estudos:caron:obra-de-arte-peos-1416
obra de arte (2005:1416)
PEOS
A obra de arte como instauração de mundo e terra
-
A essência da arte é poemática: “a arte advém como Poema”.
-
Toda arte é essencialmente Poema (Dichtung), pois deixa advir a verdade do ente enquanto tal (o deixar ser).
A origem da obra de arte é a aletheia, que no si mesmo toma a forma da Dobra do ser e do ente.-
A obra de arte faz advir a Diferença.
-
Nela, o desvelamento advém como desvelamento, pois é deixado ser.
A essência da arte é “o se pôr em obra da verdade do ente”.-
Na obra, a coisa aparece em si mesma, sustentada pelo ato de desvelamento que a institui em sua gratuidade e presença pura.
-
O espectador se inclina para ela de modo desinteressado (Kant), ou seja, deixando-a ser.
O criador é o homem poemático, o guardião do advir à luz.-
Ele realiza incessantemente a colocação em obra da verdade (sich ins Werk setzen da aletheia).
-
O quadro de Van Gogh (os sapatos do camponês) é a abertura daquilo que o produto é em verdade; nele, o ente faz aparição na eclosão de seu ser.
A obra de arte manifesta o surgimento.-
Nela vemos não só um mundo, mas o surgimento desse mundo, pois o tomamos como se dá, o contemplamos e o deixamos vir até nós.
O historiador da arte encobre esta revelação ao considerar apenas o conteúdo apresentado, nunca a vinda em presença desse conteúdo.-
A obra não é a reprodução de um ente particular, mas a restituição de uma “comum presença” das coisas.
O “gênio” de uma obra consiste na unidade de seu conteúdo no seio de um mesmo deixar ser.O conceito de "terra" na obra de arte
-
Na obra de arte, a terra advém.
-
A terra não é sinônimo do ser, nem redutível à relação ente/ser.
-
Heidegger a relaciona com a physis: “Isso, nós o nomeamos a terra”.
A terra é o seio no qual o desabrochar retoma, enquanto tal, tudo o que desabrocha.-
Ela é o solo natal, o lugar onde se abriga o desvelamento mesmo.
-
É um nível de profundidade ontológica maior que a mundanização (Welten) do mundo.
A obra de arte instala um mundo, e para esta instalação necessita de um suporte: a terra.-
Há três níveis: o mundo apresentado, sua vinda à presença (já misteriosa), e o suporte de sombra (a terra) de onde brota esta vinda.
A terra é o que permanece inacessível, refratário à redução em objeto utilizável.-
É aquilo que se volta para nós ao se desviar, que nos fala ao se calar.
A estética tradicional, que considera a obra como objeto para um sujeito e se guia pela relação sujeito-objeto (especialmente o sentir), deixa escapar a terra.-
Ela não leva em conta o ser-obra da obra, o apelo originário que constitui para um olhar se posar sobre ela.
A terra é este apelo que, em seu silêncio, incita o artista a criar e o espectador a olhar.-
A interrogação sobre a arte deve começar a partir da obra.
A obra de arte é terra: elemento imaterializável, irredutível, figurado pela matéria da obra mas não se confundindo com ela.-
Na obra, a matéria adquire um novo estatuto: não desaparece na utilidade, mas é trazida à luz, fazendo-se ressaltar no aberto do mundo da obra.
-
A matéria é devolvida a si mesma e à sua espessura; pela primeira vez, ela é olhada.
A matéria é o que é concedido pelo ser para um espaço de possibilidade.-
Na obra, ela é a figura deste espaço, o rele do dom que o ser concede para que o homem possa desvelar.
-
A terra é a matéria aparecendo carregada do segredo e designando a inexplicável impulsão de presença sobre a qual um mundo se erige.
A obra de arte como combate e abertura para o ser
-
A obra de arte é a unidade da distinção entre mundo e terra.
-
Mundo e terra são essencialmente diferentes, porém nunca separados.
-
O repouso aparente da obra recobre um intenso conflito.
A verdade se institui na obra como combate entre clareira (Lichtung) e reserva, entre mundo e terra.-
Este combate não pede para ser apaziguado, mas instituído e aberto a partir do ente (a obra).
A obra é aparição de uma intensa dilaceração ontológica, permanecendo una.-
Ela é uma figura do si mesmo que a produz, ele próprio portador, como Dasein, da diferença ontológica.
A diferença mundo/terra não se identifica com a diferença ontológica.-
É uma diferença produzida pelo Dasein, refletindo a verdade de sua constituição, mas a iniciativa pertence ao ser como Diferença.
A arte nos desperta para o ser.-
Por sua dimensão de terra, que abre sobre o ser, a arte convoca o si mesmo à verdade do ser.
-
O combate mundo/terra é a figura de um combate mais profundo entre ser e ente no seio da Ereignis.
A beleza na obra de arte é a unidade sempre aberta que liga os elementos em um mesmo mistério de emergência.-
A beleza é a presença mesma do ser; nela, o ser projeta a unidade aberta e ligante que é própria do Seinlassen (deixar ser).
-
A beleza é o motor do pensamento, pois abre o campo do mistério e da abertura da diferença em sua Mesmidade.
O poemático, essência de toda obra de arte, é também o reflexo da estrutura do si mesmo.-
A produção artística confirma a estrutura poemática do si mesmo, transcendentalmente sintonizada com a Palavra.
-
O ser é um Poema, uma Palavra na qual o si mesmo que fala está sempre já retomado.
-
O si mesmo torna-se topologia do ser, o domínio no qual o ser se apropria a si mesmo e se revela como apropriação.
estudos/caron/obra-de-arte-peos-1416.txt · Last modified: by mccastro
-
-
-
