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estudos:casey:2022:5

5 Merleau-Ponty e Scheler

CASEY, Edward S. Turning emotion inside out: affective life beyond the subject. Evanston, Illinois: Northwestern University Press, 2022.

O domínio interpessoal: Merleau-Ponty e Scheler

“Mostrar que a filosofia como interrogação […] só pode consistir em […] instalar-se na borda do ser.” — Merleau-Ponty, O visível e o invisível.

1. Merleau-Ponty esboça uma concepção radicalmente interpessoal da emoção ao situá-la na periferia do sujeito e no espaço compartilhado com outros seres humanos, fazendo daquilo que acontece entre os sujeitos, e não exclusivamente dentro deles, o domínio decisivo da vida emocional; essa indicação breve abre caminho para uma elaboração mais ampla do nexo interpessoal posteriormente aprofundada por Max Scheler.

I

1. A emoção não constitui uma realidade psíquica interior acessível exclusivamente ao indivíduo que a sente, mas uma modificação das relações com os outros e com o mundo que se expressa corporalmente: “É preciso rejeitar o preconceito que transforma o amor, o ódio ou a raiva em ‘realidades interiores’, deixando-as acessíveis a uma única testemunha: a pessoa que as sente. […] A emoção não é um fato psíquico, interno, mas uma variação de nossas relações com os outros e com o mundo, expressa em nossa atitude corporal.”

2. A experiência emocional ocorre num espaço intersubjetivo e não como propriedade privilegiada da primeira pessoa, existindo entre os sujeitos antes de pertencer exclusivamente a qualquer um deles; a raiva exemplifica essa estrutura por aparecer corporalmente, ocupar o espaço comum e desenrolar-se entre os interlocutores: “Imaginemos que estou diante de alguém que, por uma razão qualquer, está extremamente irritado comigo. Meu interlocutor fica com raiva e percebo que exprime sua raiva falando agressivamente, gesticulando e gritando. Mas onde está essa raiva? Dir-se-á que está na mente de meu interlocutor. O que isso significa não é inteiramente claro. Pois não poderia imaginar a maldade e a crueldade que percebo nos olhares de meu adversário separadas de seus gestos, de sua fala e de seu corpo. […] É realmente aqui, nesta sala e nesta parte da sala, que a raiva irrompe. É no espaço entre ele e mim que ela se desenrola […] a raiva o habita e floresce na superfície de suas faces pálidas ou púrpuras, de seus olhos injetados e de sua voz ofegante. […] [Ela] está no espaço que ambos compartilhamos — no qual trocamos argumentos em vez de golpes — e não em mim.”

3. A raiva nunca é apenas “minha”, pois aquele diante de quem ela surge não funciona somente como causa eficiente, mas integra o próprio nexo de circunstâncias em que a emoção se constitui, convertendo o sujeito menos num recipiente possessivo de afetos do que num lugar de ressonância de uma situação compartilhada.

4. A memória da própria raiva também revela sua localização relacional, pois ela aparece retrospectivamente não como estado encerrado na mente, mas como algo que existiu inteiramente entre aquele que gritava e aquele a quem os gritos se dirigiam: “Quando me recordo de ter estado com raiva de Paulo, não me parece que essa raiva estivesse em minha mente ou entre meus pensamentos, mas antes que ela estivesse inteiramente entre mim, que gritava, e aquele odioso Paulo, que simplesmente permanecia sentado, tranquilo, ouvindo com ar irônico. Minha raiva [era] nada menos que uma tentativa de destruir Paulo, [uma raiva] que permanecerá verbal se eu for pacifista e até cortês, se eu for educado.”

5. A emoção mostra-se não apenas aos outros, mas também ao próprio sujeito, pois estar com raiva significa encontrar-se exteriorizado em comportamentos corporais perceptíveis tanto por quem os realiza quanto por quem os presencia, ultrapassando assim a pura consciência interior.

6. Emoções como amor, ódio e raiva são “tipos de comportamento ou estilos de conduta visíveis do exterior”, existindo no rosto e nos gestos, e não ocultas atrás deles, de modo que a superfície corporal assume prioridade sobre profundidades psíquicas supostamente inacessíveis.

7. A expressão “visíveis do exterior” desloca o centro da vida emocional da interioridade psíquica ou fisiológica para a exterioridade percebida das ações, pois os outros manifestam-se diretamente em seus comportamentos e o próprio sujeito igualmente se torna manifesto a si mesmo em sua própria conduta.

II

1. A longa tendência ocidental, de Santo Agostinho a concepções modernas da subjetividade, consiste em situar as emoções numa profundidade psíquica ou fisiológica interior, onde seriam geradas e transformadas em propriedades íntimas e exclusivas do sujeito, como ocorre nas paixões cartesianas, na ansiedade kierkegaardiana e na tradição romântica da melancolia.

  • Nessa orientação, a emoção parece existir, na formulação kantiana, “apenas em nosso ânimo”.
  • A própria intimidade (intimus, “o mais interior”) torna-se o lugar privilegiado da experiência emocional.

2. A insistência na profundidade pessoal negligencia a dimensão periférica da emoção, pois muitas emoções emergem nas bordas da experiência e nelas permanecem, apresentando-se não como acontecimentos ocultos num substrato psíquico, fisiológico ou neurológico, mas como fenômenos que sobrevêm e incidem sobre o sujeito a partir de seu entorno.

  • Elas são sentidas como algo que chega até nós, mais do que como algo que brota de dentro de nós.

3. É preciso distinguir emoções propriamente periféricas da dimensão periférica presente em toda emoção: as primeiras manifestam-se de maneira particularmente explícita nas bordas da vida experiencial, inclusive na companhia de outros ou em estados solitários cuja origem parece indeterminada, enquanto a segunda designa os contornos temporais e espaciais que toda emoção apresenta em seus lugares-de-apresentação.

  • Uma descrição perifenenomenológica deve acompanhar as diversas maneiras pelas quais as emoções formam, habitam e eventualmente ultrapassam suas próprias bordas.
  • Na experiência vivida, as duas formas de perifericidade frequentemente se combinam.

4. Uma ligação telefônica durante os deslizamentos de lama ocorridos em Santa Bárbara em janeiro de 2018 exemplifica a transmissão periférica das emoções, pois a voz trêmula de uma amiga preocupada com pessoas ameaçadas pela catástrofe transmitia diretamente apreensão, medo e ansiedade não apenas pelas palavras empregadas, mas pelo tom e pelas pausas tensas de sua fala.

  • A emoção alheia não precisou ser inferida intelectualmente: suas bordas efetivas chegaram imediatamente ao ouvinte.
  • As bordas irregulares da emoção transmitida encontraram as bordas do próprio ato de escutar, formando uma espécie de entrelaçamento afetivo.

5. Uma emoção não precisa possuir estrutura simples para apresentar uma borda, mas precisa adquirir forma experiencial suficiente para ser transmitida e reconhecida, mesmo que essa forma permaneça objetivamente amorfa e difícil de medir.

  • A borda confere à emoção aquilo que William James denomina “o aguilhão da realidade”.
  • Graças a ela, uma emoção pode atravessar grande distância física e fazer com que alguém sinta o contorno daquilo que outro sente.

6. A transmissão afetiva não se limita ao encontro entre duas pessoas, pois também se pode “captar” a tristeza, o ressentimento ou o bom humor de um grupo recém-integrado sem conhecer sua origem, recebendo inicialmente essa emoção nas periferias da consciência.

  • Nas multidões, a “efervescência coletiva”, no sentido de Durkheim, intensifica esse processo e pode torná-lo quase irresistível.
  • A literatura oferece outro caso: a emoção de uma personagem pode entrar diretamente na experiência do leitor, como ocorre com o ciúme de Swann, cuja pungência atinge as bordas da atenção daquele que lê.

7. Conversas tensas, participação em grupos e leitura de personagens fictícios mostram que se experimentam emoções que não se originam nem pertencem exclusivamente ao próprio sujeito, embora o modo pelo qual ele posteriormente as processa pertença à esfera de sua própria agência.

  • Esse processamento endógeno deve ser distinguido da perifania inicial da emoção.
  • A perifania corresponde ao puro mostrar-se da emoção num espaço situado diante ou ao redor do sujeito.
  • Mesmo aquilo que é sentido como “minha raiva” aparece inicialmente por seu perfil ou borda num espaço intersubjetivo potencialmente compartilhável.

III

1. As bordas da vida emocional encontram-se frequentemente com as bordas das emoções alheias, produzindo situações de borda a borda que, diferentemente da contiguidade rígida entre estruturas materiais, possuem caráter móvel, insinuante e transformável.

2. As bordas emocionais podem ser reconhecidas como medo, alegria ou raiva, mas variam amplamente em sua manifestação e cedem conforme mudam as circunstâncias que envolvem os sujeitos, de modo que tocar as bordas emocionais uns dos outros transforma ativamente o próprio encontro.

  • Numa grande manifestação pública, emoções semelhantes podem ser compartilhadas sem se tornarem absolutamente idênticas em cada participante.
  • A confluência emocional ocorre precisamente por meio dessas bordas, fazendo convergir experiências individuais ainda diferenciadas.

3. Gritos espontâneos que percorrem uma multidão exemplificam essa transmissão por bordas, pois massas acústicas atravessam sucessivamente diferentes segmentos do grupo e produzem uma emoção coletiva complexa mas coerente, constituída pela intercomunicação entre intensidades individuais.

  • Ondas sonoras articulam espaços próximos e distantes sem que seja possível fornecer-lhes uma métrica espacial precisa.
  • Forma-se uma matriz qualitativa de interseções emocionais que antecipa aquilo que Teresa Brennan denomina “transmissão do afeto”.

IV

1. Em contraste com as “inumeráveis cavernas e grutas da memória” de Santo Agostinho, as emoções periféricas encontram-se nas aberturas e superfícies do sentido sentido, manifestando-se através das bordas que se ouvem, veem, inferem ou imaginam e adquirindo justamente nessas bordas uma precisão expressiva própria.

  • A liminaridade emocional não significa imprecisão, pois é precisamente nela que a emoção alcança sua manifestação mais plena.

2. A afirmação merleau-pontyana de que as emoções são “visíveis do exterior” e aparecem “neste rosto ou naqueles gestos” permite compreendê-las pela capacidade de retirar o sujeito de uma interioridade supostamente fechada e inseri-lo numa situação de desvelamento acessível.

  • A perifericidade manifesta-se sobretudo em situações intensamente interpessoais nas quais a raiva deixa de ser simplesmente minha ou tua para tornar-se nossa, compartilhada por uma borda sentida em comum.
  • Abre-se, assim, uma paisagem-de-lugar propriamente interpessoal da experiência emocional.

V

1. Max Scheler oferece uma das análises mais sistemáticas da realização interpessoal das emoções ao distinguir, em A natureza da simpatia, quatro níveis principais: comunidade de sentimento, sentimento-com, infecção emocional e identificação emocional, todos correspondendo a maneiras pelas quais as emoções emergem entre seres humanos em vez de permanecerem encerradas em seu interior.

2. Na comunidade de sentimento, duas pessoas podem participar tão intimamente da mesma emoção que a experiência parece constituir um único pesar compartilhado, como no luto de pais pela morte de um filho: “Dois pais permanecem junto ao corpo morto de um filho amado. Sentem em comum a ‘mesma’ tristeza, a ‘mesma’ angústia. Não se trata de A sentir essa tristeza e B também senti-la. […] Não, trata-se de um sentir-em-comum […] eles a sentem juntos.”

  • Diferentemente da dor física, cuja partilha permanece limitada, o luto pode constituir uma participação convergente em que ambos experimentam em primeira pessoa uma emoção efetivamente comum.

3. A experiência de um amigo que oferece condolências permanece diferente da comunidade de sentimento dos pais, pois, embora possa envolver simpatia ativa e profunda empatia, continua vicária e exterior ao vínculo emocional que une aqueles diretamente enlutados.

  • O amigo pode sofrer com eles, mas não como eles.
  • Pretender experimentar exatamente o mesmo luto constituiria uma falsa identificação.
  • A compaixão continua sendo, nesse sentido, experiência de terceira pessoa.

4. O sentimento-com (fellow feeling) designa as maneiras pelas quais a própria emoção se estende ativamente em direção à situação emocional do outro sem fundir-se com ela, produzindo uma participação responsiva à realidade e ao valor do estado afetivo alheio.

  • “O sentimento-com propriamente dito, a verdadeira ‘participação’, apresenta-se no próprio fenômeno como uma reação ao estado e ao valor dos sentimentos do outro.”
  • Essa participação torna a realidade do outro comparável à própria: “É por meio do sentimento-com, tanto em suas formas mútuas quanto não correspondidas, que ‘outras mentes em geral’ […] se tornam presentes para nós, em casos individuais, como dotadas de realidade igual à nossa.”

5. O sofrimento alheio pode ser imediatamente reconhecido e até imaginativamente apreendido sem exigir julgamento explícito, colocando o sentimento-com numa região intermediária entre a fusão emocional completa e o conhecimento objetivo.

  • Essa amplitude permite sentir com uma criança desconhecida que chora, com refugiados submetidos a circunstâncias difíceis ou com qualquer pessoa cuja situação desperte compreensão empática.
  • As ocasiões podem variar de inconvenientes cotidianos a tragédias profundas, mas compartilham a capacidade de retirar o sujeito de seu fechamento emocional.

VI

1. A alegria sentida diante da concessão de asilo a Chris Ebele, anteriormente detido nos Estados Unidos depois de fugir da Nigéria, exemplifica o sentimento-com porque a felicidade experimentada não decorria de estar fisicamente presente com ele, mas da imaginação ativa de seu alívio ao saber que seria libertado depois de quase um ano de detenção.

2. Mais de dois anos depois, a notícia de uma proibição de viagens que impediria a chegada de sua esposa e de seus filhos suscitou profunda tristeza naquele que o conhecia, não por identificação integral com seu desespero, mas porque a provável tragédia familiar tornou-se emocionalmente presente apesar da distância geográfica.

  • A tristeza era singularmente sentida como própria, mas estava enraizada na situação do outro.
  • O sentimento-com permitia participar emocionalmente de um sofrimento sem apropriar-se dele como se fosse idêntico ao próprio.

3. O sentimento-com possui orientação essencialmente voltada para o outro e retira o indivíduo da preocupação exclusiva consigo mesmo, mas essa estrutura não garante benevolência, pois a compreensão empática pode também ser pervertida e utilizada sadicamente.

  • O torturador pode perceber com precisão crescente a dor causada à vítima e retirar prazer justamente dessa compreensão.
  • “O homem cruel deve sua consciência da dor ou tristeza que causa inteiramente à capacidade de visualizar o sentimento [da pessoa torturada]! Sua alegria encontra-se no ‘torturar’ e na agonia de sua vítima. À medida que sente vicariamente a dor ou o sofrimento crescente de sua vítima, aumenta também seu próprio prazer e satisfação primários diante da dor do outro.”
  • A mesma capacidade de sentir-com pode, portanto, sustentar tanto a preocupação com o bem-estar alheio quanto o prazer perverso em seu sofrimento.

VII

1. A infecção emocional ou contágio designa situações em que uma emoção é transmitida enquanto é vivida e passa a ser sentida pelo receptor como se fosse própria, sem que sua atenção permaneça dirigida à experiência daquele de quem ela provém.

  • Diferentemente do sentimento-com, não há necessária referência intencional ao estado emocional do outro.
  • A emoção surge na companhia alheia e não teria ocorrido sem essa companhia, mas é imediatamente apropriada como “minha”.

2. O contágio emocional pode assumir uma forma de narcisismo generalizado na qual cada integrante de uma situação coletiva de raiva sente sinceramente “estou com raiva”, ainda que a emoção tenha sido adquirida no espaço compartilhado com outros.

  • A experiência individual pode convergir intensamente com a de uma multidão sem que cada participante concentre sua atenção nos sentimentos particulares dos demais.
  • A emoção torna-se simultaneamente pessoal na experiência e coletiva em sua gênese.

3. A descrição de Scheler tende a subestimar que, mesmo no contágio, existe alguma consciência marginal de que os outros estão experimentando algo semelhante, sobretudo quando os sentimentos “ganham impulso como uma avalanche” e produzem um “surto comum de emoção” mediante mecanismos recíprocos.

  • A multidão pode ultrapassar as intenções de seus integrantes e produzir finalidades que nenhum indivíduo isolado concebeu previamente.
  • “A multidão é facilmente conduzida para além das intenções de cada um de seus membros e faz coisas pelas quais ninguém reconhece vontade ou responsabilidade. […] [Ela] gera finalidades para além dos desígnios de qualquer indivíduo.”

4. A insurreição supremacista branca de Wilmington, em 1898, exemplifica uma situação em que o contágio coletivo de ressentimento e ódio desembocou em violência mortal sem depender de uma cadeia claramente organizada de comandos, mostrando como uma multidão pode adquirir energia emocional própria e avançar para ações que muitos participantes talvez não tivessem planejado anteriormente.

  • O fervor coletivo transformou ressentimento e ódio difundidos em ação corporal compartilhada.
  • A ausência de um comando individual central não impediu que a multidão se movesse segundo uma direção afetivamente comum.

5. Gestos, gritos, movimentos corporais e expressões faciais percebidos nas periferias da atenção podem ser reproduzidos corporalmente pelos membros de uma multidão, fazendo com que aquilo que inicialmente aparece como emoção interpessoal se converta em comportamento pessoal.

  • A reprodução não consiste apenas em reconhecer sinais, mas em reinstalá-los nos próprios movimentos.
  • Em casos de infecção emocional, o interpessoal precede o pessoal e pode abrir caminho tanto para formas benignas quanto para consequências destrutivas.

VIII

1. O quarto nível da emocionalidade interpessoal é a identificação emocional, na qual a separação entre eu e outro se enfraquece de maneira muito mais profunda do que no contágio e pode conduzir ao desaparecimento da individualidade própria na identidade alheia ou, inversamente, à absorção do outro pela própria identidade.

2. Na identificação heteropática, o sujeito fica tão dominado pela identidade alheia que seu estatuto como pessoa separada é usurpado, podendo perder-se num progenitor, amante, líder carismático, terapeuta ou qualquer outro com quem estabeleça ligação intensa.

  • “Estou tão subjugado e hipnoticamente ligado e preso ao outro ‘eu’ […] que meu estatuto formal como sujeito [separado] é usurpado pela personalidade do outro.”
  • O sujeito hipnotizado torna-se caso extremo: “O sujeito hipnótico está continuamente ‘absorvido’ por todas as atitudes pessoais individuais do hipnotizador, pensa apenas seus pensamentos, quer apenas com sua vontade, estima seus valores, ama com seu amor e odeia com seu ódio.”
  • A identificação com ancestrais pode igualmente assumir a forma em que alguém não apenas se considera semelhante a eles, mas sente-se efetivamente como continuidade presente de sua existência.

3. Na identificação heteropática extrema, a identidade própria não é simplesmente perdida, mas substituída pela identidade do outro, fazendo com que até as emoções possam deslocar-se para aquele com quem se dá a identificação e demonstrando a possibilidade de profunda despersonalização afetiva.

  • As emoções deixam de aparecer como propriedades necessariamente privadas e podem tornar-se do outro, transferindo-se para além daquele que inicialmente as sente.

4. Na identificação idiopática ocorre o movimento inverso, pelo qual o sujeito assimila os outros a si mesmo e deixa de reconhecer adequadamente suas diferenças, absorvendo crenças, interesses e vidas alheias no próprio ego.

  • Scheler descreve essa estrutura como “o eclipse total e a absorção de outro eu pelo próprio, sendo esse outro eu, por assim dizer, completamente desapossado e privado de todos os direitos em sua existência consciente e em seu caráter”.
  • Em formas extremas de liderança dominadora, a identificação pode fazer com que os interesses dos subordinados sejam presumidos como simples extensões dos interesses daquele que os domina.
  • O ponto decisivo permanece a transferência da emocionalidade dos outros para o próprio eu, e não uma posse privada e imutável dos afetos.

5. Tanto a identificação heteropática quanto a idiopática demonstram que as emoções não pertencem exclusivamente a sujeitos humanos separados, pois sua mobilidade permite transferências entre o eu e o outro.

  • Formas menos extremas dessa mobilidade aparecem também na projeção, como quando uma emoção própria não reconhecida é atribuída a outra pessoa e passa a ser presumida como pertencente a ela.

IX

1. Os quatro níveis distinguidos por Scheler — comunidade de sentimento, sentimento-com, infecção emocional e identificação emocional — revelam principalmente duas características fundamentais da emocionalidade humana: plasticidade e compartilhabilidade.

2. A plasticidade significa que as emoções mudam continuamente de forma, à maneira de Proteu, razão pela qual permanecem difíceis de nomear e delimitar de modo rigoroso.

  • A própria raiva apresenta uma multiplicidade de manifestações que impede uma definição única capaz de abranger todos os casos sem arbitrariedade.
  • As categorias de Scheler também apresentam inevitáveis sobreposições, como entre infecção emocional e identificação emocional.
  • Essa característica corresponde à elasticidade das emoções, que se estendem por um território aberto em vez de caberem em recipientes fixos, inclusive no recipiente constituído pelo sujeito individual.

3. A compartilhabilidade significa que as emoções não são posses inerentemente privadas, pois somente no nível do sentimento podem ser vivenciadas como estritamente “minhas”, enquanto em muitos casos pertencem mais propriamente a “nós”.

  • Cada plano descrito por Scheler constitui uma modalidade distinta de partilha afetiva: comunidade de sofrimento, sentimento-com, infecção ou identificação.
  • A emoção distribui-se e, nesse sentido, democratiza-se, mesmo quando sua partilha acontece silenciosamente no luto, na empatia ou em formas de identificação.
  • Scheler permite compreender a experiência emocional entre nós (entre nous) como algo que acontece entre, ao redor e na companhia dos outros, colocando a emoção diretamente no domínio interpessoal em que ela se mistura, circula e conecta fora do sujeito separado.
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