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estudos:casey:memoria-intro-1

Memória, Esquecimento e a Escolha entre Peso e Leveza

Casey2010

  • Situação inicial do problema da memória na condição moderna
    • A fábula inicial de Nietzsche acerca do gado serve como figura paradigmática de uma existência inteiramente cativa do instante, destituída de relação reflexiva com o passado e, portanto, privada da experiência do lembrar.
      • O animal não apenas desconhece o ontem e o hoje enquanto distinções temporais, mas permanece estruturalmente incapaz de manter qualquer conteúdo na duração, pois o esquecimento não é um ato, mas uma condição constitutiva de sua vida.
      • A interpelação humana dirigida ao animal evidencia, por contraste, a singularidade da condição humana, definida precisamente pela capacidade de lembrar e, correlativamente, de sofrer com o peso da memória.
    • A cena culmina na ironia decisiva: o animal esqueceria até mesmo a resposta que poderia dar, deixando o humano entregue à perplexidade.
      • Essa perplexidade inaugura a questão central do texto: o estatuto do lembrar e do esquecer enquanto modos fundamentais de vida.
  • Diagnóstico da amnésia moderna em relação à própria memória
    • A condição moderna não se caracteriza apenas pelo esquecimento do passado, mas por um esquecimento mais radical: o esquecimento do que significa lembrar.
      • A alienação não recai apenas sobre os conteúdos da memória, mas sobre a própria experiência do lembrar enquanto tal.
    • Esse esquecimento torna-se duplamente profundo quando o próprio fato de esquecer é reprimido.
      • A amnésia torna-se invisível a si mesma, impedindo qualquer esforço consciente de recuperação.
    • A memória, apesar de sua importância constitutiva para a identidade e para a vida humana, é relegada a um papel marginal.
      • Ela só emerge como tema em contextos isolados e artificialmente delimitados, como a psicanálise, práticas meditativas orientais ou experimentos da psicologia cognitiva.
      • Esses contextos permanecem afastados da vida cotidiana, o que reforça a desconexão entre memória e existência ordinária.
  • Falência filosófica contemporânea diante da memória
    • A filosofia moderna, ao desconstruir teorias tradicionais da memória, especialmente aquelas centradas na representação do passado, não logrou oferecer uma concepção positiva alternativa.
      • O gesto crítico, embora legítimo, resultou em um vazio teórico.
    • A memória deixa de ser compreendida como uma dimensão viva da existência para tornar-se um problema insolúvel ou um resíduo conceitual.
      • Essa abdicação teórica reforça o esquecimento prático da memória.
  • Deslocamento da memória para dispositivos técnicos
    • A perda do sentido da memória manifesta-se simbolicamente na substituição de Mnemosyne por máquinas.
      • Onde antes a memória era venerada como potência divina, agora é delegada a dispositivos técnicos.
    • Os computadores assumem o papel de ídolos mnemônicos modernos.
      • Contudo, esses dispositivos não lembram; apenas registram, armazenam e recuperam informações.
    • A distinção entre informação e memória é decisiva.
      • A memória humana envolve discernimento, interpretação e apropriação significativa.
      • O armazenamento técnico reduz-se a traços formatados e destituídos de sentido próprio.
    • A memória humana torna-se externalizada.
      • O lembrar deixa de ser uma atividade do sujeito para tornar-se um processo delegado a entidades não humanas.
  • Crítica à identificação entre memória humana e memória maquínica
    • Os computadores não podem conter os vastos domínios da memória humana, figurados por Agostinho como campos e palácios interiores.
      • Falta-lhes a interioridade constitutiva do lembrar.
    • Mesmo quando objetos não humanos podem portar memórias, isso não se aplica aos computadores.
      • Estes apenas conservam resíduos que necessitam ser retomados por sujeitos humanos para adquirirem estatuto de memória.
    • A responsabilidade pelo lembrar permanece, portanto, irredutivelmente humana.
      • A renúncia a essa responsabilidade agrava a amnésia contemporânea.
  • Nietzsche e a valorização do esquecimento
    • Nietzsche identifica no esquecimento uma condição de possibilidade da vida.
      • Uma vida feliz pode existir sem lembrança, mas uma vida autenticamente humana exige a capacidade de esquecer.
    • O esquecimento não é mera falha, mas uma potência ativa.
      • Ele impede que o peso do passado se torne insuportável.
    • Essa concepção culmina na defesa da prática do esquecimento ativo.
      • Tal prática torna-se ainda mais urgente diante da hipótese do eterno retorno.
  • O eterno retorno como argumento contra a memória
    • Se tudo retorna infinitamente, lembrar equivaleria a suportar um fardo esmagador.
      • Recordar cada acontecimento repetido infinitamente seria insustentável.
    • A memória, nesse contexto, converter-se-ia na mais pesada das cargas.
    • A leveza da vida dependeria, então, do esquecimento sistemático.
  • Kundera e a dialética entre peso e leveza
    • Kundera interpreta o eterno retorno como o peso máximo que recai sobre a existência.
      • Esse peso confere gravidade e responsabilidade a cada gesto.
    • A leveza surge como alívio diante desse peso.
      • Contudo, a leveza extrema implica irrealidade e insignificância.
    • O peso, embora opressivo, também pode ser expressão de plenitude.
      • A imagem amorosa do corpo que pesa sobre outro revela o peso como intensidade e realidade.
    • Quanto maior o peso, mais a vida se enraíza na terra e se torna verdadeira.
  • Esquecimento como perda da densidade da memória
    • O esquecimento generalizado pode representar uma fuga da densidade própria da memória.
      • A memória é figurada como um solo fértil, um húmus denso que sustenta a vida.
    • Abandonar esse solo implica uma existência rarefeita, desancorada e fragmentária.
    • A leveza obtida pelo esquecimento ameaça dissolver a realidade da experiência humana.
  • Compensação tecnológica e irresponsabilidade mnemônica
    • À medida que o sujeito abdica da responsabilidade por lembrar, aumenta sua dependência de máquinas.
      • O alívio subjetivo cresce proporcionalmente ao peso delegado a dispositivos externos.
    • O sujeito aproxima-se da condição do animal feliz de Nietzsche.
      • Livre do fardo da memória, mas também privado de profundidade.
    • O esquecimento culmina no esquecimento do próprio esquecer.
      • O sujeito já não sabe lembrar nem sabe o que deseja lembrar.
  • Paralelo com o Último Homem
    • A figura do Último Homem ilustra a satisfação apática resultante da ausência de memória.
      • Um contentamento vazio, sustentado por bancos de dados e meios de comunicação de massa.
    • A memória torna-se um serviço terceirizado.
      • O sujeito abdica não apenas do ato de lembrar, mas da competência de lembrar.
  • A escolha decisiva entre lembrar e esquecer
    • A questão final reapresenta-se como uma escolha entre peso e leveza.
      • Entre a via do lembrar e a via do esquecer.
    • Essa escolha pode já estar comprometida pela amnésia coletiva mediada por máquinas.
      • A perda da alma anamnésica pode parecer aceitável se o eterno retorno for verdadeiro.
    • Contudo, se a doutrina do eterno retorno for questionável, a escolha permanece aberta.
      • Nesse caso, torna-se possível reabilitar o peso da memória.
  • Possibilidade da retomada da anamnesis
    • A questão final indaga se ainda é possível lembrar de lembrar.
      • Se a amnésia pode dar lugar à anamnesis.
    • Trata-se de recuperar a responsabilidade pelo lembrar.
      • E, com isso, a densidade, a gravidade e a realidade da vida humana.
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