estudos:caron:ser-tempo-si-peos-ii-3-2
o ser, o tempo e o si-mesmo (2005:1599)
PEOS
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Chega-se assim a um ponto onde o ser, o tempo e o si-mesmo encontram sua compenetração estrutural.
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Por um lado, o Dasein porta e mantém no ser-todo de sua ipsidade três ecstases às quais dá lugar.
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Essas ecstases aparecem como a recondução daquelas dessa ternária doação que é em si mesmo o tempo como presentificação.
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O si-mesmo é temporalidade, o ser é temporal.
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“Ser e Tempo” culmina no desprendimento da temporalidade da ipsidade.
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No entanto, o pensamento não tendo ainda feito a prova do ser enquanto tal, não estava em medida de passar da temporalidade do si-mesmo àquela do ser.
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Para evitar a irracionalidade de um salto da temporalidade do si-mesmo para a temporalidade do ser, é preciso praticar paradoxalmente outro salto.
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Esse salto é o salto na origem, no próprio ser.
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Esse salto possui toda a racionalidade necessária, pois não é outra coisa senão o ato de seguir a direção que a estrutura do si-mesmo mostra a cada instante.
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Essa direção é a do ser, cujo sem-fundo lhe dá precisamente sua estrutura.
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Agora que fizemos a prova do ser através do salto na origem, e evitamos o salto de uma temporalidade a outra pelo salto natural e inerente à estrutura do si-mesmo, o ser aparece em sua consistência temporal.
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O si-mesmo manifesta-se em retorno como o Lá desse processo de presentificação que é o ser.
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A presentificação faz ser um ente-presente cercado do vazio que lhe confere espaço de fulgor e mobilidade.
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Esse fazer-ser só é possível se o si-mesmo está lá para dar seu olhar ao vazio em questão e assim manifestá-lo.
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Ao mesmo tempo, o si-mesmo torna-se ele mesmo nesse rapport ao vazio temporalidade.
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Assim, Heidegger pode dizer, falando de “Ser e Tempo”, que o nome “tempo” é o prenome daquilo que mais tarde se chamará “a verdade do ser”.
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O si-mesmo é doravante retomado na verdade do ser como Ereignis.
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Em continuidade com a problemática de “Ser e Tempo”, sua temporalidade aparece inteiramente retomada naquela do ser.
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Por outro lado, o tempo e o ser são ambos um mesmo processo de apresentação ou de estatificação.
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O ser é ser-temporal e o tempo é fazer-tornar-se.
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O estado surge no meio e no elemento do não-ente.
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Todo futuro e todo passado são o não-ente de todo ente.
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O não-ente é o futuro e o passado do estado-presente.
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Ele é aquilo para onde o estado vai e aquilo de onde ele vem, aquilo de onde ele vem e aquilo para onde ele retorna.
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O ser e o tempo são idênticos; cada um diz o que é ao dizer o outro.
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São estritamente idênticos, não no sentido de serem retomados numa estrutura de troca ou reciprocidade.
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Eles coincidem e têm a mesma significação, que Heidegger resume na palavra Anwesen.
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Anwesen retoma em si as duas dimensões do ser e do tempo.
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Ser significa Anwesen – aproximação do ser, seu desdobramento na presença.
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Anwesen é uma palavra que pertence ao registro do ser, como mostra a presença de Wesen, tanto quanto ao do tempo, pois sua significação corrente é a da presença.
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No Anwesen aparece o ser-temporal, a identidade de ser e tempo.
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Heidegger afirma, contudo, no início da conferência “Tempo e Ser”, que o ser não é temporal e que o tempo não é, pois não é um ente, e só o ente é.
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Com o ser e o tempo, não se está mais no registro do ente ou da coisa.
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Está-se no registro do não-ente que faz ser o presente.
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É por isso que não se pode dizer com todo rigor que o tempo é, pois só o ente é.
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Nem se pode dizer que o ser é temporal, pois só uma coisa presente é temporal.
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Ser e tempo se determinam reciprocamente, mas de tal modo que aquele – o ser – não pode ser declarado temporal, não mais que este – o tempo – pode ser declarado ente.
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Como falar então de uma identidade do ser e do tempo?
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Distinguindo os registros: não é como dois entes que o ser e o tempo são idênticos, mas como dois não-entes.
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O ser tomado em si mesmo, isto é, em seu processo de desdobramento e fora de toda consideração de coisa, está impregnado do mesmo gesto de apresentação que o tempo, gesto que não é nada de ente.
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Igualmente, o tempo tomado em si mesmo, isto é, em seu processo de temporalização e fora de toda consideração de agora, está impregnado do mesmo gesto de desdobramento que o ser, gesto que não é nada de ente.
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É esse gesto, o Anwesen, cuja doação inerente deve ser pensada.
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É para que no próprio presente venha a se dar o lassen, isto é, o agir do desdobramento mesmo.
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O ser não é uma coisa; por consequência não é nada de temporal – e no entanto, enquanto ser-em-presença, ele é determinado pelo tempo.
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O tempo não é uma coisa; por consequência não é nada de ente – mas em seu passar, ele permanece constante, sem ser ele mesmo algo de temporal como o ente que está no tempo.
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A identidade do ser e do tempo não tem lugar num nível ôntico, mas no domínio do não-ente desdobrante, no domínio do Anwesen – onde se aloja o lassen.
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É no não-ente que o ser-temporal se desdobra, é como não-ente que ele é desdobrante.
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O ser não tem nada de ente, o tempo não tem nada de temporal.
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O não-ente desdobrante é a terra comum do ser e do tempo.
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Ser e tempo são idênticos no registro da doação nua, isto é, no seio da doação de um mesmo Es gibt.
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Esse Es gibt é o domínio no seio do qual desdobra aquilo que não é no sentido de que não é nada de ente.
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Por que, então, Heidegger estabelece essa distinção entre ser e tempo que percorre todo o texto de “Tempo e Ser”?
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O mesmo texto não cessa de entrecruzar os registros vocabulares para que o ente, o presente, o advir e a presentificação se manifestem na identidade de um mesmo Anwesen.
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A significação de Anwesen concerne tanto ao ser quanto ao tempo.
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A distinção serve justamente para fazer sair essa identidade do registro ôntico.
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Em seguida, serve para fazer ressaltar essa identidade e o elemento que constitui ser e tempo como um tal idêntico Anwesen.
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Distinguindo ser e tempo, faz-se aparecer sua identidade no Anwesen.
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Deixa-se de lado sua denominação para pensar essa identidade que é o desdobramento do qual eles são duas maneiras de abordar o mistério.
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Fazendo aparecer sua distinção, suprime-se paradoxalmente essa distinção.
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Aprende-se a pensar o elemento de doação do qual eles são cada um portador.
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Em sua denominação, eles o pronunciam insuficientemente, como prova sua imemorial distinção, que se revelou artificial.
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Ser significa Anwesen, tempo significa Anwesen, ser e tempo são o mesmo Anwesen, o mesmo desdobramento, a mesma doação, a mesma presença, e o mesmo mistério.
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Ser e tempo constituindo a mesma doação, é ela que deve ser pensada.
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Isso torna-se possível uma vez manifestada a identidade do ser e do tempo pelo desprendimento do ser-temporal.
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Distinguem-se ser e tempo apenas para melhor manifestar sua completa coincidência.
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O objetivo é fazer desse mesmo elemento que os faz doação, fazer dessa doação que se comunica através deles, o centro do pensamento.
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