estudos:casey:2010:4
4 Recordar como intencional: objeto
CASEY, Edward S. Remembering: a phenomenological study. Second edition ed. Bloomington: Indiana University Press, 2010.
Fase do Objeto
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O ato de recordar nunca é inteiramente vazio de conteúdo: recordar é estar dirigido, por mais tortuosa ou indistintamente, ao que se recorda.
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A afirmação de que não se recorda sem recordar algo parece redundante, mas esse “algo” é bem mais complexo do que aparenta, composto de vários elementos cuja interação constitui o que se chama simplesmente “uma memória”.
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Experimentar uma memória equivale a ter consciência da “fase do objeto” do recordar; o termo recorda que falar do que se recorda, o objeto total, pressupõe um ato pelo qual esse objeto é recordado.
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Não há tal objeto sem um ato que o alcance, nem tal ato sem a copresença de algum objeto; essa circularidade é a da própria intencionalidade, que mantém a mente coesa em sua autotranscendência e a torna um todo autocoerente.
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Esse todo é construído de componentes que constituem o pleno correlato intencional do recordar, considerados em sucessão.
A Apresentação Mnemônica
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A apresentação mnemônica é tudo o que se recorda numa dada ocasião, com exceção do modo particular como o recordado se manifesta, tratado nos modos de doação.
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É outra maneira de descrever o “objeto total” do recordar: tudo o que se experimenta como apresentado, posto diante de si, num caso de recordar.
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Divide-se em três elementos importantes e diferentes: conteúdo específico, moldura da memória (memory-frame) e aura.
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Distinguíveis na descrição, esses elementos entrelaçam-se tanto nas experiências efetivas que suas diferenças estruturais muitas vezes não são notadas.
Conteúdo Específico
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É nele que a atenção normalmente se fixa ao recordar, a ponto de a aura e a moldura ficarem ao fundo e de se perder de vista a forma de ato pela qual se atende a esse conteúdo.
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Os relatos do primeiro capítulo concentraram-se quase exclusivamente nos detalhes do recordado, como “minha primeira recordação distinta é de uma vista panorâmica”, restringindo a descrição da fase do objeto a seu conteúdo específico.
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Essa tendência não é deplorável e talvez seja inevitável, pois o que se recorda é mais conspícuo que o como; o “o quê” pode servir de fio condutor (fil conducteur) na descrição fenomenológica, desde que não se tome a parte pelo todo.
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O conteúdo específico é tudo o que pode ser recordado, em seu formato mais despojado, sem os traços não cruciais à descrição ou identificação: exatamente o que se recorda e nada mais, o que se daria no relato mais econômico de uma experiência de recordar.
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Esse relato não precisa ser monossilábico: pode ser bem detalhado, sobretudo em experiências recentes como o filme, e às vezes parece poder continuar indefinidamente, como na abertura de O Voyeur de Robbe-Grillet.
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Em todo caso, o conteúdo específico é precisamente o que se recorda, com exatamente a forma e a quantidade de detalhe com que se apresentou; o grau varia, mas é constante a necessidade de poder especificar algum detalhe.
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Se não se pode especificar de modo algum, nem mesmo com predicados reconhecidamente indefinidos, o que se lembrou, não se pode legitimamente afirmar ter recordado; para Aristóteles, quem recorda sempre diz na alma que ouviu, percebeu ou pensou isto antes, e o “isto” é o conteúdo específico, especificável por alguma forma de “dizer”.
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Primeiro tipo de conteúdo: objetos e eventos, ações e pessoas “singulares”, coisas especificavelmente discretas, como um rosto, um gesto, um andar, um lampejo, uma disposição momentânea; é o que se recorda simplesmente, incluindo o conteúdo do recordar-o-quê, singular tal como experimentado, embora analisável num complexo objetivo.
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Segundo tipo: estados de coisas, recordando-se que certos eventos ocorreram, que certas circunstâncias vigoravam; recorda-se não só o complexo objetivo, mas suas articulações internas, a estrutura esquelética de uma “situação”, sua pura “quididade do que” (thatness), com qualidades, relações ou ações como constituintes correlatos.
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Terceiro tipo: o conteúdo do recordar-como-fazer, um fazer habituado ou habitual, como remar; recorda-se explicitamente não só o exercício da habilidade, mas como esse desempenho incidiu e ainda incide sobre si como agente, articulado em torno de quem recorda reencenando a habilidade, que não é recordada por si mesma.
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Quarto tipo: ações a realizar imediatamente ou em breve, frequentemente deveres, como alimentar o cachorro, apagar a luz, falar mais alto; não exigem habilidades particulares, e sua especificidade está no vínculo com compromissos, promessas ou votos passados, como o voto de fazer-se entender melhor, que não precisa ser recordado como experiência passada para ser cumprido.
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A estreita correspondência entre tipos de conteúdo e formas principais de ato é o que se deveria esperar da estrita correlatividade entre as fases: um tipo de recordar exige e se ajusta a um tipo de conteúdo, sem o que a experiência se desorganizaria.
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Cada tipo de conteúdo pode apresentar-se de forma sensível ou não sensível, embora haja frequentemente uma preferência pela primeira.
Moldura da Memória
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O conteúdo específico está embutido numa “moldura da memória”, o cenário em que se apresenta, que não tem aparência uniforme, mas varia conforme o caráter do conteúdo, oferecendo-lhe ambiência única em cada caso.
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Nem sempre é apreendida com a mesma nitidez, às vezes apenas tenuemente e muitas vezes sem tematização, mas opera sempre em algum grau como principal meio de situar o conteúdo.
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Sem consciência alguma dessa moldura, pode-se duvidar de que se esteja recordando, como na memória de sonhos: um conteúdo onírico que retorna sem ser “situado” pode ser tomado como fantasia presente, mas dizer “sonhei isso ontem à noite” fornece um cenário, aqui temporal, que o identifica como memória.
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A função primária da moldura é, pois, situar o conteúdo específico e, situado de certo modo, identificá-lo como mnemônico; sua natureza é menos evidente, dada a variabilidade de aparência e apreensão, mas nela se discernem quatro fatores básicos.
Mundanidade
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Não é fator constante: há pouco ou nenhum sentido de mundo na evocação imediata de informações aprendidas mecanicamente, como datas ou fatos históricos.
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Em muitas memórias plenas, porém, coexperimenta-se o abraço de um mundo circundante; sem a solidez maciça e a infinitude do mundo percebido, o mundo do recordado tem consistência e persistência, funcionando como campo subjacente de apresentação, mais propriamente mundano que os minimundos momentâneos da imaginação.
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Essa “mundanidade” (worldhood) da moldura tem dois componentes: cena e entorno.
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A cena, em sentido estrito, é a cena da ação, onde aparece ou ocorre o objeto, evento, estado de coisas ou desempenho recordado; pode ser espacial, temporal ou ambas, e é o cenário imediato e o lugar de apresentação do conteúdo.
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O entorno é o cenário não imediato, a vizinhança geral da cena, que a situa como a cena situa o conteúdo, oferecendo uma arena para seu surgimento e desdobramento.
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Essa arena pode ser vazia, como um campo vazio, ou preenchida por coisas co-recordadas, “associados contíguos” na expressão de James, que formam com o conteúdo uma constelação frouxa e ficam nas bordas do recordado, normalmente sem menção numa descrição verbal.
Autopresença de Quem Recorda
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Tampouco é concomitante inevitável de todo recordar, mas, onde há mundanidade na moldura, a autopresença de quem recorda na cena recordada pode tornar-se componente notável da fase do objeto.
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Pode-se recordar a cena, o entorno e o conteúdo, e também a si mesmo presente a eles e eles a si; o próprio papel no evento recordado torna-se parte integrante do recordado, evidência interna de ter estado ali, no meio do recordado.
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O modo varia: pode ser parte dominante, como na memória nostálgica da biblioteca de filosofia, cujo foco quase exclusivo era o trabalho ali; pode ser um item entre outros, como em Yosemite e no filme, com outros copresentes; ou pode ser bem abafado, como na tênue memória de “Culligan”.
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Quando é ingrediente da moldura, a autopresença é de importância capital, principal responsável pelo sentido especial de familiaridade, o aconchegante “calor e intimidade” de muitas memórias que retornam, em contraste com o caráter frequentemente impessoal das imaginações.
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Seria erro, como fez Russell, tornar a familiaridade atributo indispensável do recordar: há casos extraordinários sem familiaridade onde ela seria esperada, como nas memórias de “jamais visto” (jamais vu), e muitas memórias comuns não incluem autopresença.
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Isso é evidente no recordar-que não sensível, de fatos nunca vividos em primeira pessoa, e no recordar-como-fazer rotinizado, de ações hábeis sem recordações distintas; a autopresença pesa no destino do recordar quando ativa, mas não é necessária ao recordar autêntico (bona fide).
Espaço Recordado
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Nas experiências efetivas, espacialidade e temporalidade da apresentação correlacionam-se a ponto de se tornarem indissociáveis: recordar uma cena na casa dos avós é por si mesmo (ipso facto) recordar uma cena de certo período da infância, mesmo havendo experiências posteriores no mesmo lugar.
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Inversamente, um período da vida pode ser recordado sempre ou tipicamente em termos de um local, um cômodo, um edifício, uma paisagem; essa correlação estrita nem sempre ocorre, mas estruturas especificamente espaciais e temporais integram o recordado e são os principais meios de ancorar o conteúdo, sem os quais ele ficaria à deriva, sem mundo.
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Primeira forma de espacialidade: o espaço mínimo de itens isolados, como o rosto de Jan ou os símbolos visuais de “902” e “Culligan”, sem cena nem entorno, sem articulação com espaço circundante, com configuração apenas interna, espaço constrito que exclui tudo o mais: isto e nada mais.
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Segunda forma: o espaço um pouco mais amplo da memória de curto prazo do chá, com espaço circundante vagamente especificado, relações internas mais complexas e complexidade aumentada pela multissensorialidade.
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Esse espaço não era só visual, mas auditivo, háptico, gustativo, cada modalidade com traços próprios: a penetrabilidade do espaço sonoro, a qualidade ondulante e frágil do espaço olfativo, a localização bucal do espaço gustativo; apesar disso, a memória primária inclui um efeito de envolvimento diminuído na espacialidade do recordado.
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Terceira forma: esse distanciamento entre quem recorda e o recordado acentua-se nas memórias de longo prazo do passado distante, sobretudo da infância, experimentadas como através de uma tela ou peneira, às vezes com verdadeiro efeito de estranhamento (Entfremdungseffekt) diante de um eu anterior tão diferente em atividades aparentemente inocentes.
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O mesmo efeito de alienação pode surgir no recordar-que de eventos dos quais não se participou, recordados como através de um vidro escuro e a considerável distância.
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Quarta forma: não há distância, mas fusão de quem recorda com o recordado, sobretudo no recordar-como-fazer, como ao recordar como executar um golpe de tênis, com espacialidade normalmente confinada ao próprio corpo que se move com habilidade, dirigido a um fim e autocircunscrito.
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No espaço imanente às memórias recordativas de longo prazo com cenas e entorno discerníveis, a primeira característica é a tendência ao agrupamento: os conteúdos coagulam em torno de pontos ou locais particulares em vez de se distribuírem uniformemente.
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Na biblioteca de filosofia, todas as memórias que afluíram tinham como locus um par de salas; as cenas, mesmo apenas esboçadas, vinham firmemente im-postas nessas salas, ponto de ancoragem espacial em torno do qual se agrupavam os conteúdos de várias recordações.
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Segunda característica: o efeito de condensação ou compressão, quando vários locais passados se telescopam num único local da apresentação mnemônica.
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Os locais podem ser o mesmo, como o Lincoln Theater, ou diferentes: um único espaço condensa outros, “somando-os”; na memória de varrer a varanda dos avós, a varanda provavelmente representa também outras partes da casa onde se faziam tarefas.
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Há economia, às vezes elegância, nessa compressão de vários locais num lugar privilegiado de encenação, mas essa minimização de meios tem um preço, visível na terceira característica.
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Terceira característica: as lacunas de muitas molduras, com trechos de espaço indefinidos e não localizados entre e em torno dos locais estáveis e bem definidos, não vazios, mas não especificados.
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Em Yosemite, cada episódio estava bem localizado em relação ao parque, mas entre eles havia espaço suspenso, uma espécie de Erewhon mnemônico; as lacunas estendem-se ao interior dos episódios, como na incapacidade de recordar onde se pernoitou, se numa cabana ou num acampamento, embora se saiba que era no vale.
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Mesmo nas memórias mais distintas surgem lacunas súbitas e às vezes intransponíveis: o que havia entre o restaurante e o cinema? Os objetos intermediários desapareceram inteiramente.
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A moldura não fornece um contínuo espacial sem lacunas: moldura e conteúdos são tipicamente irregulares, espacialmente indeterminados, “esquemáticos”; por isso as memórias são pastiches do passado, nunca sua re-presentação espacial plena.
Tempo Recordado
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Na temporalidade do recordado aparece fenômeno análogo ao espacial: considerável indeterminação quanto à localização no tempo, especificada por expressões como “no ano passado”, “nas últimas semanas”, “na primeira infância”.
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Essas expressões não precisam o evento, mas retrojetam um quadro vagamente delimitado em que se tem razoável certeza de que ocorreu, recusando fixar o momento exato; mesmo para “ontem” ou “hoje de manhã” usam-se índices inexatos, e não “22h01” ou a posição da sombra do sol.
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Não se trata de desatenção preguiçosa: seria possível ser mais exato, como numa inquirição de testemunha, mas esse esforço só se faz quando a hora precisa é necessária por razões extrínsecas.
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A moldura parece resistir à plena especificação para permitir máxima latitude temporal, não só para encobrir possíveis erros, mas para ajustar-se à temporalidade inerente do recordado, sobretudo sua duração, difícil de determinar com precisão.
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Mesmo para eventos cuja época é certa, projeta-se um cenário temporal pouco definido: diz-se que a Batalha de Hastings ocorreu em 1066, sem citar, salvo historiadores, os dias exatos.
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A “data” é o formato mais preciso em que se cristaliza a matriz temporal da moldura; apesar de sua amplitude (“1986”, “janeiro de 1986”, “25 de janeiro de 1986” são datas), demarca eficazmente um período de outro: “1986” exclui “1985” e “1987”.
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A data afixada a uma memória exibe ambivalência básica: inespecífica quanto ao que está dentro de seus limites, mas enfática quanto ao que exclui para além deles.
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Só excepcionalmente se recorda um evento com sua data; na maioria das vezes há apenas o que James chama de “sentimento geral da direção passada no tempo”.
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Esse sentimento é mais conspícuo em memórias súbitas não situáveis, como nas experiências de déjà vu, déjà faite ou déjà raconté, em que se tem certeza de ter encontrado o conteúdo antes sem saber onde, nem em limites amplos.
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Mesmo sem determinar a parte do passado nem a data, permanece a convicção de que o recordado se originou em algum ponto anterior, e essa convicção basta à função situante da moldura, apesar da ausência até de limites genéricos como “1986”.
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Terceira caracterização temporal: a relação entre o conteúdo e outros objetos ou eventos passados, simultâneos, como recordar onde se estava no assassinato de John Kennedy, ou não simultâneos, como associá-lo ao de Robert Kennedy.
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Os coeventos simultâneos, “associados contíguos”, são auxiliares da memória (aide-mémoire) especialmente úteis na busca de uma memória ou de um detalhe; constituem a vizinhança próxima, versão temporal do “cenário imediato”, e estendem lateralmente o tempo recordado para além do momento delimitado do conteúdo.
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Os eventos não simultâneos situam o conteúdo num contexto maior, como “o destino trágico da família Kennedy” ou “assassinatos modernos”, graças à sucessão como princípio ordenador: forma-se uma série ordenada, ainda que não deliberadamente, com o evento focal em relação de antes e depois.
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Esse recurso pode ser usado de propósito, reconstruindo uma sequência para achar um evento nela aninhado, cujos outros membros servem de pistas alternativas de recuperação; o tempo estende-se então de modo linear, para frente e para trás.
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A qualidade experimentada do tempo recordado tem amplitude semelhante à do espaço: vai do lampejo aparentemente instantâneo, sem duração apreciável, como “902” e “Culligan”, ao tempo bastante prolongado, como o filme, em que o tempo assume forma quase narrativa, com incidentes “enfileirados” num tempo não homogêneo.
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Essa heterogeneidade é traço básico das memórias consecutivas: como no agrupamento espacial, memórias de período igual ou semelhante tendem a enlaçar-se em grupos e ser recordadas em relação mútua, como “memórias dos tempos de estudante na Universidade X”, “dos verões em Cape Cod” ou “de trabalhar noite adentro”.
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Ao agrupamento somam-se a composição, que comprime um grupo de memórias temporalmente afins numa memória compósita ou emblemática, e a distensão, que rarefaz os intervalos entre memórias nodais ou grupos de memórias.
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Esse enlaçar, compor e distender é mais extremo que no espaço recordado, tornando a matriz temporal mais descontínua e disjuntiva, e também mais concentrada e profunda em pontos críticos.
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Daí a impressão de que as memórias espontâneas têm origem mais complexa e múltipla no tempo que no espaço: enraízam-se em relativamente poucos lugares, mas em muitíssimos tempos; os lugares situam eventos e são poucos e isolados, os tempos conectam itens recordados e tendem a ser mais numerosos.
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Outra heterogeneidade decorre do contraste, às vezes pungente, entre o tempo do recordar e o tempo recordado: um ponto ou período passado nunca mais será vivido em sua forma originária, ao passo que se pode voltar a um lugar duradouro, que, mesmo mudado, continua o mesmo lugar.
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O efeito de alienação é especialmente forte diante do abismo temporal entre o eu que recorda e o eu recordado, cujo tempo decorreu definitivamente, um tempo morto (temps mort); mesmo ao recordar-se exercendo uma habilidade ainda possuída, o eu executante original parece estranho ao eu mais velho que recorda.
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O tempo do recordar é passível de medição cronológica exata, bastando olhar o relógio, enquanto o tempo recordado resiste a ela mesmo quando datado; não se trata de presente pontual contra passado não pontual, pois nenhum tempo vivido é estritamente pontual, mas de uma duração que convida à interpretação por ponto, instante e linha e de outra que a recusa obstinadamente.
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A diferença, e seu mistério, revela-se na circunstância cotidiana de recordar os principais eventos de um ano inteiro num instante, o do próprio ato de recordar, enquanto os eventos recordados têm considerável extensão temporal.
Aura
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Além do conteúdo específico e da moldura, a apresentação mnemônica contém um terceiro componente, a aura, muito mais difícil de descrever por sua natureza intrinsecamente difusa, uma “zona de indeterminação” (zone d'indétermination) no sentido de Bergson.
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Desempenha papel importante em muitas memórias e está presente em algum grau em todas; caracteriza a apresentação em duas formas distinguíveis.
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Primeira forma: uma franja ou margem borrada que circunda o conteúdo e a moldura, seu desvanecer além do ponto de determinabilidade precisa em termos de tempo, espaço, mundanidade, objetualidade e eventualidade.
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Para Minkowski, qualquer que seja a fatia do passado recordado, há sempre em torno dela uma zona vasta e obscura de onde emerge e que lhe serve de suporte.
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A aura não é apenas não tematizada, mas intematizável, radicalmente incoativa, ao contrário de uma data, sempre especificável em princípio, do dia à hora, do minuto ao segundo.
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Esse fator de franja equivale à “margem imaginal”: ambas são resolutamente indescritíveis, “perspectiva obscura sem horizontes, sem limites”, e representam o modo como o conteúdo imaginado ou recordado se dissipa e desaparece por si num ato de apreensão.
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O imaginado ou recordado não termina abruptamente, mas tende a esvair-se, mesmo num breve imaginar de “Pégaso” ou num recordar peremptório do nome de uma rua onde se morou; essas exibições abreviadas dissolvem-se depressa, as quase narrativas mais lentamente, mas a aura ou margem é sempre aquilo em que o conteúdo se dissolve, seu termo final (terminus ad quem), sem dimensões determinadas.
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As margens imaginal e rememorativa diferem de dois modos: a margem das apresentações imaginativas costuma ser mais notável, pois estas são experimentadas com relativo isolamento do entorno, em “independência de contexto”, enquanto o recordado é tipicamente mais contínuo com seu contexto.
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Mesmo quando notável em ambos os casos, a margem tende a ser mais pronunciada no imaginado: um amigo inteiramente imaginado aparece cercado por margem de indefinição proeminente, um amigo recordado, por margem bem menos discernível.
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Isso se deve ao estatuto ôntico diverso: o conteúdo recordado é atual, suposto ter efetivamente aparecido ou ocorrido; o imaginado é puramente possível, no máximo algo que poderia ter ocorrido ou ainda ocorrer.
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Posto como apenas possível, o imaginado absorve menos, e a atenção vagueia mais livremente para seu entorno e sua margem, onde outras possibilidades podem emergir; posto como atual, o recordado prende a atenção, e há menos tentação de transcendê-lo rumo a uma região marginal sem essa atualidade robusta.
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Segunda forma: a atmosfera, que não circunda, mas permeia a própria apresentação, dada como presença sentida em toda ela; o eu que recorda frequentemente é seduzido e envolvido pela mesma atmosfera.
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Assim memória e desejo se fundem, como descreveu Platão no Filebo, e o desejo liga-se à emoção como sua manifestação mais expressiva; a atmosfera é caracterizada por uma emoção ou grupo de emoções que lhe dão a tonalidade dominante.
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Não é acidental que se fale de memórias “tristes” ou “alegres”, “dilacerantes” ou “exultantes”: refere-se mais à atmosfera do e para o conteúdo do que ao conteúdo; seu caráter é emocional e vivido em termos emocionais, tornando-se triste ou alegre no próprio recordar.
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Essa assimilabilidade emocional contagiosa entre quem recorda e o recordado é o mais característico da aura-como-atmosfera, que dissolve dualidades e funde termos díspares.
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As duas formas combinam-se e cooperam na tarefa básica de unificar a apresentação; sem aura como margem e atmosfera, a apresentação arriscaria tornar-se aglomerado de partes dispersas ou mero monograma difícil de distinguir de uma fantasia ou imagem.
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Como o recordado sempre se apresenta como algo mais que monograma e internamente unificado, contém um fator além do conteúdo e da moldura; a moldura unifica em termos de tempo, espaço e mundo, mas o que mantém a própria moldura coesa e lhe permite situar é a aura.
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A aura une a apresentação inteira pela dupla ação de circundá-la como margem e permeá-la como atmosfera, e sua difusão contribui para isso: resulta a com-posição da apresentação como unidade experiencial coerente, com identidade e estabilidade próprias.
Modos de Doação
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A descrição da fase do objeto ainda não está completa: a ênfase no “o quê” negligenciou o “como” a apresentação é dada, e ela é dada de muitos modos.
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Um mesmo recordado (rememberatum) pode ser dado de modo diferente em tempos ou circunstâncias diversas; para Husserl, pode-se recordar mais depressa ou mais devagar, clara e explicitamente ou confusamente, num relâmpago ou em passos articulados.
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Se essa variabilidade prova a “liberdade” do recordar, como também afirma Husserl, é questão que ultrapassa o interesse imediato; a apresentação é dada de quatro modos principais.
Clareza
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A clareza varia de dois modos; primeiro, a clareza decrescente com que uma experiência afunda na memória primária, tornando-se gradualmente mais tênue em retenções e retenções de retenções, salvo se novamente focalizada.
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Segundo, variações que não decorrem desse desvanecimento quase automático nem do “velamento” de tantas memórias secundárias, mas dos efeitos diferenciais das partes da apresentação, gerando casos que diferem sobretudo em grau.
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A recordação súbita de “902” foi inteiramente distinta e transparente; “Culligan” também era bastante distinto, mas anuviado pelas imagens concomitantes, numa clareza híbrida presente na maioria dos outros exemplos.
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Em Yosemite, a vista inicial foi dada com lucidez, provavelmente ajudada pelas percepções posteriores da fotografia, mas os detalhes das cenas seguintes foram dados bem mais tenuemente.
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A falta de clareza pode ocorrer por omissão, como na biblioteca, onde a obscuridade dizia respeito menos aos detalhes das cenas que ao que exatamente se fazia ali: a obscuridade do fato é mais crucial que a do detalhe.
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A aura pode ser decisiva, obscurecendo, como quando uma atmosfera de raiva ofusca aquilo que a motivou, ou iluminando, como quando a alegria da atmosfera dá pista da natureza do recordado.
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A variação pode dever-se à moldura, sobretudo à definição do tempo e espaço recordados: apesar da clareza visual de “Culligan”, sua matriz temporal era muito ambígua.
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O próprio conteúdo pode predeterminar a clareza: uma doença grave na infância, vivida em delírio, é recordada com conteúdo extremamente borrado.
Densidade
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“Densidade” é a compacidade ou solidez sentida do recordado, também com ampla variação.
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Certas memórias apresentam-se como intrinsecamente efêmeras, não só por durarem pouco, mas por serem diáfanas, leves, porosas; a “memória passageira”, tipicamente de uma única imagem, tem baixa densidade, tão rala, sem profundidade e flutuante que se confunde com uma fantasia passageira de mesmo caráter etéreo.
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Outras apresentam-se desde o início com alta densidade, concentradas, pesadas, sólidas, como memórias de ocasiões muito carregadas ou solenes.
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A densidade não depende só do conteúdo: pode resultar do telescopar de muitas memórias numa memória central, cuja densidade exprime a compressão extrema ocorrida.
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A recência tende a aumentar a densidade, como na memória do chá, em que sabor, aparência dos objetos e sons eram mantidos como presenças densas de considerável solidez sensível.
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A densidade reflete também o posicionamento em quadros temporais e espaciais: quanto mais específica a data ou o local, mais densa tende a ser a apresentação, pois em torno desses pontos nodais o material recordado se reúne e coalesce.
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Uma data pivotal que representa um evento epocal pode ganhar densidade notável com o tempo, como “1492”, “1776”, “1945”, e o mesmo vale para a data de nascimento, o endereço ou o número do escritório.
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A densidade não depende da sensibilidade da apresentação, mas pode consistir em ecos ou ressonâncias, no influxo de material conotado, que dão a algo não sensível peso, consistência e impacto característicos.
Texturalidade
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Modo estreitamente ligado à densidade e muitas vezes correlato a ela, mas distinto por referir-se especificamente ao modo como a superfície da apresentação é experimentada, seu “tato” particular, sua palpabilidade implícita.
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Pode ser tão proeminente que domina a descrição, como no episódio do chá, em que densidade e texturalidade se correlacionavam; ou tão fraca que mal merece menção, como em “Culligan” e “902”.
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Números e palavras não carecem inteiramente de texturalidade, como se vê ao recordar versos: “Lilases que por último floresceram no pátio…” (Lilacs last in dooryard bloomed).
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Na grande maioria dos casos, entre os extremos, a texturalidade tem papel discreto, mas distintivo, como o modo em que as superfícies dos itens recordados se apresentam ásperas, irregulares, lisas, sedosas; sempre que tais palavras descrevem uma memória, refere-se à texturalidade.
Caráter Direto (Directness)
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Por fim, e crucialmente, o caráter direto com que a apresentação é dada, em tipos principais com diferenças de grau.
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Primeiro, o caráter direto da participação pessoal na ação recordada, autopresença como encenação, extremo no recordar-como-fazer habitual, em que quem recorda e o recordado se unem: o eu que executa a ação hábil é uno com o eu que a aprendeu, e os desempenhos anteriores são contínuos com o atual, que os recorda.
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Segundo, o caráter direto de ter sido testemunha do objeto, evento ou estado de coisas recordado, que é o foco da atenção; a autopresença como testemunha é dada em modo conjunto, copresente, como ter estado ali também, nas margens da cena.
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Terceiro, uma doação genuinamente indireta quando se recordam fatos de que não se pode ter sido testemunha, como a assinatura da Magna Carta ou a eclosão da Guerra Franco-Prussiana: mesmo recordados com clareza completa, não são dados diretamente.
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Não se recorda a cena da assinatura nem o próprio testemunho dela, apenas que foi assinada, talvez numa data; o “que” indica que o evento está fora da experiência pessoal e deve ser recordado como fato aprendido.
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Quarto, outra indireção no recordar-por-procuração: pode-se recordar a Corrida pela Terra de Oklahoma tal como contada pelo avô, recordando-a por meio dele como substituto e, identificando-se com ele, “com seus olhos”.
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Esses olhos são apenas emprestados: a memória permanece vicária, e sua descrição completa não pode evitar a referência ao avô como figura mediadora (“como meu avô me contou, 'ninguém podia cruzar a linha até…'”); o que está entre aspas simples é a memória da memória direta do avô.
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O papel próprio é necessariamente o de preservador ou transcritor da reminiscência do avô, e a recordação dessa reminiscência, como a percepção de sua aparência ao contá-la, é a única forma de recordar direto possível nesse caso.
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Com os quatro modos de doação conclui-se a descrição da fase do objeto, de complexidade maior do que se costuma notar no recordar comum, que se prende sobretudo ao conteúdo específico e negligencia as outras facetas do correlato intencional.
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Estrutura geral da fase do objeto, ou pleno correlato intencional do recordar: a apresentação mnemônica, o que se recorda, compreende o conteúdo específico (objetos, ações, pessoas, estados de coisas), a moldura da memória que o situa (mundanidade, autopresença, espaço recordado, tempo recordado) e a aura como cenário indefinido (margem e atmosfera).
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Os modos de doação, como a apresentação é dada, são clareza, densidade, texturalidade e caráter direto.
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As análises deste capítulo e do anterior buscaram discernir a estrutura intencional do recordar, mostrando-o como experiência de duas dimensões estreitamente entrelaçadas, fase do ato e fase do objeto: quatro formas principais de ato e vários modos subordinados, e quatro componentes principais da fase do objeto.
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Embora tratadas separadamente, apontaram-se conjunções e correlações entre as fases, como entre certo tipo de conteúdo e certa forma de ato; a intencionalidade emerge como traço central da “memória humana”, que se revela muito mais ordenada em sua estrutura interna do que parece na imersão irrefletida.
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O passo torna-se mais decisivo ao considerar os quatro pares de traços eidéticos do segundo capítulo, busca/exibição, encapsulamento/expansão, persistência/preteridade e atualidade/virtualidade, parâmetros fundamentais que, exceto busca/exibição, caracterizam ambas as fases e transpõem a bifurcação intencionalista.
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A coordenação entre análise eidética e intencional pode ser feita por um quadro esquemático de correlações, às vezes incertas, entre oito traços eidéticos e oito estruturas intencionais, que situa os traços eidéticos num quadro intencional e indica, por seu caráter múltiplo, a natureza não simples da memória.
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O quadro revela padrões: busca e exibição são alternativas exclusivas quanto às fases do ato e do objeto, com simetria quanto a serem conspícuas ou abafadas; recordar simplesmente e recordar-que encarnam os outros seis traços de modo estável e “normal”, enquanto recordar-como-fazer e recordar-de divergem internamente.
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Na fase do objeto, sete dos oito traços tendem a emergir de modo conspícuo ou normal no conteúdo específico ou na moldura, e de modo muito mais abafado na aura e nos modos de doação.
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Esses padrões não indicam conexões causais: o quadro é estritamente correlacional, e seu caráter tênue e diagramático reflete os limites de uma análise puramente fenomenológica restrita aos aspectos eidéticos e intencionais, exigindo expansão do projeto.
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A jornada apenas começou, e muito resta às Partes Dois e Três; até aqui realizou-se o que a abordagem fenomenológica tradicional busca: investigar um fenômeno em seus traços eidéticos e intencionais.
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Essa investigação é formal por natureza, formalidade reforçada por listas de traços e quadros, e não pode reivindicar plena adequação ao fenômeno: além da forma da memória há sua matéria, além de sua superfície, sua profundidade.
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Há algo inegável e quase literalmente “superficial” nas descrições dos quatro capítulos, que transmitiram sobretudo o que Bachelard chama de saliências súbitas na superfície da psique, um primeiro olhar sobre as estruturas de superfície da memória.
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Esse primeiro olhar considerou a memória como fenômeno quase exclusivamente mental, “memória na mente”, conforme a origem do termo no conceito de atenção; era apropriado que a análise intencional ganhasse destaque, pois, segundo o credo de Brentano, todos e somente os fenômenos mentais são intencionais.
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O recordar, porém, é mais que assunto da mente, e é preciso ir além da superfície da psique e do quadro estreito, ainda que útil, dos capítulos anteriores; ir além do intencional levará mais completamente ao próprio fenômeno do recordar, ao coração da existência como seres que recordam.
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