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Emoção

CASEY, Edward S. Turning emotion inside out: affective life beyond the subject. Evanston, Illinois: Northwestern University Press, 2022.

1. Compreendendo a Emoção: Visões Antigas e Modernas

Parte 2. Paisagens Emocionais: A Dinâmica Interpessoal da Emoção

  • O Domínio Interpessoal: Merleau-Ponty e Scheler
  • A Contribuição de Ahmed: A Emoção Espalhada entre Superfícies Significantes
  • Sintonia Afetiva e Emoção na Multidão: Stern, Le Bon e o Fascismo Incipiente
  • Seguindo Freud por Baixo do Sujeito

Parte 3. Rumo a uma Perifenomenologia Prospectiva da Emoção

  • Bordas Emocionais e Intercorporalidade
  • Elasticidade e Transmissibilidade da Emoção
  • Atmosfera e Ambiente Afetivo

Apêndice: Arte e Afeto na Esteira do Holocausto


Prólogo

1. Em janeiro de 2021, a pandemia de coronavírus ainda envolvia a população mundial em uma atmosfera carregada de emoções conflitantes, que abrangiam ansiedade, depressão, medo, consternação e esperança de superação da doença, ao mesmo tempo que seus efeitos psicológicos, econômicos e sociais atingiam milhões de pessoas e incidiam de maneira especialmente destrutiva sobre minorias raciais e étnicas.

  • A enfermidade e a morte disseminavam luto e intensa empatia, enquanto raiva, apreensão, pânico e esperança de salvação médica coexistiam diante da perspectiva ainda incerta proporcionada pelas vacinas contra a COVID-19.
  • Nesse mesmo contexto histórico, o assassinato de George Floyd desencadeou amplos protestos contra a brutalidade policial, a injustiça e a desigualdade raciais, mobilizando emoções que iam da indignação e do desespero à consternação e à tristeza e conferindo às reivindicações de justiça racial uma forte intensidade afetiva coletiva.

2. A extraordinária presença das emoções em múltiplos contextos históricos conduz à questão fundamental de sua localização, pois, embora seja legítimo afirmar que elas são registradas mentalmente e repercutem corporalmente, tornou-se habitual concebê-las como inteiramente contidas numa interioridade individual considerada seu lugar próprio, concepção consolidada desde o século XVII e posteriormente reforçada pelos estudos neurológicos, mas cuja validade pode ser apenas parcial ou profundamente equivocada.

3. Contra a concepção segundo a qual as emoções pertenceriam essencialmente à interioridade da mente, do cérebro, do coração ou do corpo, sustenta-se que elas possuem localizações próprias entre os indivíduos e além deles, originando-se e sendo recebidas do exterior em proporção muito maior do que normalmente se admite.

  • O caráter amorfo, transitório e proteiforme das emoções dificulta sua delimitação, definição, nomeação e classificação em tipos estáveis.
  • A distinção entre raiva e fúria, por exemplo, permanece problemática, pois não é evidente se esta constitui mera intensificação daquela ou uma emoção distinta.
  • Diante dessa indeterminação, torna-se tentador confinar as emoções em um suposto eu interior, no qual pareceriam mais facilmente identificáveis e controláveis.

4. A dificuldade prolongada de apreender conceitualmente a emoção decorre precisamente de sua elusividade e indeterminação, pois a experiência reiterada de abordá-la demonstrou que não existem emoções puras, essências emocionais ou casos paradigmáticos estáveis, já que elas permanecem profundamente entrelaçadas com a contínua transformação da vida.

  • A inviabilidade de classificações seguras e previsões consistentes torna insuficiente a descrição das emoções segundo tipos eidéticos fixos.
  • Uma descrição fenomenológica cuidadosa permite reconhecer que as emoções se manifestam tanto ao redor quanto no interior dos indivíduos e, em muitos casos, apresentam-se de maneira mais decisiva fora deles.
  • O reconhecimento de localizações emocionais para além dos corpos e das mentes determinados amplia a compreensão das emoções e favorece sua apreensão na vida pessoal e coletiva.

5. A emoção pode ser ancorada sem recurso exclusivo à interioridade sentida dos seres sencientes, situando-se muitas vezes no mundo circundante mediante uma localização que não é fixa nem simplesmente efêmera, mas relativamente estabilizadora e simultaneamente instável, correspondente ao que D. W. Winnicott denominou “espaço transicional” (transitional space), isto é, um espaço capaz de orientar e localizar sem exigir posicionamento exato nem reduzir-se à “localização simples” (simple location) de Whitehead.

6. Muitas das emoções mais significativas situam-se além dos limites da subjetividade, de modo que compreender como essa localização extrassubjetiva pode ocorrer constitui o problema central a ser esclarecido.

7. A investigação das emoções complementa a abordagem desenvolvida anteriormente em O mundo no limite (The World on Edge), de 2017, pois ambas procuram compreender tempos marcados pela turbulência, embora por perspectivas distintas, sendo que a reflexão precedente examinava o significado psicológico e existencial de estar “no limite” (on the edge).

  • A eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos em novembro de 2016 colocou em primeiro plano, nessa experiência relatada, a manifestação pública de emoções intensas, sobretudo consternação e indignação.
  • A participação na Marcha das Mulheres em Nova York, em 21 de janeiro de 2017, revelou uma experiência na qual as emoções não permaneciam como estados privados contidos no indivíduo, mas se localizavam de maneira decisiva fora dele, compartilhadas corporal e afetivamente com centenas de milhares de outras pessoas.
  • Estar “fora de si” não significa apenas ultrapassar a antecipação ou o controle consciente, mas experimentar as emoções como provenientes de algum lugar distinto da própria mente ou do próprio corpo.
  • O espaço circundante converte-se, assim, em uma cena de manifestação na qual as emoções se apresentam como situadas em diferentes modalidades de um “alhures” exterior ao sujeito.

8. Se a eleição de Donald Trump contribuiu para uma reformulação da abordagem da emoção, o surgimento repentino do coronavírus durante as etapas finais da elaboração do estudo tornou ainda mais urgente a questão de sua localização, pois a atmosfera generalizada de medo e ansiedade, intensificada pelo isolamento forçado, produziu em milhões de pessoas de todos os continentes uma densa combinação de afetos difíceis que pareciam manifestar-se em contextos decididamente extrapessoais.

  • As emoções suscitadas pela pandemia passaram a constituir uma espécie de nuvem planetária de pressentimento e ameaça.
  • Se desespero e luto não são experimentados exclusivamente no interior de indivíduos isolados, torna-se necessário determinar em que espécie de lugar eles efetivamente se situam.

9. A posse de um novo presidente dos Estados Unidos, ocorrida no momento da conclusão da obra, despertava grandes esperanças em muitas pessoas, fazendo surgir novamente a questão espacial da emoção: onde se situa esse sentimento de elevação e de que maneira pode ser localizado?

  • A mudança política, a continuidade da pandemia e as grandes mobilizações em torno da justiça racial convergiam numa situação extrema em que a localização das emoções se tornava uma questão incontornável.
  • Sem determinar onde as emoções se apresentam, torna-se difícil compreendê-las adequadamente e, ainda mais, transformá-las ou redirecioná-las para formas de vida coletiva menos destrutivas.
  • Nesse momento histórico decisivo, as emoções parecem “pairar no ar”, tanto elevando-se quanto descendo, exigindo uma compreensão capaz de apreender plenamente a força dessa presença.

10. Aos leitores interessados em alcançar diretamente o núcleo da tese sobre a localização das emoções recomenda-se a leitura das partes 2 e 3 e do epílogo, enquanto a parte 1 fornece os antecedentes conceituais e históricos.

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