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estudos:caron:estrutura-si-mesmo-peos-1495

Isolamento ontológico e relação do ser-homem ao sagrado (2005:1495-1559)

PEOS

1. Estrutura ontológica do si-mesmo e do ser: o Pli, a Diferença e a Mesmidade

  • O si-mesmo (soi) é um prolongamento da estrutura ontológica do ser, especificamente do Pli (pli) que articula ser e ente.
    • O si-mesmo é “lançado” no ser; ele não escolheu sua estrutura ou existência, sofrendo assim uma finitude radical.
    • Embora possua a mesma estrutura que o ser (a Diferença ontológica), há uma evidente “desproporção” entre eles, pois o si-mesmo é produzido pelo ser e submetido a ele.
  • A relação entre ser e si-mesmo não é de identidade (A = A), mas de Mesmidade (même-té), uma unidade complexa sob o expoente de um único elemento.
    • A Mesmidade qualifica uma relação inédita: um “Mesmo” que se diferencia em si mesmo sem sair de si.
    • Ela é a maneira autêntica de pensar a pulsação permanente da doação (donation) do ser.
  • O Pli é a essência do ser que se diferencia, posicionando um ente e manifestando-se através do afastamento (écart) em relação a esse ente.
    • Em todo ente, o Pli se finitiza, revelando o vazio (vide) que o cerca e o penetra.
    • No homem (Dasein), porém, é o próprio Pli do ser e do estado (état) que vem à manifestação.
  • O si-mesmo é o ente ambíguo que, permanecendo um ente, compreende o ser.
    • Ele não apenas está na diferença ontológica, mas também pode se relacionar com ela.
    • Nele, a diferença ontológica está presente como tal, no coração de um ente que a recolhe em sua consistência própria.
  • O si-mesmo é aberto, acolhedor, e tem a vocação de padecer (pâtir). A alma (âme) é o espaço deixado vazio para uma aparição do ente como tal.

2. O si-mesmo como espelho e eco do ser: processo de auto-aparição

  • O ser e o ente pertencem ao Mesmo (Même), à Mesmidade entendida como Austrag (disponibilidade que leva à frente).
  • Para pensar o ser e o si-mesmo dentro de um Mesmo, deve-se pensar a unidade do processo pelo qual o ser é impulsionado a produzir um eco ou espelho de si mesmo.
    • Este espelho não é a relação especular do Sujeito absoluto hegeliano, pois não há choque entre o ser e um outro.
    • O ser não encontra um outro; não há nada fora dele. O espelho se mantém no interior do ser.
  • O ser é ele mesmo o processo de produção desse espelho/eco que é o si-mesmo. O ser é o processo de sua própria aparição.
  • O ser como Austrag ou Mesmidade exteriorizante revela, ao prolongar-se em um si-mesmo, que ele é ele mesmo este prolongamento de si em si mesmo.
    • Este aparecer quer fazer aparecer, através de um pensamento, a totalidade do processo de seu aparecer.
  • O ser quer fazer aparecer sua verdade, e quer se fazer aparecer como querendo fazer aparecer sua verdade. Em suma, ele quer ser pensado até o fim.
    • Ele deseja que a palavra humana atinja a nomeação do que ele é em propriedade, para que a doação e seu desejo inerente de partilha sejam manifestados.
    • Isto só pode ocorrer na palavra (parole), que é o sítio do aparecer e, portanto, do aparecer do aparecer e de seu sentido apropriador.

3. A diferença ontológica prolongada no si-mesmo e a experiência da angústia

  • A diferença ontológica se prolonga em um si-mesmo e quer aparecer como tal. Isso explica, em primeiro lugar, que um si-mesmo emerja.
    • Um si-mesmo surge no seio do ser para que a diferença ontológica apareça ela mesma e, pensada em sua verdade, apareça na verdade de seu Pli.
  • O si-mesmo sofre esta relação, padece do ser mesmo. O ser se faz aparecer produzindo um si-mesmo que experimenta seu retiro (retrait) na angústia (angoisse).
    • A angústia é o correlato do retiro.
  • A angústia pode ser transfigurada pela habitação extática (ekstatique) nesta verdade não-ôntica.
    • Esta habitação permite ao si-mesmo retomar contato com seu solo natal e apreciar o retiro como contrapartida da bênção de uma bondade doadora.
  • A dispensa da diferença e sua manifestação à consciência ocorrem sob a forma de uma provação (épreuve).
    • O si-mesmo, como dignitário da doação, atingindo sua própria essência, sofre a prova do Imenso (Immense) e da solidão que é sua contrapartida.
  • Elevando-se ao ápice de sua estrutura, o si-mesmo encontra o Imenso e experimenta um isolamento ontológico radical.
    • O homem atinge a proximidade do ser na consciência e na prova de uma imensa desproporção, tão imensa quanto o Imenso ao qual ele se abre.

4. O isolamento ontológico como Grundstimmung e lugar da co-apropriação

  • O isolamento (isolement) é a Stimmung (disposição de ânimo) fundamental na qual se atingem, no seio do ser como Ereignis, o ser e o si-mesmo.
  • No isolamento, o si-mesmo experimenta seu próprio ser-lançado (être-jeté).
    • Lançado em seu ser, ele é lançado no ser em geral; não escolheu nem seu ser nem o fato de ser.
    • Ele padece da Imensidão que o engloba e que é, por si mesma, refratária a qualquer medida que se lhe queira atribuir.
  • No isolamento, o ser nasce para um olhar; o ser se manifesta a si mesmo em sua verdade, como aijbena ou surgimento vindo de lugar nenhum.
    • O si-mesmo atinge seu ser-próprio e sua própria singularidade: aberto ao ser, ele recai sobre sua própria facticidade.
  • O isolamento é o lugar da revelação da co-pertença (co-appartenance) do ser e do si-mesmo.
    • Nele, o ser irrompe em um ente e, ao mesmo tempo, envia esse ente a si mesmo, a seu ser-lançado, a sua dívida para com o ser que o porta e penetra.
  • O isolamento ontológico não depende do “tamanho” do ente em questão. Seu correlato imediato é a pré-compreensão ontológica.
    • Qualquer ente a quem a compreensão do ser fosse dada sentiria este isolamento ao se confrontar com aquilo a que não se pode dar medida.

5. O si-mesmo como manifestador (déltoique) e a estrutura da manifestação

  • O ser do si-mesmo é ser revelador, desvelador. O si-mesmo tem por ser fazer aparecer; ele é o logos apophantikos.
  • O si-mesmo é déltoique e porta, assim, em si mesmo a estrutura da manifestação.
    • Manifestar: é isso que o funda e, ao mesmo tempo, é isso que o manifesta a si mesmo.
  • O ser funda o si-mesmo e revela o si-mesmo a si mesmo.
  • Para ser, o ser precisa do ente; para ser em seu velamento, ele precisa de um ente em quem este velamento será e em quem o ser poderá aparecer como tal: o Dasein.
  • O ser, não podendo se mostrar como o que é (retiro/doação) a não ser afastando-se, cria o afastamento de si a si do si-mesmo.
    • O si-mesmo, que recai sobre si (esta recaída sendo o si-mesmo mesmo), sofre no isolamento ontológico de sua própria presença inexplicável no meio de presenças inexplicáveis.
  • O isolamento é o fenômeno pelo qual o ser penetra como tal no ente.
    • Nascendo como tal no coração do ente, ele aparece fazendo nascer um olhar, o de um pensamento, e manifesta o vazio de sua não-onticidade.

6. A pesanteur do vazio e a injunção do ser

  • O “é” que o ser dá ao ente confere a este ente seu peso de presença. O ser domina toda dispensação de ente.
  • No entanto, não “sentimos” a força constringente do ser, mas no máximo choques e pressões provenientes do ente.
    • O ser parece antes “não estar” “lá”, parecendo antes ser como o nada.
  • O si-mesmo, confrontado com o vazio daquilo que não é nada de ente, não se apreende apenas como parte individual distinta de outras partes do ente.
    • Ele sente o isolamento face ao Único Essencial (Seul Essentiel), sem sentir proximidade alguma em relação às coisas.
  • Esta pesanteur não é a sua, mas a do vazio mesmo. Quando o si-mesmo se sente pesado, ele afirma de maneira impensada a presença do peso de pura presença a que está confrontado e do qual é tecido.
  • A injunção do ser que se dirige ao si-mesmo dirige-se a ele a partir do ente mesmo.
    • É a importuna pesanteur que faz ressaltar o todo-junto (tout-ensemble) do ente, fazendo aparecer ao mesmo tempo sua precariedade e seu peso.
    • Esta pesanteur é a do “vazio” próprio do não-ente, ensinando-nos que o vazio é consistente.

7. O si-mesmo como condição da manifestação do ser: a retenção fundamental

  • O ser só aparece se um ente tem relação com ele.
    • Toda manutenção de uma relação só é possível na retenção (retenue), na continência (contenance).
    • Só há manutenção (tenue) onde um ente tem o caráter de um “si”, o caráter de uma pessoa.
  • No si-mesmo e nesta retenção fundamental que constitui seu isolamento ontológico, o ser opera sua própria manifestação.
  • O isolamento é o fenômeno pelo qual a Mesmidade transporta e encaixa, mantendo-os afastados, o ser e o si-mesmo.
  • O si-mesmo ek-siste, ou, o que é o mesmo, in-siste na verdade extática, pois só é ser-a-(si) pelo ser.
    • O si-mesmo está fora de si; ele é si no ser, lá, e não aqui.
    • Como o ser é ele mesmo o transcendens em estado puro, tudo isso ocorre na Mesmidade do Simples (Simple).

8. Ilustração pictórica da estrutura do si-mesmo: Friedrich e o viajante

  • A obra “O Viajante sobre o Mar de Névoa”, de Caspar David Friedrich, ilustra com clareza a estrutura essencial do si-mesmo.
  • O homem é apresentado de costas, de frente para a imensidão cujo mistério é figurado pelas nuvens.
    • Nesta postura, ele se encontra englobado no Uno-todo (Un-tout).
  • A apresentação de costas confere uma portada universal à figura, suprimindo particularidades individuais (o rosto).
    • Isto estimula a identificação do espectador, que pode se reconhecer neste homem só diante do infinito.
  • A estrutura espacial do quadro revela a estrutura do si-mesmo:
    • O espectador está ao mesmo tempo no quadro, identificado ao homem de costas, e atrás dele, imerso no espaço paisagístico infinito.
    • O espectador é, portanto, tanto o homem voltado para o imenso quanto o espaço que permite estar atrás dele e se relacionar com ele.
  • Esta dupla posição do espectador manifesta a estrutura do si-mesmo:
    • O si-mesmo está em in-stância na espacialidade pura, situação que lhe dá poder fazer retorno sobre sua pontualidade ôntica (o homem representado).
    • Ele está voltado para o infinito, voltado para si, e, em última instância, voltado para si como estando ele mesmo voltado para o infinito e intimamente misturado ao impalpável.

9. O Ereignis como co-propriedade apropriadora e tradução por "Acordo"

  • O si-mesmo é retomado no desdobramento de uma verdade que o ultrapassa: ele é o correlato necessário do eignen do Ereignis.
  • A palavra Ereignis é de difícil tradução. Ela ratifica o fato de que o ser possui em si mesmo um movimento de apropriação (appropriation) do qual a emergência de um si-mesmo é consequência necessária.
  • Ereignis significa ao mesmo tempo o advento bruto e a entre-pertença (entre-appartenance) do ser e do si-mesmo.
    • Esta entre-pertença é o advento que o ser se dá e que, através do si-mesmo, se manifesta como tal.
  • No Ereignis há simultaneidade do advento que é o ser e do advento do advento como tal veiculado pela ipsiedade.
    • Há simultaneidade de uma verticalidade (impulso doador próprio do ser como eclosão) e de uma horizontalidade (o ser só advém como tal na brecha que opera no ente através de um si-mesmo).
  • A palavra francesa “Accord” pode traduzir esta dimensão complexa.
    • Um Acordo é a relação entre dois interlocutores, dizendo assim a co-propriedade.
    • É também o fato de acordar, sendo assim o impulso doador.
    • “Accord” evoca igualmente a abertura de um espaço de jogo (Spielraum), o que é propriamente o Ereignis no Quadriparti (Geviert).

10. O Quadriparti (Geviert) e a estrutura do mundo no Ereignis

  • No pensamento tardio de Heidegger, o si-mesmo é pensado como “mortal” (mortel), e o Ereignis desdobra-se no Quadriparti.
  • O Quadriparti é o Cadre (quadro) do mundo, composto pela reciprocidade de quatro domínios: a terra (terre), o céu (ciel), os divinos (divins) e os mortais (mortels).
  • Nenhum destes quatro existe isoladamente; cada um se refere e pertence aos outros no seio de sua co-pertença infinita.
    • O centro desta pertença infinita é a doação mesma que, como Ereignis, acorda um mundo ao mesmo tempo que acorda suas quatro localidades fundamentais.
  • O divino ocupa um lugar central no Quadriparti:
    • É uma das regiões, aquela em que se manifesta o mistério da luz contida.
    • É também o domínio que dispõe a totalidade dos lugares, segundo uma sabedoria preservadora, para manter a harmonia e a viabilidade do olhar da ipsiedade.
    • O divino é o “Meio” (Milieu) que reúne e destina os Quatro, o coração de seu ter-lugar.
  • O Ereignis é, portanto, o desdobramento não-substancial destas regiões, a adveniência do Quadro do mundo.

11. A especularidade do ser e o jogo de espelhos do mundo

  • O fundo da relação do si-mesmo e do ser é uma especularidade (spécularité), um jogo de espelho inerente à estrutura de todo aparecer.
    • O aparecer quer aparecer; possuir em si mesmo a estrutura de um jogo de espelhos, a estrutura da co-pertença.
  • Heidegger retoma a tematização heraclítica da criança (paidon) como símbolo do jogo (aion) que reina.
    • O ser é jogo especular no seio da Mesmidade.
  • Este jogo é imaginado como um imenso anel (anneau) cuja parede interior é um espelho de linha noturna.
    • Este anel é o Ring ou Gering, um Cerco que abre e dá espaço.
    • Seu contorno não é uma linha, mas o espaço mesmo; sua “casca” é de imensidão.
  • Neste círculo do Eignis, onde o si-mesmo e o ser se entretêm, a Palavra fala de abismo a abismo.
  • O Ereignis é uma apropriação universal do ser em si mesmo, fazendo ressoar em cada lugar sua palavra no meio do silêncio.

12. Ereignis como Augnis: o primado do olhar

  • A análise etimológica revela que er-eignen vem de er-dugen, que significava originalmente “apreender com o olhar”, “chamar a si com o olhar”, “apropriar”.
  • O Ereignis se mantém no er-dugen: é, em seu fundo, a apreensão de um olhar, o porte de um olhar.
    • Este olhar tem por depositário o si-mesmo; é por ele que o ser vem a aparecer no mistério de seu retiro.
  • O retiro mesmo torna possível a emergência de um olhar: pelo relatório ao vazio, espaço é liberado para uma manifestação.
  • O olhar é o que o Ereignis produz e realiza. Onde o si-mesmo pode olhar, lá também ele se mantém.
  • O eignen é, em seu fundo, dugen, lance de olhar que busca seu vis-à-vis.
    • Daí a necessidade de um si-mesmo cujo ser consiste precisamente em ser o aí (Da) deste olhar.
  • O ser é Palavra (Parole) e, de modo sinônimo, dugen, relação especular que é seu desejo de ser o que é: manifestação.
  • O Ereignis é assim também Augnis: a especularidade do ser requer que o olhar apareça, seja re-guardado, o que acontece graças ao si-mesmo.
  • O Augen (olhar) do ser funda a necessidade dos olhos mesmos; nosso olhar reflete seu abismo e estabelece seu ser-aí.

13. A Mesmidade como fundamento e a doação como renoncement

  • A Mesmidade não é uma ipsiedade, mas é fundamento de toda ipsiedade e de toda identidade.
    • A Mesmidade é o Simples mesmo, cuja verdade é doação.
  • A doação quer dar, mas quer igualmente se dar como doação. Ela o faz plenamente ao se retirar.
    • No retiro, ela não apenas dá, mas também se dá, renuncia a si, se abandona.
    • Ela se manifesta e renuncia a eclipsar com sua própria manifestação aquilo que dá.
  • O si-mesmo, ao se aproximar da teneur protetora do dom, não se choca com um núcleo de obscuridade, mas com a impenetrabilidade própria a uma doação que se renuncia para dar.
  • Este renoncement (renúncia) do ser a si mesmo é o “não” originário que pertence ao ser e ao Ereignis.
    • É fenomenalizante e torna possível a emergência de um olhar que reconhece o ser.
  • Tudo aparecer, todo desvelamento, só é possível com base em um velamento.
    • A aletheia só se realiza em correlação com um si-mesmo que ela produz em seu seio para se fazer aparecer em seu velamento.

14. Conclusão: a estrutura do si-mesmo como evento do ser

  • O si-mesmo é do ser, “um pouco de ser em estado puro”. Possui a mesma consistência que o ser e é modelado segundo sua estrutura.
  • Esta estrutura passa por trás dele, flui no fundo dele. Sendo ser-em-relação ou ser-em-projeto, ele projeta sua própria projeção diante de si.
  • O si-mesmo compreende então que sua estrutura provém de uma estrutura mais fundamental, de um elemento mais vasto: o Lance de olhar (Jet de regard) das coisas.
  • O elemento que funda o si-mesmo, o ser como Ereignis, precisamente porque funda, não é ele mesmo um solo (sol).
  • O jogo da Mesmidade como Ereignis, uma vez atingido stance em um ente, manifesta-se como este relatório ao espaço puro que recai sempre sobre si em um si-mesmo.
  • A interpretação heideggeriana do fragmento de Parmênides (to gar auto noein estin te kai einai) estabelece que o si-mesmo é retomado no ser, e não o ser no si-mesmo.
    • O pensamento (noein) pertence ao ser (einai), e não o inverso. A iniciativa vem sempre do ser.
  • É pelo Ereignis, que une o si-mesmo e o ser sob o expoente do ser, que o si-mesmo obtém seu comportamento essencial.
    • No seio do ser há um desejo de manifestação, e é por isso que o Ereignis apropria o ser e o si-mesmo.
  • O si-mesmo é o eco do ser; ele deixa ser o deixar-ser (Seinlassen) do ser.
  • A Selbstheit (si-mesmidade) encontra seu fundo na Selbstkeit (mesmidade). O jogo de espelhos que é o ser como Ereignis requer um si-mesmo como compreensão de ser.
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