o si poemático e a obra de arte (2005:1379)
PEOS
O homem é deveras, como diz Heidegger, esse Poema que o ser iniciou. A verdade do ser como aletheia consiste em produzir e pro-ferir. O ser pro-duz e pro-fere, faz avançar na presença, desvela: é poético ou poemático; e graças ao poder de nomear que confere ao si, o si é desvelador, produtor. Em sua relação com a clareira, o si é ele mesmo clareira; o Dasein é Lichtungsein; é a clareira que o ser se outorga para manifestar-se como esta floresta noturna e cinegética da qual emerge uma região luminosa na qual os entes vêm ao dia, fazem ressaltar o fundo de noite do qual provêm e revelam assim a essência doadora. Esta clareira é aquela que se aloja em nossa palavra: Lá somente onde advém a palavra da língua abrem-se ao mesmo tempo o ser e o não-ser, abre-se a clareza sobre seu fundo de noite. Como Lichtungsein, sois reveladores da clareira e do ato noturno porque invisível do qual ela brota: a Lichtung, quer se escolha insistir no sufixo ou no substantivo, é ao mesmo tempo o ato de desvelamento, ele mesmo velamento, e o espaço de clareza possível que dele jorra. Nesta Lichtung, há simultaneamente eclosão e retração do ser, eclosão do ser como retração e como reserva. E este lugar da eclosão e da retração do ser é propriamente o Da-sein, como explica Holzwege 4. Desenhando um espaço de luz ao ter relação com a noite doadora de espaço e encontrando-se ele mesmo portado pela obscuridade de um ato de desdobramento, o Da-sein é como o incêndio de que fala Max Jacob, este incêndio que é uma rosa sobre a cauda aberta de um pavão: desdobrado ele mesmo sobre o fundo de um desdobramento que de seus múltiplos olhos noturnos o observa, o interroga, o chama à resposta, o pro-duz a render clareza, e cuja abertura permanece em sua origem tão misteriosa quanto aquela da cauda de um pavão, o Da-sein mantém-se como uma rosa cuja fragilidade deixa ver de um só golpe a prepotência do abismo e a amplitude da doação que deve ser-lhe correlativa para que o tão vertiginoso acaso de uma presença no meio desta prepotência seja possível. Mantém-se frágil mas presente, este si que, zona luminosa, não deixa de flamejar tal qual um incêndio cujo foco permanece um mistério.
O Da-sein em quem se mantém o si é a região da abertura e do velamento, onde o ente advém e o ser se retrai. É, mais profundamente, a região da abertura do velamento enquanto tal, no sentido em que nele o velamento se faz aparecer como tal e convida o pensamento à meditação da dimensão doadora de seu fechamento. O Da-sein defronta o silêncio e, em cada ente, ouve-o vibrar doador. O si está estruturalmente disposto a responder à Palavra silenciosa que lhe é transcendentalmente endereçada, e responde nomeando, fazendo ele mesmo ressoar assim no silêncio a palavra que a prévia escuta do silêncio pôde fazê-lo proferir, buscando então a palavra mais bela a fim de que o irradiar daquilo que é assim dado à mostra alcance seu melhor cumprimento. [Os nomes] são termos e palavras [Worter], pelos quais aquilo que outrora já é, e passa por ente, é tornado a tal ponto apreensível e denso que, doravante, resplandece em seus contornos e vem à eflorescência, e assim reina como beleza na integralidade da paisagem, deixando ver o espaço sobre o qual o ente irradia seus limites e, portanto, o fundo de doação ao qual deve o seu ser. Ao deixar ressoar a palavra, o si pro-nuncia ao mesmo tempo que remete ao silêncio o que o silêncio lhe concedeu. É faltar à essência da língua vê-la apenas como um simples instrumento de comunicação entre os indivíduos; crer nesta redução instrumentalista é entrar em ex-comunicação com a Palavra que vos chama a uma comunicação mais originária no claro diálogo com o silêncio inesgotável (Claudel). No Dito deste silêncio fundamental cujo murmúrio quintessencial o pensamento corrente toma por um nada no sentido negativo, quer dizer, por algo que não possui nenhuma presença, e que o falatório dos propósitos cotidianos tenta dissimular - na pletora de um errar cuja possibilidade, como se sabe, é o aspecto da doação deste ser pronto a apagar-se para melhor preservar o que ele dá -, o ente aparece assim no mistério de sua presença e vê-se precisamente entregue às mãos do mistério desta presença. O silêncio chama; este apelo é a presença do si mesmo; o si que se alcança propriamente como sendo ele mesmo pro-duzido do silêncio responde, isto é, pro-duz por sua vez, não no sentido em que se torna produtivo como o homem da técnica, mas no sentido em que porta adiante (producere), em que oferece o que o ser já portou no aberto.
O ser é pro-dução, ou seja, jorro, e o si é convocado a fazer jorrar pela palavra o que o ser faz jorrar, a prolongar o ser como Seinlassen ao deixar o ente ser e destinar-se ao pensar. O ser é um poiein do qual o si é convidado a reconduzir a dinâmica: o ser deixa ser, o si autêntico deixa ser o que é deixado ser, e torna-se neste sentido ele mesmo acompanhador do ato de ser que ele consuma ao conduzir no aberto da língua o que o ser conduz no aberto do mundo. A palavra torna-se aquilo pelo qual o ente se cumpre no ato de eclosão que o porta à presença: A palavra dá a ver seu mais alto reinado. Não é mais apenas uma simples tomada, um instrumento para dar um nome a algo que está lá, já representado; não é apenas um meio para exibir o que se apresenta por si só. Mas muito mais ainda: é a palavra só que concede a vinda em presença, isto é, o ser - no qual algo pode fazer aparição como um ente. O si faz memória do Seinlassen, no pensamento do ser em sua verdade, e deixa o florescimento físico ter lugar, ao deixar vir ao pensamento e ao nomear o ente num espírito de gratuidade contempladora. A palavra é o que conduz uma coisa a ser coisa, é a colocação em coisa da coisa, die Bedingnis des Dinges. A essência do si é pro-dutora (ou melhor, condutora) da vinda em presença, sendo o si mesmo estruturalmente conduzido pelo desvelamento do qual é o elemento consumador; a essência do si depende da poiesis do ser, deste ato inicial cujo gesto fundamental o si reconduz, pela palavra e sua pro-fereção; a essência do si é, pois, poemática, e o poeta é o homem cuja ipseidade, portada pela profundidade oculta do ato que é a palavra e fazendo uso do dom de exposição que lhe é próprio, porta-se ao mesmo tempo sem o saber na essência mesma do ser como doação de presença; pois o poeta […] vislumbrou - embora sob um véu - um outro reinado da palavra. Toda ipseidade aparece poématica, quer dizer, acompanhadora do desvelamento; mas o poeta assume plenamente, ao instalar-se no dizer, esta estrutura geral da ipseidade. Ele é esta voz e via que mostra o sítio do Próprio; é esta ipseidade que assume viver na co-respon-dência (Ent-sprechung) desdobrada pela Palavra: a co-respon-dência, na qual o homem escuta verdadeiramente o apelo da Palavra, é este dizer que fala no elemento da poesia. O dizer poético, diálogo com o ser ou a nudez do ente enquanto tal, faz repousar o si em seu próprio pelo uso poemático da palavra. O diálogo poético exerce profundamente a palavra: prepara-a para a exposição do que permanece e faz assim ao poeta o dom do livre uso da faculdade de repousar no Próprio [Eigen].
