estudos:caron:estrutura-si-ser-peos-1307
estrutura do si na "textura" própria do ser (2005:1307)
PEOS
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A participação qualitativa do si-mesmo na textura do ser revela a unidade entre pensamento e ser.
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O ser requer, em sua própria estrutura, uma escuta de si mesmo.
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A verdade do ser é desdobramento, e a essência (Wesen) é o desdobrar-se contínuo.
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Esse desdobramento só se realiza se algo se desdobra, exigindo um ente que compreenda o ser.
A essência do homem é fundamentada como o lugar (o Aí) que o ser exige para sua efetivação.-
O homem é o Dasein, o ser-o-Aí, no qual e para o qual o ser se põe em obra.
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A ipseidade, como logos, mantém uma ligação permanente com a physis.
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O logos é uma modalidade da physis que se prolonga em um si-mesmo desvelador.
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A physis necessita do si-mesmo para se expressar plenamente e realizar a entrada em presença.
A compreensão do ser é enviada ao si-mesmo pelo próprio ser.-
Isso permite que o ser venha ao aparecer e cumpra sua essência de fazer-se aparecer.
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O ser necessariamente se expõe em nossa compreensão.
O Dasein é o claro (Lichtung) no qual o ser se faz presente.-
O Da (Aí) possui também uma significação causal: é o lugar que acolhe e origina a presença do ser.
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A escuta (Hören) funda-se na pertença (Gehören) a um ser que se desvela.
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O Dasein é um ser de claro, transmitindo a luz atenuada da noite, que permite o aparecer dos entes.
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A noite não é escuridão, mas luz abrigada que doa claridade.
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A pensabilidade ubíqua e a espacialidade do pensamento definem a relação do si-mesmo com o ser.
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A pensamento é um evento do ser, sempre já situado nele.
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O ser antecipa e apreende o pensamento, que é o seu aparecer.
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O pensamento não é um reflexo do ser, mas é do ser, constituído por ele.
O ser, cuja essência é o aparecer, necessita de um ente no qual possa estar.-
Esse ente é o Dasein, com seu duplo privilégio ôntico-ontológico.
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Pensamento e ser são o Mesmo.
O pensamento é uma região de espacialidade infinita que o ser se dá.-
É um elemento ontológico, não um atributo antropológico ou uma ferramenta intelectual.
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O homem está lançado no pensamento, assim como está lançado no ser.
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O pensamento é tão “largo” quanto o ser, participando de sua imensidão espacial.
A ubiquidade do si-mesmo decorre de sua intimidade com a espacialidade do ser.-
O espírito, de estrutura fluida como o ser, adquire o poder de estar em toda parte.
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Esta ubiquidade não dispõe do mundo, mas pode deslocar-se para cada ente, escolher seu lugar de cuidado.
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O pensamento pode estar onde há ser, ou seja, em toda parte, transcendendo a ordem ôntica.
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A capacidade de Durchstehen (suportar/permanecer através) fundamenta o movimento do pensamento.
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O Durchstehen é a instantaneidade no Imenso que possibilita a transcendência espacial.
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Permite mover-se em espírito através e para além da totalidade dos entes.
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Os antigos intuíam esse elemento como o éter, meio de fluidez absoluta.
O Durchstehen é condição de possibilidade do Durchgehen (percorrer).-
Através da pertença à aquosidade fluida do espaço do ser, o si-mesmo é essa ubiquidade.
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O pensamento pode “engolir o mundo”, removendo-lhe sua significação ôntica.
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A relação entre Dasein e corpo/carne é reavaliada, superando a acusação de negligência em Heidegger.
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Sein und Zeit não tinha como tema central o problema do corpo ou da carne.
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Seu projeto era a analítica do Dasein como relação de proximidade com o ser.
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A questão homem como mistura de alma e corpo é um ponto de vista que Heidegger pretende superar.
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O Dasein é a relação ao ser que possibilita ver tanto a alma quanto o corpo.
Heidegger não nega o problema, mas indica que Sein und Zeit contém as bases para seu tratamento.-
A obra posterior, incluindo os Seminários de Zollikon [GA89], desenvolve precisões a partir desse núcleo.
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A aparente confissão de limitação é, na verdade, uma resposta polida que problematiza a objeção.
O fracasso de Sein und Zeit na questão da carne é uma conclusão radical que parte de um pressuposto equivocado.-
Pressupor o fracasso é recolocar o homem na perspectiva alma/corpo, que Heidegger rejeita.
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O sentimento de proximidade ao corpo ou à consciência não serve de medida para a analítica existencial.
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Heidegger observa as manifestações concretas de um ser cujo ser é a relação com o ser.
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A concepção heideggeriana da carne (Leib) a define como correlato espacial ek-stático do Dasein.
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A relação imediata com o próprio corpo é mediada pela compreensão do ser (Seinsverständnis).
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Não há percepção direta da carne sem a abertura prévia do Dasein.
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Sentir-se constitui a maneira como somos corpóreos.
A carne possui uma essência ek-stática, participando da espacialização do Dasein.-
Ela está já fora, em contato com a coisa, permitindo perceber qualidades dos entes.
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Exemplo: visar uma estação distante é estar ali carnalmente (leibhaft), mesmo não estando corporalmente (körperhaft).
O “corpo do homem” tem dupla significação: ôntica (Körper) e ek-stática (Leib).-
Pode estar aqui (onticamente) e também lá (ek-staticamente), em estado de apreensão.
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O sonho é um caso limite dessa capacidade.
A carne é irredutível ao corpo inerte e presente-à-mão (Körper) da anatomia.-
É o corpo vivo que se põe junto ao ente para efetivar sua abertura na sensação.
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O Dasein vai ao encontro do objeto de seu cuidado com sua carne viva, não apenas com seu corpo localizado.
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A carne é o que há de mais próximo e, simultaneamente, de mais distante.
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Considerá-la apenas como o mais próximo obscurece a espacialidade que a infunde.
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Como correlato do cuidado pelo distante, a carne participa do ser-do-distante do Dasein.
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A possibilidade de estar-aí é essencial para o corpo próprio do homem.
A ek-staticidade da carne é que dá o corpo como próprio.-
Abre o futuro através do qual é possível cuidar da situação e dos movimentos do corpo.
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Sem a relação com a abertura do futuro, não haveria sentido ou aparecer para os estados do corpo.
Sentir o corpo como próprio requer que ele apareça em sua dimensão, o que só ocorre pelo cuidado.-
A encarnação é uma dimensão constitutiva do ser-no-mundo.
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O Dasein não é um espírito desencarnado, mas sempre desdobramento de uma dimensão carnal.
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Não “temos” um corpo, “somos” corpóreos.
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A carne permite perceber o distante como se estivesse aqui e estabelecer contato com possibilidades relacionais.
O ser-no-mundo é, a cada vez, carnal, sendo a plenitude do relacional.-
A encarnação determina todo ser-no-mundo do homem.
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Não há afecção sensível à qual se acrescente o entendimento; a relação é imediatamente carnal.
A dinâmica ek-stática da carne conduz ao próprio horizonte ek-stático.-
Através dela, o Dasein aparece como origem do movimento pelo qual a carne pode ser cuidado de si.
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A carne alcança sua fonte, que é o Dasein, e seu limite, que é a abertura da relação ao ser.
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A espacialidade do Dasein precede e possibilita a encarnação.
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O Dasein não é espacial porque é carnal; sua encarnação é possível porque ele é espacial.
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O Dasein desdobra sua espacialidade na carne.
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O espacializar decide do acondicionamento fisiológico da carne (ex.: temos olhos porque somos videntes).
A compreensão do ser, horizonte do Dasein, não é ela mesma uma encarnação.-
A encarnação é auxiliar do Dasein, que, abrindo-se ao mundo, remete, em última instância, ao ser.
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No limite da encarnação, é o ser que se mostra.
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O viver humano é um “corporar” (leiben), um fazer-corpo mediado pela compreensão de ser.
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Não somos primeiro vivos e depois temos um corpo; vivemos porque “corporamos”.
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Este “corporar” é essencialmente diferente de ser dotado de um organismo.
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Através da compreensão do ser, acessamos nosso corpo de modo intenso e único.
O sentir está sempre impregnado de tonalidade afetiva (Stimmung).-
Não há sensação pura; toda sensação é já interpretada, colorida por um sentido.
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Somos lançados em “tons”, não em pulsões brutas.
A natureza só reina onde o ser é compreendido.-
A natureza “dá o tom” ao homem, mas ao fazê-lo, revela a capacidade hermenêutica do Dasein.
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Atesta, assim, a pertença do homem a uma ordem diferente da ordem meramente natural.
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O pensamento heideggeriano da carne situa-se à igual distância do materialismo e do espiritualismo.
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Não há materialismo, pois a capacidade de audição, por exemplo, não está no órgão (ouvido).
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Não há espiritualismo, pois essa capacidade pertence à dimensão ek-stática de um Dasein que transporta sua carne.
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A insatisfação com explicações puramente fisiológicas leva a buscar, de modo polêmico, um refúgio espiritual abstrato.
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A espacialidade do pensamento e sua abertura para a Palavra constituem o horizonte final da investigação.
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No coração do ente há um elemento não-ente que lhe dá ser.
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É o vazio infinito que penetra e circunda cada ente, abrindo-o ao espaço.
O fundo de nosso pensamento é esse mesmo elemento espacializante.-
Permite que nos relacionemos com o ente porque já estamos, de certo modo, junto a ele.
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O pensamento não é uma matéria que recebe impressões, mas um espaço de acolhimento, um vazio deixado aberto.
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É composto do mesmo vazio espacializante, do mesmo não-ser (Nichtung), que todo ente.
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