecer esses padrões e compreender a transferência como desdobramento natural e necessário e oportunidade de êxito terapêutico, mas, sendo também humano e portador de questões infantis não resolvidas, dificilmente permanece objetivo quando o paciente lhe dedica amor, tornando provável a contratransferência, motivo pelo qual todo terapeuta deve submeter-se à própria análise, já que só pode conduzir o paciente até onde ele próprio é capaz de ir, e a atuação da contratransferência, como numa relação amorosa e sexual entre analista e analisando, agrava os danos ao paciente vulnerável e anula a possibilidade de progresso terapêutico.

3. A posição singular de autoridade dos médicos, cujas sugestões podem afetar seriamente a saúde dos pacientes, justifica a recomendação de formação psicanalítica até para quem trata apenas de males fisiológicos, pois o corpo é afetado pelos estados mentais, como mostrou o uso da sugestão hipnótica, capaz de eliminar quase magicamente cegueiras e paralisias antigas, mas que, sem a elaboração que converte o material inconsciente recalcado em consciente, apenas substituía sintomas por outros, o que levou ao abandono da hipnose por volta de 1896 e à sua substituição pela regra fundamental da associação livre, técnica destinada a permitir que as energias inconscientes emerjam e sejam conduzidas pelo analista ao pensamento pré-consciente.

4. O método da associação livre exige que o paciente se recline num divã, confortável e relaxado, com o terapeuta sentado ao lado, fora do campo de visão, discreto, objetivo e sem julgamentos, como tela em branco para a transferência, e que o paciente se comprometa a dizer tudo, não apenas o que comunica de bom grado ou como confissão aliviadora, mas tudo o que lhe vier à mente, ainda que desagradável, irrelevante ou absurdo, a fim de criar condições para o livre fluxo de pensamentos, pelo qual os conteúdos restritos enraizados no inconsciente inevitavelmente escapam, em geral de forma distorcida, já que as poderosas energias dinâmicas não podem ser totalmente contidas e um ego enfraquecido pelo recalque não consegue ocultá-las por completo, como confirmam as investigações sobre os atos falhos e a análise dos sonhos.

5. Os atos falhos, como erros aparentemente inocentes cometidos apesar de se saber o certo, lapsos de fala ou de escrita, ações antes bem executadas que fracassam e outros equívocos involuntários atribuídos ao acaso ou à desatenção, constituem casos de esquecimento que, investigados psicanaliticamente, remontam a material psíquico incompletamente suprimido, pelo qual pensamentos inconscientes barrados da consciência se expressam nesses acidentes, oferecendo nova evidência do determinismo psicológico, já que mesmo ocorrências aparentemente casuais recebem sua força motivadora da atividade inconsciente.

6. A análise dos sonhos confirma e aprofunda a compreensão do funcionamento mental ao concebê-los em termos de sua função biológica, pois o corpo dorme por necessidade fisiológica, mas a mente não repousa inteiramente, continuando exposta a estímulos externos, fluxos de energia interna, sensações corporais e impulsos instintivos do id, como fome e desejo sexual, de modo que o ego precisa seguir atendendo a essas demandas para permitir o sono profundo, ainda que de forma menos hábil que na vigília, porque também está relaxado e sua função censora se torna menos aguda.

7. Os sonhos têm por finalidade preservar o sono, sendo seus guardiões e não seus perturbadores, imagens criadas pelo ego para satisfazer as demandas que lhe são impostas enquanto o corpo descansa e, nesse sentido, realizações de desejo, como o sonho com comida diante da fome ou a imagem tranquilizadora diante de um estrondo externo, mas, como no sono a atenção se volta para os estímulos internos e o id ganha força diante de uma censura menos discriminadora, os desejos instintivos e memórias traumáticas inaceitáveis à consciência precisam ser apresentados de modo a satisfazer o id sem ofender a consciência, por meio de duas forças psíquicas, a criadora, que produz o sonho para satisfazer desejos e promover o sono, e a defensiva, que o distorce para tornar o material aceitável e proteger o repouso, ocorrendo, quando a distorção é insuficiente e o conteúdo escapa à censura, o choque da consciência e a interrupção do sono, sinal do fracasso do ego em sua função.

8. A natureza distorcida dos sonhos exige que a abordagem psicoterapêutica considere tanto o conteúdo manifesto, a descrição aparente apresentada pelo paciente e composta de experiências recentes dos últimos dias, quanto o conteúdo latente, onde reside seu verdadeiro significado, já que restos diurnos indiferentes não teriam força para gerar um sonho, que só surge para distorcer material inaceitável e prolongar o sono, devendo o conteúdo latente provir de desejos inconscientes suprimidos ou recalcados, ainda ativos na vigília e mais livres durante o sono, e o trabalho do sonho, que transforma pensamentos latentes em sonho manifesto, limitando-se a poucas atividades da censura do ego, a condensação, o deslocamento, a figurabilidade e a elaboração secundária.

9. A condensação organiza os numerosos eventos dos últimos dias segundo sua conexão com o material inconsciente, o deslocamento escolhe um objeto diferente, sem carga emocional intensamente catexizada, para representar esse material, a figurabilidade transforma pensamentos, por abstratos que sejam, em imagens oníricas, e a elaboração secundária retrabalha o material para produzir imagens mais ou menos conformes às categorias de entendimento, razão pela qual os sonhos que passaram por ela parecem fazer sentido, enquanto as partes que não passaram se mostram confusas e frequentemente absurdas.

10. A articulação dessas quatro operações do trabalho do sonho pode ser ilustrada pela hipótese de alguém que, em encontros despercebidos pela consciência nos últimos dias, cumprimentou um carteiro de riso igual ao do pai, viu o clarão verde de um semáforo da cor dos olhos paternos e ouviu um graveto estalar como o golpe de uma régua, e depois sonha com uma lasca de madeira dentro de um envelope verde, imagem manifesta aparentemente inocente que representa a memória infantil latente e recalcada de ter sido surrado pelo pai com uma régua ao ser flagrado numa atividade sexual proibida, material que, pela associação livre na análise do sonho, pode emergir na consciência pré-consciente.

11. O aspecto mais fascinante dos atos falhos e dos sonhos é sua universalidade, que os desvincula do pensamento patológico, pois a interpretação dos sonhos é a via régia para o conhecimento das atividades inconscientes da mente e, mesmo na pessoa normal, revela os mesmos aspectos básicos do funcionamento mental presentes no neurótico, com o mecanismo dos atos falhos correspondendo essencialmente ao da formação onírica, já que, por caminhos desconhecidos e associações externas, os pensamentos inconscientes se expressam como modificações de outros pensamentos, pegando carona em seus traços e formando uma teia de interconexões que permeia toda a vida mental e nos acompanha sempre, apesar e talvez por causa da falta de consciência, de modo que sonhos e atos falhos constituem tanto valiosas ferramentas psicoterapêuticas quanto material precioso para construir e validar as teorias universais sobre o inconsciente, levando à conclusão de que a fronteira entre o normal e o anormal nas questões nervosas é fluida e de que todos são um pouco neuróticos.

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