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Caron (2005:1639) – si não é um sujeito independente, mas emergente na doação
PEOS
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Estrutura do si (Selbst) no pensamento tardio de Heidegger, tomando como eixo central a noção de dom (Geben) e sua relação com o Acontecimento Apropriador (Ereignis). A análise procura demonstrar como o si não é um sujeito independente, mas emerge e se constitui na doação originária do ser.
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O ponto de partida é a compreensão do “Es gibt” (“Há”) como a doação pura, o ato de dar mais originário.
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O “Es gibt” não é um ente, mas o próprio dar-se do ser e do tempo, identificado como o Ereignis.
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A essência do Ereignis é doar-se velando-se, retraindo-se. Este retirar-se não é uma falha, mas a condição de possibilidade para que algo dado apareça.
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O pensamento metafísico, ao permanecer no primeiro registro de velamento (o ser velado no ente), interpreta este retrair-se subjetivamente, como uma negligência do pensamento.
A compreensão correta exige atentar para um segundo registro de retraimento, mais originário: o do Es gibt no próprio ser.-
Este retrair-se não esconde algo atrás de si, mas é um abrigar (Bergen), um pôlono-abrigo. Ele é um modo de abertura.
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O Ereignis, como pura doação, possui um “pólo de obscuridade” correlato ao seu ser-dom. Esta noite não é malévola, mas o resguardo necessário da fonte doadora.
O si (Selbst) é concebido como o coração do dom do Ereignis, como aquilo que é co-doado junto com a doação para que ela se manifeste.-
O si não é exterior à doação, mas a própria doação chegando a si mesma. Ele é o “aqui” (Da) do ser, o lugar (Ort) da clareira (Lichtung).
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A imagem do rio (o Danúbio em Hölderlin) ilustra esta morada: o si só pode construir autenticamente seu habitar no fluxo da doação.
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O si vem do longínquo (a transcendência do ser) e se mantém no longínquo, que é a própria proximidade do que doa.
A estrutura do si é essencialmente apofática: ela se efaz (s'efface) diante do dado para deixá-lo aparecer, repetindo assim o movimento de efazimento do dom originário.-
O si é o vetor da doação, especialmente através do poema e do pensamento.
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O “Es gibt” consiste em sua própria perda, em um efazimento que é uma doação sem mistura. A continuidade entre doação e dado reside neste movimento.
A relação entre velamento (Verbergung) e desvelamento (Entbergung) é fundamental para entender a estrutura do si.-
A interpretação corrente inverte a relação causal: não é o aparecer do ente que oculta o ser, mas o velamento do ser (como doação) que permite o aparecer do ente.
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Não levar em conta este segundo registro de retraimento (o do Es gibt) leva a reduzir o mistério do ser a uma negligência subjetiva e a compreender o homem como separado do ser.
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A metafísica, ao absolutizar a clareira como horizonte de reapreensão do ente, esquece que a clareira emerge da noite. A razão técnica contemporânea é a culminância deste esquecimento.
O Ereignis como doação pura é o mais recôndito (das Unscheinbarste). Ele não pode ser deduzido ou explicado por nada mais originário.-
Ele é o dom que dá a si mesmo (das Geben gibt sich). Sua tautologia (“o dom doa doando”) encerra o maior impensado.
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Para que o dom se doe, ele precisa dar-se a um destinatário. A necessidade do dom é dar-se, e isso produz uma ipsidade (ipseidade).
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O si é, portanto, necessário para que o dom apareça como dom. Sem o si, o que é dado não se manifestaria, os entes não apareceriam.
O si é o lugar onde o duplo do “Es gibt” se torna manifesto: “Es gibt: Es gibt” (“Há o 'Há'”).-
Este redobramento atesta a manifestação de si da doação no si. A doação se doa a si mesma no ato de se dirigir a um si.
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O si é a pontuação, os dois pontos que asseguram a proximidade a si do mistério do dom. Ele é o laço abissal que remete o abismo a si mesmo.
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Questionar o mistério é já estar nele. O pensamento que questiona o Es doador já está tomando-o sob sua guarda.
O Lassen (deixar-ser) é o nome para este ato doador originário. Ele permeia todas as esferas: é o transcendental verdadeiro.-
O Lassen encontra no si sua morada. A essência do Lassen não é apenas deixar ser os entes, mas deixar ser o próprio deixar-ser, o que exige a presença de um si.
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O si é o Da (o aí) produtor do domínio (Spiel-Raum) onde todo ente aparece. Ele não é um ente, mas está junto ao ente em seu ser.
A co-pertença (Zusammengehören) do homem e do ser se dá no Ereignis, entendido como Apropriação (Eignen) e Acordo (Einklang).-
O Ereignis não é um princípio exterior. Não podemos colocá-lo diante de nós. Nós nos mantemos em sua prepotência (Vor-macht).
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As duas propriedades do Ereignis são: seu desapropriação (Enteignis), pelo qual se vela para preservar o que apropria; e a vinda deste desapropriar ao homem, que assim atinge a si próprio.
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O homem é o domínio onde o Ereignis se dá como tal, onde o Acordo aparece como Acordo. O Dasein é o lugar do advento do retraimento.
O si, ao atingir o pensamento do Ereignis, perde sua denominação de “si” e é nomeado como “o mortal” ou “o pensamento”.-
O “mortal” é aquele que, face à morte, faz face ao divino no Geviert (Quadriparti) desdobrado pelo Ereignis.
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O isolamento ontológico do si é a condição para que o mistério se destine. A morte é “o escrínio do ser”.
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A Eigentlichkeit (autenticidade) em Ser e Tempo significa reagir de maneira apropriada à apropriação geral do Ereignis.
O pensamento é o dom do dom, a atividade que, deixando ser o ente na unidade do Lassen, reconduz o Ereignis.-
Através da palavra e do pensamento, o homem é co-desvelante. Ele permite que um Acordo apareça: tudo é um na unidade aberta da doação.
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O ser “precisa” (Brauch) do homem não como dependência, mas como campo de fenomenalidade para aparecer em seu retrair-se doador.
A diferença em relação à mística (por exemplo, Mestre Eckhart) é estabelecida: em Heidegger, perder-se no ser não é aniquilar o si, mas encontrá-lo como o destinatário finito da doação infinita.-
O ser heideggeriano não é o lugar da aniquilação do eu, mas o domínio onde o si compreende sua presença como si, estruturada inteiramente pelo ser.
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A tarefa da individualidade própria é assumir esta estrutura de deixar-ser já presente, reunindo-se (Ge-) em torno desta Gelassenheit.
O texto culmina na ideia de que a ordem heideggeriana é a ordem do Simples (das Einfache), cuja doação envia cada elemento ao seu próprio.-
O mistério último não é Deus em si, mas sua manifestação, seu querer doar-se a um si.
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O si próprio é aquele que responde a este mistério, habitando sua prepotência, nomeando os entes e, através do pensamento-poético, deixando que a bênção da doação se dê lugar no mundo.
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