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Traços Fenomenológicos Primários do Lembramento

Casey2010

  • Delimitação do sentido de traços e justificativa do agrupamento em pares
    • Os traços visados designam características de certas formas de lembrar que se encontram sempre de fato presentes ou ao menos potencialmente presentes em numerosas ocasiões.
      • A generalidade desses traços não significa uniformidade de ocorrência, mas recorrência efetiva ou disponibilidade estrutural em múltiplas experiências mnemônicas.
    • O agrupamento em pares responde a uma exigência interna do fenômeno, pois certos traços se articulam por alternância, outros por complementaridade, e outros por implicação mútua.
      • A estrutura em pares pretende captar relações internas entre modos de operar do lembrar, evitando a descrição atomizada de características isoladas.
  • Busca e exibição como movimentos correlatos e distintos do lembrar
    • Busca designa um conjunto de procedimentos aliados mobilizados para lembrar melhor ou para lembrar pela primeira vez aquilo que não se mostra de imediato.
      • A recordação é caracterizada, com Aristóteles, como busca em algo corporal por uma imagem, o que indica que lembrar pode exigir uma operação dirigida e não apenas um aparecimento espontâneo.
    • A busca mantém correlação estreita com o esquecer, mas não se esgota nele.
      • O campo do buscado excede o campo do esquecido, pois o lembrar pode visar aspectos tornados marginais, isto é, fora do pensamento atual sem terem sido propriamente apagados.
    • A busca pode visar conteúdos que jamais receberam atenção especial, de modo que a falha de evocação não coincide com a perda do conteúdo por esquecimento.
      • A ausência de lembrança é explicada, nesse caso, pela falta originária de tematização e não por deterioração ou supressão do traço memorial.
    • Quando há esquecimento genuíno, a busca tende a adquirir forma mais concentrada e prolongada, tornando-se mais dependente de inferências.
      • A inferência aparece como recurso para suprir lacunas, indicando que a busca pode operar por reconstrução indireta quando o acesso imediato falha.
  • Exibição como efetivação do lembrado e modos de sua ocorrência
    • Exibição designa a ocorrência de uma memória efetivamente recuperada.
      • Ela pode surgir ao final de uma busca, no curso dela, ou sem qualquer busca, o que mostra que a memória pode aparecer como resolução, interrupção ou pura irrupção.
    • Exibições podem emergir espontaneamente, sem solicitação explícita, o que indica que o lembrar não depende sempre de um projeto consciente de evocação.
      • A espontaneidade da exibição evidencia que a memória se autoatualiza em certas condições, sem que se execute um procedimento de busca previamente delineado.
    • Busca e exibição podem compor uma mesma experiência mnemônica.
      • Um episódio pode iniciar-se sem convocação, desencadear busca e terminar pela intervenção inesperada de uma exibição pertinente, mostrando que a dinâmica do lembrar pode ser composta e não linear.
    • A exibição não é necessariamente visual.
      • Ela pode ser multissensorial, pode ser não sensorial e pode combinar o sensorial e o não sensorial, o que implica que o modo de doação do lembrado é polimorfo.
    • O polimorfismo das exibições exige exame ulterior, pois a memória não se restringe a um único canal de apresentação.
      • A variedade de modalidades mostra que reduzir a memória ao modelo imagético empobrece a descrição do fenômeno.
  • Encapsulamento e expansão como traços complementares e não meramente alternativos
    • Diferentemente de busca e exibição, que tendem a suceder-se como alternativas, encapsulamento e expansão tendem a corresponder-se e a ajustar-se reciprocamente.
      • Um traço contrativo e um traço distensivo coexistem, configurando o lembrar como simultaneamente condensador e proliferante.
  • Encapsulamento como poder contrativo do lembrar e suas formas principais
    • Encapsulamento intrasscênico ocorre quando uma cena lembrada contém outra como parte de seu próprio conteúdo, de modo que uma memória se apresenta como pertencente à memória de outra.
      • Esse emboîtement é descrito como relativamente raro e dependente de meios auto-representativos capazes de inserir versões de si mesmos, como o filme.
    • Encapsulamento por amontoamento amorfo reúne experiências anteriores semelhantes sob forma implícita ou fragmentária.
      • O lembrar inclui, nesse caso, uma sedimentação de experiências afins que se apresentam como massa pouco diferenciada ou como fragmentos parciais.
    • Encapsulamento emblemático ocorre quando uma lembrança singular funciona como fiadora de uma série de outras lembranças menos definidas.
      • Um único conteúdo exibido condensa e garante virtualmente um conjunto de memórias não recuperadas, mas em princípio recuperáveis.
    • Encapsulamento por relembrar consiste em lembrar o próprio lembrar, de modo que uma memória se torna objeto de nova memória.
      • Essa reiterabilidade pode prolongar-se em séries sucessivas, nas quais lembrar inclui lembrar que se lembrou, produzindo uma auto-inclusão progressiva.
    • A auto-inclusão reiterável é descrita como o encapsulamento mais abrangente do lembrar.
      • A memória adquire aqui caráter estritamente autoencerrado, pouco realizável com igual facilidade em outros atos mentais.
  • Expansão como poder distensivo do lembrar e seus modos característicos
    • Expansão por ramificação ocorre quando uma lembrança conduz a outras lembranças, formando cadeias de evocação.
      • As lembranças subsequentes podem manter continuidade de conteúdo ou formato, mas também podem surgir desconectadas, especialmente em estados de devaneio.
      • A cadeia resultante amplia significativamente o lembrar inicial, convertendo-o em ponto de partida de uma sequência.
    • Expansão por dilatação interna ocorre quando uma lembrança se preenche por dentro, tornando-se mais completa sem adição externa de novas lembranças.
      • Essa dilatação frequentemente resulta de busca, pois buscar implica procurar completude e, assim, promover expansão.
    • A expansão pode servir aos interesses do encapsulamento.
      • Uma lembrança tornada mais clara pode passar a representar melhor outras lembranças, de modo que o distender favorece a condensação representativa.
    • Expansão por potencial multimodal ocorre quando a lembrança acrescenta ao episódio rememorado traços sensoriais que não foram notados explicitamente na experiência original.
      • O lembrar amplia o conteúdo vivido ao reinscrevê-lo com riqueza sensível que excede a atenção originária.
    • Expansão temporal consiste em prolongar a meia-vida psíquica de uma experiência ao lembrá-la e descrevê-la.
      • Sob o aspecto de sobrevivência ou revivescência, a memória exerce função expansiva ao estender a presença do vivido para além de seu término imediato.
  • Persistência e passadidade como dimensões genéricas que exigem determinação própria
    • Persistência e passadidade estavam implicitamente implicadas na discussão anterior, mas requerem explicitação autônoma.
      • Falar de expansão temporal já implica que algo do passado se alonga no presente, e falar de encapsulamento já implica que algo do vivido persiste em forma abreviada.
  • Persistência como prolongamento do passado no presente e suas variações
    • Persistência designa a prolongação do passado no presente, de modo que o vivido anterior permanece acessível e atuante na experiência atual.
      • A persistência se manifesta de forma mais direta na memória primária, cuja função conservadora consiste em manter no presente um episódio recém decorrido.
    • Persistência pode derivar de aprendizagem por repetição e operar quase automaticamente.
      • Um conteúdo memorizado por encontros rotineiros persiste como informação prontamente recuperável, cuja origem e funcionamento são habituais.
    • Persistência pode também ser imprevisível e esporádica.
      • Um conteúdo não pensado por muitos anos pode persistir na forma mínima de poder reaparecer uma única vez, como extração ocasional do esquecimento profundo.
    • Persistência pode consistir em tendência a ser lembrado em ocasiões recorrentes, frequentemente associadas ao retorno a um lugar.
      • O lugar funciona como elemento lembrante e a recordação desencadeada por ele se torna veículo da persistência.
  • Passadidade como proveniência temporal do lembrado e condição de lembrabilidade
    • Passadidade nomeia a qualidade do lembrado pela qual ele se reconhece como originado em um tempo anterior ao presente.
      • Sem essa proveniência, não haveria lembrança, pois o presente enquanto presente vivo e o futuro enquanto futuro ainda por vir não são lembráveis como tais.
    • O tornarse passado pode ocorrer em graus.
      • Uma experiência ainda em curso pode adquirir passadidade suficiente quando se afasta do foco central da sensação presente e se torna recapturável como tendo acabado de ser.
    • Passadidade inclui a dimensão de completude, término ou acabamento.
      • O lembrado se apresenta como concluído, expirado ou em via de expirar, variando do inteiramente terminado ao ainda latejante.
    • A completude extrema de uma experiência pode traduzir-se em incompletude memorial.
      • A distância temporal pode tornar a lembrança lacunosa e enevoada, sugerindo que o acabamento do vivido não garante riqueza do recordar.
    • Persistência e passadidade implicam-se mutuamente.
      • Apenas o que é passado pode persistir através do tempo interveniente e ser reavivado no presente, e apenas o que persiste se torna efetivamente lembrável.
  • Atualidade e virtualidade como dupla determinação do conteúdo lembrado
    • A passagem da passadidade à atualidade ocorre porque o passado é compreendido como domínio de atualidades, isto é, de acontecimentos que efetivamente foram o caso.
      • Lembrar refere-se ao que ocorreu de fato, ainda que algumas dessas ocorrências permaneçam sobreviventes no presente.
    • Atualidades lembradas podem ser objetivamente registráveis ou não.
      • Certos elementos podem ser observáveis e documentáveis externamente, enquanto outros consistem em pensamentos e sentimentos não apresentados publicamente.
      • Mesmo quando não públicos, tais elementos mantêm estatuto de eventos e, por isso, de atualidades.
    • A atualidade inclui databilidade, ainda que em graus distintos.
      • Um sentimento pode ser tão datável quanto uma posição corporal no mesmo episódio, indicando que a temporalidade partilhada sustenta a igualdade de estatuto eventivo.
    • A atualidade inclui a finishedness, isto é, um grau mínimo de acabamento coerente que torna o lembrado identificável como memória de algo determinado.
      • A coerência varia por contexto, pois um conteúdo pode ser adequado como memória em um contexto e incoerente em outro, o que colocaria em questão seu estatuto memorial.
    • A unidade do lembrado é descrita como condição de atualidade.
      • O lembrado deve manter um sentido de coesão interna como experiência ou conjunto de experiências, constituindo uma ou várias atualidades que se sustentam como tais.
    • A atualidade envolve ainda a presença do lembrante na ocorrência original.
      • O lembrado exige que o sujeito tenha estado presente em primeira pessoa no acontecimento, pois apenas nessa presença a atualidade é experimentável e, portanto, lembrável.
      • Datar um fato no passado é insuficiente; é necessário situá-lo no próprio passado do lembrante como algo diretamente vivido.
  • Virtualidade como prontidão de reativação e horizonte de mais-lembrabilidade
    • Virtualidade designa a prontidão de experiências passadas para serem reativadas.
      • Trata-se de um estar-em-reserva, um manter-se-pronto que corresponde, em linguagem descritiva, à convicção de que mais poderia ser lembrado do que aquilo que está sendo lembrado agora.
    • O horizonte virtual pode acompanhar tanto a lembrança global quanto cada incidente particular dentro dela.
      • Mesmo quando nenhum detalhe adicional é efetivamente recuperável, permanece a sensação de que uma incitação adequada poderia destrancar lembranças suplementares.
    • Virtualidade manifesta-se concretamente como incoesão e indefinição.
      • A falta de definição pode habitar o fundo do cenário, mas também o primeiro plano e a própria temporalidade do lembrado.
      • A indefinição pode situar-se entre episódios, dentro de episódios ou na forma geral de uma lembrança enevoada.
    • A indefinição não é apenas correlato abstrato da seletividade atencional.
      • Ela é um modo concreto pelo qual a virtualidade se insinua no lembrar, marcando zonas que solicitam exploração por se apresentarem como virtualmente ali.
    • A virtualidade contribui tanto para a pervasividade quanto para a evanescência da memória.
      • A sensação de que toda experiência presente está impregnada de memória é atribuída ao caráter virtual que permeia a percepção e o pensamento.
      • A rápida retirada de muitas lembranças é entendida como retorno a uma indefinição maior, isto é, a um estado de não lembrança.
    • O estado de não lembrança pode ser caracterizado positivamente como prontidão retida.
      • A perda aparente não se reduz a negatividade de um desaparecimento, mas pode ser descrita como permanência em reserva, fundamento da possibilidade de reativação.
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