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estudos:casey:2022:4

4 Kant

CASEY, Edward S. Turning emotion inside out: affective life beyond the subject. Evanston, Illinois: Northwestern University Press, 2022.

Kant e o lugar do sublime

1. A questão fundamental não consiste em determinar a essência do sublime, mas em descobrir seu lugar próprio, perguntando onde se encontra uma experiência amorfa e etérea que envolve assombro, admiração, exaltação e até terror diante de ambientes ou fenômenos naturais vastos, informes, ameaçadores e esmagadores.

  • “O sublime é uma experiência estética de assombro, admiração, exaltação e até terror sentida na presença de ambientes ou fenômenos naturais tipicamente vastos, informes, ameaçadores e esmagadores.”
  • O problema de sua localização permite investigar como o sublime chega a partir de um exterior que desafia a primazia moderna do sujeito emocional interiorizado.

2. Perguntar onde está o sublime revela a estreita implicação entre lugar e emoção e faz de Kant uma figura de transição ambivalente: por um lado, ele continua a conceber a emoção como encerrada no sujeito, aproximando-se de Descartes; por outro, sua teoria do sublime reconhece uma força que retira o indivíduo de sua subjetividade fechada e o conduz ao domínio mais amplo do mundo-lugar, aproximando-se da orientação exterior de Espinosa.

I

1. A Crítica da faculdade de julgar apresenta um paradoxo de localização, pois os objetos naturais são indispensáveis para suscitar e provocar a experiência do sublime, mas sua verdadeira geração é situada por Kant na interioridade psíquica e intelectual do sujeito.

  • “A verdadeira sublimidade deve ser procurada apenas no ânimo (im Gemüt) daquele que julga, e não no objeto natural cujo julgamento suscita essa sintonia mental.”
  • A natureza ocasiona o sublime, mas não o conteria propriamente.

2. O sublime torna-se, nessa perspectiva, acontecimento mental provocado por um espetáculo natural que não possui por si mesmo a propriedade da sublimidade.

  • “Tudo o que temos direito de dizer é que o objeto [natural] é adequado para exibir uma sublimidade que pode ser encontrada [angetroffen, ‘encontrada’] no ânimo. Pois aquilo que é sublime, no sentido próprio do termo, não pode estar contido em nenhuma forma sensível.”
  • Mesmo o oceano tumultuoso não seria propriamente sublime, mas “horrível” (grässlich), exigindo ideias previamente presentes no ânimo para produzir um sentimento sublime.
  • A sublimidade estaria, portanto, naquilo que ocorre dentro do sujeito, não na cena natural que a provoca.

3. Kant parece impor a alternativa entre localizar o sublime na natureza como propriedade exógena dos objetos ou no sujeito como processo endógeno, mas seus próprios exemplos resistem a essa oposição porque são quase sempre retirados do mundo natural.

  • Rochas ameaçadoras, nuvens de tempestade, relâmpagos, vulcões, furacões, oceanos revoltos e grandes cachoeiras exemplificam o sublime dinâmico, ligado à potência (Macht).
  • O sublime matemático, relacionado à grandeza absoluta (Grösse), também se manifesta mais eficazmente em fenômenos naturais cuja percepção sugere infinitude.

4. Tanto o sublime dinâmico quanto o matemático permanecem relacionados à natureza em suas formas mais caóticas, selvagens e desordenadas, desde que estas manifestem magnitude e potência, produzindo uma transformação pela qual aquilo que inicialmente ameaça e repele pode tornar-se objeto de atração.

  • “Naquilo que costumamos chamar sublime na natureza há uma ausência tão completa de tudo o que conduz a princípios objetivos particulares e a formas da natureza conformes a eles, que é antes em seu caos que a natureza mais desperta nossas ideias do sublime, ou em sua desordem e devastação mais selvagens e destituídas de regra, desde que exiba magnitude e potência.”
  • A satisfação do sublime é um prazer indireto que surge de uma momentânea inibição das forças vitais seguida por sua descarga ainda mais intensa.
  • A retenção diante do espetáculo ameaçador transforma-se numa expansão emocional que permite apreciá-lo.

5. Atribuir a sublimidade ao objeto natural constitui, para Kant, uma localização equivocada, pois o respeito aparentemente dirigido à potência da natureza pertence propriamente à vocação (Bestimmung) das capacidades cognitivas humanas, sendo projetado sobre o objeto por uma “sub-repção” (subreption).

  • “O sentimento do sublime na natureza é [em última análise] respeito por nossa própria vocação. Mas, por certa sub-repção […] esse respeito é concedido [a] um objeto da natureza que, por assim dizer, torna intuível para nós a superioridade da vocação racional de nossas [próprias] capacidades cognitivas sobre a maior potência da sensibilidade.”
  • Aquilo que posteriormente seria chamado de projeção consiste em atribuir à natureza uma sublimidade originada nas próprias faculdades do sujeito.

6. Diante de um espetáculo sublime, a imaginação fracassa em representá-lo como totalidade abrangente, mas essa inadequação revela a amplitude superior das ideias da razão, orientadas para um “todo absoluto” que excede tanto a imaginação quanto tudo aquilo que a natureza sensível pode oferecer.

  • A impossibilidade de representar sensivelmente essa totalidade produz inicialmente desprazer.
  • O fracasso da representação converte-se, entretanto, em prazer quando as capacidades mentais são experimentadas como capazes de ultrapassar seus limites habituais.

7. A agitação (bewegt) diante do sublime matemático ou dinâmico conduz ao abismo (Abgrund) em que sensibilidade e imaginação fracassam, fazendo com que a razão produza interiormente aquilo que não consegue encontrar adequadamente na experiência externa.

  • Diferentemente do belo, cuja forma pode ser adequadamente apresentada na natureza ou na arte, o sublime obriga a recorrer às próprias potências racionais.
  • A dinâmica das forças físicas transforma-se em psicodinâmica do conflito entre aquilo que a razão exige e aquilo que sensibilidade e imaginação conseguem oferecer.
  • Esse conflito não resulta apenas em frustração, mas eleva a experiência a uma emocionalidade especificamente sublime.

8. O impasse produzido pela incapacidade de apreender integralmente o espetáculo natural conduz a uma satisfação compensatória proporcionada pelas próprias forças da razão, gerando uma “satisfação emocional” (rührendes Wohlgefallen) na qual o fracasso exterior da representação é compensado por uma sublimidade interior.

9. A interiorização kantiana suscita a questão de por que um espetáculo exterior extraordinário deveria provocar um recuo para a subjetividade em vez de uma abertura ainda maior ao exterior, pois precisamente quando a potência e a magnitude desafiam os limites do sujeito, Kant converte essa abertura em drama emocional interno.

  • Essa operação preserva o impulso moderno de localizar a emoção no sujeito justamente no momento em que o sublime parece oferecer a possibilidade de ultrapassá-lo.
  • Permanece também ambíguo se o espetáculo exterior é apenas fenômeno ou se aponta para algo além da mera aparência.

10. A afirmação de que a natureza é sublime nas aparências cuja intuição envolve a ideia de infinitude coloca o sublime na fronteira instável entre fenômeno e númeno, sensibilidade e razão, conferindo-lhe simultaneamente poder de atração e frustração.

  • Essa situação liminar sugere que talvez não seja necessário escolher entre matéria e mente, fenômeno e númeno.
  • A localização do sublime pode exigir uma alternativa menos dicotômica.

II

1. Assim como Heidegger pergunta onde está a obra de arte, a questão “onde está o sublime?” revela que sua localização kantiana é instável: embora o espetáculo natural pareça constituir sua sede evidente, Kant o transfere para o interior humano, onde imaginação e razão permanecem em conflito irresolúvel e produzem um verdadeiro espaço de disputa (Streitraum) e um abismo (Abgrund).

  • A própria base subjetiva do sublime é, portanto, insegura e marcada por uma “impotência presente efetiva”.
  • A sublimidade sentida pelo ânimo continua parcialmente dependente de uma cena real que a provoca.

2. A natureza dificilmente pode ser reduzida à função de mera provocadora de psicodramas subjetivos, pois os próprios exemplos kantianos provenientes da experiência selvagem e sua insistência na magnitude e na potência naturais apontam para uma força intrínseca do mundo exterior, semelhante à ênfase de Edmund Burke no terror suscitado por acontecimentos efetivamente ameaçadores.

  • O sublime precisa, portanto, não apenas ser localizado, mas relocalizado.

3. Uma dupla desconstrução torna-se necessária: o sublime não pode ser colocado exclusivamente no sujeito, pois assim seria difícil distingui-lo de fantasia ou memória, mas tampouco pode ser transformado em propriedade objetiva da natureza, pois sua ressonância humana e sua expansividade não seriam explicadas.

  • Poetas e pintores como Wordsworth e Turner partem de uma imersão profunda na natureza, mas não tratam o sublime como simples coisa objetiva.
  • O sublime espalha-se por um domínio inteiro, como um pôr do sol que ilumina toda uma cena.

4. Exigir que o sublime seja propriedade objetiva localizada num ponto natural determinado reproduz a doutrina da “localização simples” criticada por Whitehead, segundo a qual uma coisa está apenas naquele lugar e em nenhum outro.

  • Essa concepção marcou a ciência moderna dos séculos XVII e XVIII e ainda aparece na afirmação kantiana de que “o lugar de cada corpo é um ponto”.
  • Reduzir o sublime a uma localização pontual destruiria precisamente sua capacidade de ampliação e propagação pela experiência.

5. Ao localizar o sublime no ânimo (Gemüt), Kant ao menos reconhece implicitamente uma localização não simples, pois Gemüt reúne emoção e cognição, coração e intelecto, imaginação e memória e, mediante o sensus communis, o próprio indivíduo e os outros.

  • A sublimidade mental resulta de processo complexo e não pode ser reduzida a estados isolados de prazer, desprazer, horror ou terror.
  • Sua relação com o domínio infinito e suprassensível da razão torna ainda menos simples sua localização.

6. A oposição entre sujeito julgador e objeto natural funciona como pressuposição absoluta não examinada que exclui a possibilidade de um lugar indeterminado e difuso para o sublime.

  • O lugar necessário não pode reduzir-se a posição ou sítio num espaço homogêneo.
  • O sublime é simultaneamente trans-subjetivo, pois ultrapassa a resposta emocional individual, e trans-objetivo, pois não pode ser confinado a determinada coisa.

7. Nem a bilocalização nem a onilocalização resolvem o problema, pois situar o sublime simultaneamente em dois lugares ainda preservaria simples coposicionamento, enquanto afirmar que está em toda parte eliminaria a especificidade de seu lugar e o aproximaria paradoxalmente de não estar em lugar algum.

8. A localização própria do sublime exige, portanto, um conceito de lugar que exceda a posição espacial simples e um modelo de colocação que não seja nem exclusivamente singular nem indiferentemente universal, recolocando com maior intensidade a pergunta por onde o sublime efetivamente se encontra.

III

1. Num início de noite de meados de maio, um pôr do sol sublime surgiu a oeste do café onde se escrevia, formando uma paisagem luminosa de nuvens vermelho-púrpura sobre uma faixa dourada deixada pelo sol já abaixo do horizonte, cuja presença penumbral se estendia pelas colinas, bosques e estradas até desaparecer nas bordas da paisagem; a cena retirava o observador de sua subjetividade protegida e o lançava numa recepção entusiasmada de um mundo-lugar carregado de sublimidade, combinando assombro, admiração e alegria, enquanto outras pessoas abandonavam suas mesas para contemplar conjuntamente o espetáculo.

2. A atração exercida pelo pôr do sol não consistia num estímulo isolado, mas permeava a cena inteira e transmitia simultaneamente uma tonalidade emocional a todos os que a contemplavam, integrando observadores e espetáculo numa mesma situação anterior a qualquer julgamento individual ou coletivo explícito.

  • Não se tratava de sensações privadas produzidas por cores, luz ou formações de nuvens consideradas isoladamente.
  • Uma visuosfera coerente e compartilhada apresentava-se em sua totalidade.
  • O primeiro momento foi de testemunho conjunto silencioso e assombrado, anterior ao sensus communis explicitamente formulado no diálogo posterior.

3. Um modelo endógeno baseado num observador isolado não consegue apreender a realidade sensível compartilhada dessa experiência, pois a sublimidade pertencia ao próprio mundo visual e à sua autoapresentação perifanética, espalhando-se pela profundidade, altura, largura e movimento do céu.

  • A paisagem-de-lugar sublime convidava os observadores a participarem ativamente de sua manifestação.
  • A emoção estava simultaneamente fora, no espetáculo, e entre os participantes que o testemunhavam juntos.
  • Termos como surpresa, admiração, espanto e bem-aventurança apenas aproximam imperfeitamente a intensidade dessa emocionalidade multifacetada.
  • Estar “fora de si” significava simultaneamente dirigir-se para o espetáculo e ser atraído por ele, até que a cena extraordinária desaparecesse com a chegada da noite.

4. A experiência concreta do sublime dissolve as oposições kantianas entre sujeito e objeto, mente e natureza, matemático e dinâmico, fenômeno e númeno, empírico e transcendental, a priori e a posteriori, substituindo-as por uma coerência mais profunda que resiste às bifurcações rígidas.

  • Noções kantianas como Gemüt e sensus communis, assim como as relações entre apreensão e compreensão ou imaginação e razão, já contêm uma interdependência dialética que enfraquece o próprio binarismo kantiano.
  • O modelo moderno de emoção encerrada no sujeito não reconhece inteiramente a força desconstrutiva desses conceitos.

5. Conceitos como cena, espetáculo e visuosfera resistem à redução binária porque implicam participação, situando aquilo que aparece num lugar e atraindo o observador para dentro de sua configuração.

  • O lugar não constitui mera res extensa exterior a uma res cogitans isolada.
  • Pelo corpo vivido, o sujeito participa do lugar e o lugar participa da existência do sujeito.
  • Essa participação torna impossível separar rigidamente a emoção interior de uma presumida causa exterior.
  • O lugar funciona como força sincrética e dinâmica capaz de desfazer tal dualismo.

6. O lugar desfaz igualmente as oposições por sua pluralidade irredutível, pois lugares não existem como unidades discretas simplesmente enumeráveis, mas proliferam em torno de limiares e horizontes que não apenas separam, mas aproximam diferentes regiões.

  • Todo lugar é inerentemente multilocal.
  • O pôr do sol ocupava simultaneamente múltiplas regiões do céu.
  • Essa multilocalidade permite aos lugares gerar uma pluralidade de emoções relacionadas e diferenciadas conforme suas diversas fases e aspectos.

IV

1. Reconhecer a presença placial do sublime significa substituir sua potência esmagadora, concebida por Burke e Kant como magnitude ou força causadora de terror, por uma potência mais sutil que opera “a partir de baixo” (von unten), atraindo os observadores para seu nexo sem simplesmente subjugá-los.

  • O sublime não possui localização simples, pois se distribui pelo céu e daí reverbera nos corpos receptivos.
  • Sua força provém inicialmente do exterior e apenas depois ingressa e ressoa corporalmente.
  • “O céu [é] mais agudo em seu desaparecimento.” — Wallace Stevens.
  • A sublimidade não colossal pode manifestar-se precisamente em seu desaparecimento, oscilando no limiar entre sujeito e coisa, mente e natureza, eu e outro.

2. O sublime desvanece precisamente ao coalescer nos lugares que o manifestam sem contê-lo, pois uma sublimidade verdadeiramente dinâmica excede qualquer lugar isolado e permanece imanente à constelação de lugares que constitui uma paisagem ou paisagem urbana.

  • Não se trata de transcendência situada acima das aparências, mas de uma emergência a partir dos próprios limiares e profundidades que compõem sua configuração.
  • Mesmo quando aparece no céu, a sublimidade distribui-se por uma paisagem local.
  • Em vez de estender-se abstratamente no espaço, ela se distende através dos lugares, reunindo termos aparentemente opostos como natureza e mente, sujeito e objeto, eu e outro, acima e abaixo.

3. “Tudo segue adiante e para fora […] e nada entra em colapso”, de modo que o sublime constitui uma “saída” que liberta das fixações de uma metafísica da presença por meio de expansão.

  • Kant concebe a expansão como domínio da razão sobre a sensibilidade para ampliá-la segundo o campo infinito das ideias.
  • A relação pode, entretanto, ser invertida: a própria natureza pode exceder a razão e suscitar um engajamento emocional irredutível ao interior do sujeito.
  • A emocionalidade sublime vira-se do avesso na experiência dos lugares onde se apresenta.
  • O mundo natural sublime expande-se indefinidamente por seus horizontes e limiares e igualmente pela emocionalidade que suscita.

4. A natureza selvagem não precisa ser considerada lugar exclusivo do sublime, pois por trás dela existe uma cenografia de situações e uma comunidade frouxamente articulada de lugares dos quais a sublimidade emerge e é emocionalmente sentida.

  • Kant afirma que o sublime “consiste meramente numa relação”, situando essa relação entre sensível e suprassensível, imaginação e razão, sujeito e objeto, imanente e transcendente.
  • Mais decisiva, porém, é a relação entre os próprios lugares que manifestam o sublime e nos quais os seres humanos habitam e se deslocam.

5. O lugar do sublime consiste num ser-em-lugar entre múltiplos lugares intensamente sentidos, incluindo o lugar do sujeito, das coisas naturais e artificiais, dos sujeitos sociais e políticos, das comunidades, das cidades e dos ambientes selvagens, construídos ou não construídos.

  • O sublime atravessa esses lugares como presença difusa sem reduzir-se à “mera aparência” (blosse Erscheinung).
  • Tampouco pertence a uma coisa-em-si (Ding an sich) noumenal.
  • Ele satura os lugares de baixo, lateralmente e em múltiplas direções.
  • Mais do que mental ou físico, é inerentemente placial e deve ser compreendido como devir, não como ser fixo.

6. “Uma palmeira no fim da mente, além do último pensamento, erguendo-se na decoração de bronze. […] [Ela] permanece na borda do espaço.” — Wallace Stevens.

  • O sublime constitui um fenômeno de borda e um exemplo privilegiado do perifanético, pois as emoções conduzem às margens da percepção e da imaginação conscientes e afastam do sujeito centrado.
  • Esse deslocamento revela novas direções e parâmetros da existência afetiva precisamente por ocorrer nos espaços extrínsecos e nos múltiplos lugares exteriores ao sujeito.
  • A passagem da endogenia e da exogenia para a exofania (exophany) permite compreender como as coisas se mostram e se tornam conhecidas ao aparecerem em outro lugar e de outro modo.
  • A experiência do sublime concretiza esse paradigma e faz da análise kantiana uma transição decisiva entre o subjetivismo moderno e concepções mais amplas da localização das emoções.

1. A investigação perifenenomenológica concentra-se no mostrar-se das emoções e, sobretudo, nos lugares-de-apresentação em que esse mostrar-se ocorre, distinguindo o lugar como cena configurada e orientada do espaço entendido como quadro vazio e indiferente.

  • Uma apresentação não é uma representação secundária, mas uma doação direta, seja de uma paisagem visual, seja da emoção conjunta que emerge num confronto face a face ou numa multidão em protesto.

2. Os primeiros filósofos gregos reconheceram a emoção na arena pública do teatro, da ágora e da Assembleia, situando-a em diálogos, debates políticos e interações nas quais olhares, palavras e gestos circulavam entre participantes.

  • Platão relaciona a emoção à pólis e, em certos casos, até a espaços situados fora de seus muros.
  • Aristóteles analisa a calibração interpessoal do meio-termo emocional e a função indispensável da emoção na retórica política.
  • Embora alma e corpo participem da emoção, sua manifestação plena ocorre no espaço compartilhado entre os indivíduos.
  • O lugar-de-apresentação encontra-se, nesses casos, precisamente entre nós, retirando os indivíduos de seus eus fechados para uma copresença afetivamente compartilhada.

3. Sêneca introduz uma fase deliberativa na gênese da raiva e antecipa o sujeito moderno autodeterminante, enquanto Descartes radicaliza a endogenia ao localizar a geração da emoção na mente e no corpo, mediados pelos espíritos animais, fazendo com que os estímulos exteriores funcionem apenas como entradas iniciais para processos cujo desenvolvimento significativo acontece inteiramente dentro do sujeito.

4. Espinosa desloca radicalmente essa orientação ao situar o afeto nas superfícies exteriores dos modos, abrindo a emoção para uma cena de exposição e interação na qual ela não apenas é ocasionada pelo exterior, mas constitui força propulsiva que anima as relações.

  • O espaço resultante não privilegia exclusivamente as interações humanas, incluindo relações entre espécies e até entre substâncias inanimadas.
  • Os modos não estão simplesmente expostos ao exterior: sua própria existência constitui uma forma de abertura.

5. Kant introduz emoções como admiração e assombro que ultrapassam a base estritamente interpessoal e situam os seres humanos num domínio maior que o humano, embora continue a atribuir à razão a produção interior da experiência sublime como compensação pela incapacidade de percepção e imaginação apreenderem integralmente determinados espetáculos.

  • Ao mesmo tempo, sua atenção a cenas de potência e magnitude exterior reconhece a importância das paisagens que efetivamente circundam os seres humanos.
  • O espetáculo sublime constitui um lugar cênico e envolvente — terrestre, celeste ou marítimo — que literalmente se mostra ao redor.
  • Nele o indivíduo é retirado de seu mundo social cotidiano e reposicionado num ambiente em que medo, terror, admiração e outras emoções entram em jogo.
  • Diferentemente do belo, no qual Kant desconfia da emoção, o sublime depende diretamente da dinâmica pela qual o prazer emerge do enfrentamento de desprazeres emocionalmente turbulentos.

6. A trajetória da primeira parte conduz do ceticismo platônico diante das emoções descontroladas à afirmação espinosana do afeto como elemento constitutivo do ser e do bem-estar das substâncias sensíveis, enquanto Espinosa e Kant abrem conjuntamente o caminho para um campo emocional não apenas interpessoal, mas radicalmente transindividual.

  • A continuidade dessa trajetória exige deslocar a emoção de seu confinamento no corpo, na alma ou no cérebro para sua des-ocultação (dis-closure) explícita num espaço literalmente impessoal.
  • As limitações e dificuldades das concepções anteriores tornam possível desenvolver uma compreensão que ultrapasse o subjetivismo e acompanhe a emoção em direção à paisagem afetiva ampliada de suas manifestações.
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