estudos:casey:declinio-moderno-memoria
Declínio Moderno da Memória, Metáforas Maquínicas e Empobrecimento do Léxico
Casey2010
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Delimitação das tarefas introdutórias restantes para a investigação da memória
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Antes de responder às questões centrais sobre o que é lembrar e como o lembrar opera, impõe-se a realização de duas tarefas preliminares que estruturam o restante da introdução.
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A primeira tarefa consiste em apresentar evidências concretas do declínio do prestígio da memória, de modo que as afirmações iniciais não permaneçam no plano do dogmatismo ou da retórica.
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Essa evidência será distribuída ao longo de duas seções, enquanto se reconhecem, de forma complementar, correntes contrárias que mitigam parcialmente esse declínio.
A segunda tarefa exige um retorno histórico a um período em que a memória gozava de elevada estima.-
Esse retorno não serve apenas como contraste com a situação moderna, mas como recuperação de um pano de fundo que foi ele próprio esquecido.
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A investigação histórica abrangerá o percurso da memória desde a Grécia antiga até o Iluminismo, situando o esquecimento moderno em uma genealogia mais ampla.
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Atitude defensiva moderna diante do peso do passado
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A relação moderna com o passado é caracterizada por uma defensividade diante de seu peso, que conduz a concebê-lo como algo fixo e morto.
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Essa atitude implica uma redução do passado a uma massa inerte, destituída de vitalidade e de exigência interpretativa.
A consequência direta dessa redução é a disposição para tratar o passado como algo passível de simples depósito.-
Se o passado é apenas um peso morto, ele pode ser consignado a dispositivos externos como mais um conjunto de dados.
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Transferência da memória para máquinas como resposta ao passado reificado
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A transformação do passado em informação favorece a transferência da função memorial para máquinas.
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A máquina aparece como repositório adequado para aquilo que foi previamente despojado de sentido vivo.
Esse deslocamento não é apenas técnico, mas simbólico.-
Ele expressa uma renúncia à responsabilidade humana pelo lembrar em favor de um armazenamento externo e impessoal.
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Metáforas correntes da memória e sua carga depreciativa
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O vocabulário contemporâneo relativo à memória é dominado por metáforas técnicas e maquínicas.
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Expressões correntes associam a memória a dispositivos, sistemas e procedimentos de caráter estritamente mecânico e não humano.
O traço comum dessas metáforas é a assimilação da memória a um aparato.-
O paradigma privilegiado é o computador, com suas capacidades de compressão, retenção e manipulação de unidades discretas de informação.
Essa assimilação opera simultaneamente como consagração da máquina e como desvalorização da memória humana.-
A comparação desfavorável resulta da suposição de que a eficiência quantitativa e a fidelidade operacional definem o valor do lembrar.
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Influência dos modelos computacionais na psicologia experimental da memória
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Os modelos dominantes na psicologia experimental contemporânea tomam o processamento de informação computacional como paradigma explicativo da memória.
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A memória é concebida segundo esquemas de entrada, armazenamento e recuperação análogos aos do computador.
A hegemonia desses modelos reforça a tendência a tratar a memória humana como versão imperfeita de um sistema técnico ideal.-
A falibilidade humana passa a ser vista como defeito estrutural em comparação com a suposta perfeição da máquina.
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Suspensão do debate sobre inteligência artificial e foco na assimilação paradigmática
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A discussão sobre a possibilidade de replicar ou superar a inteligência humana por meio de máquinas é deliberadamente deixada de lado.
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O ponto decisivo não é a viabilidade da inteligência artificial, mas a rapidez com que a memória foi subsumida ao paradigma maquínico.
A assimilação da memória à máquina opera em detrimento da própria memória humana.-
Ao ser comparada a algo que armazena mais e erra menos, a memória humana é implicitamente desacreditada.
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Consequências comparativas da analogia entre memória humana e memória computacional
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A memória humana aparece como quantitativamente inferior e funcionalmente falível.
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Ela é descrita como limitada em capacidade e vulnerável ao erro.
A máquina, por contraste, surge como repositório virtualmente inesgotável e operacionalmente confiável.-
Essa assimetria simbólica legitima a desconfiança na memória humana enquanto tal.
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Distinção crucial entre memorizar mecanicamente e lembrar humanamente
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O problema não reside na existência ou no uso de computadores.
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No domínio da informação discretizável e fragmentável, as máquinas de fato superam o desempenho humano.
Os computadores funcionam como protótipos eficazes de uma forma específica de lembrar: a memorização mecânica.-
Essa forma corresponde ao tratamento de unidades isoladas de informação, sem contexto vital ou interpretação.
O equívoco consiste em estender esse modelo a toda memória humana.-
O lembrar humano não é mecânico, nem redutível à operação de memorização.
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Deslegitimação tácita da memória humana em seu domínio próprio
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A assimilação da memória ao modelo maquínico mina silenciosamente a autoridade e o valor da memória humana em sua esfera própria.
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Essa esfera é constituída pelas performances cotidianas do lembrar no curso da vida ordinária.
O foco exclusivo em eficiência técnica obscurece a riqueza e a complexidade do lembrar humano enquanto prática vivida.-
A memória cotidiana passa a parecer deficiente apenas porque é medida por critérios inadequados.
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Reivindicação metodológica da descrição dos casos mais comuns
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A obra propõe-se a descrever precisamente essas performances ordinárias do lembrar.
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O objetivo não é explicar a memória por analogia com máquinas, mas elucidar como ela opera na vida diária.
A citação de Freud sustenta a exigência de esclarecer os casos mais comuns.-
A atenção ao banal e ao habitual é apresentada como gesto teórico fundamental.
Realizar tal descrição constitui, em si, um ato de respeito para com a memória.-
Esse respeito é raro em um contexto dominado pela fascinação com a inteligência artificial.
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Metaforização da memória como translação de sentido
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A metáfora da memória maquínica é descrita como translatio, isto é, transferência de sentido e estrutura.
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O sentido próprio do lembrar é deslocado para uma estrutura alheia, a do cálculo e do armazenamento técnico.
Essa transferência altera a compreensão do fenômeno original.-
A memória humana é reinterpretada à imagem de um sistema que lhe é essencialmente estranho.
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Empobrecimento histórico do léxico da memória
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Um fato concomitante e particularmente revelador é a drástica redução do vocabulário relativo à memória nos últimos dois séculos.
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Termos outrora correntes tornaram-se obscuros ou completamente desconhecidos para falantes contemporâneos.
A enumeração de palavras hoje raras evidencia a extensão dessa perda lexical.-
O esquecimento desses termos indica não apenas mudança linguística, mas transformação conceitual profunda.
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Relação entre perda vocabular e declínio de estima da memória
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O empobrecimento do léxico acompanha o declínio geral da estima pela memória.
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A perda de palavras reflete a perda de nuances conceituais e de formas de atenção ao lembrar.
A redução vocabular é apresentada como primeiro sintoma do rebaixamento da memória.-
Quando faltam palavras para dizer a memória, torna-se mais difícil reconhecê-la, valorizá-la e praticá-la conscientemente.
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Substituição da memória oral por tecnologias de inscrição
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O declínio do vocabulário é situado historicamente no contexto da substituição de tradições orais pela escrita e, sobretudo, pela impressão.
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A memória transmitida oralmente exigia riqueza lexical e prática ativa do lembrar.
A consolidação de meios externos de registro reduziu a dependência do lembrar vivo.-
Essa redução contribuiu para o esquecimento não apenas de práticas memoriais, mas também das palavras que as nomeavam.
O resultado é a diminuição dos recursos verbais disponíveis para pensar e falar a memória.-
Com menos palavras, a memória torna-se mais difícil de tematizar e mais fácil de negligenciar.
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