estudos:casey:declinio-prestigio-memoria
Evidências Contemporâneas do Declínio do Prestígio da Memória
Casey2010
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Deslocamento pedagógico e declínio da memorização como prática formativa
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A memorização, outrora instrumento pedagógico central na educação primária, deixou de ocupar posição relevante nos currículos contemporâneos.
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A exigência ocasional de decorar poemas ou breves textos subsiste apenas como gesto simbólico, destituído de função estrutural no processo educativo.
Em períodos recentes do passado, a memorização era compreendida como meio privilegiado de aprendizagem.-
Acreditava-se que certos textos eram mais bem assimilados quando incorporados pela repetição até serem retidos de cor, isto é, interiorizados como parte viva da formação.
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A prática era associada não apenas à transmissão de uma tradição cultural comum, mas também ao desenvolvimento das capacidades mentais da criança.
O abandono atual dessas práticas, independentemente de seus excessos anteriores, indica uma desvalorização generalizada da memória enquanto faculdade digna de cultivo sistemático.-
A crítica a abusos passados não explica, por si só, o desaparecimento quase total dessas práticas.
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A ausência atual funciona como sintoma de uma mudança mais profunda na estima concedida ao lembrar.
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Refluxo do interesse em técnicas mnemônicas e no cultivo deliberado da memória
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O interesse por dispositivos e sistemas mnemotécnicos decresceu drasticamente.
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Embora o termo “mnemonics” ainda desperte curiosidade episódica, ele deixou de ser objeto de estudo persistente por parte do público geral.
No século XIX, práticas mnemotécnicas atraíam vastas audiências.-
Especialistas prometiam ampliação extraordinária das capacidades memoriais, e tais promessas encontravam receptividade social.
Já no final desse mesmo século, registra-se a percepção de que a arte da memorização havia praticamente desaparecido.-
A constatação de que essa arte se tornara “quase absolutamente desconhecida” antecipa uma tendência que se aprofundaria no século seguinte.
A perda de interesse não se limita à prática, mas atinge a própria motivação para melhorar a memória.-
O cultivo da memória deixa de ser visto como fim valioso em si mesmo.
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Significado exemplar do distanciamento em relação à tradição da ars memorativa
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A reconstrução histórica das técnicas de memória demonstra a riqueza e a centralidade que tais práticas tiveram em épocas anteriores.
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Essa tradição atravessou a Antiguidade, a Idade Média e o Renascimento como disciplina intelectual de primeira ordem.
A decisão explícita de não empregar pessoalmente tais técnicas, mesmo por parte de sua mais eminente historiadora moderna, revela uma mudança de atitude.-
O distanciamento não decorre de ignorância, mas de falta de interesse prático.
Esse gesto indica que o declínio não é apenas técnico, mas axiológico.-
A memória deixa de ser considerada algo que mereça esforço deliberado de aperfeiçoamento.
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Desaparecimento da reminiscência como prática social estruturante
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A reminiscência, entendida como prática social específica e não como recordação ocasional, perdeu centralidade na vida coletiva.
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Tratava-se de situações em que indivíduos mais velhos narravam experiências passadas a ouvintes mais jovens.
Essas práticas conferiam à memória uma dimensão comunitária decisiva.-
A transmissão oral permitia preservar experiências não registradas por meios escritos ou oficiais.
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Em muitos casos, constituía a única via de acesso a partes do passado prestes a desaparecer com seus últimos testemunhos.
A retração dessas práticas acompanha transformações sociais amplas.-
A dissolução da família extensa e a diminuição da reverência cultural pelos idosos contribuem para esse processo.
O efeito resultante é o aprofundamento do recuo da memória enquanto prática viva e compartilhada.-
Abordagem indireta da memória por meio do esquecimento na teoria moderna
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Um indício teórico significativo do declínio do prestígio da memória é o fato de que grandes teorias modernas a abordam prioritariamente através do esquecimento.
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O lembrar é investigado a partir de sua falha, de sua ausência ou de sua distorção.
Essa estratégia sugere a suposição implícita de que a memória, tomada diretamente, seria inapreensível ou pouco confiável.-
O esquecimento passa a funcionar como via privilegiada de acesso teórico.
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Centralidade do esquecimento ativo na reflexão nietzschiana
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O esquecimento é concebido como capacidade positiva e necessária à vida.
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Não se trata de simples lapsus, mas de uma potência volitiva que permite ao indivíduo não sucumbir ao peso do passado.
A contraposição entre esquecimento e lembrança compulsória revela uma hierarquia existencial.-
Para o indivíduo, esquecer é mais vital do que lembrar continuamente.
A inveja do animal que esquece instantaneamente exprime a percepção de que a memória pode tornar-se fardo paralisante.-
Primazia do esquecimento na constituição da psicanálise freudiana
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Embora a psicanálise tenha se apresentado inicialmente como terapêutica da lembrança, sua evolução revela foco crescente no esquecimento.
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A desconfiança quanto à veracidade das memórias infantis conduz à noção de amnésia generalizada da infância.
O trabalho analítico passa a ser descrito como preenchimento de lacunas deixadas pelo esquecimento.-
A memória é concebida como estruturalmente não confiável.
O esquecimento instala-se no próprio núcleo do lembrar, funcionando como força ativa e patogênica.-
A prática analítica assume a forma de combate contínuo contra esse esquecimento interno.
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Esquecimento do ser como eixo do pensamento heideggeriano
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O projeto filosófico heideggeriano é interpretado como resposta ao esquecimento histórico do ser.
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Esse esquecimento atravessa a tradição metafísica ocidental desde Platão.
O esquecimento manifesta-se na redução do ser à presença subjetiva e culmina na dominação tecnológica.-
A tecnologia moderna é entendida como expressão extrema desse esquecimento.
O esforço filosófico consiste em promover uma rememoração do ser, concebida como pensamento comemorativo.-
O lembrar fundamental antecede e condiciona todo lembrar empírico.
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Fundação da psicologia experimental da memória como ciência do esquecimento
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A investigação experimental inaugural da memória concentra-se na mensuração do esquecimento.
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A utilização de sílabas sem sentido visa isolar quantitativamente a perda de retenção.
O famoso gráfico associado a esses experimentos representa, de fato, a taxa de esquecimento ao longo do tempo.-
O lembrar é abordado apenas indiretamente, como aquilo que falha progressivamente.
Assim, mesmo no nascimento científico do estudo da memória, o esquecimento ocupa posição central.-
Transição histórica da arte da memória para a ciência da memória
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A emergência da ciência experimental coincide com o anúncio do desaparecimento da arte tradicional da memória.
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O cultivo prático do lembrar é substituído pela mensuração técnica de sua perda.
O estudo da memória passa das mãos de praticantes públicos para laboratórios especializados.-
O acesso ao fenômeno torna-se restrito a especialistas e mediado por dispositivos experimentais.
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Proliferação de tecnologias mnemônicas artificiais
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A retração da memória humana é acompanhada pela expansão de auxiliares técnicos de lembrança.
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Calculadoras, gravadores, computadores e dispositivos de reprodução audiovisual assumem funções memoriais.
Esses dispositivos oferecem alívio imediato às limitações individuais.-
Sua disponibilidade e eficiência tornam-se praticamente irresistíveis.
O efeito cumulativo é o deslocamento da responsabilidade pelo lembrar do sujeito para a máquina.-
Consolidação do declínio do lembrar tradicional como fato cultural
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O conjunto desses fenômenos constitui evidência convergente de um declínio profundo do interesse pelo lembrar à maneira antiga.
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O declínio manifesta-se tanto na prática social quanto na teoria científica.
Trata-se de uma tendência enraizada, difícil de reverter e inadequada para lamento nostálgico.-
Qualquer tentativa de restauração direta seria anacrônica.
O único gesto possível consiste em oferecer uma descrição rigorosa da memória humana em seus próprios termos.-
Tal descrição evita tanto a redução experimental quanto a delegação do lembrar às máquinas.
Ao retomar o princípio de voltar às coisas mesmas, a investigação busca possibilitar um novo lembrar da própria memória.-
Esse lembrar não visa restaurar o passado, mas compreender o que a memória é e pode ser na experiência humana.
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