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Caron (2005:965) – sentido metodológico e ontológico da Kehre
PEOS
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Introdução ao Problema da Kehre e da Estrutura do Si
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A primeira seção da obra estabeleceu a temporalidade como estrutura da ipseidade, diferenciando o si de toda interpretação metafísica como subjetividade.
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O si é compreensão do ser, uma simultaneidade de fechamento e abertura, possibilitada pela abertura temporal.
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O pensamento de Heidegger não é uma subversão romântica da realidade, mas uma fenomenologia que desdobra a essência dos fenômenos, retornando à fonte essencial que permite o advento do si e do eu.
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O comportamento fundamental do sujeito é determinado como compreensão do ser, ponto de partida que não apaga a riqueza da personalidade humana.
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Evidencia-se assim a abertura possibilitante própria à ipseidade, que nunca vem à evidência nos comportamentos noéticos, mas constitui sua própria possibilidade.
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O Paradoxo da Abertura do Si e a Condição da Reflexão
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O si se mantém permanentemente em seu ser-aberto, exposto àquilo que lhe permite compreender algo como ser.
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Essa abertura permanente é condição de possibilidade para o Dasein fazer aparecer um ente e, correlativamente, fechar-se sobre um ente.
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Reside aí o paradoxo: a abertura dá acesso ao manifesto do ente, mas também permite o fechamento sobre esse ente, recalcando aquilo a partir do qual o manifesto é possível.
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A abertura para algo é a condição de possibilidade da reflexão.
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O si só pode voltar a si a partir dessa abertura que o transcende, a partir do lugar puro do ser em seu retraimento.
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A Individuação a partir da Abertura e a Crítica ao Sujeito Invariante
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Toda individuação, autêntica ou inautêntica, ocorre por meio dessa abertura e em relação ao que ela abre.
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O eu se individualiza em relação ao conjunto do ente, o si em relação ao nada.
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Não há um sujeito como invariância por trás dos vividos, como presença contínua e princípio.
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Toda presença é resultado de um processo temporal-fundamental de presentificação.
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O sujeito só aparece como invariante primeiro se for arrancado de seu processo de advento, se seu surgir permanecer impensado e se o caráter possibilitador do ser cair no esquecimento.
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O Eu como Fenômeno Derivado e a Precedência do Si
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A aparição de um sujeito só é possível dentro do campo de aparição sempre já aberto pela abertura do si.
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O sujeito é apenas o fenômeno de uma fenomenalização originária, cuja manutenção no impensado pode gerar a ilusão de um estatuto primordial e independente.
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O eu é o precipitado de um movimento que o transcende e o constitui: o movimento de sua própria transcendência.
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O eu é um reflexo e só pode ser considerado suporte dos vividos mediatamente, após ter sido dado a algo como um vivido aparecer como tal.
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O eu é sempre derivado e depende da precedência transcendental de um si em relação íntima com o ser.
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A mesmidade própria ao si existente é separada por um abismo da identidade do eu que se mantém na multiplicidade dos vividos.
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O Movimento de Degringolação do Si e a Identidade Coletiva do “Se”
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O único meio de evitar a perda do fundamento no que ele funda reside em desvelar o movimento de degringolação da ipseidade.
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Esse movimento faz aparecer um eu com uma evidência infundada e precária, com a qual a ipseidade acaba por se confundir, na identidade.
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A degringolação do si próprio no “Se” é o coletivo dos eus, possuindo uma forma substantiva e arrassador.
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É a comunidade ontologicamente impensada onde cada eu obedece a uma forma pré-estabelecida de personalidade, sem alcançar a autenticidade do isolamento ontológico.
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Consequências da Determinação do Si como Temporalidade Originária
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O si como temporalidade originária é agora apreendido em seu ser-aberto transcendental, cuja forma se expressa precisamente na temporalidade.
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A ipseidade não é mais o círculo reflexivo onde um sujeito se atinge em sua evidência, mas se desvela como abertura para algo que a sobrepuja.
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O ser do si lhe é dado, recebido, sofrido. O si é, para si mesmo, um fenômeno.
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Mesmo a liberdade é recebida pelo si, que nasce nela e só nela é. Não há escolha para ser liberdade.
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O si perde toda autossuficiência: inteiramente remetido ao seu próprio, está inteiramente aberto ao que o apropria.
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A Abertura Resoluta (Entschlossenheit) e sua Relação com a Kehre
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Na Entschlossenheit, gesto fundamental de uma ativa desapropriação, a abertura se abre a si mesma como sendo possibilitada por aquilo a que se abre.
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A Entschlossenheit não é voluntarismo heroico, mas a abertura resoluta ao ser-aberto do Da, que é a abertura onde o ser vem fazer aparecer e dar à claridade seu abismo.
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O essencial da Entschlossenheit reside no estabelecimento fundamental do en-quanto do Dasein, na abertura sem precedentes para a verdade do ser como tal.
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A abertura resoluta própria ao Dasein que assume sua índole de ser-aberto conduz por si mesma ao Tournant.
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O pensamento heideggeriano pode ser visto como uma vasta Entschlossenheit que amplia o campo de sua escuta ao longo de um mesmo Tournant que é esse próprio pensamento.
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A Irredutibilidade do Si à Subjetividade e a Co-originariedade com o Ser
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No si, nada é fechado, tudo é eclosão, razão pela qual é irredutível à forma da subjetividade.
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O si está ligado à noção de temporalidade como surgimento de uma coisa no Aberto, não como linearidade de um continuum.
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Determinado o si em sua temporalidade, e sendo a temporalidade co-originária com a abertura ao ser, é necessário pensar essa abertura como o que nos é dado.
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Não somos abertos por nós mesmos, mas por aquilo a que somos abertos, pelo ser mesmo, cuja verdade deve ser escrutinada.
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Esse movimento é o Ur-sprung, o salto na origem, possível porque o si como temporalidade traz em si a marca daquilo que o ultrapassa.
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O Círculo Hermenêutico entre o Si e o Ser
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Tudo o que foi dito sobre o si deve ser restituído à sua possibilidade, encontrando a fonte dessa possibilidade no ser mesmo.
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Estamos no círculo hermenêutico: ser e ipseidade se co-pertencem.
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Focar a meditação em um leva ao encontro do outro, numa oscilação perpétua onde cada um ilumina o outro.
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O método consiste primeiro em esclarecer o si em sua estrutura fundamental (pré-compreensão ontológica), sem mencionar o ser em sua verdade, mas como mistério.
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Em seguida, é preciso abrir-se resolutamente àquilo a que o si se abre, ao que possibilita a abertura, para permanecer aberto.
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Pensar o Dasein como existência é pensá-lo como pré-compreensão do ser, e depois retornar ao ser deixado na sombra para perguntar como ele se desdobra de modo a deixar ser um si.
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A Necessidade de Pensar o Ser após a Explicitação do Si
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Busca-se no si aquilo que no si é mais que o si e o torna possível em sua ipseidade.
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Uma vez evidenciada a prepotência do ser no comportamento existencial do si, a pesquisa deve necessariamente deixar o si como solo da investigação e voltar-se para o ser.
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O si, em sua liberdade mais intensa, paradoxalmente perde toda soberania sobre seu ser.
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O si é o lugar de manifestação da diferença ontológica, onde o ser se manifesta como tal, em sua diferença com todo ente.
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Para continuar a pensar o si, é preciso pensar o ser. O si é a fissura da diferença ontológica, e a segunda seção deve levá-la à aceitação de si.
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A Ausência de Pressuposição e o Caráter Possibilitador do Ser
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Não há círculo vicioso, pois o ser é utilizado na analítica existencial de modo totalmente indeterminado.
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Nada é pressuposto sobre o ser quanto ao modo como se doa, sendo considerado apenas em sua facticidade, como dando lugar a uma compreensão de ser.
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O comportamento do si pressupõe a cada instante o ser, mas isso não é pressupor algo, pois a presença do ser está visceralmente inscrita no homem.
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O ser permanece impensado, e esse impensado permite uma pré-compreensão do ser, conferindo-lhe um estatuto transcendental.
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A força da démarche heideggeriana está em que o ser é justamente aquilo de que nada se pode pressupor, e essa ausência de pressuposição lhe confere seu caráter possibilitador.
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A abertura só é possível como tal se permanecer na sombra aquilo em direção ao qual ela está aberta.
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A Kehre como Necessidade Interna da Investigação e Não como Reversão
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A necessidade de determinar o sentido do ser aparece apenas depois que a indeterminação desse sentido permitiu à ipseidade aparecer na verdade de sua abertura.
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O salto no ser se torna necessário. O si é deixado de lado para que o ser possa se desdobrar sem tutela conceitual.
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Heidegger esclarece que não há círculo demonstrativo na problemática do sentido do ser, pois trata-se de uma iluminação libertadora de um fundo, não de uma fundação dedutiva.
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A Kehre não é um retorno completo ou correção de rumo do pensamento.
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Heidegger sabia desde Ser e Tempo o que precisava fazer, mesmo desconhecendo as modalidades.
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A não publicação da seção “Tempo e Ser” deveu-se à sua elaboração ainda pobre, não a um erro de percurso.
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A Kehre como Permanência na Questão e Experiência da Verdade do Ser
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Era necessário fazer a experiência da verdade do ser antes de concluir da temporalidade para o ser-temporal.
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Um séjour no ser e na questão do ser era necessário, correspondendo ao ponto de vista da seção não publicada.
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Heidegger afirma que o pensamento do Tournant provém de ter permanecido fiel à questão de Ser e Tempo.
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É um infletir da própria pensamento ao contato com aquilo que visa, uma radicalidade de abandono exigida pela Coisa mesma.
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Sendo o ser prepotente e sendo o si designado como seu próprio fundo, é preciso se deixar fazer pelo ser, saltar no ser para experimentar sua verdade.
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A Kehre como Desvio Essencial pelo Ser e Recentração
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A Kehre não é propriamente uma reviravolta, mas um desvio ou des-viramento essencial pelo ser.
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É o des-viramento de si mesmo do si para centrar-se no ser, uma conversão à necessidade da Coisa.
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Nomeia o fim da analítica existencial e a recentração no ser.
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O desvio não é uma escapada inessencial, mas visa e resulta numa instalação no ser, para que a verdade do ser se manifeste por um salto do pensamento no essencial.
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Após determinar a dimensão êxtase-horizontal da ipseidade, o pensamento deve se portar para o que ela designa estruturalmente e aí permanecer.
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A Horizontalidade Temporal e o Espaço do Ser
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A horizontalidade, o ser-horizonte próprio à temporalidade extática, condiciona a estrutura do si.
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O horizontal é a abertura da imensidão.
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O espaço em que o si desdobra sua existência tem primazia em originariedade, pois é ele que o si designa como seu fundo estrutural.
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A constatação dessa horizontalidade é o fundamento da continuação da Kehre.
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A espacialidade do si designa precisamente o espaço do ser onde a dinâmica projetiva da ex-sistência da ipseidade tem sua possibilidade.
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O si indica o ser porque o ser abre o si.
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A Kehre como Integração no Ereignis
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Pelo desvio que é permanência no retraimento do ser, o desvio torna-se instalação no coração desse ser que se revela como atour, aquilo cuja verdade consiste em se voltar para o si.
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A Kehre diz a virada do pensamento que se desvia de si, volta-se para o ser e o manifesta no fim como atour.
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Revela-se como consequência do chamado do ser, como uma modalidade do ser que pede ao pensamento para tomá-lo em guarda.
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No momento em que o ser se revela como Ereignis, a Kehre lhe é integrada como aquilo que volta o Dasein para o ser.
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A Kehre é, antes de tudo, um ato ontológico integrado ao desdobramento da verdade do ser.
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A Kehre como Parte da Própria Questão e sua Finalidade
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O Tournant não é primariamente uma peripécia do pensamento, mas pertence ao teor mesmo da questão “ser e tempo”/“tempo e ser”.
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Tem por finalidade fazer a experiência do ser como ser, para remeter-se ao que nossa estrutura indica ser prepotente e revelar o teor do fundo desse ser.
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Passar rapidamente do ser do si para o ser do ser seria minimizar a consistência do desdobramento do ser e arriscar apresentar a démarche como simplesmente preocupada em fundar o si.
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Sem o séjour na verdade do ser, o si apareceria como fim da pesquisa, que seria uma metafísica da subjetividade.
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Um ser-aberto não pode permanecer fiel a si se permanecer centrado em si mesmo, fazendo de si o fim de sua busca.
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A Kehre como Tarefa de Perseguir a Meditação
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A Kehre é, antes de tudo, uma tarefa: a de prosseguir a meditação, continuar a pensar, permanecer no ser para deixar destinar o teor de seu desdobramento e daí extrair o sentido da ipseidade.
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O objetivo permanece determinar a relação do si com o ser, mas sem perder a consistência desse ser.
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Trata-se de iniciativa ao ser para não contradizer a estrutura da ipseidade, cuja essência é designar antepredicativamente o prepotente.
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A estrutura do si não é o sujeito, mas o fato de desdobrar seu ser mostrando para o ser.
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A Necessidade do Salto e a Crítica ao Princípio Instrumental
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O si só advém a si voltando a si a partir de uma posição de desvio de si.
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Deve operar o salto na essência, pois a essência nos permanece fechada enquanto não nos tornamos essenciais em nossa essência.
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Não há princípio sem salto. A vontade comum deseja um princípio instrumental, manejável para uma subjetividade dominadora.
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Um princípio verdadeiramente primeiro é o sem-fundamento, o abismo do ser, que não pode ser reduzido a imagens tranquilizadoras.
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Afirmar “é isso, é aquilo” sobre um princípio é afastá-lo para desarmar a ameaça de sua dominação inquietante, fundando o fundo sobre o que ele funda.
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A Transformação (Wandlung) como Verdade da Kehre
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O salto do tournant dá lugar a uma mutação do ser-homem a partir de seu relação essencial com o ser.
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A Kehre é Wandlung: toda pensamento que se volta para o ser e gira no ser é movido e acede ao seu próprio.
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Conceber o ser é conceber o “fundo”, significa ser tomado junto no ser e pelo ser, o que sempre implica uma mutação do ser-homem.
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A Wandlung da pensamento é a verdade mesma da Kehre: a ação contínua de todo pensamento que pensa a partir do ser.
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A Kehre qualifica o conjunto do método heideggeriano, é a exigência fundamental que dá coesão a todo o Denkweg.
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A Unidade e Coerência do Caminho do Pensamento
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O percurso de Heidegger é de uma unidade notável: trata-se de dar sempre mais iniciativa ao ser.
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Parte-se de uma pensamento do sujeito como relação ao ser, aprofunda-se como pensamento do Dasein como diferença ontológica, depois como escuta da palavra do ser como diferença.
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Isto se estabelece por um abandono ativo e progressivo à estrutura fundamental.
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A busca da estrutura do si deve esperar ser dominada por ela, relacionando-se não dedutivamente, mas submetendo-se ao modo como ela se dispensa.
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A Kehre aprofunda-se na fenda que lhe é destinada.
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A Disparição Progressiva do Vocabulário do “Si” e sua Reabsorção
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Após 1930, a noção de “si” torna-se mais rara, assim como a de Dasein nas publicações oficiais.
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Isso não significa o abandono da preocupação, que permanece a principal: pensar a relação do ser com a essência do homem.
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O si desaparece lexicalmente porque, uma vez fundado ontologicamente, é superado em sua designação, aparecendo como modalidade de seu fundo ontológico.
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O si perde seu nome à medida que se adquire o pensamento de sua estrutura ontológica e a primazia volta ao mistério da doação.
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Em última instância, o si será adquirido em seu próprio, significando ser apropriado ao seu ser. O Selbst obtém-se como eigen, próprio, e é esse eigen que se reencontra no Ereignis.
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