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estudos:casey:2011:10

10 Pelo Caminho do Corpo

CASEY, Edward. The fate of place: a philosophical history. Berkeley: Univ. of California Press, 2011.

Pelo Caminho do Corpo: Kant, Whitehead, Husserl, Merleau-Ponty

  • Os juízos sobre as regiões cósmicas subordinam-se ao conceito de regiões em geral, na medida em que estas se determinam em relação aos lados do corpo.
  • Longe de ser apenas um fragmento de espaço, o corpo é condição do próprio espaço: sem corpo, não haveria espaço algum.

I

  • O corpo cujas alterações são as minhas alterações é o meu corpo, e o lugar desse corpo é ao mesmo tempo o meu lugar.
  • A reabilitação do lugar não se obtém por um tratamento totalizante, que compare em bloco suas virtudes às do espaço e produza apenas generalidades vazias, mas por uma via particular e estreita, um “desfiladeiro estreito” (narrow defile): o corpo.
  • O corpo funciona como fio condutor (Leitfaden) acessível e maleável, capaz de levar aos recantos mais obscuros do fenômeno do lugar.
  • A modernidade filosófica subordina todo fenômeno à mente: o “novo caminho das ideias”, de Descartes em diante, converte toda aparência em representação mental (ideia, apercepção, Vorstellung).
  • Esse panrepresentacionalismo abrange o universo inteiro e até o espaço e o tempo; em Kant, o espaço, base da percepção de um mundo externo permanente, reside na mente como intuição externa a priori.
  • Paradoxalmente, o próprio Kant abre uma via ao lugar que contorna mente e representação: o corpo humano vivo, quase inteiramente negligenciado pelos idealistas subjetivos.
  • O lugar é experimentado em termos qualitativos, como cor, textura e profundidade, acessíveis apenas ao corpo que o ocupa; o sítio (site) pode ser incorpóreo, mera visão de sobrevoo, mas estar-no-lugar exige corporeidade concreta.
  • Aristóteles já observara que direita e esquerda dependem da posição corporal, mas posição ainda não é lugar.
  • Na Dissertação, seres incorpóreos como anjos, Deus ou a alma possuem apenas presença derivada ou virtual, ao passo que as coisas sensíveis exigem presença local, isto é, ocupam lugares.
  • O axioma arquitiano de que ser é estar em algum lugar incorre, se tomado literalmente, na falácia da sub-repção (subreption), que confunde mundo inteligível e mundo sensível; a correção kantiana estabelece que ser sensível é estar no lugar.
  • O corpo constitui o “terceiro termo” ausente em Arquitas, o vínculo entre algo sensível e o seu onde, em consonância com a exigência platônica do Timeu de um terceiro que una dois termos.
  • No ensaio de 1768 sobre o fundamento último da diferenciação das regiões no espaço, o corpo confere às coisas uma direcionalidade (direita/esquerda, cima/baixo, frente/trás) que as meras posições relativas não possuem.
  • A dimensionalidade do espaço decorre da direcionalidade do corpo; as coisas não se orientam por si mesmas nem por operação puramente mental: o a priori da orientação pertence ao corpo.
  • As contrapartes incongruentes (incongruent counterparts), como mãos direita e esquerda, imagens especulares e triângulos esféricos, são iguais em grandeza e forma e, no entanto, não substituíveis entre si, o que escapa à analysis situs de Leibniz.
  • O mundo perceptivo inclui inúmeros fenômenos de direção intrínseca, como o enrolar das trepadeiras, a rosca dos parafusos e a torção das conchas de caracol.
  • Os enantiomorfos quebram a regra do modelo relacional, pois têm idênticas relações internas entre as partes e permanecem intransponíveis; Kant infere daí o espaço absoluto, mas admite que essa relação não é imediatamente perceptível, deixando uma lacuna no argumento.
  • O que preenche a lacuna é o corpo humano: por sermos nós mesmos compostos de contrapartes incongruentes, compreendemos as contrapartes externas e apreendemos o mundo como orientado; o verdadeiro fundamento da direcionalidade é o corpo como “fonte absoluta”.
  • Nos Prolegômenos, as contrapartes incongruentes só se tornam inteligíveis pela relação com as mãos direita e esquerda, o que implica um modelo de lugar que inclui a direcionalidade como traço constitutivo.
  • Primeiro passo: posições são estritamente relacionais, enquanto regiões são sempre orientadas; uma direção como “oeste” depende do relevo, da trajetória do sol, dos ventos e do corpo situado e em movimento.
  • Segundo passo: os três planos que se cruzam em ângulo reto derivam de sua relação com o corpo; a virada copernicana aparece antecipada como retorno a nós mesmos enquanto seres corpóreos, enraizando no corpo o ponto de interseção dos eixos XYZ cartesianos.
  • Terceiro passo: o poder orientador provém dos lados do corpo; até a leitura de uma carta celeste ou de um mapa exige orientá-lo pelas mãos que o seguram.
  • Quarto passo: todo conhecimento da posição dos lugares (die Lage der Örter) depende da bilateralidade corporal; no exemplo do quarto desconhecido percorrido às cegas, a orientação se dá pela diferença sentida entre os lados direito e esquerdo.
  • Quinto passo: a bilateralidade não é simétrica; a dominância de uma mão e outras discrepâncias impedem a desorientação e fundam distribuições direcionais desiguais, como o redemoinho do cabelo ou o enrolar do lúpulo.
  • A série Ponto—Posição—Lugar—Região—Espaço converte-se em Posição—Lugar—Corpo—Região—Espaço, com o corpo como termo mediador, “alavanca de intervenção” na constituição de lugares e regiões orientados.
  • Sem as inserções assimétricas do corpo, o espaço seria um bloco absoluto neutro ou uma rede de puras relações; pela primeira vez no pensamento ocidental, o acesso mais íntimo e decisivo ao lugar passa pelo corpo.

II

  • O locus apresentado define-se por alguma relação sistemática com o corpo humano; toda coisa atual impõe ao universo a obrigação de conformar-se a ela, e conformamo-nos aos órgãos corporais e ao mundo vago que se estende além deles.
  • A descoberta kantiana impede a redução do lugar a sítio, mas teve vida curta: não reaparece na Antropologia de 1798, e a Naturphilosophie a ignorou por completo.
  • O século XIX, voltado para o devir e a gênese, foi temporocêntrico; Bergson combateu a espacialização do tempo, mas pressupôs o espaço como homogêneo e quantitativo, ignorando a heterogeneidade do espaço no Timeu e em Kant.
  • Whitehead, inspirado pelo Timeu, identifica a localização simples (simple location) como pressuposto fundamental do século XVII: cada porção de matéria estaria simplesmente numa porção definida do espaço, sem referência essencial a outras regiões ou durações.
  • A acusação atinge Newton, Gassendi e Descartes, mas também Locke e Leibniz, pois no relacionismo, uma vez fixadas as relações, a localização torna-se igualmente simples.
  • O sítio é o lugar visto pela lente redutora da localização simples; Whitehead, como Kant, prefere falar em “região”, sem que a escolha terminológica altere o essencial.
  • Nenhum elemento da natureza apreendido na experiência imediata possui o caráter de localização simples; o lugar jamais está simplesmente localizado.
  • A falácia da concretude deslocada (misplaced concreteness) consiste em substituir itens concretos da experiência por suas próprias abstrações, esquecendo aquilo de que são abstraídas, inclusive os lugares.
  • As qualidades secundárias, subjetivadas por Galileu, Descartes e Locke, compartilham o destino do lugar, pois a particularidade de um lugar deve-se à sua cor, textura e luminosidade; eliminadas ambas, sobrevém a morte virtual da natureza, sem lugar, sem qualidade e sem corpo.
  • A recuperação do lugar e das qualidades exige reconhecer a agência do corpo humano: a unidade do campo perceptivo é unidade de experiência corporal.
  • Não se trata do corpo objetivo de Descartes a Berkeley, mas de um participante ativo da cena perceptiva, que percebe sempre a partir de um lugar e unifica em si aspectos do universo.
  • A implantação do corpo desmente a localização simples: em certo sentido, tudo está em toda parte, pois cada localização envolve um aspecto de si em todas as outras.
  • O corpo é um “evento total” que alcança todos os lugares a partir de sua própria implantação, efetuando a unificação preensiva desses lugares e sendo sua objetivação conformadora.
  • Resta explicar não a separação das regiões, mas sua reunião por orientações compartilhadas, a fusão daquilo que a localização simples mantém apartado, a começar por corpo e lugar.
  • As preensões corporais repetem o mundo circundante conformando-se a ele; graças ao corpo, com seu “milagre de ordem”, os tesouros do ambiente passado afluem à ocasião viva nas conformações de lugares e regiões.
  • A “com-idade” (withness) do corpo é decisiva: vê-se a cadeira com os olhos, toca-se com as mãos; pela mesma estrutura, experimenta-se o lugar da cadeira e o próprio lugar como pertencentes a um mesmo nexo regional orientado.
  • Assim como sempre se está com um corpo, sempre se está dentro de um lugar, dele fazendo parte.
  • Contra a natureza newtoniana meramente dada e obediente, o corpo é a arena em que o aqui e o ali se conjugam: o ali ingressa no aqui e vice-versa.
  • A “localização modal” (modal location) exprime esse poder implantador: o verde percebido não está simplesmente em A nem simplesmente em B, mas presente em A com o modo de localização em B.
  • A referência do ali ao aqui é inclusiva e opera pelo lugar como meio comum (koinos topos), no qual objetos e corpo participam da solidariedade do mundo.
  • O corpo é ao mesmo tempo pivô e prisma de seus arredores; outras seções do universo, inclusive os lugares, interpretam-se segundo o que se conhece do corpo humano.
  • Whitehead generaliza em forma de lei o que Kant mostrara num caso particular: para ambos, o corpo é fundamento, e não resíduo, da diferenciação das regiões no espaço, e é ele que conduz ao lugar e nele mantém.

III

  • O corpo, e em particular a mão, move-se no espaço, mas a atividade de reger (holding sway, Walten), a cinestese, não está ela mesma no espaço como movimento espacial.
  • Whitehead, crítico de Kant, desconhecia o ensaio de 1768; a convergência de ambos quanto ao vínculo entre corpo e lugar é fortuita e, por isso mesmo, significativa.
  • Husserl, ao contrário, pensa sob constante vigilância de Kant: Kant já falava em “fenomenologia em geral”, termo tomado a Lambert, e Husserl herda dele o termo “transcendental”, inserindo-se numa tradição iniciada por Descartes.
  • Kant estava apenas “a caminho”: seu pressuposto não expresso é o mundo-da-vida (Lebenswelt), e negligenciá-lo é negligenciar o corpo vivido (Leib) e sua corporeidade cinestésica.
  • As lições de 1904-1905 sobre a consciência interna do tempo recorrem a paralelos espaciais, e as investigações sobre o espaço seguem-se imediatamente; a configuração espaço-temporal antecede espaço e tempo como formas persistentes, e o “mundo primário” é tão espacial quanto temporal.
  • O corpo ocupa posição privilegiada: é coisa física (Körper) e corpo vivido (Leib), portador do eu e sede das sensações, sempre experimentado como “aqui” e ponto persistente de todas as relações espaciais, incluindo as três dimensões.
  • Tudo o que aparece pertence aos arredores do corpo, que forma um centro-eu (Ichzentrum) e um corpo-nulo (Nullkörper), ponto zero tomado ironicamente da geometria cartesiana.
  • O corpo parece imóvel mesmo quando se move, pois nunca se afasta de si; a verdadeira estabilidade de lugar (stabilitas loci) encontra-se no próprio corpo, centro estável do campo perceptivo.
  • Nas primeiras investigações, o espaço é estritamente objetivo e mediado por um espaço visual (Sehraum) com seu sistema de lugares (Ortssystem), mas o lugar permanece localização simples, com Ort e Lage usados como sinônimos.
  • A cinestesia introduz outra concepção: nenhuma multiplicidade de lugares é dada sem sensação cinestésica, e esta motiva a percepção; sentir o corpo é sentir como é ocupar o lugar em que se está, pois o lugar se realiza pela cinestesia.
  • Na falta de um conceito de lugar vivido, surgem substitutos: a aparência (Apparenz) do espaço objetivo, o mundo-núcleo (Kernwelt) e sobretudo a esfera próxima (Nahsphäre), círculo de lugares acessíveis segundo o “eu posso”.
  • O espaço objetivo constitui-se como expansão aperceptiva (Erweiterung) da esfera próxima; o espaço absoluto de Newton depende do aqui absoluto, numa virada transcendental em formato corporal.
  • O espaço exterior é homogêneo, mas o corpo vivido e seu espaço corporal (Leibesraum), equivalente ao lugar vivido, rompem essa homogeneidade; o corpo desconstitui o espaço que ele mesmo constituiu.
  • Na Crise, a ciência galileana reveste o mundo-da-vida com uma “veste de ideias” (Ideenkleid), tomando o próprio método pela natureza do mundo, suposta matemática em si, embora não haja perspectiva de um sistema axiomático apodítico da natureza.
  • Resta um amplo resíduo não matematizável; a origem da matematização está na agrimensura, onde o lugar figura duplamente, como cenário pré-determinado de rios, montanhas e edifícios e como base de posições pressupostas fixas, antes de ser superado pela geometria euclidiana.
  • A física galileana exige abstração e idealização: as formas tornam-se formas-limite, e os plenos sensíveis (cores, sons, cheiros) são submetidos a uma coidealização indireta.
  • Primeira dificuldade: as qualidades sensíveis não podem ser tratadas diretamente como as formas, e sua mensuração nunca é exata, embora a física reconheça uma única geometria, sem outra para os plenos.
  • Segunda dificuldade: a causalidade universal numa espaço-temporalidade objetiva é mero postulado; subjaz a ela a espaço-temporalidade do mundo-da-vida, com seu “estilo geral invariante”.
  • Terceira dificuldade: falta a distinção entre corpo vivido e corpo físico, ignorando o papel constitutivo do corpo vivido no mundo humano.
  • No mundo primário em que se vive corporalmente não há idealidades geométricas, espaço geométrico nem tempo matemático.
  • A mão retorna como articulação do reger: o corpo vivido não está no espaço como objeto físico, mas apenas indiretamente co-localizado no movimento, resistindo à localização simples e abrindo acesso à esfera próxima.
  • A Crise fala em “situação cinestésica” e “situação do campo de percepção”, que só podem ser formas de lugar vivido, mas não chega a tematizá-lo.
  • A pista decisiva é o caminhar (solvitur ambulando): no fragmento de 1931, o caminhar unifica os aparecimentos da esfera próxima e da distante num conjunto espaço-temporal coerente.
  • Caminhar exige primeiro unificar a si mesmo como organismo total articulado em órgãos, sob o “ego funcionante”, com os fluxos cinestésicos associados aos movimentos espaciais das partes.
  • A unificação do mundo circundante ocorre de dois modos: pela interconexão constitutiva entre cinestesias e aparecimentos próximos e distantes, segundo um modelo de planos paralelos, e pela orientação, segundo um modelo radial.
  • Mesmo ao caminhar, as coisas orientam-se em torno do organismo fenomenalmente em repouso, zero firme de orientação e “aqui absoluto”.
  • Diferentemente de Kant, a fonte da orientação não está na bilateralidade, mas nesse aqui absoluto, que não é um ponto intercambiável nem o aqui abstrato hegeliano, e sim o estar com o corpo neste lugar, composição indissolúvel de corpo e lugar.
  • O caminhar constitui coisas orientadas como coisas idênticas e um sistema fixo de lugares (feste Ortssystem); o lugar, inicialmente mera posição, adquire dinamismo e torna-se lugar vivido.
  • O corpo vivido anima os lugares como “lugares-base” das coisas percebidas; um mundo sem lugar é tão impensável quanto um eu sem corpo.
  • O corpo também precisa dos lugares: como corpo físico, coisa entre coisas, requer um contínuo de lugares e um mundo de lugares preexistente, pois caminhar é ter para onde ir; todo corpo tem seu lugar.
  • O desfiladeiro que vai do corpo ao lugar é via de mão dupla, ao mesmo tempo realista e transcendental.
  • Na perspectiva realista, o espaço já é um sistema de lugares, e não apenas espaço de orientação; o organismo é também coisa extensa (res extensa) e móvel, num reencontro com Descartes do outro lado da divisa transcendental.
  • O repouso concilia as duas direções: o “eu repouso” precede constitutivamente o “eu me movo”, a terra é experimentada como repouso sem movimento, e o repouso funda a alteração.
  • O corpo rígido é o corpo normal, e o espaço circundante é um sistema de lugares como terminações possíveis de movimentos; todos os lugares são lugares de repouso, e o sistema estável de lugares está para os lugares vividos como o aqui absoluto está para o corpo.
  • O mundo de lugares é correlato do corpo que caminha e do qual este depende; é verdade que se é o mundo em que se caminha, mas também que se caminha num mundo que não se é, descoberto como já dado, e aqui e ali, realismo e transcendentalismo encontram-se no lugar.

IV

  • A existência espacial é condição primária de toda percepção viva, e a localidade originante não é identificável no espaço objetivo.
  • Brentano distinguiu lugar e espaço, reconhecendo a determinação do lugar como algo positivo, mas tratou os corpos como meramente impenetráveis e físico-quimicamente especificados, sem ver o papel do corpo vivido.
  • O corpo vivido é o meio geral de ter um mundo, graças a uma intencionalidade corporal distinta da intencionalidade mental, que contesta a própria distinção entre psíquico e físico.
  • O “arco intencional” liga ao mundo-da-vida e fornece ancoragem; certa engrenagem (gearing) do corpo ao mundo é a origem do espaço.
  • A origem do espaço já não está num deus criador nem num sujeito transcendental puro, mas no movimento do corpo, produtor de espaço; não o deslocamento objetivo, mas a experiência do movimento, uma praktognosia original e pré-objetiva.
  • Kant é reconhecido como o primeiro a notar que localizar objetos exige motricidade, embora sem um corpo vivido; o geômetra conhece as relações descrevendo-as ao menos potencialmente com o corpo, e o sujeito da geometria é um sujeito motor.
  • O corpo vivido é o verdadeiro demiurgo da geometria e, por extensão, da física galileana nela fundada.
  • O corpo distingue o espaço espacializante (l'espace spatialisant), expansivo e aberto, do espaço espacializado (l'espace spatialisé), fixo e fechado; ao “ela se move” galileano sucede o “eu me movo”.
  • O espaço experimentado pelo corpo não é coleção de pontos, rede de relações nem continente; seus traços essenciais são expressividade e orientação, entendida como senso de ajuste e de saber orientar-se.
  • Movimento expressivo e orientação resultam em habitação: o corpo não está no espaço e no tempo, mas os habita, pertence a eles e os inclui; o “em” aristotélico da contenção cede ao “em” da habitação, e tampouco o espaço está na mente como forma da intuição.
  • A espacialidade de situação distingue-se da espacialidade de posição; o movimento corporal não é mera mudança de lugar no espaço objetivo, e a consciência de lugar não é representação (Vorstellung) posicional unívoca.
  • O lugar, sem limites determinados, é tão ambíguo quanto o corpo vivido, que não está onde está nem é o que é; só do sítio pode-se dizer que está exatamente onde está.
  • O lugar possui uma dimensão virtual: é cena ambígua de coisas-a-fazer, horizonte indefinido de ação possível, e não locus fixo à espera, em contraste com o sistema constante de lugares de Husserl.
  • O corpo que orienta o espetáculo é um sistema de ações possíveis, corpo virtual cujo “lugar” fenomenal se define pela tarefa e pela situação; o corpo está onde houver algo a fazer.
  • Tudo se passa no domínio do fenomenal, que abarca o movimento virtual do corpo em direção aos lugares de ação possível e o próprio corpo como lugar; o sítio, não sentido pelo corpo, carece de presença fenomenal.
  • O corpo não apenas sente, mas conhece os lugares: há um saber do lugar redutível a uma coexistência com ele, indescritível objetivamente e, no entanto, efetivo.
  • Trata-se de conhecimento por familiaridade: o corpo habitual, matriz da ação costumeira, conhece os lugares do próprio habitat como se conhece a própria casa, e ser equivale a estar situado.
  • Os lugares habitados são conhecidos pelos corpos vividos; não há implantação sem corporeidade, e ser corpóreo é ser capaz de implantação.
  • O corpo não é mera coisa extensa nem autônomo à maneira do idealismo; é potencialidade de responder a esta ou àquela região do mundo, ancorado num mundo já regionalizado em cenários familiares, lugares de intimidade com fronteiras porosas e orientações abertas.
  • A posição é menos realista que a de Husserl, sem sistema preconstituído de lugares, mas mantém a doação prévia de um mundo pré-objetivo de lugares.
  • Primeira objeção possível: o peso excessivo de um fator subjetivo; resposta: a cinestesia não é subjetiva no sentido de interior e pessoal, pois sentir o próprio corpo sentindo os arredores é abrir-se a eles, e o sentir é modo eficaz de preensão do mundo.
  • Orientar é sempre orientar-se para algo outro; no experimento de Wertheimer, com o quarto refletido num espelho inclinado a 45 graus, o campo visual impõe uma orientação que não é a do corpo, revelando um “nível espacial” enraizado no mundo circundante.
  • Esse nível, cenário geral em que o corpo coexiste com o mundo, é dado e até pré-estabelecido; já se vive na paisagem, e profundidade, alto e baixo, perto e longe têm suas pistas no ambiente.
  • Segunda objeção possível: a dispensabilidade do corpo, dado que lugares podem ser especificados por uma estação, por um farol automático ou pelas relações instrumentais heideggerianas do “para-quê” (um-zu) e do “para-onde” (wohin).
  • Resposta: o corpo é presença ao menos tácita em todo lugar; o martelo supõe uma mão, e a ação instrumental requer um corpo com mãos que molda a configuração do lugar.
  • A clareira nevada e o farol solitário só são lugares porque se pode, por imputação, sentir-se ali corporalmente ou imaginar outro corpo habitando-os, graças ao corpo virtual; basta ser habitat possível para um corpo possível.
  • Onde nenhuma presença corporal humana é possível, de fato ou por projeção imaginativa, não há lugar, apenas sítio, que prospera na ausência de corpo.
  • O nó entre corpo e lugar é górdio: o corpo nunca está sem lugar, o lugar nunca está sem corpo atual ou virtual, e o próprio corpo vivido é lugar, produzindo lugares por seus movimentos expressivos e orientadores.
  • Em O Visível e o Invisível, a reflexão final sobre o lugar retorna às mãos, agora no quadro da carne (la chair): quando a mão direita toca a esquerda que apalpa as coisas, o tocante passa a tocado e o toque forma-se em meio ao mundo e nas próprias coisas.
  • O vetor inverte-se em relação a Kant: para Kant, as regiões referem-se à bilateralidade do corpo, de fora para dentro; aqui, o tocar-tocado lança de volta ao mundo, sendo o corpo um “isto dimensional” em unidade com a dimensionalidade do mundo.
  • Para que as duas mãos se abram para um único mundo não basta uma única consciência; elas pertencem a uma única carne, carne do mundo, e o corpo pode ser considerado a “coisa universal”.
  • Contra a bifurcação kantiana, as mãos são de um mesmo corpo, órgão único de experiência, como os dois olhos formam uma visão ciclópica única, relação reconhecidamente difícil de conceber.
  • Na nota de trabalho de novembro de 1959, direita e esquerda não são conteúdos de uma espacialidade relacional, mas partes totais, cortes num espaço topológico englobante; o par é fragmentação do ser, possibilidade de discriminação, advento da diferença sobre fundo de semelhança.
  • Kant deslocou o debate entre absolutismo e relacionismo; Husserl privilegiou o caminhar, atividade de pernas direita e esquerda; aqui, a incongruência aponta para um lugar derivado da diferença e da oposição real, e a assimetria funcional das mãos liga-se à anisotropia do lugar.
  • O lugar vivido é sentido primeiro nos “cortes” diferenciados do ser-no-mundo corporal, o que explica a lembrança pungente dos lugares da infância, como a Combray de Proust.
  • O espaço abstrato é isotrópico e homogêneo, mas a lateralidade do corpo desfaz essa ilusão: o espaço chega sempre contorcido nas duplas hélices assimétricas de direita e esquerda, aqui e ali, frente e trás, perto e longe.
  • Ter um corpo próprio (Eigenleib, Ichleib) basta para desfazer a suposição a priori de homogeneidade; o espaço difere de lugar para lugar e de corpo para corpo, porque a carne do corpo se entrelaça com a carne do mundo e com os lugares nela sedimentados.

V

  • A fenomenologia toma o mundo como “já aí” antes da reflexão e busca reatar um contato direto e primitivo com ele, conferindo-lhe estatuto filosófico.
  • Merleau-Ponty culmina um esforço da modernidade tardia para resgatar a particularidade do lugar diante da universalidade do espaço pelo recurso ao corpo: Kant e o corpo bilateral orientador, Whitehead e a crítica da localização simples, Husserl e os fundamentos cinestésicos do estar-no-lugar.
  • Graças a esses quatro pensadores, o lugar, quase submerso no espaço desde a morte de Leibniz, volta a ter interesse filosófico; não se trata de simples retorno, pois a associação do lugar ao corpo vivido é praticamente inédita, salvo antecedentes como o Enuma Elish, em que o lugar é feito do corpo de Tiamat.
  • O fato aparentemente trivial de que se entra, se permanece e se sai dos lugares com o corpo é, na verdade, decisivo: o corpo é o veículo da implantação e condição indispensável (sine qua non) do estar-no-lugar.
  • O reconhecimento tardio desse vínculo coincide com o reconhecimento das capacidades constitutivas do sujeito, primeiro vistas como mentais (Descartes, Kant, Husserl) e depois como corporais; o corpo morto da coisa extensa cede lugar ao corpo vivido do mundo-da-vida.
  • A concordância entre Kant e Whitehead, partindo de premissas muito diferentes, confirma a justeza desse reconhecimento; a via modesta do corpo-sujeito tornou-se estrada privilegiada para o lugar.
  • O desfiladeiro do corpo revela-se largo e complexo: um detalhe mínimo como a enantiomorfia das mãos rompeu o impasse entre absolutismo e relacionismo, o caminhar esclareceu o lugar em Husserl, e as atividades habituais revelaram o dinamismo do corpo em Merleau-Ponty.
  • É preciso considerar tanto o corpo inteiro, o organismo, quanto seus órgãos: pelo corpo inteiro habita-se o lugar como tal, e por suas partes, inclusive projetadas virtualmente, obtém-se acesso a lugares particulares, orientação e saída.
  • O corpo inteiro constitui um sujeito transcendental corpóreo, um “corpo-sujeito” (body-subject), sempre acoplado à ontologia realista do mundo de lugares a que pertence.
  • Husserl e Merleau-Ponty recusam o programa kantiano que reduz o real ao empírico ou ao numênico; importa a dialética entre sedimentação e reativação: o mundo dos lugares é densamente sedimentado em familiaridade, historicidade e materialidade, e reanimado pela presença do corpo vivido.
  • O vínculo corpo-lugar concilia realismo e transcendentalismo e também subjetivo e objetivo, privado e público; a intimidade do “meu corpo” não é interioridade pessoal, pois o corpo-sujeito é pré-pessoal e anônimo, e até esse nível mais profundo está ligado a um lugar.
  • O plano mais amplo do mundo público depende da ágora ou do fórum; a subjetividade anônima do corpo liga-se à intersubjetividade dos lugares públicos, e as regiões de Kant e Whitehead, bem como a carne do mundo, têm implicações sociais.
  • O corpo já é social e público em sua formação e destino, enquanto os lugares são idiossincráticos em sua constituição; sedimentação e reativação, público e privado realizam-se tanto no corpo quanto no lugar.
  • Estar como corpo num lugar não é presença constrita, mas ampliação e vivificação, como as flores de papel do origami que se abrem na água; o aqui absoluto do corpo abre-se ao ali absoluto do lugar.
  • Inversamente, o lugar é menos extenso do que parece quando tomado como porção do espaço: possui intensidade e intimidade, estrutura de regiões orientadas e esferas próximas, e limites íntimos, como os de uma casa ou de uma floresta densa.
  • Assim como o lugar é animado pelos corpos que o habitam, o lugar vivido anima esses corpos à medida que neles se implantam.
  • Os paradoxos refletem que corpos e lugares são tão inseparáveis quanto distinguíveis e tornam-se promissores quando se aceita sua cumplicidade e seu entrelaçamento, respeitando diferenças e comunidade.
  • Ao tomar o corpo como pista decisiva, Kant, Whitehead, Husserl e Merleau-Ponty contiveram a maré de indiferença que engolira o lugar no Tempo e no Espaço, parâmetros cósmicos dominantes da modernidade, e iniciaram a recuperação de sua importância para o pensamento ocidental.
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