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estudos:caron:si-mesmo-fundo-peos-328

resistência inicial do si mesmo ao seu fundo "letal" (2005:328)

PEOS

  • A problemática do si mesmo não se coloca explicitamente no pensamento grego originário, mas isso não significa a ausência de uma compreensão da essência do homem.
    • O homem não é ainda considerado como centro do ente em seu conjunto, não havendo o primado do sujeito, da consciência como condição do ente ou da certeza como critério de verdade.
    • O homem grego não é pensado como um ser aberto àquilo que se abre para ele (não é ainda o Dasein heideggeriano), mas mantém-se nesse estado de abertura de modo fundamentalmente impensado.
    • Vive-se num estado ontológico inconsciente, onde o ser é um motivo de pensamento, mas esse fato não dá a medida para uma compreensão pensante da essência do homem como vínculo ao ser.
  • A essência do homem aparece aos gregos como o “mais inquietante” (to deinotaton), conforme atestado no coro de Antígona de Sófocles.
    • O homem é o mais inquietante no seio do inquietante, participando dele mas também o ultrapassando em grau.
    • A noção de deinon possui uma dupla significação: por um lado, designa o terrível, o preponderante e prepotente (Überwältigend) que provoca terror e angústia; por outro, designa o violento como aquele que emprega a violência, cujo traço fundamental é o fazer-violência.
    • O homem é deinon, portanto, tanto por estar exposto à prepotência do ser, quanto por ser ele mesmo o “fazendo-violência”, aquele que exerce violência contra o prepotente.
  • Esta posição do homem como “fazendo-violência” estabelece uma fratura originária e uma relação agonística com o ser.
    • Longe de um harmonioso monismo, o homem grego se compreende em luta contra uma realidade violenta, desejando escapar à sua dominação.
    • O fazer-violência consiste em reunir o que é vivido como nos ultrapassando – a perdoação (Walten) do ser – e “produzi-lo numa paciência”, ou seja, trazê-lo para dentro de um aberto.
    • Este produzir (hervor-bringen) é um fazer passar do estado velado ao não-velado, uma apresentação. Todo desvelado é um intervalo entre um velamento, sinalizando para seu futuro desaparecimento.
    • A violência do homem reside em querer extirpar o que acede ao aberto do destino de seu desvanecimento, mantendo o ente no aberto e a si mesmo no sítio do visível.
  • O pensamento originário, portanto, já recobriu a essência da origem, mas sem pensar a unidade conflitiva entre desvelamento e velamento.
    • A essência do homem consiste em se colocar do lado do desvelado e contra o velamento, arrancando a este último o que a ele está destinado a retornar.
    • Os primeiros pensadores gregos testemunham a dominação do ser e o poder do homem de se erguer contra ela, mas a possibilidade mesma desta confrontação não é pensada.
    • Surge uma contradição: o mais inquietante (o si mesmo) não coincide com o prepotente (o ser). O homem se enrijece contra a lei do ser, vivendo a fratura.
  • A palavra φύσις (physis) expressa a apreensão grega originária do ente em seu conjunto.
    • Physis diz o que desabrocha por si mesmo, se desdobra abrindo-se. Este desdobrar é, ao mesmo tempo, um retornar para dentro de si, para suas raízes no fechado.
    • O termo, porém, não diz explicitamente o vínculo essencial com o nada ou não-ente do velado. A “película” fina do desvelado faz esquecer o ato que o desvela.
    • Heráclito recorda, no fragmento “physis kryptesthai philei”, que o emergir se mantém no pôr-se-a-coberto, que o ato de vinda à presença é em si mesmo o invisível.
    • Para Heidegger, o ser é abertura de declausura que a si mesma se fecha. A dimensão noturna do ser, seu retraimento (kryptesthai), deve permanecer ligada a todo pensamento do ser, pois é permanecendo noturno que o ser faz aceder o ente à claridade.
  • O si mesmo grego, face ao desvelamento, tende a se instalar no humanamente visível, esquecendo progressivamente seu contato originário com o fundo obscuro.
    • O si mesmo se situa imediatamente frente ao inquietante, erigindo-se como o mais inquietante. Cessa de olhar para a causa profunda de sua atividade violenta de arrancamento ao velamento.
    • A physis é pensada como o que se desdobra por si mesmo, independentemente do si mesmo. O si mesmo, não pensado em continuidade com a desocultação, é suscetível de esquecer o contra originário com o qual se constitui.
    • A noção de αλήθεια (aletheia), comumente traduzida por “verdade”, contém mais do que a adequação no interior do desvelado. Significa o não-mais-estar-oculto, o ter-sido-arrancado ao retraimento (λήθη, lethe).
    • O comportamento do si mesmo face à desocultação consiste em instalá-la para se instalar a si mesmo na luz. A luta para conquistar essa disponibilidade, para pôr em luz, é ainda consciente no grego originário.
  • As palavras dos primeiros pensadores são sinais desta consciência do perigo de perder de vista o fundo do qual a physis emerge.
    • Anaximandro, Heráclito, Parmênides tentam manter o pensamento e o si mesmo num vínculo essencial ao seu solo natal.
    • No entanto, não pensaram a plena continuidade entre a obscuridade reconhecida como primeira e a luz que, apesar da prepotência do inquietante, aí se encontra.
    • O vínculo do ser e do ser-homem que lhe faz face não é tomado em guarda. Não há palavra grega para a co-pertença ek-stática do homem ao ser.
    • Esta continuidade impensada abre a porta para a dualidade e para a possibilidade de um dos domínios (a tendência humana à clareza ou a tendência do ser ao retraimento) predominar sobre o outro.
  • Heráclito, ao indicar a prepotência do retraimento, não pensa o lugar da realidade humana no “jogo” do ser consigo mesmo.
    • O fragmento “physis kryptesthai philei” possui uma dupla dimensão: indica a tendência íntima do ser para permanecer em retraimento, mas não pensa a coexistência, no ser-homem, entre retraimento e emergência.
    • A abertura (aletheia) é ela mesma um modo de ser do Dasein humano. Aletheuein significa ser-descobridor, arrancar o mundo à sua ocultação.
    • A dimensão de retraimento do ser não deve mascarar sua dimensão de partilha com aquele que ele estabelece como seu Da (aí).
  • O si mesmo grego constrói-se contra a prepotência da ocultação, numa relação belicista.
    • O si mesmo não é (ainda) um sujeito cortado do ser, mas é contra o ser no ser. Precisa do inquietante como o oposto ao qual se opõe para definir sua essência.
    • Este precário equilíbrio no combate não pode durar, pois o ser e sua violência inquietante tendem a entrar em retraimento.
    • Quando o inquietante se retrai, o si mesmo move-se apenas no interior do desvelado, e a relação com a ocultação primeira tende a esvanecer-se.
  • Com o advento do primado do visível e da luz – ou seja, com o início da metafísica –, o si mesmo perde seu obstáculo originário e entra em declínio.
    • O si mesmo precisa, para ser si mesmo, de um obstáculo, de um “não-eu”. Para Heidegger, este obstáculo deve permanecer uma indeterminação abissal, não a figura de um ente.
    • Este obstáculo abissal aparece em sua teneur apenas nos primeiros gregos, baseado na intuição da “prepotência do inquietante”.
    • Com o retraimento do inquietante, o si mesmo interpreta-se a partir do ente aparecido, esquecendo-se como contato com o ser. A primazia do ente deixa de ser contradita pela maneira como o si mesmo se relaciona consigo.
    • Inicia-se assim a “errância metafísica”, o esquecimento progressivo do ser como tal, associado a um crescimento do paradigma da visibilidade.
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