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estudos:casey:1993:start

De volta ao lugar

CASEY, Edward S. Getting back into place: toward a renewed understanding of the place-world. Bloomington: Indiana University Press, 1993.

Prefácio: Ser antes do Lugar

Agradecimentos

PARTE I ENCONTRANDO O LUGAR

  • 1 Emplazamento
  • 2 Desplazamento

PARTE II O CORPO NO LUGAR

  • 3 Direções
  • 4 Dimensões

PARTE III LUGARES CONSTRUÍDOS

  • 5 Duas Maneiras de Habitar
  • 6 Locais de Construção e Lugares de Cultivo

PARTE IV LUGARES SELVAGENS

  • 7 O Arco da Desolação e o Conjunto da Descrição
  • 8 Tornando-se Selvagem na Terra

PARTE V MOVENDO-SE ENTRE LUGARES

  • 9 Rumo ao Lar: Terminando (em) a Jornada

Prefácio

Ser antes do lugar

“Não vivemos no ‘espaço’.” — J. J. Gibson, Uma abordagem ecológica da percepção visual.
“Por isso, deveis considerar a grandeza dos lugares.” — Andrea Palladio, Os quatro livros da arquitetura.
“Consultai em tudo o Gênio do Lugar.” — Alexander Pope, “Epístola a Lord Burlington”.
“Dai-me um lugar onde me apoiar, e moverei o mundo.” — Arquimedes.

I

1. Imaginar um mundo inteiramente sem lugares revela imediatamente a profundidade com que a existência humana é orientada e saturada pelo lugar, pois a própria ideia de ausência absoluta de lugar provoca ansiedade e mostra que até o deslocamento pressupõe algum lugar presente, passado ou futuro no qual se possa confiar, retornar ou projetar a existência.

2. A ameaça de não haver lugar onde estar ou para onde ir produz uma forma específica de pânico do lugar, distinta do simples deslocamento, pois estar “fora do lugar” (atopos, literalmente “sem lugar”) significa experimentar estranheza e desorientação diante da possibilidade de uma vida entregue a terras vazias e sem localização estável.

3. Saudade do lar, desorientação, depressão e desolação constituem sintomas emocionais da ausência de lugar porque implicam uma experiência insuportável de vazio, particularmente evidente no migrante forçado, no deslocado e no exilado involuntário, mas também possível dentro da própria casa quando surge a inquietante sensação de não estar “em casa”.

  • A ansiedade de separação manifesta-se desde cedo e continua ao longo da existência por meio das separações de pais, irmãos, amigos, regiões de origem, crenças, costumes e coisas anteriormente vividas.
  • A tentativa de reencontrar um lugar perdido pode assumir a forma de retorno real, memória ou imaginação, sem que isso necessariamente elimine episódios posteriores de pânico do lugar.

4. A filosofia respondeu historicamente ao temor do vazio procurando negar a própria possibilidade do não lugar, desde a plenitude parmenídica do ser até a rejeição antiga do kenon atomista, fazendo triunfar uma topologia da presença sobre a ameaça da atopia.

  • Se o ser está por toda parte, tudo o que existe deve estar situado e, consequentemente, o não lugar é excluído.
  • A oposição filosófica ao vazio procura assegurar que a existência sempre tenha algum lugar em que se encontre.

5. Antigos e modernos convergem frequentemente na tentativa de abolir ou negar o vazio, mas a concepção moderna de um espaço matemático, físico e astronômico infinito torna a ameaça mais aguda, como exprime Pascal ao afirmar: “O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora.”

  • A infinitude e o silêncio do espaço significam precisamente sua vacuidade e a ausência de lugares.
  • Um espaço concebido como puro vazio não contém lugares propriamente ditos, mesmo quando parece oferecer extensão ilimitada.

6. O horror vacui experimentado por pensadores como Descartes, Pascal, Newton e Leibniz indica que mesmo a contemplação conceitual de um espaço absolutamente vazio pode produzir terror, levando a filosofia e a ciência a recobrir o abismo com construções especulativas que restaurem alguma forma de ordem e presença.

7. O abismo cósmico permanece psicologicamente ativo na modernidade e pode reaparecer como vastidão interior do inconsciente ou como vazio de uma subjetividade descentrada, encontrando expressão literária e artística em imagens de cidades e vidas sem lugar, como em A terra devastada de T. S. Eliot e nas pinturas de Anselm Kiefer.

  • A condição moderna é marcada menos apenas pela anomia do que pela atopia, isto é, pela perda de lugares capazes de orientar e sustentar a existência.

8. A ameaça da atopia provoca na filosofia uma verdadeira ontomania, um desejo irracional de preencher o vazio com o máximo possível de presença determinada, fazendo com que pensadores de Parmênides a Whitehead procurem colocar o ser antes do lugar e povoar conceitualmente aquilo que de outro modo apareceria como campo vazio.

  • O medo de uma mente ou alma “vazia” reproduz, no plano psíquico, o mesmo pânico diante de um universo sem lugares.
  • A conhecida afirmação nietzschiana de que o ser humano prefere querer o nada a nada querer pode ser invertida: os seres humanos preferem ser vazios de propósito a terem o vazio como seu próprio propósito.

II

1. A árvore vive em seu próprio lugar e contribui organicamente para constituí-lo, permanecendo integrada a um contexto ambiental estável de tal modo que deixar esse lugar significaria arriscar a própria vida do organismo.

  • Como formula Hans Jonas, a planta forma com seu ambiente adjacente um contexto permanente no qual se encontra plenamente integrada.

2. A vida animal rompe a imobilidade vegetal porque os animais, inclusive os seres humanos, precisam mudar de lugar para sobreviver, movidos por apetites, memória e desejo em busca de condições mais favoráveis de existência.

  • Nenhum lugar isolado satisfaz indefinidamente as necessidades animais.
  • A insuficiência do lugar presente conduz ao deslocamento em direção a outro lugar.
  • A existência humana caracteriza-se especialmente pelo estar entre lugares e pelo movimento contínuo de um para outro.

3. A mobilidade animal e humana transforma o sair do lugar numa ação fundamental da vida, mas a liberdade de mudar de lugar introduz simultaneamente o risco de perder-se e de não encontrar novo lugar onde se instalar.

  • Quanto maior a mobilidade, maior a possibilidade de desorientação.
  • O risco mais grave não é apenas perder um lugar determinado, mas não possuir nenhum lugar próprio ou duradouro onde permanecer.
  • Por isso, animais humanos e não humanos recorrem a formas de territorialidade, biotopos ou nichos ecológicos que fornecem estabilidade e continuidade.

4. Dizer “não tenho para onde ir” exprime uma circunstância desesperadora cuja realidade aparece diariamente na experiência de refugiados, pessoas sem moradia e animais errantes, ao mesmo tempo que o temor contemporâneo de uma Terra progressivamente inabitável amplia essa insegurança para a escala planetária.

5. O movimento incessante da vida pós-moderna nas sociedades capitalistas tardias intensifica o medo da ausência de lugar, pois deslocamentos rápidos e frequentes impedem a permanência necessária para apreender as qualidades singulares e a história local dos lugares.

  • O preço da mobilidade maximizada é a perda de lugares capazes de servir como cenas duradouras de experiência, memória e reflexão.

III

1. Apesar da aceleração da vida contemporânea, o lugar efetivamente ocupado continua influenciando profundamente quem se é, o que se percebe, o que se espera e aquilo que se fará, pois mesmo uma permanência provisória, como atravessar um aeroporto, constitui uma colocação concreta e não uma posição abstrata indiferente.

2. A filosofia, a física e frequentemente a psicologia tendem a reduzir o lugar a mera posição manipulável num espaço vazio, como se mudar de lugar significasse apenas trocar coordenadas num tabuleiro geográfico sem consequências existenciais.

3. Se o lugar não for simplesmente posição arbitrária, mas condição mais profunda da existência, a pergunta por onde nos encontramos adquire importância decisiva e deixa de poder ser respondida apenas em termos de coordenadas espaciais.

4. Não se vive no “espaço”, mas em lugares, e por isso a existência humana deve ser compreendida a partir de sua condição vinculada ao lugar, mesmo quando o pensamento abstrato ou a vida acelerada tendem a esquecer essa dependência.

  • A experiência continua inextricavelmente ligada ao lugar, quer se esteja atento a ele ou não.

5. A ubiquidade e a multiplicidade dos lugares tornam possível compreender o deslocamento apenas em relação a alguma colocação relativamente persistente, pois toda experiência de desenraizamento pressupõe uma perda ou enfraquecimento da conexão vital com lugares anteriormente sustentadores.

  • Pessoas desorientadas e desapossadas não sofrem apenas pela ausência permanente de lugar, mas também por sua fragilidade, escassez e instabilidade.
  • Mesmo pessoas altamente móveis encontram-se, em graus variados, expostas à ausência de lugar.

6. O deslocamento deriva em grande medida de uma falha de vinculação aos lugares, desde os locais cotidianos até cidades, regiões, culturas, sociedades e o próprio mundo natural, sendo paralelamente acompanhado por uma falha conceitual moderna em reconhecer a importância do lugar.

  • A alienação frequentemente é alienação de um lugar determinado.
  • A violência pode ser exercida não apenas contra pessoas situadas em lugares, mas contra os próprios lugares.
  • A possibilidade de retorno ao lugar pode, por isso, inspirar-se em formas pré-modernas de relação com a localização.

7. Nos últimos três séculos do Ocidente, correspondentes à modernidade, o lugar foi não apenas negligenciado, mas sistematicamente suprimido pela predominância das ciências naturais e sociais e por uma cosmologia centrada em Tempo e Espaço.

  • A combinação moderna em “espaço-tempo” consolidou ainda mais a marginalização do lugar.
  • O lugar passou a aparecer como parente pobre diante dos dois grandes conceitos cosmológicos da modernidade.

8. A doutrina moderna que rebaixa o lugar contrasta profundamente com a experiência cotidiana, na qual perguntas aparentemente simples como “de onde sois?” revelam a persistência de lugares de origem, infância, pertencimento e formação como referências decisivas da identidade.

9. Um lugar primordial ou lugar de origem continua funcionando para muitas pessoas como referência implícita para a avaliação de lugares posteriores, seja ele o local de nascimento, a casa da infância ou qualquer região profundamente formadora.

  • A ausência de tal lugar pode constituir uma forma profunda de desabrigo, não apenas arquitetônico, mas também afetivo e orientacional.
  • A modernidade tardia tende a substituir lugares vividos por meros sítios e deslocamentos permanentes por colocações precárias.

IV

1. Diversas correntes contemporâneas começaram a recuperar filosoficamente o lugar, sobretudo Heidegger, que desde aproximadamente 1950 contrapôs “localização” e “região” ao espaço, e Bachelard, cuja Poética do espaço recolocou a importância dos lugares de habitação, embora nenhum deles tenha desenvolvido suficientemente o papel do corpo humano na experiência do lugar.

2. A partir da década de 1970, geógrafos de orientação ecológica, seguidos por arquitetos, sociólogos, antropólogos, especialistas em ética, teólogos, feministas e outros observadores sociais, procuraram recolocar o lugar no centro de diferentes disciplinas, mas permanece ausente uma análise filosófica extensa e sistemática de sua amplitude e complexidade.

3. A finalidade central consiste em desenvolver uma análise rigorosa e engajada do lugar e de suas consequências filosóficas, substituindo a topofilia genérica por uma topoanálise capaz de explicitar como os lugares orientam e estabilizam, memorializam e identificam e dizem quem e o que se é a partir de onde se está e também de onde não se está.

4. Ser-no-mundo significa, concretamente, estar situado e, portanto, estar em lugar, de modo que o lugar constitui a particularização fenomenal do ser-no-mundo e permite substituir a abstração relativa dessa fórmula pela concretude de um ser-no-lugar ou de um ser-no-mundo-do-lugar.

  • A questão fundamental passa a ser recuperar a significação plena do lugar e sua concretude existencial.

V

1. A investigação do lugar distribui-se em cinco partes que abordam sucessivamente suas figuras em situações diversas, começando por navegação, mitos de criação, natureza da mente e retórica e contrastando discussões gregas antigas sobre lugar e espaço com as tentativas modernas de reduzir o lugar ao espaço e privilegiar o tempo.

2. A segunda parte pergunta como se está em lugar e sustenta que essa relação ocorre primordialmente por meio do corpo, examinando dimensões e direcionalidades fundamentais da colocação corporal e mostrando como a corporeidade orienta concretamente a experiência.

3. A terceira parte investiga como se habita em lugares e, particularmente, o que significa construir lugares, reconhecendo que os lugares edificados permanecem sempre circundados pelas regiões selvagens do mundo natural.

4. A quarta parte considera o lugar em suas formas não construídas e não cultivadas, examinando horizontes ecológicos e modos de natureza selvagem.

5. A quinta parte analisa como a experiência de viajar entre lugares particulares ilumina a existência no mundo-do-lugar em geral, especialmente em relação aos lugares de moradia.

6. A estrutura da obra permite diferentes percursos de leitura conforme os interesses, embora a segunda parte, dedicada ao papel do corpo no lugar e de orientação fenomenológica mais explícita, constitua o segmento mais exigente e rigoroso e funcione como passagem estreita pela qual se alcançam panoramas mais amplos do mundo-do-lugar.

VI

1. Retornar ao lugar constitui o terceiro momento de uma série dedicada a reconsiderar fenômenos cotidianos sistematicamente negligenciados ou mal compreendidos pela filosofia ocidental — imaginação, memória e lugar — que formam uma sequência complementar.

2. A imaginação projeta a existência para além de si na direção do possível, enquanto a memória conduz de volta ao domínio do atual e já acontecido, mas o lugar sustenta e envolve ambas porque constitui o substrato circundante da corporeidade e o fundamento do ser-no-mundo.

  • A imaginação lança para além de si.
  • A memória conduz para trás de si.
  • O lugar permanece continuamente sob e ao redor de si.
  • Imaginar e recordar conduzem respectivamente ao etéreo e ao denso, enquanto estar em lugar significa encontrar-se num meio subsistente e envolvente.

3. A dificuldade de permanecer seguramente situado e a sensação recorrente de estar fora do lugar tornam necessária uma reflexão sustentada sobre o que significa estar em lugar desde o princípio, pois sem essa compreensão não se reconhece adequadamente o campo no qual memória e imaginação adquirem seu peso próprio.

  • Enquanto esse campo não for aberto, a vida permanece exposta à desorientação, ao deslocamento, à instabilidade e à inquietação características da condição pós-moderna contemporânea.
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