A realidade humana no Ereignis: o si mesmo e o dom (2005:1559-1560)
PEOS
“Aqui não há fabricação, não há fazer, há dar”. HEIDEGGER, Tempo e Ser
A Mesmidade nos mostrou sua irredutibilidade a qualquer esquema identitário tradicional e revelou o elemento de co-pertencimento do qual ela provém: o Ereignis. “O homem e o ser são transpropriados um ao outro. Eles pertencem um ao outro. Essa pertença mútua nunca foi considerada de perto e, no entanto, é dela que, em primeiro lugar, o homem e o ser tiram as determinações essenciais pelas quais a filosofia os interpretou de modo metafísico”. A filosofia nunca pensou seu próprio elemento de desenvolvimento. Sem essa co-pertença do homem e do ser que precede todo ato de pensar, que precede todo pensamento sobre o homem ou sobre o ser, nada é possível na filosofia, nem mesmo a menor definição da essência do homem ou do ser. No entanto, “essa co-pertença que predomina no homem e no ser, nós a desconhecemos obstinadamente, enquanto representarmos todas as coisas, com ou sem dialética, simplesmente sob os aspectos da ordem e da mediação. Ao proceder assim, nunca descobrimos nada além de conexões, que são estabelecidas a partir do ser ou do homem e que fazem aparecer a co-pertença do homem e do ser como um entrelaçamento de relações”. Heidegger critica a tradição filosófica por ter determinado o elemento de comunidade ontológica do homem e do ser, nos casos em que o fez, a partir de um dos termos, sem vontade de mergulhar no próprio elemento para observar o desdobramento dos termos a partir de sua essência. Nunca a co-pertença do homem e do ser como tal foi tomada por si mesma, a fim de que pudéssemos nos colocar na posição de assistir fenomenologicamente ao surgimento da relação e, em seguida, dos termos. “Ainda não chegamos à co-pertença. Mas como podemos chegar lá? Abandonando a atitude do pensamento representativo. Esse abandono é um salto”.
É nesse salto que nos mantemos desde o início de nossa segunda seção, a fim de assistir ao surgimento do eu e de sua relação com o ser a partir do elemento doador primordial. Esse salto nos leva ao abismo, mas “esse abismo não é um vazio nem uma confusão obscura, mas o próprio Er-eignis”. Por meio de nossa permanência nesse salto, chegamos ao pensamento mais originário, o pensamento do Ereignis, no qual a relação do ser com a essência do homem encontrou o centro de seu surgimento. O Ereignis não é uma articulação dialética de dois termos pré-existentes cuja origem não seria questionada, mas o elemento em que o ser e o homem se apropriam um do outro, cada termo mantendo sua essência da verdade do ser como doação. Uma relação de mesmidade é a fonte dos termos que ela gera, cada um dos termos só tem sentido na economia de um ato universal de doação. É essa doação que estrutura a própria forma dos termos, e estes só aparecem à sua maneira pela pertença a essa doação inicial na qual tudo se resume. A Mesmidade implementada pela doação que é Ereignis desenha ela mesma os termos da relação e a relação dos termos. Este salto na origem, que nada mais é do que a habitação no puro ato de ser, trata-se de mantê-lo uma última vez, não com o objetivo de deixar de permanecer nele, o que seria inevitavelmente falhar na tarefa do pensamento, mas para que, em sua permanência, nos aprofundemos na fonte da doação que concede, como Ereignis, o ser, o tempo e o eu.
