estudos:caron:ipseidade-mesmidade
Da Selbstheit (Ipseidade) à Selbigkeit (Mesmidade): A Origem como Ereignis
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O pensamento, como evento do ser voltado para o ser, como resposta inscrita na necessidade mesma da Palavra, constitui a estrutura fundamental da ipseidade
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O si está inscrito na unidade do lógos e do noeîn, na unidade da Palavra que o desdobra como a resposta permanente e individual ao apelo silencioso que ressoa a partir do fundo-sem-fundo
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O si é esta brecha permanente depositária da diferença ontológica, ele é o aí do nadificar do ser em seu retraimento
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É precipício interno, proximidade à Palavra desmesurada do espaço puro
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Da proximidade à abertura nasce no homem o poder de falar
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Como recorda Hölderlin na elegia Brot und Wein: “Desde que sofreu, ele sabe exprimir seu pensamento mais caro, e as palavras, para dizê-lo, se desabrocham como flores”
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O si é o lugar de dilaceração onde o ser aparece em sua reserva
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É este entre-dois aberto, domínio de desclosão do ser como retraimento
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É esta intensa fratura interna contudo viável, pois no homem ela é
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O homem é lugar-tenente da essência do homem
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Esta abertura que o atravessa, a ipseidade ela mesma, provém de um movimento que habita o ser ele mesmo
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Está-se em um plano onde há principalmente o ser, como diz a Carta sobre o Humanismo
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O si ele mesmo é portanto retomado no movimento de doação do ser
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A brecha é assim levada a quebrar-se ela mesma sobre o ser em seu doar
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O si é retomado em um movimento de doação que o ultrapassa, o estrutura, e sua própria dilaceração é integrada a um desdobramento fundamental no seio do qual esta dilaceração é incorporada, a fim de que a diferença ontológica da qual o si porta a carga apareça como o resultado de uma Diferença própria ao desdobramento do ser mesmo
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Uma certa processualidade da doação deve manifestar a retomada da ipseidade no fluxo desdobrante de uma única Mesmidade
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“O Da-sein do homem historial, é: estar exposto sendo a brecha na qual a prepotência do ser irrompe aparecendo, a fim de que esta brecha se quebre sobre o ser”
A Retomada do Si pelo Ser
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O si ele mesmo, que mostra para o ser (e é nisso que consiste sua essência), deve ser retomado por aquilo de que reconhece a prepotência
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É uma consequência que aparece necessária a todo pensamento rigoroso ou que quer sê-lo
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Somos retomados por aquilo a que nos abrimos
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Designa-se o ser para afirmar sua predominância, e assim para cumprir este salto no movimento de doação que produz um si precisamente para se cumprir
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Se o si tem por ser mostrar para o que o ultrapassa, ele deve reconhecer que o que o ultrapassa deve efetivamente retomar, em um movimento do qual se trata de pensar então toda a teor, sua própria ipseidade
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É esta realidade da retomada do si em uma dinâmica de abismo que o ultrapassa e o acorda a si mesmo, que um Cioran pôde pressentir ao afirmar: “Não penso na morte, é ela que pensa em mim”
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O si é uma realidade relacional, uma pura abertura que prolonga e perfaz a abertura do ser
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Uma abertura que é o correlato da Palavra enquanto tal, que é portanto tomada no seio de uma Mesmidade lhe acordando desde sempre seu ser
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“É o ser ele mesmo que lança o homem sobre a via de um arrastamento que, forçando o homem a pôr-se em marcha para além de si mesmo, o liga ao ser para pôr este em obra, e por aí manter aberto o ente em totalidade”
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O si é requerido para a plena aparição de um mundo e, correlativamente e superlativamente, para a do ser em seu retraimento doador
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Ele é o Selbst, palavra que deve ser compreendida segundo sua estrutura gramatical, ou seja, como a menção superlativa (o que indica a desinência “-st”) de um Mesmo (Selbe), como o lugar onde a estrutura de um Mesmo elemento se faz por excelência aparecer
A Originariedade da Mesmidade
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Inferir a originariedade de uma Mesmidade é aquilo ao que conduz naturalmente a manifestação do ser como Palavra e, mais precisamente, como Ent-sprechung
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O si está ele mesmo integrado à Palavra que é o ser, ele se desdobra neste ser no seio do qual só pode manter-se um si porque o ser é em si mesmo Sage, Dita, por conseguinte simplicidade de um mesmo envio cuja riqueza multiforme, atestada pelo fervilhar do ente, deve ser tomada em guarda pelo pensamento
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O si pertence a um Mesmo; ele é tomado na estrutura da Palavra
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Esta Palavra dá sempre lugar em si mesma a seu respondente, ela se dirige a um quem
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O puro desdobramento que é o ser tem por verdade dirigir-se (a um si) e voltar-se (para um si)
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A essência do ser é desdobrar-se para com um si, estabelecer com ele um vínculo de endereço, ser Palavra
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A essência da Palavra é dizer ao si que há o mistério de um desdobramento primordial dobrado do mistério de que este desdobramento se dirige precisamente ao si
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Assim Heidegger pode considerar a essência-desdobrante do ser (Wesen des Seyns) associando a ipseidade, segundo este quiasma que diz a articulação de uma Mesmidade de endereço
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“Das Wesen der Sprache: Die Sprache des Wesens, A essência da Palavra, a palavra do desdobramento”
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Esta formulação diz o ser como endereço de seu mistério de desdobramento (e mais geralmente como transmissão de seu enigma)
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Mas ela diz igualmente a inscrição da estrutura do ato de palavra no coração da antecedente reação de um ato mais geral de desdobramento que é preciso aprender a considerar
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“A palavra do desdobramento [Die Sprache des Wesens] significa por conseguinte: a palavra está em seu lugar e pertence ao coração do desdobramento”
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O cumprimento do pensamento do ser em escuta da Palavra do ser faz aparecer a necessidade do desdobramento de um si como respondente da Palavra, ou como respondente de uma co-respondência ontológica originária apropriando reciprocamente o ser e o si no coração do mesmo elemento
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Originariamente, o si e o ser são desdobrados no Mesmo (Selbe), como afirmou Parmênides, na manhã do pensamento ocidental, mas no impensado próprio ao começo
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“O Mesmo se desdobra como pensamento e como ser, tò gàr autò noeîn estín te kaì eînai”
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Doravante, “a palavra-enigma tò autò, o mesmo, pela qual começa a frase, não é mais o predicado posto em cabeça, mas sim o ator ou o sujeito gramatical”
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O Mesmo é um desdobramento inicial no qual o si se mantém e possui seu lugar
A Necessidade do Termo Ereignis
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Ao pensar a Palavra, é impossível não pensar o respondente que lhe é inerente; mas a palavra mesma de Palavra não diz explicitamente esta co-pertença
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É por isso que é preciso tentar pensar em uma só palavra, que resumiria a riqueza do desdobrar da Mesmidade, esta verdade do ser que se acorda a si mesma um si
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Este termo fundamental deve exprimir a Mesmidade e inscrever em si o fundamento do que a faz pro-duzir uma ipseidade e da necessidade do respondente
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A palavra Selbigkeit não basta para exprimir a riqueza de tal desdobramento
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A Selbigkeit, se sublinha bem a unidade de um mesmo elemento de doação, possui um caráter englobante que aspira nele o si mais do que o ex-prime e o deixa se desdobrar em sua singularidade
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A Selbigkeit, como diz seu sufixo, faz entender a essência desdobrante originária do si, mas não contém em si mesma de que fazer pensar a co-pertença do si e do ser no seio de um movimento onde o si é certamente englobado pela verdade que o envolve e o retoma, mas possui igualmente pela liberdade que lhe confere a essência mesma da verdade, uma plena singularidade
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O si deve ser retomado no desdobramento da doação originária, mas deve ser igualmente posto nesta independência que lhe confere o Seinlassen e que não é por isso menos efetiva
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Há entre o si e o ser um endereço recíproco no coração de uma mesma Ent-sprechung
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A Selbigkeit retoma o si em um fundamental elemento de Mesmidade, mas não deixa entender sua posição como si
O Ereignis como Último Nome do Ser
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O ato único no qual ser e si se entre-pertencem enquanto se voltam um para o outro, este ato que dá toda a teor de reciprocidade inerente à doação do Simples, é isso que Heidegger nomeia Ereignis
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O Ereignis constitui o último termo da progressão em direção à origem ao mesmo tempo que o último nome do ser, pois o mais originário
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O Ereignis não é “mais profundo” do que o ser, mas é o resultado da Viragem, o resultado do aprofundamento de um pensamento que, em contato com o ser no qual se imergiu, sabe doravante considerar nele a verdade do ser
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“Ereignis” designa a maneira como o ser desdobra (das Seyn west)
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O Ereignis não substitui o ser, mas diz o ser em sua verdade
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Ele “é a nominação pensante do ser”
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Este conceito essencial do pensamento heideggeriano, no qual este encontra seu acabamento, permanece a maior parte do tempo mal compreendido ou ao contrário tomado contraditoriamente como se se tratasse de uma “evidência de mistério” que, por natureza, não se prestaria à explicação
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O Ereignis é o liame misterioso mas de modo algum impensável — senão não viria ao pensamento — que permite a apropriação mútua da ipseidade e do ser
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Ele é a verdade do ser que permite a possibilidade do surgimento da pessoa em sua complexidade estrutural, a possibilidade da emergência do ipse
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Ou seja, o Ereignis é o ser mesmo que mantém em si a possibilidade de abertura à sua própria abertura e que pro-fere em si seu próprio eco, o si
O Ereignis como Ser Relacional
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O Ereignis diz o ser no qual se desdobra uma morada para o ser, um lugar onde o ser pode se manifestar enquanto tal ou vir habitar
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Habitar (bauen), isto é, como ensina Heidegger sublinhando a origem etimológica desta palavra (buan, que deu bin), ser
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No ser mesmo, há um “lugar” para que o ser como tal se manifeste em sua verdade
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O Ereignis nomeia o ser enquanto ele é o ser que se dá um Da no qual ele pode ser como ser e abrir progressivamente ao pensamento o que ele é
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A fim de fazer chegar este pensamento ao pensamento do ser como aquele que precisamente requer um si para se manifestar, deixa ver o favor de seu retraimento e quer ser pensado como generosidade da Palavra, como Ereignis
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O Ereignis, é o ser como relação a si em si através de um si destinado a acolher o mistério desta doação assim como o mistério de que haja um si
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Como Ereignis, o ser é ser-relacional, ele desdobra duas regiões de si mesmo no seio de uma Mesmidade: o ser e o si
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A estrutura do ser, como Palavra e portanto Ent-sprechung, implica em último lugar a revelação de sua mais originária verdade como propriação (Eignen) do si em seu próprio (Eigen) e do ser ele mesmo
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A fonte da Palavra que é o ser é o Eignen
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“O próximo desconhecido que motiliza o mostrar da Sage em sua motilização é, para toda vinda em presença e toda saída fora da presença, a instância mais matinal […] só podemos nomeá-lo, pois ele não sofre nenhuma disposição, sendo a disposição mesma de todos os dispositivos e de todos os espaços de jogo do tempo”
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“Nós o nomeamos […] dizendo: o que acorda fonte, no mostrar da Sage, é o ato de propriar [Das Regende im Zeigen der Sage ist das Eignen]”
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É porque a Sage, a Palavra do ser, como co-respondência interna, é ela mesma audível, que é preciso buscar sua origem em uma apropriação fundamental de sua estrutura com o pensamento que o si pode tomar dela
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Esta apropriação fundamental atravessa a estrutura mesma da Sage e dá a teor da vida essencial que atravessa sua guisa de Ent-sprechung: “o coração do mostrar, na Sage, é o Eignen, poder escutar a Sage, pertencer-lhe, repousa no Ereignis”
Questões sobre a Mesmidade e o Eignung
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Mas como o ser pode ser ao mesmo tempo a fonte e um dos membros da relação?
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Como se pode neste contexto pensar sua Mesmidade, e como pensar este ato de eignen?
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Este ato é a obra de um sujeito? Não, certamente, toda noção de subjecti(vi)dade estando ultrapassada desde muito tempo pela colocação em luz da motilidade da ipseidade e da do desdobramento ontológico que é sua fonte
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Mas então, o que representa este ato de Eignung? Basta para explicar a doação e a aparição do si?
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Constata-se a necessidade de pensar a teor desta Selbigkeit na qual o Selbst é retomado como em sua verdade
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Como pensar a Selbigkeit, a Mesmidade, para que ela possa, sem ser em si mesma um ipse, sem ser evidentemente um idem, isto é, sem ser nem ipseidade nem identidade, produzir um si em seu seio?
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Em que o Ereignis e seu Eignung fundam o si?
Etapas da Análise
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Para responder a estas questões, é preciso franquear várias etapas
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Primeiramente, analisar a maneira como a Mesmidade retoma nela o que se revelara como a diferença ontológica do ser e do ente, a fim de fazer dele o desdobramento de uma mesma Duplicidade do Simples ou de uma mesma Dobra (Zwiefalt)
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Compreender-se-á assim que a diferença ontológica, fundamento da equivocidade do ser, é ela mesma fundada sobre esta Dobra pela qual o ser se diferencia de si mesmo permanecendo o Mesmo
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Pela Dobra, o ser se desvincula do ente introduzindo no ente este desvincular ele mesmo
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O que dá ao ente o espaço para suas manifestações múltiplas e seus diferentes teores de sentido
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Assim, a multiplicidade dos sentidos do ente, o fato de que “o ser é o que há de mais espalhado sendo ao mesmo tempo a unicidade”, a polissemia do ser, problema fundamental que assombrava o jovem Heidegger leitor de Aristóteles, encontra na pensada da multi-pli-cidade própria à Dobra do ser a possibilidade de seu desdobramento
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Esta intuição fundamental está já presente em 1922, onde Heidegger, jogando sobre a palavra “fältig”, escreve: “Der Sinn des Seins ist prinzipiell mannigfaltig (mehrfältig); o sentido do ser é principialmente múltiplo (a várias dobras)”
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É pelo espaço de desdobramento que o ser acorda dando seu retraimento no coração mesmo do ente, é por esta margem de vazio que é o ato de uma mesma Zwiefalt, de uma mesma Dobra, que os múltiplos sentidos ou dobras do ente podem surgir
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Esta intuição fundamental que percorre o conjunto da obra heideggeriana está igualmente presente no curso sobre o Sofista, que sublinha que “a 'dobradura' é o modo de conexão do múltiplo”
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Uma vez estabelecida a dobra da Mesmidade, será em seguida possível pensar, no seio desta mesma Dobra, a necessidade do si em seu isolamento e desvincar a significação ontológica deste isolamento
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O que permitirá enfim pensar o si como o mortal no que Heidegger chama o Quadripartido (Geviert) — isto é, o Quadro no seio do qual todas as realidades ontológicas se respondem — e de desdobrar este si apenas no seio de seu originário desdobramento: o Ereignis
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O si permanece uma realidade noturna porque se mantém originariamente no seio do esplendor de uma doação reservada
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Mas esta obscuridade conatural permanece ela mesma obscura em sua significação apenas enquanto o si não é reconduzido à fonte que o dá, isto é, a este esplendor originário, e obscuro porque protetor, no qual ele habita
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A habitação na Mesmidade noturna desvela que esta Mesmidade não trabalha para nada mais do que para nos pro-ferir
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O si se mantém no esplendor velado do abismo; e estas Instâncias da noite — noite que é “carga para além de todo sentido” [sinnjenseitiges Fracht] e na qual “como uma palavra de amor contida” se aloja a luz —, “Aquelas que banham na noite, na ponta das ilhas com rotundas, suas grandes urnas cingidas de um braço nu, que fazem elas de outro, ó piedosas, senão nós mesmos?…”
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Ao entrar no pensamento da Mesmidade que o porta, o si aprofunda assim o estatuto de seu próprio mistério ou o de sua habitação no esplendor da reserva do ser, e pode pronunciar: “Chamavam-me o Obscuro e eu habitava o esplendor”
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estudos/caron/ipseidade-mesmidade.txt · Last modified: by mccastro
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