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CLÁUDIO OLIVEIRA (TUDO-TODO:86-88) – “A CADAISTIDADE” (JEDIESHEIT)

Se dizemos, por exemplo, “homem inteiro” e “cada homem”, a determinação que “inteiro” acrescenta a “homem” é de natureza diferente da que é acrescentada por “cada”. A questão é saber precisamente em que consiste essa diferença. Chegamos assim, por um outro viés, à diferença entre hólon e pân. Não mais a diferença etimológica, a diferença entre os sentidos que cada um dos termos porta em seu étimo, mas a diferença morfológica, a diferença entre os sentidos que cada um dos termos porta em sua forma, no modo como cada um deles incide sobre os termos que determina e com os quais se relaciona. São diferenças sem as quais jamais se alcançará aquela que de fato aqui se visa: a ontológica .

A diferença morfológica entre o adjetivo nominal e o adjetivo pronominal torna-se ainda mais sensível, quando os (86) substantivamos. Ao dizermos “o completo”, “o inteiro”, “o todo”, isso soa bem diferente de “o cada”, “o isto”, “o algum”. Digamos que soa bem menos estranho. O adjetivo nominal substantivado é um fato comum na língua. A ele corresponde, frequentemente, um substantivo, formado por sufixação, a partir do radical do adjetivo nominal. A língua tem, em geral, um conjunto de sufixos especificamente para essa função. De “o completo” chega-se a “a completu-de”; de “o inteiro” a “a inteireza”; de “o total” a “a totalidade”; de “o belo”, a “a beleza”; de “o bom”, a “a bondade”; de “o vero”, a “a verdade”.

A substantivação do adjetivo pronominal, por outro lado, é um fato bem menos comum, embora haja menos pronomes do que adjetivos na língua. E isso não é um acaso. Pronomes são palavras que podem, em geral, ser associadas a um número muito maior de palavras, quando não a todas. E isso já é uma informação fundamental sobre os pronomes: que eles são, em si mesmos, termos que estão já nesse âmbito de totalidade no sentido do em toda parte. Além disso, o fato de que eles sejam em menor número — um número aliás bem reduzido se comparado ao dos adjetivos — diz que esse tipo de palavra, na língua, é responsável por descrever um determinado conjunto de relações muito essenciais, que estão de algum modo presentes em todo dizer.

A substantivação do pronome implica que a língua se detenha sobre o sentido da função que os pronomes exercem na língua. Supondo-se que a língua chegue a “o cada”, “o isto”, “o algum” (supondo-se que se esteja de algum modo claro o que se possa querer dizer com isso), chega-se muito (87) raramente e com extrema dificuldade a “a cadaidade”, a “a istidade”, a “a algumidade”. Em geral, são termos forjados no bojo da reflexão filosófica, quase como uma violência contra a língua. Só com a filosofia se chega até eles. Ao dizer “o belo”, “o bom”, “o vero”, a língua não precisou da filosofia, assim como não precisou da filosofia para chegar a “a beleza”, “a bondade”, “a verdade” (mesmo que, com a filosofia, ela estabeleça com essas palavras um novo modo de relação: não é senão esse o sentido da interrogação socrática). Mas quando se fala em “o cada”, “o isto”, “o algo”, “o tudo”, “o nada”, parece que a língua chega a um outro estágio de si mesma, ao qual podemos dar, sem hesitação, o nome de filosofia. Talvez nenhuma língua tenha chegado a esse estágio antes da língua grega. E todas as outras que o fizeram, só o fizeram ao entrar em contato com ela. Talvez a filosofia (88) seja grega, em sua essência (in ihrem Wesen), como quer Heidegger, porque só junto ao povo grego a língua chegou a uma tal radicalidade de interrogação sobre si mesma . É o que lembra a afirmação de que “a filosofia é na origem de sua essência de tal modo que ela primeiro (pre)ocupou (convocou) (in Anspruch genommen hat) o mundo grego (Das Griechentum), e só ele, para se desenvolver”.

Assim como a língua latina, que foi apenas a primeira delas, todas as línguas, no contato com a língua da filosofia grega, tiveram que estabelecer consigo mesmas a mesma relação de radicalidade que aí encontraram. Qualquer língua que se pretenda engajar no exercício da filosofia deve estabelecer consigo mesma tal relação, que não é outra coisa que a própria filosofia. Filosofia, aqui, entendida como a mais radical relação da língua consigo mesma. Se fazemos filosofia em língua portuguesa, é inevitável que nos detenhamos sobre essa língua com aquela mesma radicalidade.

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