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Caron (2005:939) – "Toda alma resumida": a temporalidade

PEOS

  • A temporalidade como condição de possibilidade da estrutura unitária do cuidado e da ipseidade
    • A temporalidade emerge como fundamento que possibilita a unidade da existência, da facticidade e da queda, constituindo originalmente a totalidade da estrutura do cuidado
    • Essa temporalidade não é um ente intramundano ou um desdobramento no tempo, mas o próprio processo temporal, a temporalização, cuja unidade não é pré-constituída e aplicada externamente
    • Sua unidade é o modo de seu desdobramento, uma mesma pulsação que projeta para fora de si suas próprias possibilidades sem se separar delas, pois é essa projeção que constitui seu ser
    • A temporalidade é o projeto puro, não substancial, não proveniente de nenhum foco de permanência no fundo, não subjetivo, mas o fora-de-si originário em e para si mesma
    • Ela funda tudo o que foi visto do soi desde o início, sendo a unidade ekstática que funda a coexistência em um mesmo desdobramento do ser-para…, do para… e do junto-a…, como a mesma estrutura da existência
  • A temporalidade como finitude e processo de finitização
    • A temporalidade é sempre finita por essência, pois é o processo de finitização pelo qual um ente vem a ser, manifestando-se nessa finitude inerente à finitude do soi
    • Ela temporaliza: presentifica e finitiza, sendo ela mesma o lançamento e o processo de finitização, toda exterioridade que não provém de uma infinidade primordial, mas de um fundo-sem-fundo indeterminável
    • Desse fundo-sem-fundo jorram os entes em seu ser limitado, sem revelar nada sobre a origem dessa processualidade, apenas o puro jorramento do “vazio musical criador” do qual o soi é depositário
    • A temporalidade do soi é a estrutura do soi, cuja compreensão conserva a abertura fundamental à ipseidade, permitindo pensar essa ipseidade em seu ser-inteiro enquanto abertura
  • A estrutura ekstática-horizontal da temporalidade
    • A temporalidade é a unidade ekstática do futuro, do ter-sido e do presente, sendo a condição de possibilidade da constituição ontológica do Dasein
    • Sua estrutura essencial é a unidade ekstática fechada em si mesma do futuro, do ter-sido e do presente, conforme elucidado, sendo a condição de possibilidade da constituição ontológica do Dasein
    • A temporalidade é a condição de possibilidade da compreensão do ser própria ao Dasein, pois a compreensão do ser faz parte dessa constituição, na medida em que o Dasein se reporta ao ente que não é ele mesmo e àquele que ele é
    • Ela não é subjetiva nem depende unicamente do Dasein, mas há uma Temporalität (temporalidade do ser) como fonte dessa temporalidade que é o soi, sendo a temporalidade do soi o prolongamento e o cumprimento dessa Temporalität
  • O tempo como horizonte ekstático-horizontal
    • O tempo é o horizonte dentro do qual algo pode aparecer, sendo ele mesmo um não-ente, horizonte sempre recuado e recuável, ekstático
    • Ele torna possível, em um mesmo processo de antecipação a priori presentificante, a projeção que é o cuidado, sendo o soi, como projeção atencional, abertura ao ser que abre ao ente
    • A temporalidade é ekstático-horizontal, desenhando o horizonte ekstático de toda entrada em presença, sendo o ser-em-fora-de-si originário do Dasein ekstático o horizonte de toda manifestação
    • Todo ente é em seu ser temporalidade e só aparece pela vida dessa temporalidade, invertendo o gesto do pensamento tradicional que vê em todo ente uma permanência subjacente aos acidentes
  • A temporalidade como fundamento da intencionalidade
    • A intencionalidade, o fato de ser dirigido a algo, tem como condição de possibilidade a temporalidade e seu caráter ekstático-horizontal
    • O Dasein só é intencional porque é determinado em sua essência pela temporalidade, dependendo desse caráter ekstático-horizontal a determinação do Dasein de transcender
    • A temporalidade abre a compreensão do ser, sendo a temporalidade do soi o instrumento do ser para produzir, pela apreensão das ekstases, uma compreensão de si mesmo em seu desvelamento
    • Ela dá a algo como uma compreensão ontológica de ter lugar, de ter um Da, dando ao espaço de aparecer como tal no coração mesmo do ente e na espacialidade do Dasein
  • A compreensão do ser e sua relação com a temporalidade
    • A compreensão do ser compreende imediatamente que o ser é precisamente o que não depende dela, sendo o obstáculo, o precedente
    • Uma vez consequente consigo mesma, ela compreende que seu ser-compreensivo lhe vem desse mesmo ser que ela compreende, não o compreendendo por si mesma, mas pelo ser
    • A essência temporal da compreensão do ser provém de uma temporalidade ainda misteriosa, inerente ao ser mesmo, que Heidegger chama de Temporalität
    • Essa Temporalität é a fonte da Zeitlichkeit do Dasein, sendo o objetivo pensar a relação da temporalidade do soi com a maneira como o ser se desdobra em sua verdade, em uma temporalidade que pertenceria ao ser mesmo
  • O “Tournant” como movimento fundamental da filosofia
    • O “Tournant” não é um momento do processo de desenvolvimento de um pensamento particular, mas o movimento pelo qual o soi, tendo descoberto que é esse ser-aberto ao que não é seu mas o constitui, salta em sua própria origem
    • Ele perde pé e abandona todos os esquemas subjetivistas que tranquilizam o senso comum, forte da promessa que o ser faz àquele que o escuta: chegar a situar a essência do soi na única verdade realmente essencial, a verdade da essência mesma
    • O “Tournant” realiza o que é exigido de todo pensamento que descobriu em seu fundo o caminho que convém empreender e que se despossui de toda subjetividade para retornar ao lugar mesmo de sua eclosão
    • Ele não é um revirement do pensamento de Heidegger, mas o que estava anunciado desde a introdução de sua obra principal, uma tomada em vista renovada da própria proveniência do pensamento
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