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Critchley

Simon Critchley (1960)

CRITCHLEY, Simon. Very little– almost nothing: death, philosophy, literature. 2nd ed ed. London ; New York: Routledge, 2004.

A origem da filosofia na decepção

  • A filosofia começa numa experiência de decepção que é ao mesmo tempo religiosa e política, colocando dois problemas fundamentais: a decepção religiosa provoca o problema do sentido – qual o significado da vida na ausência da crença religiosa? – e a decepção política provoca o problema da justiça – o que é a justiça e como pode ela tornar-se efetiva num mundo violentamente injusto?
  • A decepção religiosa nasce do reconhecimento de que a religião não é mais capaz de fornecer um sentido para a vida humana; o grande conforto metafísico da religião, seu bálsamo existencial, reside em sua afirmação de que o sentido da vida humana está fora da vida e fora da humanidade – e mesmo que esse fora esteja além de nossas limitadas capacidades cognitivas, ainda podemos dirigir nossa fé nessa direção; filosofar começa com o reconhecimento da incredibilidade literal dessa afirmação, com a decisiva dissolução da possibilidade de uma crença em Deus ou equivalente divino, seja ela vindicável pela fé ou pela razão.
  • O nome próprio para essa dissolução é modernidade, e a tarefa da modernidade filosófica – ao menos em seus momentos culminantes, Hegel, Nietzsche, Heidegger – é um pensamento da morte de Deus em termos do problema da finitude; esse pensamento não implica apenas a morte do Deus da tradição judaico-cristã, mas também a morte de todos os ideais, normas, princípios, regras, fins e valores postos acima da humanidade para fornecer aos seres humanos um sentido para a vida – o que Nietzsche chama de crepúsculo dos ídolos; como Heidegger observa numa afirmação marcante de 1925, pensando em Nietzsche: “A pesquisa filosófica é e permanece ateísmo, razão pela qual a filosofia pode permitir-se 'a arrogância do pensamento'.”
  • A filosofia é arrogante e deve sê-lo – uma contínua arrogação da voz humana –, mas a fonte de sua arrogância, seu inegável hybris, é uma decepção que flui da dissolução do sentido, a fragilidade que acompanha o reconhecimento do caráter demasiado humano do humano; assim, a filosofia – ao menos nas condições modernas – é ateísmo, e ter uma experiência de fé significaria parar de fazer filosofia… parar imediatamente… agora mesmo.
  • Se o ateísmo produzisse contentamento, a filosofia estaria encerrada – os ateus satisfeitos não têm razão para se incomodar com ela, a não ser como distração cultural ou meio técnico de afiar o senso comum; mas o ateísmo não produz contentamento, e sim inquietação; é desse estado de inquietação que a filosofia inicia suas dialéticas ansiosas e aporética, seus paradoxos que mordem a própria cauda: “Não estimar o que sabemos, e não ter permissão de estimar as mentiras que gostaríamos de nos contar a nós mesmos” – situação que os familiarizados com o panorama da modernidade filosófica reconhecerão como a descrição do problema do niilismo.
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