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Husserl e a tradição do visível (2005:264)

PEOS

  • A fenomenologia transcendental de Husserl recobre uma vontade de desvelamento absoluto da totalidade do ente pela inquisição permanente da certeza.
    • Esta vontade a assemelha à tradição cartesiana, em raízes mais profundas do que Husserl mesmo imagina poder arrancar de si.
    • Não se trata de que o ego de Husserl seja a mesma res cogitans de Descartes, mas de que Husserl se inscreve em uma tradição que faz da clareza, da evidência, da distinção – em suma, do visível – o elemento último de todo pensamento.
  • Esta tradição filosófica, que remonta a Platão e se torna consciente de seu desejo com Descartes, é, na leitura heideggeriana, uma vontade de luminosidade.
    • Ela pretende reter como verdadeiramente sendo apenas o que é manuseável pelo pensamento racional ou pelo olhar objetal.
    • É uma tradição da Vorhandenheit (do ser-à-mão, do ser-diante-dos-olhos), do ser enquanto aparece sob o horizonte da manuseabilidade.
  • Em Husserl, o ato objetivante como estrutura da realidade é uma declinação dessa vontade de só considerar o Vorhanden.
    • O sujeito transcendental produz permanentemente o horizonte para a vinda ao olhar de um Vorhanden, único considerado como real.
    • Apenas o que a consciência atinge nela mesma, sob suas exigências estruturais, é considerado verdadeiro ou sendo; a parte de sombra de nosso ser não é elevada à sua dimensão doadora.
  • O “princípio dos princípios” husserliano é um testemunho da filiação à tradição da luta pela luminosidade.
    • Esta tradição, nomeada por Heidegger como “a metafísica”, oculta o ato puro e obscuro do eclodir em favor de uma pensamento do ente eclodido.
  • O vínculo de Husserl com Descartes se dá no terreno da evidência como fonte de verdade, não no da identificação das teorias do eu.
    • Esta parentesco no nível do apego à teoria da evidência repercute, contudo, na teoria do eu.
    • A evidência na subjetividade produz um modo de evidência dessa subjetividade, que permanece não pensada em seu fundamento.
  • Para Husserl, não se pode remontar aquém da intuição, única doação originária.
    • Heidegger responde que uma intuição, mesmo originária, diante de sua própria presença, se confronta com o mistério da presença dessa presença.
  • O si vive sua presença a si no enigma; toda conquista da presença a si é uma traição do fato de uma não coincidência a si.
    • As maneiras de Husserl são cartesianas, pois inspiradas pela vontade de uma “fundação geral e última apoiada em intuições absolutas”.
    • A presença a si, característica de ser da consciência, é determinada pela subjetividade, mas a subjetividade mesma não é posta em questão quanto ao seu ser.
  • A filiação a Descartes, com base na evidência da presença, repercute na compreensão que o si tem de si mesmo.
    • A esfera do ego não consegue se romper; da imanência à substância há apenas uma diferença quantitativa, não qualitativa.
    • A forma do ego permanece a de uma coisa (ponteada, móvel, viva em Husserl; mais fixa em Descartes).
  • O problema de Husserl, como o de Descartes, é o do fundamento das ciências.
    • O “giro transcendental” de Husserl o aproxima de Kant, fazendo da fenomenologia “uma problemática da teoria da experiência”.
  • Husserl se considera herdeiro da tradição que vai de Descartes ao início do cumprimento kantiano.
    • Heidegger pensa a fenomenologia husserliana como uma vontade de reduzir o pensamento ao domínio do visível.
  • Neste sentido heideggeriano, a fenomenologia de Husserl é um idealismo, no sentido etimológico (idein, ver), ou um “ideísmo”.
    • O idealismo vulgarmente atribuído a Husserl recobre um idealismo mais profundo: o reinado do ver.
  • Heidegger vincula Husserl à tradição cartesiana e ao ideal científico da filosofia moderna.
    • Não se deve aproximar excessivamente Husserl e Nietzsche, sob risco de perder os dois projetos fundamentais.
    • Husserl visa o fundamento das ciências e a certeza; Nietzsche relativiza noções como certeza e ciência pela prevalência da vontade de poder.
  • Nietzsche, na leitura heideggeriana, possui um estatuto à parte de lisibilidade metafísica.
    • Ele representa uma caricatura da vontade de domínio sobre o visível que a metafísica dissimula desde Platão.
    • Em Husserl, o projeto metafísico não é tão manifesto devido às épocas das quais se reconhece herdeiro.
  • Heidegger é claro: o acabamento da metafísica se chama “Nietzsche”.
    • Nietzsche antecipa o acabamento dos Tempos Modernos; está metafisicamente depois de Husserl, embora cronologicamente antes.
    • Nietzsche é a figura extrema, concentrada, que anuncia e sustenta um acabamento que Husserl não realiza.
  • A fenomenologia de Husserl se dissocia claramente do projeto nietzscheano.
    • A luta de Husserl contra o psicologismo e sua vontade de fundar uma lógica pura o distanciam das exagerações biologizantes de Nietzsche.
    • A fenomenologia visa evitar toda pressuposição, enquanto o filosofar nietzscheano parte de preconceitos e decisões não pensadas.
  • Do ponto de vista heideggeriano, a fenomenologia se vincula ao idealismo cartesiano e ao ideal científico moderno.
    • Criticar demais Husserl e Nietzsche é perder de vista que Husserl sobe uma ladeira que Nietzsche desce.
  • O conceito de vontade de poder em Nietzsche é mais violento que as consequências sistemáticas da fenomenologia transcendental.
    • Com Nietzsche, trata-se de infinitas “colocações em luzes”, perspectivas baseadas no domínio de um caos aceito, algo ausente em Husserl.
  • O problema fundamental da fenomenologia de Husserl, para Heidegger, é não ter visto o que nela mesma se descobria.
    • Husserl é prisioneiro de uma tradição científica e metafisicamente conotada, que tanto possibilita sua ruptura quanto o retém.
    • Nietzsche, ao contrário, recusa violentamente essa tradição, denunciando sua ausência de valor, mesmo que a reconduza de modo mais radical.
  • Nietzsche está, portanto, mais “adiantado” que Husserl na escala do cumprimento do impensado no coração da metafísica: o esquecimento do ser.
  • É rigorosamente impossível superpor a intuição originária de Husserl e o “grande sim” de Zaratustra.
    • O primeiro quer limitar o mundo ao que se pode ver; o segundo aceita que só haja caos a ver, sobre o qual criar novas formas de visibilidade.
  • Husserl, contudo, possui um aporte decisivo: abre um caminho para o fundo da idealidade na intuição categorial.
    • Ele funda racionalmente a idealidade, enquanto Nietzsche impõe, a partir do preconceito ser/devir, o absurdo do domínio do não-dado.
  • Para Husserl, o absoluto é o imediatamente presente à consciência; o misterioso é rejeitado no transcendente.
    • Para Heidegger, o si possui uma intuição mais originária do mistério através da pré-compreensão do ser.
  • Husserl suspende dogmaticamente o olhar para o que não é dado na evidência.
    • A fenomenologia transcendental cai no idealismo como filosofia do puro ver do visível, esquecendo o puro ver do invisível que dá acesso à visibilidade.
  • A redução é, em última instância, uma redução ao humano ou ao humanamente visível; evita o mergulho no enigma da presença.
    • O si é assim cortado de sua relação essencial com o ser, que é a possibilidade de toda percepção e de toda redução.
  • Ao contrário de Nietzsche, Husserl opera a ruptura da intuição categorial, que faz aparecer a necessidade da relação inalienável entre ser e ipseidade.
    • Esta ruptura opera um alargamento da zona subjetiva, que se dá ao pensamento como ser-aberto, justificando a relação com o objeto transcendente.
  • Husserl, apesar de prisioneiro de uma tradição paralisante, dá fôlego ao questionamento filosófico, interrogando a fenomenalidade do fenômeno.
    • Este retorno ao questionamento transcendental, mesmo incompleto, é fundamental para uma verdadeira densidade de pensamento.
  • Husserl permanece uma figura ambígua: abre e fecha, avança e recua simultaneamente; abre uma possibilidade.
    • Ele descobre o modo de acesso ao fenômeno, mas não sonda sua essência; Heidegger se instala naquilo a que se teve acesso: o ato de doação (o ser).
  • Heidegger usa a fenomenologia como caminho de retorno ao ser como horizonte que descobre o fenômeno, e de retorno ao si mesmo como aquele que vive em relação a esse ser.
  • O método redutivo sofre uma transformação em Heidegger: torna-se a recondução do olhar da apreensão do ente à compreensão do ser desse ente.
    • Uma vez levada ao limite e manifestando o ser-aberto ao ser, a redução desaparece por si mesma, deixando o si frente ao ser.
  • O movimento da fenomenologia heideggeriana consiste em retornar a fenomenologia contra si mesma a partir de seus próprios resultados.
    • Não se trata de uma redução suplementar, mas da mesma redução a um nível superior: o dos vividos mesmos, para fazer ressaltar a nudez do primeiro olhar, o olhar para o ser.
  • A redução heideggeriana visa mais longe: o princípio de sua própria possibilidade, o ser que permite todo recuo reflexivo.
    • A redução se abre assim a sua própria retomada na possibilidade desdobrada pelo si, onde se reencontra o estar-junto-ao-ente.
  • Heidegger não visa os Sachen (os vividos) da fenomenologia husserliana, mas a Sache mesma: o ser dos vividos, a proveniência misteriosa de onde surgem.
    • O problema do si e o do ser são indissociáveis; o ser da consciência é a doação mesma do ente pela pré-compreensão do ser.
  • A região constituinte descoberta pela redução husserliana (a consciência) é um ponto de parada prematuro.
    • A rigorosidade fenomenológica exige seguir até a fonte mais profunda, arriscar o olho no obscuro.
  • Heidegger, longe de abandonar a redução, reduz no interior do resíduo obtido (a consciência pura) todo olhar dirigido ao constituído.
    • É preciso levar a purificação do olhar até o fim, reconduzindo os vividos noético-noemáticos à sua origem possibilitadora.
  • O olhar obtido pela redução husserliana é um olhar para os vividos, portanto, um olhar ele mesmo reduzido ou diminuído.
    • É preciso chegar ao re-visar (re-gard): guardar, deixar-se aproximar pelo que se olha, abrir-se à abertura primeira.
  • É preciso voltar à fonte mesma do olhar, ver o ser como condicionante que abre ao si toda compreensão.
    • Colocar a questão da possibilidade do ter-visto é impossível para Husserl, prisioneiro da concepção de que o olhar basta.
  • Heidegger não pode se contentar com uma método que não vai até o fim de si mesma.
    • O termo radical, que é também começo radical, é a abertura do si ao ser.
    • A fenomenologia, corretamente compreendida, é o conceito mesmo de método.
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